Conceito e objetivo na triagem
Na triagem, “abdome agudo” e queixas gastrointestinais (dor abdominal, vômitos, diarreia e sangramento digestivo) exigem uma abordagem dirigida para identificar rapidamente: (1) risco de condição cirúrgica/vascular/infecciosa grave, (2) risco de choque e desidratação, (3) risco metabólico (hipoglicemia, distúrbios hidroeletrolíticos, cetoacidose, insuficiência renal aguda) e (4) necessidade de intervenções imediatas (acesso venoso, antiemético conforme protocolo, coleta de exames, monitorização).
O foco do enfermeiro na triagem é caracterizar a queixa, reconhecer sinais de gravidade e organizar o fluxo assistencial conforme protocolos institucionais (prioridade, sala de emergência, observação, encaminhamento médico imediato).
Anamnese dirigida: roteiro prático por sintoma
1) Dor abdominal
Use um roteiro curto e objetivo, priorizando elementos que mudam a classificação de risco.
- Início e evolução: quando começou? súbita ou gradual? piora progressiva?
- Localização e migração: onde dói mais? migrou (ex.: periumbilical para FID)?
- Caráter e intensidade: cólica, queimação, pontada, “em faixa”, contínua? intensidade atual (0–10) e pico.
- Fatores associados: náuseas/vômitos, diarreia, constipação, febre, anorexia, distensão, incapacidade de eliminar gases/fezes, disúria, corrimento, sangramento vaginal, dor lombar.
- Relação com alimentação e evacuação: piora após refeições? melhora após evacuar? dor ao deambular/tossir?
- História pregressa relevante: cirurgias abdominais (aderências/obstrução), úlcera, colelitíase, pancreatite, DII, hérnias, aneurisma, uso de AINE/anticoagulante, etilismo.
- Risco gineco-obstétrico: data da última menstruação, possibilidade de gestação, dor pélvica, sangramento vaginal, corrimento, uso de DIU.
2) Vômitos
- Início e frequência: quantos episódios? consegue manter líquidos?
- Conteúdo: alimentar, bilioso (verde), fecaloide, com sangue vivo ou “borra de café”.
- Associação: dor abdominal, cefaleia intensa, febre, rigidez de nuca, vertigem, diarreia.
- Risco de aspiração: rebaixamento de consciência, vômitos incoercíveis, fraqueza intensa.
- Medicamentos e toxinas: antibióticos, quimioterápicos, álcool, ingestão suspeita, uso de cannabis (hiperêmese canabinoide).
3) Diarreia
- Duração e volume: início, número de evacuações/dia, fezes aquosas volumosas?
- Aspecto: muco, sangue, fezes negras (melena), esteatorreia.
- Sintomas associados: febre, dor intensa, tenesmo, sinais de desidratação.
- Exposição: alimentos de risco, água não tratada, viagem, contato com doentes, uso recente de antibiótico (risco de colite associada a antibiótico).
- Comorbidades: imunossupressão, DRC, diabetes, idosos frágeis.
4) Sangramento digestivo (alto/baixo)
- Tipo: hematêmese (vômito com sangue), “borra de café”, melena (fezes negras), hematoquezia (sangue vivo nas fezes).
- Quantidade e evolução: pequeno/recorrente vs volumoso; presença de coágulos; episódios repetidos.
- Sintomas de hipoperfusão: tontura, síncope, fraqueza, palpitações, dispneia.
- Fatores de risco: anticoagulantes/antiagregantes, hepatopatia/cirrose (varizes), AINE, história de úlcera, sangramento prévio.
Sinais de gravidade e “gatilhos” para alta prioridade
Na triagem, alguns achados mudam imediatamente a prioridade e indicam avaliação médica urgente e/ou sala de emergência conforme protocolo.
Achados abdominais de alto risco
- Defesa/rigidez abdominal (sugere irritação peritoneal).
- Dor desproporcional ao exame (suspeitar isquemia mesentérica, especialmente em idosos, fibrilação atrial, aterosclerose).
- Distensão importante com vômitos e ausência de eliminação de gases/fezes (suspeita de obstrução).
- Dor súbita intensa com palidez, sudorese, colapso (considerar causas vasculares/hemorrágicas).
- Massa pulsátil abdominal ou dor lombar/abdominal intensa em idoso (suspeita de aneurisma de aorta abdominal).
Sinais sistêmicos de gravidade
- Síncope ou pré-síncope associada a dor abdominal ou sangramento.
- Sangramento volumoso (hematêmese importante, melena com instabilidade, hematoquezia com sinais de choque).
