O que caracteriza uma entorse
Entorse é uma lesão dos ligamentos (estruturas que estabilizam a articulação), causada geralmente por torção ou movimento além do limite normal. O resultado típico é uma combinação de dor na articulação, inchaço e perda de estabilidade (sensação de que “falha” ou “escapa”).
Na prática, as entorses acontecem com frequência em tornozelo, joelho, punho e dedos. O ponto-chave do reconhecimento é observar se o problema está centrado na articulação (entorse) e não apenas no músculo/pele (contusão) ou no osso (fratura).
Como diferenciar entorse, contusão e fratura por sinais observáveis
1) Dor localizada: onde dói mais?
- Entorse: dor mais intensa ao redor da articulação, especialmente em certos movimentos (ex.: virar o pé para dentro no tornozelo).
- Contusão (pancada): dor mais superficial e difusa no local do impacto; pode doer ao tocar a pele e o tecido ao redor, sem sensação clara de “articulação instável”.
- Fratura: dor forte e bem localizada no osso (às vezes em um ponto específico), piora importante ao tentar apoiar ou movimentar; pode haver dor mesmo em repouso.
2) Inchaço progressivo: como evolui nos primeiros minutos e horas
- Entorse: inchaço costuma ser progressivo e pode aumentar nas primeiras horas, acompanhando inflamação e possível sangramento interno do ligamento.
- Contusão: inchaço pode existir, mas tende a ser mais localizado no ponto da pancada e nem sempre progride tanto.
- Fratura: pode haver inchaço importante e rápido; em alguns casos aparece deformidade ou aumento de volume desproporcional.
3) Instabilidade: sensação de “falseio”
- Entorse: sinal muito sugestivo é a instabilidade (ex.: tornozelo “vira” fácil; joelho parece “ceder”).
- Contusão: geralmente não causa instabilidade articular; a pessoa evita mexer mais por dor, mas a articulação não “falha”.
- Fratura: pode haver incapacidade por dor e, às vezes, instabilidade estrutural; porém, a instabilidade costuma vir com dor intensa e/ou deformidade.
4) Dificuldade de apoiar peso ou usar o membro
- Entorse: pode haver dificuldade de apoiar, especialmente em entorses moderadas a graves; algumas pessoas conseguem apoiar parcialmente no início e pioram depois com o inchaço.
- Contusão: pode doer ao apoiar, mas frequentemente a pessoa consegue usar com limitação menor, dependendo da intensidade da pancada.
- Fratura: frequentemente há incapacidade de apoiar ou dor muito intensa ao tentar; não é uma regra absoluta, mas é um alerta forte.
5) Roxidão (hematoma): quando aparece e o que sugere
- Entorse: hematoma pode aparecer ao redor da articulação e, às vezes, “desce” por gravidade (ex.: no tornozelo, pode surgir roxidão no pé após algumas horas).
- Contusão: hematoma é comum no ponto do impacto e ao redor.
- Fratura: também pode haver hematoma; quando associado a deformidade, dor óssea intensa e incapacidade importante, aumenta a suspeita.
6) Limitação de movimento: o que limita e como
- Entorse: limitação por dor e por sensação de instabilidade; certos movimentos específicos pioram muito.
- Contusão: limitação mais por dor ao contrair o músculo ou tocar o local; a articulação pode mexer melhor do que em uma entorse, embora com desconforto.
- Fratura: limitação importante; movimentos podem ser muito dolorosos e a pessoa pode “travar” para proteger.
Checklist de observação rápida (sem “testar” repetidamente)
Use este checklist para organizar a observação. A ideia é comparar, observar evolução e minimizar manipulação.
Checklist (marque mentalmente)
- Comparação com o lado não lesionado: há diferença visível de formato, volume (inchaço) ou cor?
- Ponto principal da dor: é mais na articulação (entorse) ou no osso/ponto fixo (alerta para fratura)?
- Inchaço está aumentando? compare a cada 10–15 minutos no início, sem apertar forte.
- Roxidão/hematoma: já apareceu? está se espalhando?
- Capacidade de apoiar/usar: a pessoa consegue apoiar parcialmente sem piorar muito? (se piora muito, trate como lesão mais séria).
- Movimento dos dedos: consegue mexer os dedos do pé/mão do lado lesionado?
- Sensibilidade: há formigamento, dormência ou perda de sensibilidade?
