Dor Torácica e Sintomas Cardiovasculares na Triagem: Priorização e Condutas Iniciais

Capítulo 10

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Objetivo da triagem em dor torácica e sintomas cardiovasculares

Na triagem, dor torácica, palpitações e sintomas cardiovasculares associados exigem foco em identificar rapidamente condições tempo-dependentes e direcionar o paciente para ECG e avaliação médica imediata quando indicado. A prioridade não depende apenas da intensidade da dor: depende do padrão clínico, dos sintomas associados, dos fatores de risco e do uso de medicações (incluindo anticoagulantes e drogas vasoativas).

Como caracterizar a dor torácica de forma segura (sem omissões)

1) Características essenciais da dor (o que muda prioridade)

  • Início: súbito (segundos/minutos) vs. gradual; início em repouso; início durante esforço.
  • Duração: contínua > 20 minutos sugere maior risco isquêmico; dor muito breve (segundos) é menos típica de isquemia, mas não exclui risco se houver red flags.
  • Localização: retroesternal/hemitorax; dor dorsal/entre escápulas (atenção para dissecção).
  • Irradiação: braço esquerdo/direito, mandíbula, dorso, epigástrio.
  • Qualidade: pressão, aperto, queimação, peso (mais típica de isquemia); “rasgando”/“lancinante” (dissecção); pleurítica (piora ao respirar/tossir) pode sugerir TEP/pericardite, mas também ocorre em outras causas.
  • Fatores de melhora/piora: esforço, estresse, frio; piora com inspiração (pleurítica); piora com decúbito e melhora ao sentar inclinado (padrão pericárdico).
  • Resposta a medicações: melhora com nitrato não confirma IAM; ausência de melhora não exclui. Registrar o que foi usado e quando.

2) Sintomas associados que elevam prioridade

Na triagem, a presença de qualquer um dos itens abaixo deve ser registrada e pode mudar a prioridade imediatamente:

  • Dispneia (principalmente em repouso ou progressiva).
  • Sudorese fria, palidez, náuseas/vômitos.
  • Síncope ou pré-síncope, tontura intensa.
  • Palpitações com mal-estar, dor, dispneia ou desmaio.
  • Fraqueza intensa, sensação de morte iminente.
  • Déficit neurológico associado (pode ocorrer em dissecção com comprometimento de ramos).

3) Fatores de risco e contexto clínico (perguntas rápidas e direcionadas)

  • Cardiovasculares: hipertensão, diabetes, dislipidemia, tabagismo, doença coronariana prévia, AVC, insuficiência cardíaca, doença renal.
  • História recente: cirurgia/trauma recente, imobilização, viagem longa, puerpério/gestação, câncer ativo (aumentam risco de TEP).
  • História de aorta: aneurisma/dissecção prévia, síndrome de Marfan, uso de cocaína/estimulantes, hipertensão grave.
  • Infecções/Inflamação: febre recente, quadro viral (pericardite/miocardite podem cursar com dor e palpitações).

4) Medicações e substâncias (impacto direto na conduta)

  • Anticoagulantes/antiagregantes (varfarina, DOACs, AAS, clopidogrel): aumentam risco de sangramento e influenciam decisões.
  • Betabloqueadores, antiarrítmicos, diuréticos: podem mascarar taquicardia ou alterar apresentação.
  • Uso recente de nitrato e horário da última dose.
  • Inibidores de PDE5 (ex.: sildenafil/tadalafil nas últimas 24–48h): informação crítica se houver possibilidade de nitrato na linha de cuidado.
  • Drogas estimulantes (cocaína, anfetaminas, energéticos em excesso): associadas a isquemia/vasoespasmo e arritmias.

Critérios de alta prioridade: o que a triagem deve reconhecer

Suspeita de IAM/SCA (síndrome coronariana aguda)

Priorizar alto risco quando houver dor torácica típica ou equivalente isquêmico (ex.: dispneia, sudorese, náuseas) especialmente com fatores de risco, idade avançada ou história coronariana.

