Reconhecimento de Instabilidade: Sinais de Gravidade e Red Flags na Triagem

Capítulo 4

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

Conceito de instabilidade na triagem

Na triagem, instabilidade é a presença (ou forte suspeita) de alteração fisiológica com potencial de deterioração rápida, exigindo intervenção imediata e/ou encaminhamento direto para área de atendimento emergencial. O reconhecimento se baseia em: queixa principal + sinais vitais + aparência geral + red flags por sistemas. Um paciente pode estar “falando bem” e ainda assim estar instável (ex.: hipoxemia silenciosa, choque compensado, sepse inicial).

Como pensar em red flags

  • O que perguntar: sintomas-chave e tempo de início (minutos/horas/dias), fatores de risco, gatilhos, uso de medicamentos.
  • O que observar: sinais vitais, padrão respiratório, perfusão, nível de consciência, pele, dor, sangramentos, mobilidade.
  • Ação imediata: medidas de suporte, monitorização, priorização e comunicação rápida com equipe médica.

Passo a passo prático para reconhecer instabilidade (aplicável em qualquer queixa)

  1. Primeiro olhar (10–20 s): aparência tóxica, esforço respiratório, cianose, palidez acentuada, sudorese fria, agitação/sonolência, sangramento ativo, postura antálgica intensa.
  2. Checar sinais vitais e “tendência”: PA, FC, FR, SpO2, temperatura, glicemia (quando indicado). Valor isolado importa, mas piora progressiva importa mais.
  3. Identificar red flags por sistemas (tabelas abaixo): perguntas dirigidas + observações objetivas.
  4. Acionar intervenção e fluxo: se red flag presente, não “segurar” em sala de espera; encaminhar para sala de emergência/observação conforme protocolo local; iniciar medidas de suporte permitidas.
  5. Documentar e comunicar em formato objetivo (ex.: SBAR): queixa, achados críticos, sinais vitais, hipótese de gravidade, ações já realizadas.

Red flags por sistemas: perguntas, observações e ação imediata

Sistema respiratório

Red flagO que perguntarO que observar/medirAção imediata na triagem
Dispneia em repouso ou fala entrecortadaInício súbito? Piora progressiva? História de asma/DPOC/IC?Uso de musculatura acessória, tiragens, incapacidade de completar frases, FR elevadaPriorizar atendimento imediato; posicionar (Fowler); monitorizar SpO2; preparar O2 conforme protocolo
SpO2 baixa ou queda rápidaUso de O2 domiciliar? Exposição a fumaça? COVID/infecção recente?SpO2 < 92% (ou queda > 3–4% do habitual), cianose, confusãoOxigenoterapia conforme protocolo; monitorização contínua; encaminhar para área crítica
Estridor, sibilância intensa ou silêncio auscultatórioAlergia? Picada? Ingestão? Crise asmática? Corpo estranho?Estridor inspiratório, sibilos difusos, “tórax silencioso”, dificuldade para engolirAcionar equipe imediatamente; preparar via aérea; O2; considerar anafilaxia (ver tabela infeccioso/alérgico)
Dor torácica pleurítica + dispneia súbitaImobilização recente? Cirurgia? TEV prévio? Uso de anticoncepcional?Taquicardia, SpO2 baixa, ansiedade intensaEncaminhar imediato; monitorização; acesso venoso conforme protocolo local
Hemoptise volumosaQuantidade? Coágulos? Doença pulmonar prévia? Anticoagulante?Sangue vivo, instabilidade hemodinâmica, sinais de aspiraçãoPrioridade máxima; posicionar lateral (lado sangrante para baixo se conhecido); acionar equipe