- Sinais de choque/hipoperfusão: extremidades frias, sudorese, palidez, enchimento capilar lento, confusão, oligúria, taquicardia importante, hipotensão (conforme parâmetros institucionais).
- Vômitos incoercíveis com incapacidade de hidratar-se.
- Febre alta com dor abdominal intensa e prostração (considerar sepse de foco abdominal).
Exemplos de “combinações” que elevam prioridade
- Dor epigástrica intensa + vômitos persistentes + desidratação (risco metabólico e necessidade de hidratação venosa).
- Melena + tontura ao levantar (risco de sangramento significativo).
- Dor difusa intensa + exame pouco expressivo em idoso (pensar em isquemia mesentérica).
- Dor em FID + febre + anorexia (suspeita de apendicite; priorizar avaliação).
Situações especiais: como ajustar a triagem
Idosos
- Apresentação atípica: podem ter pouca febre, pouca dor e ainda assim doença grave.
- Maior risco de desidratação e insuficiência renal aguda com vômitos/diarreia.
- Risco vascular: dor desproporcional, fibrilação atrial, aterosclerose.
- Polifarmácia: anticoagulantes aumentam gravidade do sangramento; diuréticos podem agravar desidratação.
Gestantes
- Considerar causas obstétricas e não obstétricas: dor abdominal pode ser gastrointestinal, urinária ou ginecológica.
- Sinais de alerta: dor abdominal com sangramento vaginal, síncope, dor pélvica intensa, ombro doloroso (sugere irritação diafragmática em sangramento intra-abdominal).
- Hiperêmese gravídica: vômitos persistentes com perda ponderal, cetonúria (quando aplicável), desidratação.
- Priorizar avaliação rápida e seguir fluxo institucional para obstetrícia quando indicado.
Avaliação de hidratação: checklist rápido na triagem
Em queixas gastrointestinais, a gravidade frequentemente está ligada à perda de volume e eletrólitos. Faça uma avaliação estruturada e documente.
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Sinais clínicos úteis
- Ingesta e diurese: consegue ingerir líquidos? última micção? volume reduzido?
- Mucosas: secas? saliva espessa?
- Olhos: encovados (especialmente em crianças, quando aplicável ao serviço).
- Pele: turgor diminuído (interpretar com cautela em idosos).
- Perfusão periférica: extremidades frias, enchimento capilar lento.
- Ortostatismo: tontura ao levantar, fraqueza (se protocolo permitir aferição ortostática).
- Estado mental: irritabilidade, sonolência, confusão (pode indicar hipoperfusão/alterações metabólicas).
Classificação prática (orientativa)
| Grau suspeito | Achados comuns | Implicação na triagem |
|---|---|---|
| Leve | Sede, mucosa levemente seca, diurese preservada | Orientar hidratação oral se tolerada e manter vigilância |
| Moderada | Taquicardia, mucosas secas, diurese reduzida, tontura | Considerar acesso venoso conforme protocolo e reavaliação frequente |
| Grave | Letargia/confusão, perfusão ruim, hipotensão/choque, anúria | Atendimento imediato, monitorização e reposição volêmica conforme prescrição/protocolo |
Risco metabólico: quando suspeitar e o que perguntar
Vômitos e diarreia podem precipitar distúrbios hidroeletrolíticos e acidobásicos. Alguns quadros “imitam” gastroenterite, mas são metabólicos.
Triagem dirigida para risco metabólico
- Diabetes: polidipsia/poliúria prévias, perda de peso, hálito cetônico, respiração profunda, glicemias elevadas em casa, uso irregular de insulina (suspeitar cetoacidose).
- Doença renal: risco de hipercalemia e piora rápida com desidratação.
- Uso de diuréticos/laxantes: risco de hipocalemia e arritmias.
- Vômitos prolongados: risco de alcalose metabólica e hipocloremia.
- Diarreia volumosa: risco de acidose metabólica e hipocalemia.
Quando disponível e previsto em protocolo, glicemia capilar pode ser um dado crítico em pacientes com vômitos, prostração, confusão, taquipneia ou história de diabetes.
Passo a passo prático: fluxo de triagem para dor abdominal e queixas GI
Passo 1 — Identificar queixa principal e “pior sinal”
Defina em uma frase: “dor abdominal + vômitos”, “diarreia com sangue”, “hematêmese”, etc. Em seguida, procure ativamente o pior sinal associado: síncope, sangramento volumoso, sinais de choque, defesa/rigidez, dor desproporcional.
Passo 2 — Perguntas-chave (30–60 segundos)
- Quando começou? Está piorando?
- Consegue ingerir líquidos? Quantas vezes vomitou/evacuou?
