Como pensar queixas neurológicas na triagem
Queixas neurológicas exigem triagem orientada por tempo e por risco de lesão cerebral aguda. Três apresentações concentram grande parte das decisões críticas: suspeita de AVC, crise convulsiva (especialmente no pós-crise) e cefaleia com sinais de alerta. O objetivo é identificar rapidamente quem precisa de atendimento imediato, acionar fluxos tempo-dependentes e reduzir atrasos para exames e terapias.
Suspeita de AVC: rastreio objetivo e prioridade tempo-dependente
O que caracteriza suspeita de AVC na triagem
Suspeite de AVC diante de início súbito (ou horário incerto) de sinais neurológicos focais, como: fraqueza ou dormência em face/braço/perna (geralmente unilateral), alteração de fala (disartria/afasia), desvio de rima, perda visual súbita, desequilíbrio/ataxia súbita, ou rebaixamento de consciência sem outra explicação evidente. Na triagem, a prioridade é definir rapidamente: (1) se há déficit focal, (2) quando começou, (3) qual foi a última vez visto bem (Last Known Well).
Rastreio rápido recomendado (FAST/BE-FAST)
Use um rastreio simples e reprodutível para padronizar a suspeita:
- FAST: Face (assimetria facial), Arm (queda de braço), Speech (fala alterada), Time (tempo de início/LKW).
- BE-FAST: adiciona Balance (desequilíbrio) e Eyes (alteração visual súbita).
Como aplicar em 30–60 segundos:
- Face: peça para sorrir e observar desvio.
- Arms: peça para elevar ambos os braços por 10 segundos e observar queda unilateral.
- Speech: peça para repetir uma frase simples e observar troca de palavras, dificuldade de compreensão ou fala enrolada.
- Balance/Eyes: pergunte sobre vertigem incapacitante súbita, queda, visão turva súbita, perda de campo visual ou diplopia.
Tempo: início dos sintomas e “última vez visto bem”
O horário é parte do diagnóstico operacional na triagem. Registre sempre em formato claro (HH:MM) e com fonte da informação (paciente, familiar, SAMU):
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- Início dos sintomas: quando o paciente percebeu o primeiro sintoma neurológico.
- Última vez visto bem (LKW): último momento em que estava sem sintomas. Em casos ao acordar com déficit, o LKW costuma ser a hora em que foi dormir assintomático.
Exemplos práticos:
- Paciente acorda 06:30 com fraqueza no braço direito; dormiu bem às 23:00. LKW = 23:00.
- Paciente em casa, fala “embolada” às 14:10 observada pela filha. Início = 14:10 (se antes estava normal).
Passo a passo prático na triagem de AVC
- Identificar sinais focais com FAST/BE-FAST e registrar achados objetivos.
- Determinar tempo: início e LKW, além de evolução (melhorando, piorando, flutuante).
- Checar glicemia capilar rapidamente, pois hipoglicemia pode simular AVC e exige correção imediata.
- Verificar uso de anticoagulantes/antiagregantes (varfarina, DOACs, AAS, clopidogrel) e comorbidades relevantes (AVC prévio, fibrilação atrial).
- Registrar sinais associados que aumentam gravidade: rebaixamento de consciência, vômitos em jato, cefaleia súbita intensa, crise convulsiva associada, pressão arterial muito elevada com sintomas neurológicos.
- Acionar fluxo institucional de AVC (via protocolo local): comunicação imediata com equipe médica/neurologia e priorização para imagem conforme rotina do serviço.
- Manter segurança clínica: jejum até avaliação de deglutição quando aplicável; monitorização conforme disponibilidade; evitar atrasos para transporte interno.
Erros comuns a evitar na suspeita de AVC
- Não registrar LKW ou registrar apenas “há algumas horas”.
- Subestimar sintomas transitórios (déficit que melhorou) — pode ser AIT e ainda requer prioridade.
- Atribuir a “ansiedade” sem rastreio objetivo e sem glicemia capilar.
- Focar apenas em PA elevada e perder o foco no déficit focal e no tempo.
Crises convulsivas: avaliação pós-crise e critérios de gravidade
O que a triagem precisa definir
Na chegada após uma crise, a triagem deve diferenciar: (1) paciente já recuperado e estável no pós-ictal, (2) crise em curso ou recorrente, (3) sinais de causa secundária grave (trauma, infecção do SNC, distúrbio metabólico, intoxicação). A prioridade é reconhecer gravidade e necessidade de atendimento imediato.
Perguntas essenciais (roteiro rápido)
- Foi a primeira crise da vida? Primeira crise em adulto é alerta importante.
- Duração: quanto tempo durou a crise observada? Houve crises repetidas sem recuperação completa?
- Recuperação: já voltou ao estado basal? Quanto tempo está confuso/sonolento?
- Trauma: queda, batida na cabeça, mordedura de língua, incontinência, dor cervical.
- Febre ou sinais infecciosos recentes.
- Uso/adesão a anticonvulsivantes e última dose; uso de álcool/drogas; abstinência.
- Gestação/puerpério (considerar eclâmpsia conforme contexto).
Critérios de gravidade (prioridade imediata)
Considere alta prioridade e acione atendimento imediato se houver qualquer um dos seguintes:
- Crise em curso na chegada ou recorrência sem recuperação completa entre episódios (suspeita de estado de mal).
- Duração prolongada (ex.: ≥ 5 minutos) ou múltiplas crises em curto intervalo.
- Rebaixamento de consciência persistente além do esperado para o pós-ictal, ou piora progressiva.
- Déficit neurológico focal após a crise (ex.: hemiparesia, afasia) — considerar AVC/lesão estrutural.
