O que é redação técnico-policial e por que ela importa
Redação técnico-policial é a escrita funcional usada para registrar, organizar e comunicar fatos e atos de investigação em documentos internos e peças informativas. Ela deve ser objetiva (sem excesso de adjetivos), impessoal (sem opiniões pessoais), precisa (com dados verificáveis) e rastreável (permitindo conferir fontes, horários, locais e responsáveis). O objetivo é permitir que qualquer leitor institucional compreenda o que ocorreu, o que foi feito, o que foi encontrado e o que ainda precisa ser feito, sem inferências indevidas.
Na prática, a qualidade do texto impacta: (a) a tomada de decisão por superiores e pela autoridade policial, (b) a continuidade do trabalho por outra equipe, (c) a consistência do encadeamento lógico dos fatos e (d) a credibilidade do registro.
Princípios de escrita: objetividade, impessoalidade e precisão
Objetividade (o que entra e o que fica de fora)
- Inclua: fatos observáveis, dados mensuráveis, horários, locais, identificações, resultados e providências.
- Evite: narrativas longas, justificativas emocionais, adjetivação (“suspeito perigoso”, “atitude estranha”), e conclusões não sustentadas.
- Preferência por frases curtas e ordem direta: sujeito + verbo + complemento.
Impessoalidade (tom institucional)
- Use 3ª pessoa e voz ativa quando possível: “A equipe realizou…”, “Foi verificado…”.
- Evite “eu”, “na minha opinião”, “acredito que”.
- Quando houver limitação: registre como fato: “Não foi possível realizar X em razão de Y (motivo objetivo)”.
Precisão (dados e termos)
- Especifique: data, hora, endereço completo, referência, placa, características, quantidades, distâncias aproximadas quando necessário.
- Identifique pessoas com qualificação disponível (nome, alcunha, filiação quando pertinente, documento se houver), sem extrapolar.
- Padronize termos: “diligência”, “levantamento”, “verificação”, “contato”, “consulta”, “deslocamento”, “apreensão”, “encaminhamento”, conforme a prática institucional.
Estrutura padrão recomendada (fato → diligências → resultados → próximos passos)
Uma estrutura consistente reduz ambiguidades e facilita leitura por camadas (chefia, autoridade policial, equipe). Adote blocos fixos e subtítulos recorrentes.
1) Identificação do documento
- Tipo: Relatório de diligência / Informação / Síntese / Comunicação interna.
- Referência: número do procedimento, demanda, ordem de serviço ou solicitação interna (quando houver).
- Equipe: nomes/funções (se o padrão interno exigir), viatura, unidade.
- Período: início e término da diligência (data e hora).
2) Fato/Contexto objetivo
- Descreva o que motivou a peça: “Em cumprimento à determinação…”, “Em razão de notícia recebida em…”, “Para verificação de…”.
- Delimite o escopo: o que estava sendo apurado e o recorte temporal/espacial.
3) Diligências realizadas (passo a passo)
- Liste em ordem cronológica, com horários quando relevante.
- Indique método: verificação in loco, contato com fonte, consulta a bases internas, checagem de endereço, etc.
- Registre limitações: ausência de morador, local fechado, informação não confirmada, indisponibilidade de acesso.
4) Resultados/Constatações
- Separe fato de interpretação: primeiro o que foi constatado, depois a inferência (se necessária) claramente marcada como hipótese.
- Quando houver divergência de versões, apresente como versões e indique o que foi possível confirmar.
- Inclua anexos/indicações: fotos, prints, documentos, mídias, se houver, com referência clara.
5) Próximos passos (encaminhamentos)
- Providências sugeridas com base no que foi apurado, sem “sentenciar” conclusões.
- Indique pendências: dados faltantes, necessidade de nova diligência, confirmação de informação, atualização cadastral.
Padrões de linguagem e coesão
Tempo verbal e consistência
- Use pretérito perfeito para atos concluídos: “realizou”, “verificou”, “constatou”.
- Use presente apenas para informações permanentes: “o endereço situa-se…”, “o local possui…”.
- Evite alternar tempos sem necessidade.
Conectores úteis (sem prolixidade)
- Sequência: “em seguida”, “na sequência”, “posteriormente”.
- Causa: “em razão de”, “tendo em vista”.