- Tem sangue no vômito ou nas fezes? Fezes negras?
- Teve desmaio/tontura importante?
- Onde dói mais? A dor é “fora do comum” para você?
- É idoso, gestante, diabético, renal crônico, anticoagulado?
Passo 3 — Exame focado na triagem (sem aprofundar exame físico completo)
- Inspeção: palidez, sudorese, prostração, distensão abdominal.
- Palpação suave quando aplicável: dor localizada intensa, defesa/rigidez (se presente, interromper e priorizar fluxo).
- Perfusão: extremidades, enchimento capilar, nível de hidratação.
- Observação de vômito/fezes se disponíveis (cor, presença de sangue).
Passo 4 — Decidir prioridade e necessidade de intervenções imediatas
Com base nos achados, direcione para atendimento imediato/urgente conforme protocolo institucional. Em pacientes com sinais de hipoperfusão, sangramento significativo, vômitos incoercíveis ou suspeita de abdome agudo cirúrgico/vascular, antecipe necessidades: monitorização, acesso venoso, coleta de exames e preparo para imagem, conforme rotinas locais.
Passo 5 — Acesso venoso e exames: quando considerar (conforme protocolo)
A indicação exata varia por instituição, mas na prática de triagem costuma ser considerada quando há instabilidade, desidratação moderada/grave, sangramento digestivo, vômitos persistentes, suspeita de abdome agudo cirúrgico ou risco metabólico.
- Acesso venoso periférico: considerar em desidratação moderada/grave, vômitos incoercíveis, sangramento, necessidade provável de analgesia/antiemético EV, coleta seriada.
- Exames laboratoriais frequentemente associados a protocolos: hemograma (sangramento/infeção), eletrólitos e função renal (vômitos/diarreia/desidratação), glicemia (risco metabólico), gasometria/lactato quando suspeita de hipoperfusão/isquemia, amilase/lipase em dor epigástrica sugestiva, beta-hCG em mulheres em idade fértil quando indicado.
- Tipagem e provas de compatibilidade quando sangramento digestivo significativo é suspeito (conforme fluxo local).
Passo 6 — Reavaliação na sala de espera/observação
Queixas GI podem deteriorar rapidamente. Programe reavaliação conforme risco: piora da dor, novos episódios de vômito/diarreia, aparecimento de sangue, sinais de desidratação progressiva, alteração do estado mental ou queda de perfusão devem gerar reclassificação.
Exemplos práticos de aplicação na triagem
Caso 1: dor abdominal com defesa
Queixa: dor súbita em abdome inferior, piora ao caminhar, náuseas. Achado: defesa à palpação suave. Conduta de triagem: priorizar atendimento médico imediato conforme protocolo; preparar acesso venoso e coleta conforme rotina; manter jejum até avaliação.
Caso 2: vômitos incoercíveis e sinais de desidratação
Queixa: 12 episódios de vômito em 8 horas, não tolera líquidos. Achados: mucosas secas, tontura ao levantar, diurese reduzida. Conduta de triagem: classificar como maior urgência que casos leves; considerar acesso venoso e exames de eletrólitos/função renal conforme protocolo; monitorar resposta clínica.
Caso 3: sangramento digestivo com sintomas de hipoperfusão
Queixa: fezes negras desde ontem, hoje com fraqueza e quase desmaio. Achados: palidez, sudorese, perfusão periférica ruim. Conduta de triagem: atendimento imediato; priorizar monitorização, acesso venoso calibroso conforme rotina, coleta para hemograma e tipagem se indicado, e comunicação rápida com equipe médica.
Caso 4: idoso com dor “estranha” e exame pouco expressivo
Queixa: dor abdominal difusa intensa, início súbito, sem vômitos importantes. Achados: abdome sem grande defesa, mas paciente muito álgico e ansioso. Conduta de triagem: valorizar “dor desproporcional”; elevar prioridade e sinalizar suspeita de causa vascular/metabólica; considerar exames e monitorização conforme protocolo.
Documentação essencial na triagem (para continuidade do cuidado)
- Início, localização e intensidade da dor; presença de migração.
- Número de episódios de vômito/diarreia e capacidade de hidratação oral.
- Presença e tipo de sangramento (hematêmese, melena, hematoquezia) e estimativa de volume.
- Sinais de desidratação e perfusão; diurese recente.
- Comorbidades e medicamentos de risco (anticoagulantes, AINE, diuréticos, insulina).
- Situações especiais: idade avançada, gestação suspeita/confirmada.
- Intervenções realizadas conforme protocolo (ex.: acesso venoso, glicemia capilar, coleta de exames) e horário.