O que é reconstituição e por que muda a concentração
Reconstituição é o preparo de um medicamento em pó (muitas vezes liofilizado) com a adição de um diluente estéril para formar uma solução ou suspensão utilizável. O ponto operacional é que, após adicionar o diluente, o volume final nem sempre é igual ao volume adicionado, porque o pó pode deslocar volume (o frasco “ganha” alguns mL além do diluente). Isso altera a concentração resultante e, portanto, o volume (mL) que você deve aspirar para cada dose.
Termos essenciais (operacionais)
- Quantidade total de fármaco no frasco: vem no rótulo (ex.: 1 g, 500 mg, 2 milhões UI).
- Volume de diluente a adicionar: pode estar no rótulo/bula/protocolo (ex.: “adicionar 10 mL de água para injeção”).
- Volume deslocado: diferença entre o volume final e o volume de diluente adicionado (ex.: adiciona 10 mL e obtém 10,5 mL finais; deslocamento = 0,5 mL).
- Volume final após reconstituição: volume total no frasco depois de dissolver (é o volume que entra no denominador da concentração).
- Concentração final:
quantidade total de fármaco / volume final(ex.: mg/mL).
Regra de ouro: sempre calcule com o volume final
Se o fabricante informa explicitamente “volume final após reconstituição” ou “concentração resultante”, use essa informação. Se não informar, verifique se o serviço possui tabela padronizada. Quando houver indicação de volume final (ou deslocamento), a conta fica direta.
Fórmula operacional
Concentração final (mg/mL) = Quantidade total (mg) ÷ Volume final (mL)
Volume a aspirar (mL) para uma dose = Dose prescrita (mg) ÷ Concentração (mg/mL)
Passo a passo prático de reconstituição (checklist)
1) Confirmar o que o frasco contém
- Leia o rótulo: quantidade total (ex.: 1 g = 1000 mg).
- Confirme se é dose por frasco (total) e não por mL (antes de reconstituir).
2) Confirmar diluente e volume a adicionar
- Verifique diluente permitido (ex.: água para injeção, SF 0,9%, etc.) e volume recomendado.
- Checar restrições: alguns pós formam suspensão e exigem diluente específico.
3) Reconstituir com técnica asséptica
- Higienizar, preparar material, desinfetar tampa de borracha.
- Injetar o diluente lentamente pela parede do frasco para reduzir espuma.
- Homogeneizar conforme orientação (girar/rolar; evitar agitar vigorosamente quando indicado).
4) Determinar o volume final (ponto crítico)
- Se o fabricante informa: use o volume final informado.
- Se o fabricante informa deslocamento:
volume final = volume adicionado + volume deslocado. - Se não informa: não “assuma” deslocamento; consulte bula/tabela do serviço/farmácia.
5) Calcular a concentração resultante
Aplicar: mg/mL = mg total ÷ mL final.
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6) Calcular quanto aspirar para a dose
Aplicar: mL = mg prescritos ÷ (mg/mL).
7) Rotular imediatamente (obrigatório)
Após reconstituir, rotule o frasco/seringa conforme rotina institucional. Um modelo mínimo:
- Medicamento (nome e forma)
- Concentração final (ex.: 100 mg/mL)
- Diluente e volume (ex.: 10 mL de água para injeção)
- Data e hora da reconstituição
- Responsável (assinatura/rubrica/identificação)
- Validade/estabilidade após reconstituição (conforme fabricante/serviço)
8) Checagens de compatibilidade e estabilidade
- Compatibilidade: diluente permitido e compatibilidade com soluções/linhas (consultar fabricante/serviço).
- Estabilidade: tempo e condições (temperatura, proteção da luz, necessidade de refrigeração) variam por fármaco; não padronize “por hábito”.
- Aspecto: observar cor, partículas, turvação; se fora do esperado, não utilizar e seguir protocolo.
Exemplos práticos (com e sem volume deslocado)
Exemplo 1: frasco-ampola 1 g para obter 100 mg/mL
Dados: frasco contém 1 g (1000 mg). Objetivo: 100 mg/mL.