  • Dor em pressão/aperte retroesternal, com irradiação, duração significativa, em repouso ou com esforço mínimo.
  • Associados: dispneia, sudorese fria, náuseas, síncope, palidez.
  • Apresentações atípicas (mais comuns em idosos, diabéticos e mulheres): desconforto epigástrico, fadiga intensa, dispneia isolada.

Suspeita de dissecção aguda de aorta

  • Dor de início súbito, muito intensa, frequentemente descrita como “rasgando”, com irradiação para dorso/entre escápulas.
  • Hipertensão importante ou história de aneurisma/aortopatia.
  • Assimetria de pulsos/pressão entre membros (se identificado na triagem), déficit neurológico, síncope.

Suspeita de TEP (tromboembolismo pulmonar)

  • Dispneia súbita, dor torácica pleurítica, taquicardia, hemoptise (quando presente).
  • Fatores de risco: imobilização, cirurgia recente, câncer, gestação/puerpério, trombose prévia.
  • Síncope ou hipotensão sugerem gravidade elevada.

Suspeita de tamponamento cardíaco

  • Dispneia, desconforto torácico, fraqueza intensa, síncope/presíncope.
  • História sugestiva: pericardite, neoplasia, procedimento cardíaco recente, trauma.
  • Instabilidade hemodinâmica (se presente) eleva prioridade imediatamente.

Encaminhamento rápido para ECG: como operacionalizar na triagem

Quando acionar ECG imediato (fluxo rápido)

Encaminhar para ECG conforme fluxo institucional sempre que houver:

  • Dor torácica atual ou nas últimas horas com características sugestivas de isquemia.
  • Equivalentes isquêmicos: dispneia inexplicada, sudorese fria, náuseas/vômitos com mal-estar, síncope/presíncope.
  • Palpitações com instabilidade, dor torácica, dispneia, síncope, ou frequência muito elevada referida pelo paciente.
  • Paciente de alto risco (coronariopata conhecido, múltiplos fatores de risco) mesmo com sintomas menos típicos.

Passo a passo prático (triagem + fluxo de ECG)

  1. Identifique a queixa principal: dor torácica, palpitações, “aperto no peito”, “queimação”, “falta de ar com dor”, “coração disparado”.
  2. Faça perguntas-chave em 60–90 segundos (checklist abaixo) enquanto observa aparência geral e tolerância à fala.
  3. Classifique prioridade com base em padrão clínico e associados (não apenas intensidade).
  4. Acione ECG conforme protocolo: encaminhe imediatamente para realização e registro do horário do início dos sintomas e do ECG.
  5. Garanta segurança no trajeto: se o paciente estiver muito sintomático (dispneia importante, pré-síncope, palidez intensa), não deixar desacompanhado; use cadeira de rodas/maca conforme necessidade.
  6. Registre de forma completa: início dos sintomas, características, associados, fatores de risco, medicações e substâncias, e o horário do encaminhamento para ECG.

Palpitações na triagem: diferenciação rápida e sinais de gravidade

O que perguntar para palpitações

  • Início: súbito vs. gradual; duração; episódios prévios.
  • Ritmo percebido: “regular e rápido” vs. “irregular”; sensação de pausas.
  • Gatilhos: esforço, estresse, cafeína/energéticos, álcool, drogas estimulantes.
  • Associados: dor torácica, dispneia, tontura, síncope, fraqueza intensa.
  • História: arritmia conhecida, cardiopatia estrutural, tireoide, uso de antiarrítmicos.

Quando palpitações viram alta prioridade

  • Palpitações com síncope/presíncope.
  • Palpitações com dor torácica ou dispneia.
  • Início súbito com mal-estar intenso, palidez, sudorese.
  • Paciente com cardiopatia conhecida e piora do padrão habitual.

Checklist de perguntas e registro (para reduzir omissões críticas)

Use como roteiro de triagem e como estrutura de anotação. Pode ser aplicado em dor torácica e adaptado para palpitações.