- Temperatura e cor distal: dedos estão muito frios, pálidos ou azulados em comparação ao outro lado?
Atenção: dormência, dedos frios/pálidos/azulados, dor desproporcional ou piora rápida do inchaço são sinais de alerta e exigem avaliação médica urgente.
Passo a passo prático: condutas iniciais seguras ao suspeitar de entorse
O objetivo inicial é reduzir dor e inchaço, proteger a articulação e evitar agravar uma possível lesão ligamentar (ou uma fratura não reconhecida).
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1) Interrompa a atividade e proteja a articulação
- Pare o movimento que causou a dor.
- Evite apoiar peso ou fazer força com o membro até entender melhor a gravidade.
- Mantenha a articulação em posição confortável, sem “forçar para alinhar”.
2) Remova itens que possam apertar com o inchaço
- Retire anéis, pulseiras, relógio (punho/mão) e afrouxe calçados (tornozelo/pé) se isso não causar dor significativa.
- Se houver muita dor ao remover, não force.
3) Resfriamento (frio) de forma segura
- Aplique compressa fria ou gelo envolto em pano por 15–20 minutos.
- Faça pausas e repita conforme tolerado nas primeiras horas.
- Não aplique gelo diretamente na pele para evitar queimadura por frio.
4) Compressão leve e elevação (quando possível)
- Compressão: use faixa elástica com pressão leve a moderada, sem causar formigamento, palidez ou aumento de dor.
- Elevação: mantenha o membro elevado acima do nível do coração quando possível para reduzir inchaço.
5) Reavalie sinais distais após qualquer medida
Depois de compressão/ajuste de posição, verifique novamente:
- cor e temperatura dos dedos;
- sensibilidade (sem dormência);
- capacidade de mexer os dedos.
Se piorar após a faixa, afrouxe imediatamente.
Como evitar agravar: por que não “testar” a articulação repetidamente
Um erro comum é tentar “ver se melhorou” fazendo o mesmo movimento que causou a entorse ou girando a articulação várias vezes. Isso pode:
- aumentar o sangramento e o inchaço;
- ampliar microlesões do ligamento;
- transformar uma entorse leve em moderada;
- mascarar uma fratura pequena, atrasando o cuidado adequado.
Estratégia prática para controlar a curiosidade de “testar”
- Regra das 2 tentativas: se doeu ao tentar apoiar/mover uma vez, não repita para “confirmar”.
- Use o checklist em vez de movimentos: observe inchaço, cor, roxidão e movimento dos dedos (distal), que é mais seguro.
- Imobilize de forma simples: mantenha a articulação estável com faixa/apoio confortável até avaliação.
Quando tratar como algo mais grave (entorse importante ou possível fratura)
Na dúvida, é mais seguro agir como se fosse lesão mais séria e buscar avaliação. Procure atendimento com prioridade se houver:
- incapacidade de apoiar ou usar o membro após o evento;
- dor muito intensa ao toque em ponto ósseo específico;
- deformidade visível;
- inchaço muito rápido e grande;
- dormência, formigamento persistente, dedos frios/pálidos/azulados;
- ferida aberta associada;
- dor que piora progressivamente apesar de repouso e medidas iniciais.
Exemplos práticos de reconhecimento
Exemplo 1: tornozelo “virou” ao descer um degrau
- Dor ao redor do tornozelo, inchaço aumentando em 30–60 minutos, sensação de instabilidade ao tentar ficar em pé.
- Conduta segura: parar de apoiar, frio com pano, elevação, compressão leve, checar movimento dos dedos e sensibilidade; evitar girar o pé para “ver se encaixou”.
Exemplo 2: pancada na canela em um móvel
- Dor superficial no ponto da batida, hematoma local, sem instabilidade de articulação próxima.
- Conduta segura: frio local, observar evolução do hematoma e dor; se a dor for muito localizada no osso e impedir apoiar, considerar avaliação para descartar fratura.
Exemplo 3: queda com dor no punho ao apoiar a mão
- Dor na região do punho, inchaço, dificuldade de segurar objetos; pode ser entorse, mas fraturas do punho também são comuns.
- Conduta segura: evitar “fazer força para ver se aguenta”, manter punho em posição neutra, frio, retirar anéis, observar cor/temperatura dos dedos e buscar avaliação se dor óssea localizada ou incapacidade funcional importante.