O que é pré-escrita (e por que ela “cria” repertório dentro do próprio texto)
Pré-escrita é a etapa em que você produz matéria-prima para escrever: ideias, argumentos, exemplos e explicações antes de redigir os parágrafos finais. O objetivo aqui não é “escrever bonito”, e sim montar um conjunto de peças que depois serão encaixadas com clareza e lógica.
Quando falamos em repertório do próprio texto, estamos falando de elementos que tornam o texto autossuficiente: definições, exemplos plausíveis, casos ilustrativos, consequências lógicas e dados hipotéticos coerentes. Assim, mesmo sem citar fontes externas, você evita “achismos” porque explica por que algo é verdadeiro e como isso se manifesta na prática.
Passo a passo da pré-escrita eficiente
1) Brainstorming: gerar volume sem censura
Brainstorming é uma coleta rápida de ideias, sem filtrar. A regra é: primeiro quantidade, depois qualidade. Trabalhe com tempo curto (5 a 10 minutos) e registre tudo em tópicos.
Técnicas práticas (escolha 1 ou 2):
- Perguntas-guia: “O que causa isso?”, “Quem é afetado?”, “Quais consequências?”, “Que soluções existem?”, “Que objeções alguém faria?”
- Mapa de ideias: escreva o tema no centro e puxe ramificações (causas, efeitos, exemplos, contrapontos, soluções).
- Lista 3x3: escreva 3 causas, 3 consequências e 3 exemplos cotidianos relacionados ao tema.
Mini-exemplo (tema genérico: ‘uso excessivo de telas’)
- Ouça o áudio com a tela desligada
- Ganhe Certificado após a conclusão
- + de 5000 cursos para você explorar!
Baixar o aplicativo
- Causas: trabalho remoto, entretenimento infinito, notificações.
- Consequências: sono pior, atenção fragmentada, menos atividade física.
- Exemplos: checar celular ao acordar, maratonar vídeos, reuniões seguidas.
- Possíveis soluções: limites de horário, modo foco, pausas programadas.
- Objeções: “telas são necessárias”, “depende do uso”.
2) Seleção: transformar ideias em argumentos utilizáveis
Depois do brainstorming, selecione o que tem maior potencial para sustentar seu texto. Uma ideia vira argumento quando consegue responder a três perguntas:
- Relevância: isso ajuda a defender minha tese?
- Explicabilidade: consigo explicar o mecanismo (como/por que acontece) em 3 a 6 frases?
- Exemplificabilidade: consigo dar ao menos um exemplo concreto (realista) que ilustre?
Filtro rápido (marque com ✓ ou X)
| Ideia | Relevante? | Explicável? | Tem exemplo? | Fica? |
|---|---|---|---|---|
| Notificações quebram o foco | ✓ | ✓ | ✓ | ✓ |
| “Hoje em dia ninguém lê mais” | ? | X | X | X |
| Uso de tela antes de dormir afeta sono | ✓ | ✓ | ✓ | ✓ |
Note como “ninguém lê mais” tende a ser vago e difícil de sustentar sem generalização. Na pré-escrita, você já identifica e remove esse tipo de afirmação frágil.
3) Hierarquização: ordenar do mais forte ao mais fraco
Hierarquizar é decidir quais argumentos entram como pilares e quais entram como apoio. Um argumento é mais forte quando:
- tem cadeia causal clara (A leva a B, que leva a C);
- tem exemplo fácil de visualizar;
- resiste a objeções comuns;
- não depende de exageros (“sempre”, “nunca”, “todo mundo”).
Como fazer na prática: pegue seus 4 a 6 argumentos selecionados e atribua uma nota de 1 a 5 em dois critérios: (1) clareza do mecanismo e (2) força do exemplo. Some e ordene.
Argumento A: mecanismo 5 + exemplo 4 = 9 (muito forte)Argumento B: mecanismo 3 + exemplo 3 = 6 (médio)Argumento C: mecanismo 2 + exemplo 2 = 4 (fraco)Os mais fortes tendem a virar os parágrafos centrais. Os médios podem virar parágrafos de apoio, contrapontos ou detalhamentos. Os fracos devem ser reformulados ou descartados.
4) Construção de uma lista de exemplos (repertório interno)
Agora você cria um “banco de exemplos” para cada argumento. O objetivo é ter material para sustentar e esclarecer, evitando frases opinativas soltas.
Tipos de exemplo que funcionam bem sem depender de pesquisa:
- Exemplo cotidiano observável: situação comum, fácil de reconhecer.
- Caso ilustrativo: personagem hipotético (realista) em um cenário específico.
- Dado hipotético plausível: número aproximado e coerente, usado para tornar a ideia concreta (sem fingir que é estatística real).
- Consequência lógica: se X acontece, então Y tende a ocorrer; mostra encadeamento.
Modelo de banco de exemplos (preencha)
| Argumento | Exemplo cotidiano | Caso ilustrativo | Dado hipotético plausível | Consequência lógica |
|---|---|---|---|---|
| Notificações quebram o foco | Interromper uma tarefa para responder mensagens | Estudante que tenta ler e checa o celular a cada 3 minutos | “Se uma pessoa é interrompida 10 vezes em 1 hora...” | Mais tempo para concluir, mais erros, mais cansaço |
Importante: dado hipotético plausível não é “inventar estatística”. É usar números para ilustrar uma lógica de forma honesta, deixando claro que é um cenário hipotético (“imagine que...”, “suponha que...”)