- Contraste: “contudo”, “não obstante”.
- Conclusão técnica (sem opinião): “diante do exposto”, “assim, registra-se”.
Vocabulário: precisão sem jargão excessivo
- Prefira termos claros: “foi localizado”, “foi identificado”, “não foi encontrado”.
- Evite gírias e expressões vagas: “elemento”, “cara”, “movimentação suspeita” (substitua por descrição observável).
- Quando usar siglas, escreva por extenso na primeira ocorrência (se o padrão interno exigir).
Erros comuns e como corrigir (com exemplos)
1) Ambiguidade
Problema: “O suspeito estava próximo do local e fugiu rapidamente.” (quem viu? qual local? qual direção?)
Melhor: “Às 15h20, na Rua X, nº Y, a equipe visualizou indivíduo do sexo masculino, trajando camiseta preta e bermuda jeans, a aproximadamente 30 metros do portão principal. Ao perceber a aproximação da viatura, deslocou-se em corrida pela Rua Z, sentido bairro W, não sendo localizado após varredura nas imediações.”
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2) Opinião travestida de fato
Problema: “A testemunha mentiu e tentou atrapalhar.”
Melhor: “A pessoa ouvida apresentou versão divergente da informação previamente registrada, afirmando X, enquanto a fonte anterior indicava Y. Não foi possível, no momento, confirmar qual versão corresponde aos fatos.”
3) Falta de rastreabilidade
Problema: “Foi feita consulta e nada constou.”
Melhor: “Foi realizada consulta em base interna (data/hora), pelo identificador disponível (nome completo e data de nascimento informados), não havendo retorno de registro relacionado ao parâmetro pesquisado.”
4) Excesso de narrativa
Problema: parágrafos longos com detalhes irrelevantes.
Melhor: dividir em itens cronológicos e registrar apenas o que impacta a compreensão do ato e do resultado.
Modelos editáveis (copiar e preencher)
Modelo 1: Relatório de diligência (estrutura completa)
RELATÓRIO DE DILIGÊNCIA (MODELO) Referência: [nº do procedimento / demanda interna] Unidade/Equipe: [unidade] – [equipe/viatura] Período: [dd/mm/aaaa, hh:mm] a [dd/mm/aaaa, hh:mm] 1. FATO/OBJETO Em cumprimento a [determinação/solicitação], a equipe realizou diligências com a finalidade de [objetivo específico], no endereço [endereço completo] e imediações, no período acima indicado. 2. DILIGÊNCIAS REALIZADAS 2.1. [dd/mm/aaaa, hh:mm] – Deslocamento até [local]. 2.2. [dd/mm/aaaa, hh:mm] – Verificação de [ponto/elemento], consistindo em [o que foi feito]. 2.3. [dd/mm/aaaa, hh:mm] – Contato com [pessoa/órgão], por [meio], para [finalidade]. 2.4. Limitações/ocorrências: [ex.: local fechado; ausência de morador; informação não confirmada]. 3. RESULTADOS/CONSTATAÇÕES 3.1. Foi constatado que [fato verificável]. 3.2. Foi obtida a informação de que [informação], a qual [foi/não foi] possível confirmar no momento por [motivo]. 3.3. Materiais/Registros: [anexos, fotos, documentos, mídias], conforme [referência]. 4. ENCAMINHAMENTOS/PRÓXIMOS PASSOS 4.1. Sugere-se [providência objetiva], para [finalidade]. 4.2. Pendências: [dados faltantes/necessidade de nova diligência]. [Local], [data]. [Assinatura/identificação conforme padrão interno]Modelo 2: Informação (peça curta e direta)
INFORMAÇÃO (MODELO) Referência: [nº do procedimento / demanda] Assunto: [tema em 1 linha] 1. Síntese do fato [Descrever em 3 a 6 linhas o que motivou a informação e o recorte do que será informado.] 2. Elementos apurados - [Item 1: dado objetivo + fonte/como foi obtido + data/hora se relevante] - [Item 2] - [Item 3] 3. Observações [Limitações, divergências, necessidade de confirmação, sem opinião.] [Local], [data].Modelo 3: Síntese para comunicação interna (briefing operacional)
SÍNTESE (COMUNICAÇÃO INTERNA) Tema: [alvo/local/evento] Objetivo: [o que a equipe precisa fazer] Pontos-chave (confirmados): - [ponto 1] - [ponto 2] Pontos a confirmar: - [ponto 1] Riscos/atenções (descritivo, sem adjetivação): - [ex.: presença de câmeras; controle de acesso; fluxo de pessoas em horários X] Próximas ações sugeridas: - [ação 1] - [ação 2]Checklist de qualidade antes de enviar
- O texto responde: o que aconteceu, o que foi feito, o que foi encontrado e o que falta?
