Na triagem, instabilidade é a presença (ou forte suspeita) de alteração fisiológica com potencial de deterioração rápida, exigindo intervenção imediata e/ou encaminhamento direto para área de atendimento emergencial. O reconhecimento se baseia em: queixa principal + sinais vitais + aparência geral + red flags por sistemas. Um paciente pode estar “falando bem” e ainda assim estar instável (ex.: hipoxemia silenciosa, choque compensado, sepse inicial).
Como pensar em red flags
O que perguntar: sintomas-chave e tempo de início (minutos/horas/dias), fatores de risco, gatilhos, uso de medicamentos.
O que observar: sinais vitais, padrão respiratório, perfusão, nível de consciência, pele, dor, sangramentos, mobilidade.
Ação imediata: medidas de suporte, monitorização, priorização e comunicação rápida com equipe médica.
Passo a passo prático para reconhecer instabilidade (aplicável em qualquer queixa)
Checar sinais vitais e “tendência”: PA, FC, FR, SpO2, temperatura, glicemia (quando indicado). Valor isolado importa, mas piora progressiva importa mais.
Identificar red flags por sistemas (tabelas abaixo): perguntas dirigidas + observações objetivas.
Acionar intervenção e fluxo: se red flag presente, não “segurar” em sala de espera; encaminhar para sala de emergência/observação conforme protocolo local; iniciar medidas de suporte permitidas.
Documentar e comunicar em formato objetivo (ex.: SBAR): queixa, achados críticos, sinais vitais, hipótese de gravidade, ações já realizadas.
Red flags por sistemas: perguntas, observações e ação imediata
Sistema respiratório
Red flag
O que perguntar
O que observar/medir
Ação imediata na triagem
Dispneia em repouso ou fala entrecortada
Início súbito? Piora progressiva? História de asma/DPOC/IC?
Uso de musculatura acessória, tiragens, incapacidade de completar frases, FR elevada
Prioridade máxima; suporte de via aérea/respiração; monitorização; acionar protocolo institucional
Armadilhas comuns que levam a subtriagem
1) Paciente “compensado” (choque compensado e hipoxemia silenciosa)
Como acontece: PA pode estar normal no início; o corpo mantém perfusão com taquicardia e vasoconstrição. Em hipoxemia, alguns pacientes não referem dispneia intensa.
O que procurar: taquicardia desproporcional, enchimento capilar lento, pele fria/moteada, alteração de estado mental, SpO2 limítrofe, FR elevada.
Conduta: trate como potencial instabilidade; reavalie em curto intervalo; não baseie decisão apenas em PA “normal”.
2) Idosos com apresentação atípica
Como acontece: sepse sem febre, IAM sem dor típica, delirium como primeira manifestação, desidratação com poucos sintomas.
O que perguntar: mudança funcional recente (quedas, confusão, recusa alimentar), tempo de evolução, comorbidades e polifarmácia.
O que observar: delirium/sonolência, hipotensão relativa (queda em relação ao habitual), taquipneia, sinais discretos de infecção.
Conduta: limiar mais baixo para priorização e reavaliação precoce; valorize “não está como de costume”.
3) Analgesia e antitérmicos mascarando sinais
Como acontece: redução de dor e febre pode diminuir percepção de gravidade, mas não resolve a causa (ex.: abdome agudo, meningite, infecção grave).
O que fazer: registre medicações e horário; reavalie sinais vitais após analgesia; mantenha suspeita clínica se havia red flags antes do alívio.
Ponto crítico: melhora subjetiva não substitui reavaliação objetiva (FR, perfusão, consciência).
4) “Dor como único sinal” em condições graves
Exemplos: dor desproporcional em infecção necrosante; dor torácica atípica em diabéticos; dor abdominal intensa com sinais vitais ainda preservados.
Conduta: dor intensa súbita, progressiva ou desproporcional deve elevar prioridade e exigir reavaliação frequente.
Critérios e rotina de reavaliação precoce
Reavaliação precoce é obrigatória quando há risco de deterioração, mesmo que o paciente tenha sido inicialmente classificado como não crítico. O objetivo é detectar mudança de padrão antes de colapso clínico.
Quando reavaliar (gatilhos práticos)
Qualquer red flag presente mesmo com sinais vitais limítrofes.
Sinais vitais limítrofes (ex.: SpO2 92–94% sem baseline conhecido; FR elevada; FC persistente alta; PA “normal baixa”).
Populações de maior risco: idosos frágeis, gestantes, imunossuprimidos, cardiopatas, DPOC, diabéticos, anticoagulados.
Queixa com potencial tempo-dependente: déficit neurológico, dor torácica, dispneia, sangramento, febre com confusão.
Piora referida pelo paciente/acompanhante ou observada pela equipe (mais sonolento, mais dispneico, mais pálido).
O que repetir na reavaliação (checklist objetivo)
Sinais vitais completos e comparação com a medida anterior (tendência).
Estado mental: orientação, agitação, sonolência, Glasgow quando aplicável.
Respiração: FR, padrão, fala, SpO2, necessidade de O2.
Perfusão: cor da pele, temperatura periférica, enchimento capilar, sudorese.
Dor: intensidade, localização, irradiação, resposta à analgesia.
Diurese/ingesta quando relevante (desidratação/sepse).
Intervalos sugeridos (ajustar ao protocolo local e lotação)
Condição na triagem
Reavaliação sugerida
O que pode mudar a prioridade
Red flag presente ou sinais vitais alterados
Imediata e contínua até encaminhar
Queda de PA, aumento de FR/FC, queda de SpO2, rebaixamento
Sinais vitais limítrofes + fator de risco importante
15–30 min
Piora de tendência, nova red flag, dor progressiva
Sem red flags, mas queixa potencialmente evolutiva (ex.: febre em idoso, dor abdominal moderada)
30–60 min
Nova alteração de consciência, vômitos persistentes, sinais de desidratação
Paciente em sala de espera com queixa estável
Conforme fluxo, com orientação de retorno imediato se piorar
Relato de piora, dispneia, síncope, sangramento, confusão
Exemplos práticos de aplicação na triagem
Caso 1: “Só falta de ar leve”
Perguntas-chave: começou hoje ou súbito? dor torácica? história de asma/DPOC? febre? Observação: fala em frases curtas, FR elevada, SpO2 91%. Ação: encaminhar imediato, posicionar, iniciar O2 conforme protocolo, monitorizar e comunicar achados críticos.
Caso 2: Idoso “mais confuso” sem febre
Perguntas-chave: início da confusão, queda recente, sintomas urinários/respiratórios, ingestão hídrica. Observação: taquipneia, pele moteada, PA limítrofe, temperatura normal. Ação: tratar como suspeita de sepse/instabilidade, encaminhar imediato, monitorização e acionar fluxo institucional.
Caso 3: Dor intensa em perna após pequeno ferimento
Perguntas-chave: progressão em horas? dor desproporcional? comorbidades (diabetes)? Observação: dor extrema ao toque, edema, pele tensa. Ação: prioridade alta/imediata por suspeita de infecção grave/síndrome compartimental; não atrasar por analgesia isolada; encaminhar para avaliação urgente.
Na triagem, qual conduta é mais adequada quando um paciente apresenta red flag, mesmo que esteja “falando bem” e com pressão arterial aparentemente normal?
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Red flags indicam potencial de deterioração rápida. Mesmo com PA normal e boa fala, pode haver instabilidade (ex.: hipoxemia silenciosa/choque compensado). A conduta é não manter em espera: monitorizar, iniciar suporte conforme protocolo, priorizar fluxo e comunicar achados.