Afirmação, justificativa e evidência: como diferenciar (e como combinar)
Um texto convincente costuma ter uma unidade básica repetida: afirmação → justificativa → evidência. Na pré-escrita, você já deve montar essa tríade para cada argumento principal.
1) Afirmação (o que você está dizendo)
É a frase que apresenta a ideia central do trecho. Deve ser específica e controlada (sem exageros).
- Fraca: “As telas fazem mal.”
- Melhor: “O uso de telas perto da hora de dormir tende a piorar a qualidade do sono.”
2) Justificativa (por que isso faz sentido)
É a explicação do mecanismo: a ponte entre a afirmação e a evidência. Sem justificativa, o texto vira opinião.
- Exemplo de justificativa: “A exposição à luz e ao estímulo constante mantém o cérebro em estado de alerta, dificultando o relaxamento necessário para adormecer.”
3) Evidência (como isso aparece na prática)
Evidência é o elemento que torna a justificativa visível e verificável no mundo do leitor. No repertório interno, você pode usar:
- Exemplo: “A pessoa deita, mas fica rolando o feed e perde a noção do tempo.”
- Dado hipotético plausível: “Se alguém adia o sono em 30 minutos por noite, em uma semana acumula mais de 3 horas a menos de descanso.”
- Caso ilustrativo: “Um trabalhador que responde mensagens do grupo do trabalho na cama demora mais para ‘desligar’.”
- Consequência lógica: “Com menos sono, a atenção cai no dia seguinte, aumentando erros e irritação.”
Exemplo completo (tríade montada)
- Afirmação: “Notificações frequentes reduzem a capacidade de manter foco em tarefas longas.”
- Justificativa: “Cada interrupção exige que a mente troque de contexto; ao voltar, a pessoa precisa reconstruir o raciocínio, o que consome energia mental.”
- Evidência: “Imagine um estudante escrevendo um relatório: a cada mensagem, ele para, responde e retorna; ao final, o texto fica mais lento e com mais falhas porque o raciocínio foi quebrado repetidas vezes.”
Práticas para evitar “achismos” e manter o texto autossuficiente
1) Troque generalizações por condições e recortes
Palavras como “sempre”, “nunca”, “todo mundo” costumam criar brechas. Prefira expressões condicionais e recortes claros.
- Em vez de: “Todo mundo se distrai com o celular.”
- Use: “Em contextos de estudo ou trabalho, o celular tende a competir com a atenção quando fica ao alcance e com notificações ativas.”
2) Use o teste do “como exatamente?”
Para cada afirmação importante, pergunte: como exatamente isso acontece? Se você não consegue responder em 2 a 4 frases, falta justificativa.
Afirmação: “Isso prejudica a produtividade.”Pergunta: “Como exatamente?”Resposta (justificativa): “Porque aumenta interrupções, fragmenta o tempo e eleva o retrabalho.”3) Use o teste do “consigo mostrar?”
Depois da justificativa, pergunte: consigo mostrar isso com um exemplo? Se não, a ideia está abstrata demais.
- Sem evidência: “Isso causa ansiedade.”
- Com evidência: “A pessoa checa mensagens repetidamente, sente urgência em responder e não consegue sustentar uma atividade sem voltar ao aplicativo.”
4) Construa mini-cadeias lógicas (causa → efeito → impacto)
Uma forma simples de deixar o texto autossuficiente é escrever a cadeia completa, mesmo que depois você enxugue.
Causa: notificações constantes →Efeito: interrupções e troca de contexto →Impacto: mais tempo para concluir tarefas e mais errosNa pré-escrita, escreva essas cadeias para cada argumento forte. Isso evita saltos de raciocínio.
5) Antecipe uma objeção e responda com precisão
Um jeito prático de reduzir “achismo” é mostrar que você considerou o outro lado e delimitou sua afirmação.
- Objeção: “Mas telas também podem ser usadas para estudar.”
- Resposta delimitadora: “O problema não é a tela em si, e sim o uso sem controle de estímulos (notificações, múltiplas abas, alternância constante), que dificulta manter atenção contínua.”
Roteiro de pré-escrita pronto para você preencher
Use este formulário antes de redigir. Ele força a criação de repertório interno e reduz lacunas de explicação.
Bloco A: Brainstorming (5–10 min)
- Lista livre de ideias (mínimo 12 tópicos): ________
- Possíveis causas: ________
- Possíveis consequências: ________
- Possíveis soluções: ________
- Possíveis objeções: ________
Bloco B: Seleção (escolha 3 a 5 argumentos)
- Argumento 1: ________ (relevância ✓/X; explicável ✓/X; tem exemplo ✓/X)
- Argumento 2: ________ (relevância ✓/X; explicável ✓/X; tem exemplo ✓/X)
- Argumento 3: ________ (relevância ✓/X; explicável ✓/X; tem exemplo ✓/X)
Bloco C: Hierarquização (ordem de força)
- Mais forte: ________ (por quê? ________)
- Intermediário: ________ (por quê? ________)
- Mais fraco: ________ (reformular ou cortar: ________)
Bloco D: Tríade por argumento (afirmação → justificativa → evidência)
Argumento mais forte
- Afirmação: ________
- Justificativa (como/por que): ________
- Evidência (escolha 2): exemplo cotidiano ________; caso ilustrativo ________; dado hipotético plausível ________; consequência lógica ________
Argumento 2
- Afirmação: ________
- Justificativa: ________
- Evidência: ________
Argumento 3
- Afirmação: ________
- Justificativa: ________
- Evidência: ________