Queixas Respiratórias na Triagem em Urgência e Emergência: Dispneia, Asma e Saturação

Capítulo 9

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Como reconhecer gravidade em queixas respiratórias na triagem

Queixas respiratórias (principalmente dispneia e crises asmáticas) exigem uma abordagem orientada por gravidade, porque a deterioração pode ser rápida. Na triagem, o objetivo é identificar sinais de falência ventilatória/oxigenação e causas potencialmente fatais, iniciar ações imediatas conforme protocolos do serviço e definir necessidade de reavaliação frequente.

Dispneia: o que observar primeiro (gravidade em segundos)

Antes de aprofundar a história, observe o paciente à distância e durante a fala. A gravidade costuma aparecer no padrão respiratório, no esforço e na capacidade de falar.

  • Esforço respiratório: uso de musculatura acessória, tiragem intercostal/supraclavicular, batimento de asa do nariz, postura em tripé, respiração paradoxal.
  • Fala: frases completas (menos grave) vs. fala entrecortada/palavras isoladas (mais grave) vs. incapaz de falar (crítico).
  • Cor e perfusão: palidez, sudorese fria, cianose central (lábios/língua) sugerem gravidade.
  • Frequência e padrão: taquipneia importante, respiração superficial, pausas, fadiga respiratória (piora do esforço com redução do volume).
  • SpO2: valor isolado ajuda, mas deve ser interpretado com clínica e qualidade do sinal; queda progressiva é sinal de alerta.
  • Ausculta (quando aplicável e sem atrasar condutas): sibilos difusos (asma/broncoespasmo), roncos (secreção), estertores (edema/pneumonia), silêncio auscultatório (risco de obstrução grave/asma grave), assimetria importante (pneumotórax/atelectasia).

Interpretação prática da SpO2 na triagem

A saturação periférica de oxigênio é um marcador de oxigenação, não de ventilação. Pacientes podem estar exaustos e hipercápnicos com SpO2 aparentemente aceitável, especialmente se já estiverem em oxigênio suplementar.

  • SpO2 < 90% em ar ambiente, ou queda rápida, geralmente indica necessidade de atendimento imediato e suporte de oxigênio conforme protocolo.
  • SpO2 90–92% com sinais de esforço, fala entrecortada ou alteração de consciência deve ser tratada como potencialmente grave.
  • SpO2 normal não exclui gravidade se houver estridor, fadiga, uso intenso de musculatura acessória, silêncio auscultatório ou rebaixamento do nível de consciência.
  • Qualidade do sinal: verifique perfusão periférica, movimento, esmalte, extremidades frias; se dúvida, reposicione sensor e correlacione com clínica.

Red flags respiratórias e ações imediatas na triagem

As condições abaixo exigem reconhecimento rápido e acionamento de fluxo de atendimento emergencial do serviço. Na triagem, foque em identificar o padrão e iniciar medidas iniciais permitidas por protocolo (ex.: oxigênio, posicionamento, monitorização, chamada de equipe).

Estridor (obstrução de via aérea superior)

  • Como aparece: ruído inspiratório agudo, piora ao falar/deitar, retrações, ansiedade intensa; pode coexistir com sialorreia e dificuldade para engolir.
  • Por que é crítico: risco de obstrução iminente.
  • Ações imediatas: manter paciente sentado, minimizar manipulação, monitorizar SpO2, acionar equipe médica imediatamente; preparar material de via aérea conforme rotina do setor.

Anafilaxia (componente respiratório e/ou choque)

  • Pistas na triagem: início súbito após alimento/medicação/picada, urticária/angioedema, rouquidão, estridor, broncoespasmo, hipotensão, vômitos.
  • Ações imediatas: acionar atendimento emergencial; posicionar conforme tolerância (supino com pernas elevadas se choque, ou sentado se dispneia importante), oxigênio conforme protocolo, monitorização contínua; preparar medicações e acesso venoso conforme fluxo institucional.

Suspeita de TEP (tromboembolismo pulmonar)

  • Pistas: dispneia súbita, dor torácica pleurítica, taquicardia, síncope/presíncope, hemoptise; fatores de risco (imobilização, cirurgia recente, câncer, gestação/puerpério, uso de estrogênio, TEV prévio).
  • Ações imediatas: priorizar atendimento rápido, monitorização, oxigênio se hipoxemia; observar sinais de instabilidade (hipotensão, alteração de consciência) e acionar equipe.