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DomínioPerguntas objetivasComo registrar
Início e tempoQuando começou? Foi súbito? Está acontecendo agora? Quanto tempo durou/dura?Início: __:__ (há __ min/horas), súbito/gradual, atual: sim/não
Local e irradiaçãoOnde dói? Irradia para braço/mandíbula/dorso/epigástrio?Local: __; irradiação: __
QualidadeÉ aperto/pressão/queimação/pontada/rasgando?Qualidade: __
Intensidade e evoluçãoEstá piorando, melhorando ou igual? Teve pico máximo no início?Evolução: piora/melhora/estável; pico no início: sim/não
Fatores de piora/melhoraPiora com esforço? Piora ao respirar? Melhora ao sentar inclinado? Usou algo?Desencadeantes: __; alívio: __; medicação usada: __ às __:__
AssociadosFalta de ar? Sudorese fria? Náuseas/vômitos? Tontura? Desmaio? Hemoptise?Associados: dispneia (sim/não), sudorese (sim/não), síncope (sim/não), hemoptise (sim/não)
Risco cardiovascularHAS/DM/dislipidemia/tabagismo? Infarto/angioplastia? IC? DRC?FR: HAS __; DM __; tabagismo __; DAC prévia __
Risco tromboembólicoCirurgia/trauma recente? Imobilização/viagem longa? Câncer? Gestação/puerpério? TVP prévia?Risco TEP: cirurgia __; imobilização __; câncer __; gest/puerp __
Medicações e substânciasAnticoagulante/antiagregante? Betabloqueador? Usou sildenafil/tadalafil? Cocaína/estimulantes?Meds: AAS/clopidogrel __; anticoag __; PDE5i __; estimulantes __
EncaminhamentoECG foi acionado? Horário? Para onde foi encaminhado?ECG acionado: sim/não às __:__; destino: __

Exemplos práticos de priorização na triagem (cenários)

Cenário 1: dor típica com sudorese

Queixa: “Aperto no peito há 40 minutos, irradiando para braço esquerdo, com suor frio e náusea.” Conduta na triagem: alta prioridade, acionar ECG imediato conforme fluxo, registrar horário de início e sintomas associados, encaminhar sem espera.

Cenário 2: dor súbita dorsal em hipertenso

Queixa: “Dor muito forte nas costas, começou de repente, nunca senti igual.” Contexto: hipertensão e dor máxima no início. Conduta na triagem: alta prioridade por suspeita de dissecção, encaminhamento imediato para avaliação e fluxos internos; ECG pode ser necessário, mas não deve atrasar encaminhamento rápido conforme protocolo.

Cenário 3: dispneia súbita com dor pleurítica e risco tromboembólico

Queixa: “Falta de ar de repente e dor que piora ao respirar.” Contexto: pós-operatório recente/viagem longa. Conduta na triagem: alta prioridade por suspeita de TEP, registrar fatores de risco e início, encaminhar rapidamente para avaliação médica e exames conforme fluxo.

Cenário 4: palpitações com pré-síncope

Queixa: “Coração disparou do nada e quase desmaiei.” Conduta na triagem: alta prioridade, ECG conforme fluxo, registrar duração, regularidade percebida, gatilhos e uso de estimulantes/medicações.

Modelo de registro enxuto (exemplo pronto para prontuário)

Queixa: dor torácica/palpitações. Início: __:__ (há __). Padrão: súbito/gradual; duração: __; local: __; irradiação: __; qualidade: __; evolução: __; piora/melhora: __. Associados: dispneia __; sudorese __; náuseas/vômitos __; síncope/presíncope __; hemoptise __. FR CV: HAS __ DM __ tabagismo __ DAC prévia __. Risco TEP: cirurgia/viagem/imobilização/câncer/gest-puerp __. Medicações: AAS/antiagreg __; anticoag __; betabloq/antiarr __; PDE5i __; estimulantes/cocaína __. ECG: acionado sim/não às __:__. Encaminhamento: __.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Na triagem de um paciente com dor torácica, qual conduta inicial melhor reflete a priorização correta conforme risco, e não apenas pela intensidade da dor?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A prioridade na dor torácica depende do padrão clínico, sintomas associados, fatores de risco e medicações/substâncias. Na presença de suspeita de condição tempo-dependente, deve-se acionar ECG e avaliação médica imediata conforme protocolo.

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