- Há datas, horários e locais suficientes para reconstituir a linha do tempo?
- Fato e hipótese estão separados e identificados?
- Termos vagos foram substituídos por descrições observáveis?
- Há coerência interna (sem contradições) e ordem cronológica?
- Fontes e meios de obtenção estão indicados quando necessário?
- O documento pode ser entendido por quem não participou da diligência?
Exercícios de reescrita (eliminar ambiguidades)
Exercício 1: tornar verificável
Reescreva para incluir local, horário, ação e resultado.
Texto original: “Fomos ao endereço e ninguém sabia informar, então voltamos.” Reescreva: [inclua data/hora, endereço completo, quem foi contatado, o que foi perguntado e qual foi o resultado]Exercício 2: separar fato de inferência
Texto original: “O indivíduo estava nervoso e certamente escondia algo.” Reescreva em duas partes: (1) fatos observáveis; (2) hipótese, se necessária, marcada como hipótese.Exercício 3: reduzir prolixidade
Texto original: “A equipe, após longas conversas e várias tentativas, conseguiu finalmente obter uma informação muito importante que pode ajudar bastante.” Reescreva com no máximo 2 linhas, indicando qual informação foi obtida e como.Exercício 4: corrigir referência imprecisa
Texto original: “Foi consultado o sistema e apareceu um registro.” Reescreva indicando: qual sistema/base (se aplicável), qual parâmetro consultado, data/hora, e qual registro (tipo e referência).Prática de resposta discursiva (estilo concurso e avaliação interna)
Proposta 1: Relato técnico de diligência (10 a 15 linhas)
Enunciado: Redija um relato técnico-policial, impessoal e objetivo, sobre diligência realizada para verificar a procedência de informação de que determinado endereço estaria sendo utilizado para armazenar objetos de origem ilícita. Considere que a equipe foi ao local, realizou verificação externa, conversou com um morador vizinho, não teve acesso ao interior do imóvel e obteve um dado de placa de veículo associado ao endereço.
Requisitos mínimos: (a) delimitar objetivo, (b) descrever diligências em ordem, (c) registrar limitações, (d) apresentar resultado verificável, (e) indicar próximos passos.
Proposta 2: Informação objetiva (6 a 10 linhas)
Enunciado: Redija uma Informação para encaminhamento interno contendo: (a) síntese do fato, (b) dois elementos apurados, (c) uma pendência a confirmar, sem adjetivação e sem conclusões definitivas.
Critérios de correção (rubrica)
- Completude: contempla fato/objeto, diligências, resultados e encaminhamentos; não omite dados essenciais.
- Lógica e organização: ordem cronológica, parágrafos/itens bem segmentados, encadeamento claro.
- Fidelidade aos fatos: não cria informações; separa hipótese de constatação; registra limitações.
- Clareza e precisão: evita termos vagos; inclui datas/horas/locais; identifica pessoas/elementos com o que há disponível.
- Impessoalidade e linguagem técnica: tom institucional, sem opinião, sem adjetivação, sem gírias.
- Correção formal: ortografia, concordância, pontuação e padronização de termos.
Banco de frases úteis (para padronizar sem engessar)
- “Em cumprimento à solicitação de [setor/autoridade], a equipe realizou diligências visando [objetivo].”
- “No local, foi realizada verificação [externa/in loco], não sendo possível acesso ao interior por [motivo objetivo].”
- “Foi obtida a informação de que [conteúdo], a qual, até o momento, não foi possível confirmar por [motivo].”
- “Diante do apurado, sugere-se [providência], a fim de [finalidade].”
- “Registra-se, por oportuno, que [limitação/pendência], permanecendo a necessidade de [ação futura].”