Pneumotórax (especialmente hipertensivo)

  • Pistas: dispneia súbita, dor torácica unilateral, assimetria ventilatória, diminuição/ausência de murmúrio vesicular de um lado; em casos graves, instabilidade hemodinâmica e piora rápida.
  • Ações imediatas: atendimento imediato, oxigênio conforme protocolo, monitorização; acionar equipe para avaliação e intervenção urgente.

Roteiro de perguntas dirigido (sem atrasar a priorização)

Após identificar gravidade inicial, use perguntas curtas para orientar hipótese e risco. Um roteiro prático:

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1) Início e evolução

  • “Começou quando? Foi de repente ou aos poucos?”
  • “Está piorando, melhorando ou igual desde que começou?”
  • “Aconteceu em repouso ou esforço?”

2) Sintomas associados

  • “Tem chiado no peito? Tosse? Catarro? Febre?”
  • “Dor no peito? É pontada que piora ao respirar?”
  • “Teve desmaio, tontura, confusão?”
  • “Lábios roxos, inchaço no rosto, coceira ou placas na pele?” (anafilaxia)
  • “Rouquidão ou barulho ao puxar o ar?” (estridor)

3) História respiratória e gatilhos

  • “Tem asma/DPOC? Já foi internado ou intubado por crise?”
  • “Usou bombinha/nebulização hoje? Melhorou?”
  • “Teve contato com fumaça, poeira, produto químico, alergênico?”

4) Risco tromboembólico e contexto

  • “Fez cirurgia recente, ficou muito tempo parado, viagem longa?”
  • “Está grávida ou no pós-parto? Usa hormônio?”
  • “Teve trombose/embolia antes?”

5) Medicações e comorbidades relevantes

  • Uso de beta-bloqueador, sedativos, opioides (pode piorar ventilação).
  • Cardiopatia, insuficiência cardíaca, doença renal (pode orientar edema pulmonar).

Asma na triagem: estratificação rápida por gravidade

Na crise asmática, a gravidade é estimada pela combinação de fala, esforço, ausculta e resposta a broncodilatador prévio. Um erro comum é subestimar o paciente com “pouco chiado”: silêncio auscultatório pode indicar fluxo aéreo muito reduzido e risco de falência respiratória.

Achados que sugerem crise grave/ameaça à vida

  • Fala em palavras isoladas ou incapaz de falar.
  • Uso intenso de musculatura acessória, tiragem importante, fadiga.
  • Agitação extrema ou sonolência/confusão (sinal tardio e grave).
  • Silêncio auscultatório ou sibilos muito reduzidos com grande esforço.
  • SpO2 baixa ou queda apesar de medidas iniciais.
  • História de intubação/UTI por asma, múltiplas idas recentes ao pronto atendimento.

Passo a passo prático na triagem para asma/broncoespasmo

  1. Observação imediata: fala, esforço, postura, cianose.
  2. SpO2 e sinais vitais: registrar e correlacionar com clínica.
  3. Ausculta breve (se possível): sibilos difusos vs. silêncio auscultatório; assimetria sugere diagnóstico alternativo.
  4. Checar uso de broncodilatador: quando foi a última dose e se houve resposta.
  5. Classificar risco e acionar fluxo: sinais de gravidade = prioridade máxima e atendimento imediato.
  6. Planejar reavaliação: se não for imediato, reavaliar em intervalos curtos (ver seção de reavaliação).

Critérios de reavaliação frequente (quando o paciente aguarda)

Queixas respiratórias exigem reavaliação programada porque a piora pode ocorrer durante a espera. Defina critérios objetivos e gatilhos de escalonamento.

Quando reavaliar

  • Imediatamente se houver qualquer piora percebida pelo paciente/acompanhante ou pela equipe.
  • A cada 5–10 minutos em pacientes com dispneia moderada, fala entrecortada, uso de musculatura acessória ou SpO2 limítrofe.
  • A cada 15–30 minutos em pacientes estáveis, falando frases completas, sem esforço importante e SpO2 adequada, mantendo vigilância para mudança de padrão.

