Diluição e preparo de soluções: como atingir uma concentração-alvo (mg/mL) com segurança

Capítulo 7

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

+ Exercício

Conceito: o que significa “atingir uma concentração-alvo (mg/mL)”

Concentração em mg/mL indica quantos miligramas de fármaco existem em cada 1 mL da solução final. Preparar uma concentração-alvo é decidir uma relação massa/volume que facilite a administração (ex.: microdoses, volumes menores, padronização) e então ajustar quanto fármaco e/ou quanto diluente para que o resultado final tenha exatamente essa relação.

Duas ideias guiam quase todos os preparos:

  • Balanço (quantidade total constante): a quantidade total de fármaco (mg) não muda quando você dilui; o que muda é o volume total (mL) e, portanto, a concentração (mg/mL).
  • Conferência dimensional: em cada conta, verifique se as unidades “sobram” corretamente. Ex.: se você quer volume (mL), a conta deve terminar em mL.

Dois caminhos práticos para chegar à concentração desejada

Caminho 1 — Definir quanto fármaco (mg) e completar para um volume final (mL)

Use quando você sabe o volume final que quer preparar (ex.: seringa de 50 mL) e a concentração-alvo.

Passo a passo

  • 1) Defina: C_alvo (mg/mL) e V_final (mL).
  • 2) Calcule a massa total necessária: mg_necessários = C_alvo × V_final.
  • 3) Converta essa massa em volume do medicamento disponível: se a apresentação é C_disp (mg/mL), então V_fármaco = mg_necessários ÷ C_disp.
  • 4) Calcule o diluente para completar: V_diluente = V_final − V_fármaco.
  • 5) Checagem dimensional e plausibilidade: V_fármaco deve ser ≤ V_final; a concentração final deve bater ao recalcular mg_total ÷ V_final.

Exemplo demonstrativo completo: preparar 50 mL a 2 mg/mL

Objetivo: C_alvo = 2 mg/mL e V_final = 50 mL.

1) Massa total necessária

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mg_necessários = 2 mg/mL × 50 mL = 100 mg

2) Suponha medicamento disponível: frasco-ampola/ampola com C_disp = 10 mg/mL.

3) Volume de fármaco

V_fármaco = 100 mg ÷ (10 mg/mL) = 10 mL

4) Volume de diluente para completar 50 mL

V_diluente = 50 mL − 10 mL = 40 mL

Checagem: total de mg no preparo = 10 mL × 10 mg/mL = 100 mg. Concentração final = 100 mg ÷ 50 mL = 2 mg/mL.

Caminho 2 — Partir de uma concentração disponível e ajustar para a concentração desejada

Use quando você já tem uma solução pronta (ampola, frasco reconstituído, bolsa) e precisa reduzir (ou eventualmente aumentar, por concentração) para uma concentração-alvo. Aqui entram dois métodos: balanço e regra de três. Ambos chegam ao mesmo resultado; escolha o que for mais claro para você.

Método do balanço (quantidade total constante)

Se você tem um volume V1 de uma solução com concentração C1 e quer obter concentração C2 após diluir para um volume final V2, o fármaco total é o mesmo:

C1 × V1 = C2 × V2

Daí:

V2 = (C1 × V1) ÷ C2

E o diluente a adicionar:

V_diluente = V2 − V1

Conferência dimensional: (mg/mL × mL) ÷ (mg/mL) = mL.

Regra de três (proporção)

Monte a proporção mantendo a ideia “mg total constante”. Ex.: se C1 mg estão em 1 mL, então em V1 mL há C1×V1 mg. Para ter C2 mg em 1 mL, quantos mL serão necessários para conter a mesma quantidade total? Isso leva à mesma expressão do balanço.

Exemplo demonstrativo completo: diluir uma ampola para facilitar microdoses

Cenário: você tem uma ampola com 1 mL a 10 mg/mL (logo, 10 mg no total). Você quer uma concentração mais “amigável” para microdoses: 1 mg/mL.

Usando balanço:

C1 × V1 = C2 × V2
10 mg/mL × 1 mL = 1 mg/mL × V2
V2 = 10 mL

Então o volume final deve ser 10 mL. Como você já tem 1 mL de fármaco, adicione:

V_diluente = 10 mL − 1 mL = 9 mL

Checagem rápida: mg total = 10 mg. Concentração final = 10 mg ÷ 10 mL = 1 mg/mL.

Aplicação prática (microdose): com 1 mg/mL, uma dose de 0,2 mg corresponde a 0,2 mL (mais fácil de medir do que 0,02 mL na solução original de 10 mg/mL).

Como escolher o diluente e definir limites de volume (segurança do preparo)

Seleção do diluente (princípios práticos)

  • Use o diluente recomendado no protocolo institucional/bula quando aplicável (ex.: SF 0,9% ou SG 5%).
  • Evite “misturar por hábito”: alguns fármacos têm estabilidade diferente em SF vs SG; outros podem precipitar com determinados eletrólitos.
  • Considere o paciente: restrição hídrica, controle glicêmico (evitar SG quando não indicado), sódio (evitar SF em situações específicas), e via de administração.