Sistema cardiovascular

Red flagO que perguntarO que observar/medirAção imediata na triagem
Dor torácica sugestiva de isquemiaPressão/queimação? Irradia? Associada a náusea/sudorese? Início em repouso?Pele fria, sudorese, palidez, taquicardia/bradicardia, PA alteradaEncaminhar imediato; monitorização; ECG prioritário conforme protocolo; acesso venoso se indicado
Síncope ou pré-síncopeDurante esforço? Palpitações antes? Trauma associado? Uso de anti-hipertensivos?Hipotensão, bradicardia/taquicardia, confusão, lesões por quedaDeitar, elevar pernas se apropriado; monitorizar; glicemia capilar; encaminhar imediato
Hipotensão ou sinais de choqueVômitos/diarreia? Sangramento? Febre? Dor intensa?PA baixa, taquicardia, enchimento capilar lento, extremidades frias, oligúria referidaPrioridade máxima; monitorização; acesso venoso e reposição conforme protocolo; avaliar sangramento oculto
Arritmia sintomáticaPalpitações + tontura/dor torácica/dispneia?FC muito alta/baixa, pulso irregular, rebaixamentoEncaminhar imediato; monitor cardíaco; preparar medidas conforme protocolo
Suspeita de dissecção de aortaDor súbita “rasgando” para dorso? História de HAS?Assimetria de pulsos/PA, dor intensa, sinais neurológicos associadosEncaminhar imediato; evitar atrasos; monitorização e acesso venoso conforme fluxo

Sistema neurológico

Red flagO que perguntarO que observar/medirAção imediata na triagem
Déficit focal súbito (suspeita de AVC)Hora exata do início/última vez bem? Uso de anticoagulante?Face caída, fraqueza unilateral, fala alterada, desvio de olharAcionar protocolo de AVC; encaminhar imediato; glicemia capilar (hipoglicemia pode simular)
Rebaixamento do nível de consciênciaIngestão de álcool/drogas? Trauma? Febre? Diabetes?Escala de Glasgow, pupilas, respiração irregular, sinais de aspiraçãoPrioridade máxima; proteger via aérea conforme protocolo; monitorização; glicemia imediata
Convulsão em curso ou pós-ictal prolongadoPrimeira crise? Duração? Uso de anticonvulsivante? Febre?Cianose, mordedura de língua, incontinência, recuperação lentaSegurança e proteção; decúbito lateral; acionar equipe; monitorizar SpO2 e glicemia
Cefaleia “pior da vida” ou súbitaInício em segundos? Associada a rigidez de nuca, vômitos, déficit?Alteração de consciência, rigidez, fotofobia, PA elevadaEncaminhar imediato; monitorização; evitar atrasos por analgesia isolada
Sinais de meningismo/encefaliteFebre + dor de cabeça? Confusão? Exantema?Rigidez de nuca, petéquias, sonolênciaPrioridade alta/imediata; isolamento conforme protocolo; acionar equipe

Sistema infeccioso (sepse e infecções graves)

Red flagO que perguntarO que observar/medirAção imediata na triagem
Suspeita de sepseFoco provável (urinário, pulmonar, pele)? Início e progressão? Imunossupressão?Febre ou hipotermia, taquicardia, taquipneia, hipotensão, confusão, pele moteadaEncaminhar imediato; monitorização; acesso venoso conforme protocolo; acionar pacote de sepse institucional
Febre em neutropênico/imunossuprimidoQuimioterapia recente? Transplante? Corticoide alto?Temperatura ≥ 38°C (ou relato), prostração, sinais discretosPrioridade imediata; isolamento conforme risco; acionar equipe rapidamente
Infecção de partes moles graveDor desproporcional? Progressão rápida? Ferida recente?Eritema extenso, bolhas, crepitação, necrose, dor intensa ao toqueEncaminhar imediato; não atrasar por curativos simples; monitorização
Suspeita de anafilaxia (alérgico-imunológica)Exposição a alimento/medicamento/picada? Início em minutos?Urticária + dispneia/estridor, edema de lábios/lingua, hipotensãoPrioridade máxima; acionar equipe; preparar adrenalina IM conforme protocolo; O2 e monitorização
Desidratação grave por gastroenteriteVômitos/diarreia: frequência? Ingesta? Criança/idoso?Letargia, taquicardia, hipotensão ortostática, mucosas secas, oligúriaPriorizar; acesso venoso e hidratação conforme protocolo; reavaliar sinais vitais precocemente