O que reavaliar (checklist rápido)

  • Fala (frases completas vs. palavras).
  • Esforço respiratório (aumentou/diminuiu).
  • SpO2 e tendência (subindo/caindo).
  • Frequência respiratória e padrão.
  • Estado mental (agitação, sonolência).
  • Ausculta se aplicável (piora para silêncio auscultatório, assimetria nova).

Exemplos práticos de classificação de risco baseada em achados

Os exemplos abaixo usam uma lógica de priorização por gravidade (emergente, muito urgente, urgente, pouco urgente), devendo ser adaptados ao protocolo institucional (cores/tempos).

Exemplo 1 — Dispneia com sinais de falência respiratória

Achados: paciente sentado em tripé, fala em palavras, tiragem importante, cianose labial, SpO2 86% em ar ambiente. Conduta na triagem: acionar atendimento imediato, iniciar oxigênio conforme protocolo, monitorização contínua, preparar suporte avançado conforme fluxo. Classificação sugerida: Emergente.

Exemplo 2 — Asma grave com “pouco chiado”

Achados: história de asma com internação prévia, uso de broncodilatador sem melhora, fala entrecortada, sudorese, ausculta com sibilos discretos e áreas de silêncio, SpO2 91%. Conduta na triagem: atendimento muito urgente/imediato conforme protocolo, oxigênio se indicado, reavaliação muito frequente se houver espera. Classificação sugerida: Muito urgente (considerar Emergente se houver rebaixamento, exaustão ou deterioração rápida).

Exemplo 3 — Suspeita de anafilaxia

Achados: dispneia súbita após alimento, urticária difusa, edema de lábios, rouquidão, sensação de garganta fechando, SpO2 94% mas com estridor leve. Conduta na triagem: acionar atendimento emergencial imediatamente; monitorização e preparo de medicações conforme protocolo institucional. Classificação sugerida: Emergente.

Exemplo 4 — Suspeita de TEP sem instabilidade

Achados: dispneia súbita, dor pleurítica, taquicardia, SpO2 92–94%, pós-operatório recente, sem hipotensão. Conduta na triagem: priorizar avaliação rápida, monitorização, oxigênio se necessário, vigilância para instabilidade. Classificação sugerida: Muito urgente.

Exemplo 5 — Dispneia leve com estabilidade

Achados: tosse e febre baixa há 2 dias, dispneia apenas ao esforço, fala frases completas, sem uso de musculatura acessória, SpO2 96%, ausculta com estertores leves, sem dor torácica. Conduta na triagem: orientar permanência em observação de sinais de piora, reavaliação programada, encaminhar conforme fluxo. Classificação sugerida: Urgente ou Pouco urgente conforme protocolo e comorbidades.

Tabela de apoio: sinais e interpretação rápida

AchadoInterpretação na triagemAção típica
Fala em palavras / incapaz de falarDispneia grave, risco de falênciaAtendimento imediato, monitorização, suporte conforme protocolo
EstridorObstrução de via aérea superiorAcionar equipe imediatamente, minimizar manipulação, preparar via aérea
Silêncio auscultatório em asmáticoFluxo aéreo muito reduzido (grave)Prioridade máxima, intervenção rápida
SpO2 < 90% (ar ambiente) ou queda progressivaHipoxemia significativaOxigênio conforme protocolo, atendimento urgente/imediato
Assimetria ventilatória importantePneumotórax/atelectasia/obstruçãoAtendimento imediato, oxigênio, avaliação urgente
Dispneia súbita + fatores de risco TEVSuspeita de TEPPriorizar avaliação rápida, monitorização, vigilância

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Na triagem, qual interpretação e conduta é mais adequada quando um paciente com dispneia apresenta SpO2 normal, porém com sinais de esforço intenso e possível falência respiratória?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A SpO2 é marcador de oxigenação, não de ventilação. Mesmo normal, pode haver fadiga, estridor, uso intenso de musculatura acessória ou silêncio auscultatório. Deve-se correlacionar com sinais clínicos, checar qualidade do sinal e definir prioridade e reavaliação frequente conforme protocolo.

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