Volumes máximos e recipientes

  • Capacidade do recipiente: seringa de 10 mL não comporta preparo final de 12 mL. Parece óbvio, mas é fonte comum de erro.
  • Volume morto e perdas: em microvolumes, pequenas perdas em conexões/agulhas podem impactar a concentração efetiva. Prefira seringas adequadas (ex.: 1 mL, 3 mL) e técnica consistente.
  • Concentração mínima/máxima prática: muito concentrado pode dificultar mensuração e aumentar risco de erro; muito diluído pode gerar volume excessivo. Ajuste buscando um equilíbrio operacional.

Compatibilidade básica (sem entrar em tabelas extensas)

  • Compatibilidade físico-química: observe turvação, precipitado, mudança de cor, formação de gás. Se ocorrer, não utilizar.
  • Evite misturar medicamentos na mesma seringa/bolsa sem confirmação de compatibilidade.
  • Material do recipiente: alguns fármacos adsorvem em PVC ou exigem proteção da luz. Siga orientação local/bula quando houver.

Rotulagem do preparo: o que não pode faltar

Rotular é parte do cálculo seguro porque “fixa” a concentração final e reduz confusões entre preparos semelhantes.

  • Nome do fármaco (e sal, se relevante).
  • Concentração final em mg/mL (e, se útil, mg total no volume total).
  • Volume final (mL) e diluente utilizado.
  • Data/hora do preparo e identificação do preparador.
  • Via (EV, IM, etc.) e alertas aplicáveis (ex.: “uso exclusivo”, “proteger da luz”).

Erros comuns e como se blindar com checagens rápidas

1) Confundir “mg necessários” com “mL necessários”

Antídoto: escreva a fórmula com unidades e só depois substitua números.

2) Esquecer de subtrair o volume do fármaco ao calcular o diluente

Antídoto: sempre calcule V_diluente = V_final − V_fármaco no caminho 1.

3) Diluir para “x mL a mais” em vez de “completar até volume final”

Antídoto: deixe claro se o pedido é volume final ou volume de diluente a adicionar. No método do balanço, você calcula V2 (final) e só depois encontra o diluente.

4) Falhar na plausibilidade

  • Se você quer reduzir concentração (ex.: 10 mg/mL para 1 mg/mL), o volume final deve aumentar.
  • Se você quer aumentar concentração apenas por diluição, isso é impossível; para concentrar, seria necessário remover solvente ou usar apresentação mais concentrada.

Exercícios (com checagem de plausibilidade)

Exercício 1 — Preparar volume final com concentração-alvo

Pedido: preparar 30 mL a 0,5 mg/mL. Medicamento disponível: 5 mg/mL.

a) Calcule mg necessários

mg = 0,5 mg/mL × 30 mL = 15 mg

b) Calcule volume de fármaco

V_fármaco = 15 mg ÷ (5 mg/mL) = 3 mL

c) Complete com diluente até 30 mL

V_diluente = 30 − 3 = 27 mL

Checagem de plausibilidade: concentração caiu de 5 para 0,5 mg/mL (10× menor), então o volume final deve ser 10× o volume de fármaco equivalente aos mesmos mg. Como 15 mg na solução original correspondem a 3 mL, 10× dá 30 mL. Confere.

Exercício 2 — Ajustar concentração a partir de uma ampola (balanço)

Pedido: você tem 2 mL de solução a 4 mg/mL. Quer obter 1 mg/mL. Qual deve ser o volume final e quanto diluente adicionar?

1) Balanço

V2 = (C1 × V1) ÷ C2 = (4 mg/mL × 2 mL) ÷ (1 mg/mL) = 8 mL

2) Diluente

V_diluente = 8 − 2 = 6 mL

Checagem de plausibilidade: reduzir concentração de 4 para 1 mg/mL (4× menor) implica volume final 4× maior: de 2 mL para 8 mL. Confere.

Exercício 3 — Microdose: tornar mensurável

Pedido: solução disponível 20 mg/mL. Você precisa que 0,1 mL corresponda a 0,1 mg (ou seja, deseja 1 mg/mL). Você vai usar 1 mL do fármaco. Quanto diluente adicionar?

1) Calcule V2 pelo balanço

V2 = (20 mg/mL × 1 mL) ÷ (1 mg/mL) = 20 mL

2) Diluente

V_diluente = 20 − 1 = 19 mL

Checagem operacional: o preparo final é 20 mL; confirme se o recipiente comporta e se esse volume faz sentido para a via/uso pretendido.

Exercício 4 — Identificar erro por plausibilidade

Afirmação: “Tenho 5 mL a 2 mg/mL e vou adicionar 5 mL de diluente para ficar com 1,5 mg/mL.” Está correto?

Checagem: mg totais iniciais = 5 mL × 2 mg/mL = 10 mg. Após adicionar 5 mL, volume final = 10 mL. Concentração final = 10 mg ÷ 10 mL = 1 mg/mL, não 1,5 mg/mL. Para 1,5 mg/mL com 10 mg totais, o volume final teria que ser 10 ÷ 1,5 ≈ 6,67 mL (logo, diluente ≈ 1,67 mL).

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Você tem 2 mL de uma solução a 4 mg/mL e precisa obter uma concentração final de 1 mg/mL. Qual deve ser o volume final e quanto diluente deve ser adicionado?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Pelo balanço (quantidade total constante): C1×V1 = C2×V2. Assim, V2 = (4×2)/1 = 8 mL. O diluente é V2 − V1 = 8 − 2 = 6 mL.

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