Cálculo do volume final necessário: mL final = mg total ÷ (mg/mL desejado) = 1000 ÷ 100 = 10 mL.
Interpretação: se o fabricante orientar “adicionar 10 mL” e o volume final for 10 mL, a concentração será 100 mg/mL.
Retirada de dose: se a dose for 250 mg, então mL = 250 ÷ 100 = 2,5 mL.
Exemplo 2: mesmo frasco 1 g, mas com volume deslocado
Dados: frasco contém 1000 mg. Orientação do fabricante: adicionar 10 mL e o volume final após reconstituição é 10,5 mL (deslocamento de 0,5 mL).
Concentração final: 1000 mg ÷ 10,5 mL = 95,24 mg/mL (aprox.).
Retirada de dose: para 250 mg, mL = 250 ÷ 95,24 = 2,62 mL (aprox.).
Ponto de atenção: se você aspirar 2,5 mL “como se fosse 100 mg/mL”, administrará cerca de 2,5 × 95,24 = 238 mg, subdose.
Exemplo 3: frasco 500 mg com volume final informado
Dados: frasco contém 500 mg. Após reconstituição, volume final informado: 5 mL.
Concentração: 500 ÷ 5 = 100 mg/mL.
Dose: 75 mg → mL = 75 ÷ 100 = 0,75 mL.
Exemplo 4: reconstituição para doses múltiplas (retiradas seriadas)
Dados: frasco contém 1 g (1000 mg). Volume final: 20 mL.
Concentração: 1000 ÷ 20 = 50 mg/mL.
Prescrição: 200 mg a cada 8 h (3 doses no dia). Cada dose em mL: 200 ÷ 50 = 4 mL.
Controle de saldo: volume total 20 mL; após 3 doses (12 mL), restam 8 mL (equivalente a 400 mg), respeitando estabilidade/armazenamento conforme orientação.
Erros comuns e como evitar
- Usar volume adicionado em vez do volume final: sempre que houver informação de volume final/deslocamento, use o volume final.
- Não recalcular quando muda o volume de reconstituição: volumes diferentes geram concentrações diferentes; rotulagem deve refletir o preparo real.
- Não rotular imediatamente: aumenta risco de troca de concentração e de tempo de validade.
- Desconsiderar estabilidade: alguns medicamentos têm estabilidade curta após reconstituição; planeje doses múltiplas conforme orientação do fabricante/serviço.
Modelo de rotulagem (exemplo preenchido)
| Campo | Exemplo |
|---|---|
| Medicamento | Cefazolina (pó para solução injetável) |
| Reconstituição | Adicionado 10 mL de água para injeção |
| Volume final | 10,5 mL (conforme fabricante) |
| Concentração | 95,2 mg/mL |
| Data/Hora | 31/01 14:20 |
| Responsável | Iniciais/ID |
| Validade | Conforme fabricante/serviço |
Exercícios (calcule concentração e volume a aspirar)
Exercício 1
Frasco contém 1 g (1000 mg). Volume final após reconstituição: 10 mL. Calcule: (a) concentração mg/mL; (b) volume para dose de 600 mg; (c) volume para dose de 125 mg.
Exercício 2
Frasco contém 750 mg. Orientação: adicionar 9 mL; volume final informado: 10 mL. Calcule: (a) concentração; (b) volume para 300 mg; (c) quantos mg há em 2 mL.
Exercício 3
Frasco contém 2 g (2000 mg). Volume final: 8 mL. Prescrito: 1,5 g. Calcule o volume a aspirar em mL.
Exercício 4 (doses múltiplas e saldo)
Frasco contém 1 g (1000 mg). Volume final: 20 mL. Prescrito: 150 mg a cada 6 h (4 doses). Calcule: (a) concentração; (b) volume por dose; (c) volume total usado no dia; (d) volume restante no frasco após 4 doses.
Exercício 5 (comparação com e sem deslocamento)
Frasco contém 500 mg. Situação A: volume final 5 mL. Situação B: adiciona 5 mL, mas volume final é 5,5 mL. Para uma dose de 200 mg, calcule o volume a aspirar em A e em B e compare a diferença.