Sistema traumático

Red flagO que perguntarO que observar/medirAção imediata na triagem
Mecanismo de alta energiaQueda > 2 m? Ejeção? Atropelamento? Capotamento?Dor difusa, múltiplas queixas, sinais de choque, alteração de consciênciaEncaminhar imediato; imobilização conforme protocolo; monitorização e acesso venoso
Trauma cranioencefálico com sinais de gravidadePerda de consciência? Vômitos repetidos? Anticoagulante?Glasgow reduzido, anisocoria, cefaleia progressiva, convulsãoPrioridade máxima; proteção de via aérea; monitorização; acionar equipe
Hemorragia externa não controladaTempo do sangramento? Uso de anticoagulante?Sangramento ativo, sinais de choqueCompressão direta/torniquete conforme protocolo; encaminhar imediato
Suspeita de lesão de colunaTrauma + dor cervical? Parestesias? Fraqueza?Déficit neurológico, dor à palpação, incapacidade de movimentarImobilização; evitar mobilização desnecessária; encaminhar imediato
Fratura exposta ou síndrome compartimentalDor intensa desproporcional? Piora rápida? Dormência?Deformidade, ferida com osso visível, dor ao estiramento passivo, palidezPrioridade alta/imediata; analgesia conforme protocolo sem atrasar avaliação; monitorização neurovascular

Sistema metabólico e endócrino

Red flagO que perguntarO que observar/medirAção imediata na triagem
HipoglicemiaDiabetes? Uso de insulina/sulfonilureia? Última refeição?Glicemia baixa, sudorese, tremor, confusão, convulsãoGlicemia capilar imediata; tratar conforme protocolo (VO/IV); reavaliar nível de consciência
Cetoacidose diabética/estado hiperosmolarPoliúria/polidipsia? Vômitos? Falha de insulina? Infecção?Taquipneia (Kussmaul), desidratação, hálito cetônico, glicemia elevadaEncaminhar imediato; monitorização; acesso venoso conforme protocolo; não atrasar por espera
Distúrbio eletrolítico grave suspeitoUso de diuréticos? Doença renal? Vômitos/diarreia?Fraqueza intensa, arritmia, confusão, cãibras importantesPrioridade alta; monitorização cardíaca se disponível; encaminhar para avaliação imediata
Crise adrenal/hipotireoidismo grave (suspeita)Uso crônico de corticoide e suspensão? Doença tireoidiana?Hipotensão refratária, prostração extrema, hipotermiaEncaminhar imediato; monitorização; acionar equipe
Intoxicação/overdose com risco de vidaO quê, quanto e quando? Mistura de substâncias? Tentativa autoextermínio?Bradipneia, miose, rebaixamento, arritmias, hipertermiaPrioridade máxima; suporte de via aérea/respiração; monitorização; acionar protocolo institucional

Armadilhas comuns que levam a subtriagem

1) Paciente “compensado” (choque compensado e hipoxemia silenciosa)

  • Como acontece: PA pode estar normal no início; o corpo mantém perfusão com taquicardia e vasoconstrição. Em hipoxemia, alguns pacientes não referem dispneia intensa.
  • O que procurar: taquicardia desproporcional, enchimento capilar lento, pele fria/moteada, alteração de estado mental, SpO2 limítrofe, FR elevada.
  • Conduta: trate como potencial instabilidade; reavalie em curto intervalo; não baseie decisão apenas em PA “normal”.

2) Idosos com apresentação atípica

  • Como acontece: sepse sem febre, IAM sem dor típica, delirium como primeira manifestação, desidratação com poucos sintomas.
  • O que perguntar: mudança funcional recente (quedas, confusão, recusa alimentar), tempo de evolução, comorbidades e polifarmácia.
  • O que observar: delirium/sonolência, hipotensão relativa (queda em relação ao habitual), taquipneia, sinais discretos de infecção.
  • Conduta: limiar mais baixo para priorização e reavaliação precoce; valorize “não está como de costume”.

3) Analgesia e antitérmicos mascarando sinais

  • Como acontece: redução de dor e febre pode diminuir percepção de gravidade, mas não resolve a causa (ex.: abdome agudo, meningite, infecção grave).
  • O que fazer: registre medicações e horário; reavalie sinais vitais após analgesia; mantenha suspeita clínica se havia red flags antes do alívio.
  • Ponto crítico: melhora subjetiva não substitui reavaliação objetiva (FR, perfusão, consciência).