- Trauma significativo associado (queda com impacto, sangramento, suspeita de TCE).
- Hipoglicemia ou outras alterações metabólicas suspeitas (vômitos, desidratação, uso de insulina, etilismo).
- Febre + rigidez de nuca ou sinais de infecção do SNC.
- Gestante/puerpério com crise (risco obstétrico).
- Comprometimento respiratório, cianose, saturação baixa, aspiração.
Passo a passo prático no pós-crise (quando o paciente já não está convulsionando)
- Confirmar que a crise cessou e observar padrão respiratório e proteção de via aérea.
- Checar glicemia capilar precocemente.
- Identificar lesões: língua, face, crânio; avaliar dor e sinais de trauma.
- Avaliar retorno ao basal: orientação, fala, força, marcha (se seguro), comportamento. Registrar tempo de pós-ictal.
- Investigar gatilhos: falha de medicação, privação de sono, álcool, infecção, drogas.
- Determinar necessidade de prioridade imediata com base nos critérios de gravidade acima e acionar equipe.
- Segurança: manter em posição lateral se sonolento, reduzir risco de queda, não oferecer via oral até estar plenamente alerta e com deglutição segura.
Como documentar de forma útil
- “Crise tônico-clônica generalizada observada por familiar, duração aproximada 2 min, pós-ictal com confusão por 15 min, agora orientado, sem déficit focal, glicemia 98 mg/dL, sem trauma aparente.”
- “Chegou convulsionando, início há 7 min segundo SAMU, sem recuperação entre episódios, cianose transitória, glicemia 54 mg/dL.”
Cefaleia na triagem: red flags e condutas imediatas de segurança
Objetivo da triagem na cefaleia
A maioria das cefaleias é primária, mas a triagem deve identificar rapidamente sinais de cefaleia secundária potencialmente grave (hemorragia subaracnoide, meningite/encefalite, hipertensão intracraniana, trombose venosa cerebral, arterite temporal, entre outras). O foco é reconhecer red flags, priorizar atendimento e iniciar medidas de segurança.
Red flags (sinais de alerta) que mudam a prioridade
- Início súbito (em segundos/minutos) ou “pior cefaleia da vida”.
- Febre e/ou rigidez de nuca, fotofobia intensa, alteração do estado mental.
- Imunossupressão (HIV avançado, quimioterapia, uso crônico de corticoide/imunobiológicos, transplantado).
- Déficit neurológico focal (fraqueza, alteração de fala, perda visual, ataxia), convulsão associada ou rebaixamento de consciência.
- Progressão rápida ou mudança importante do padrão habitual (nova cefaleia diferente do “padrão” do paciente).
Perguntas rápidas que ajudam a estratificar risco
- Início: “Começou de repente ou foi aumentando?” “Em quanto tempo atingiu o pico?”
- Intensidade e padrão: é a pior da vida? é diferente das anteriores?
- Sintomas associados: febre, rigidez, vômitos persistentes, fotofobia, síncope, convulsão.
- Neurológico: fraqueza, dormência, fala, visão, equilíbrio.
- Condições de risco: imunossupressão, gestação/puerpério, anticoagulantes (aumentam risco hemorrágico), câncer.
Passo a passo prático na triagem de cefaleia com suspeita de gravidade
- Identificar red flags e registrar quais estão presentes (não apenas “cefaleia intensa”).
- Checar sinais associados críticos: febre, rigidez de nuca, alteração do estado mental, déficit focal.
- Verificar glicemia capilar se houver alteração de consciência, sintomas autonômicos importantes ou dúvida diagnóstica.
- Revisar medicações e riscos: anticoagulantes/antiagregantes, imunossupressores.
- Priorizar atendimento e encaminhar imediatamente para avaliação médica quando houver qualquer red flag.
- Condutas imediatas de segurança: manter em ambiente calmo e com baixa estimulação se fotofobia; prevenir quedas se tontura; não oferecer via oral se houver rebaixamento de consciência ou vômitos intensos; monitorar conforme disponibilidade do serviço.
Exemplos de classificação prática (cenários)
| Cenário na triagem | Achados-chave | Interpretação prática |
|---|---|---|
| Cefaleia súbita, pico em 1 minuto | “Pior da vida”, náuseas/vômitos, possível rigidez | Red flag forte: prioridade imediata e fluxo rápido para avaliação e imagem conforme protocolo |
| Cefaleia + febre + rigidez de nuca | Alteração de comportamento ou sonolência | Suspeita de infecção do SNC: prioridade imediata e isolamento/precauções conforme rotina |
| Cefaleia em imunossuprimido | Nova, progressiva, com mal-estar | Baixo limiar para alta prioridade e investigação |
| Cefaleia com déficit focal | Fraqueza, fala alterada, visão | Tratar como evento neurológico agudo: considerar AVC e acionar fluxo tempo-dependente |
Checklist de documentação rápida (para reduzir perda de informação)
AVC suspeito
- Sinais focais (FAST/BE-FAST):
Face ___ / Arm ___ / Speech ___ / Balance ___ / Eyes ___ - Horário de início:
__ : __| LKW:__ : __| Fonte:paciente/familiar/SAMU - Glicemia capilar:
___ mg/dL - Anticoagulantes/antiagregantes:
sim/não(quais)
Pós-crise convulsiva
- Primeira crise?
sim/não| Duração:___| Recorrência:sim/não - Pós-ictal: tempo e estado atual (orientado? sonolento?)
- Trauma associado:
sim/não| Glicemia:___ mg/dL
Cefaleia
- Início súbito/pior da vida:
sim/não - Febre/rigidez de nuca:
sim/não - Imunossupressão:
sim/não - Déficit neurológico/convulsão:
sim/não