4) “Dor como único sinal” em condições graves

  • Exemplos: dor desproporcional em infecção necrosante; dor torácica atípica em diabéticos; dor abdominal intensa com sinais vitais ainda preservados.
  • Conduta: dor intensa súbita, progressiva ou desproporcional deve elevar prioridade e exigir reavaliação frequente.

Critérios e rotina de reavaliação precoce

Reavaliação precoce é obrigatória quando há risco de deterioração, mesmo que o paciente tenha sido inicialmente classificado como não crítico. O objetivo é detectar mudança de padrão antes de colapso clínico.

Quando reavaliar (gatilhos práticos)

  • Qualquer red flag presente mesmo com sinais vitais limítrofes.
  • Sinais vitais limítrofes (ex.: SpO2 92–94% sem baseline conhecido; FR elevada; FC persistente alta; PA “normal baixa”).
  • Populações de maior risco: idosos frágeis, gestantes, imunossuprimidos, cardiopatas, DPOC, diabéticos, anticoagulados.
  • Queixa com potencial tempo-dependente: déficit neurológico, dor torácica, dispneia, sangramento, febre com confusão.
  • Piora referida pelo paciente/acompanhante ou observada pela equipe (mais sonolento, mais dispneico, mais pálido).

O que repetir na reavaliação (checklist objetivo)

  • Sinais vitais completos e comparação com a medida anterior (tendência).
  • Estado mental: orientação, agitação, sonolência, Glasgow quando aplicável.
  • Respiração: FR, padrão, fala, SpO2, necessidade de O2.
  • Perfusão: cor da pele, temperatura periférica, enchimento capilar, sudorese.
  • Dor: intensidade, localização, irradiação, resposta à analgesia.
  • Diurese/ingesta quando relevante (desidratação/sepse).

Intervalos sugeridos (ajustar ao protocolo local e lotação)

Condição na triagemReavaliação sugeridaO que pode mudar a prioridade
Red flag presente ou sinais vitais alteradosImediata e contínua até encaminharQueda de PA, aumento de FR/FC, queda de SpO2, rebaixamento
Sinais vitais limítrofes + fator de risco importante15–30 minPiora de tendência, nova red flag, dor progressiva
Sem red flags, mas queixa potencialmente evolutiva (ex.: febre em idoso, dor abdominal moderada)30–60 minNova alteração de consciência, vômitos persistentes, sinais de desidratação
Paciente em sala de espera com queixa estávelConforme fluxo, com orientação de retorno imediato se piorarRelato de piora, dispneia, síncope, sangramento, confusão

Exemplos práticos de aplicação na triagem

Caso 1: “Só falta de ar leve”

Perguntas-chave: começou hoje ou súbito? dor torácica? história de asma/DPOC? febre? Observação: fala em frases curtas, FR elevada, SpO2 91%. Ação: encaminhar imediato, posicionar, iniciar O2 conforme protocolo, monitorizar e comunicar achados críticos.

Caso 2: Idoso “mais confuso” sem febre

Perguntas-chave: início da confusão, queda recente, sintomas urinários/respiratórios, ingestão hídrica. Observação: taquipneia, pele moteada, PA limítrofe, temperatura normal. Ação: tratar como suspeita de sepse/instabilidade, encaminhar imediato, monitorização e acionar fluxo institucional.

Caso 3: Dor intensa em perna após pequeno ferimento

Perguntas-chave: progressão em horas? dor desproporcional? comorbidades (diabetes)? Observação: dor extrema ao toque, edema, pele tensa. Ação: prioridade alta/imediata por suspeita de infecção grave/síndrome compartimental; não atrasar por analgesia isolada; encaminhar para avaliação urgente.

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Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Na triagem, qual conduta é mais adequada quando um paciente apresenta red flag, mesmo que esteja “falando bem” e com pressão arterial aparentemente normal?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Red flags indicam potencial de deterioração rápida. Mesmo com PA normal e boa fala, pode haver instabilidade (ex.: hipoxemia silenciosa/choque compensado). A conduta é não manter em espera: monitorizar, iniciar suporte conforme protocolo, priorizar fluxo e comunicar achados.

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