Abdome Agudo e Queixas Gastrointestinais na Triagem: Dor, Vômitos e Sinais de Desidratação

Capítulo 12

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

Conceito e objetivo na triagem

Na triagem, “abdome agudo” e queixas gastrointestinais (dor abdominal, vômitos, diarreia e sangramento digestivo) exigem uma abordagem dirigida para identificar rapidamente: (1) risco de condição cirúrgica/vascular/infecciosa grave, (2) risco de choque e desidratação, (3) risco metabólico (hipoglicemia, distúrbios hidroeletrolíticos, cetoacidose, insuficiência renal aguda) e (4) necessidade de intervenções imediatas (acesso venoso, antiemético conforme protocolo, coleta de exames, monitorização).

O foco do enfermeiro na triagem é caracterizar a queixa, reconhecer sinais de gravidade e organizar o fluxo assistencial conforme protocolos institucionais (prioridade, sala de emergência, observação, encaminhamento médico imediato).

Anamnese dirigida: roteiro prático por sintoma

1) Dor abdominal

Use um roteiro curto e objetivo, priorizando elementos que mudam a classificação de risco.

  • Início e evolução: quando começou? súbita ou gradual? piora progressiva?
  • Localização e migração: onde dói mais? migrou (ex.: periumbilical para FID)?
  • Caráter e intensidade: cólica, queimação, pontada, “em faixa”, contínua? intensidade atual (0–10) e pico.
  • Fatores associados: náuseas/vômitos, diarreia, constipação, febre, anorexia, distensão, incapacidade de eliminar gases/fezes, disúria, corrimento, sangramento vaginal, dor lombar.
  • Relação com alimentação e evacuação: piora após refeições? melhora após evacuar? dor ao deambular/tossir?
  • História pregressa relevante: cirurgias abdominais (aderências/obstrução), úlcera, colelitíase, pancreatite, DII, hérnias, aneurisma, uso de AINE/anticoagulante, etilismo.
  • Risco gineco-obstétrico: data da última menstruação, possibilidade de gestação, dor pélvica, sangramento vaginal, corrimento, uso de DIU.

2) Vômitos

  • Início e frequência: quantos episódios? consegue manter líquidos?
  • Conteúdo: alimentar, bilioso (verde), fecaloide, com sangue vivo ou “borra de café”.
  • Associação: dor abdominal, cefaleia intensa, febre, rigidez de nuca, vertigem, diarreia.
  • Risco de aspiração: rebaixamento de consciência, vômitos incoercíveis, fraqueza intensa.
  • Medicamentos e toxinas: antibióticos, quimioterápicos, álcool, ingestão suspeita, uso de cannabis (hiperêmese canabinoide).

3) Diarreia

  • Duração e volume: início, número de evacuações/dia, fezes aquosas volumosas?
  • Aspecto: muco, sangue, fezes negras (melena), esteatorreia.
  • Sintomas associados: febre, dor intensa, tenesmo, sinais de desidratação.
  • Exposição: alimentos de risco, água não tratada, viagem, contato com doentes, uso recente de antibiótico (risco de colite associada a antibiótico).
  • Comorbidades: imunossupressão, DRC, diabetes, idosos frágeis.

4) Sangramento digestivo (alto/baixo)

  • Tipo: hematêmese (vômito com sangue), “borra de café”, melena (fezes negras), hematoquezia (sangue vivo nas fezes).
  • Quantidade e evolução: pequeno/recorrente vs volumoso; presença de coágulos; episódios repetidos.
  • Sintomas de hipoperfusão: tontura, síncope, fraqueza, palpitações, dispneia.
  • Fatores de risco: anticoagulantes/antiagregantes, hepatopatia/cirrose (varizes), AINE, história de úlcera, sangramento prévio.

Sinais de gravidade e “gatilhos” para alta prioridade

Na triagem, alguns achados mudam imediatamente a prioridade e indicam avaliação médica urgente e/ou sala de emergência conforme protocolo.

Achados abdominais de alto risco

  • Defesa/rigidez abdominal (sugere irritação peritoneal).
  • Dor desproporcional ao exame (suspeitar isquemia mesentérica, especialmente em idosos, fibrilação atrial, aterosclerose).
  • Distensão importante com vômitos e ausência de eliminação de gases/fezes (suspeita de obstrução).
  • Dor súbita intensa com palidez, sudorese, colapso (considerar causas vasculares/hemorrágicas).
  • Massa pulsátil abdominal ou dor lombar/abdominal intensa em idoso (suspeita de aneurisma de aorta abdominal).

Sinais sistêmicos de gravidade

  • Síncope ou pré-síncope associada a dor abdominal ou sangramento.
  • Sangramento volumoso (hematêmese importante, melena com instabilidade, hematoquezia com sinais de choque).
  • Sinais de choque/hipoperfusão: extremidades frias, sudorese, palidez, enchimento capilar lento, confusão, oligúria, taquicardia importante, hipotensão (conforme parâmetros institucionais).
  • Vômitos incoercíveis com incapacidade de hidratar-se.
  • Febre alta com dor abdominal intensa e prostração (considerar sepse de foco abdominal).

Exemplos de “combinações” que elevam prioridade

  • Dor epigástrica intensa + vômitos persistentes + desidratação (risco metabólico e necessidade de hidratação venosa).
  • Melena + tontura ao levantar (risco de sangramento significativo).
  • Dor difusa intensa + exame pouco expressivo em idoso (pensar em isquemia mesentérica).
  • Dor em FID + febre + anorexia (suspeita de apendicite; priorizar avaliação).

Situações especiais: como ajustar a triagem

Idosos

  • Apresentação atípica: podem ter pouca febre, pouca dor e ainda assim doença grave.
  • Maior risco de desidratação e insuficiência renal aguda com vômitos/diarreia.
  • Risco vascular: dor desproporcional, fibrilação atrial, aterosclerose.
  • Polifarmácia: anticoagulantes aumentam gravidade do sangramento; diuréticos podem agravar desidratação.

Gestantes

  • Considerar causas obstétricas e não obstétricas: dor abdominal pode ser gastrointestinal, urinária ou ginecológica.
  • Sinais de alerta: dor abdominal com sangramento vaginal, síncope, dor pélvica intensa, ombro doloroso (sugere irritação diafragmática em sangramento intra-abdominal).
  • Hiperêmese gravídica: vômitos persistentes com perda ponderal, cetonúria (quando aplicável), desidratação.
  • Priorizar avaliação rápida e seguir fluxo institucional para obstetrícia quando indicado.

Avaliação de hidratação: checklist rápido na triagem

Em queixas gastrointestinais, a gravidade frequentemente está ligada à perda de volume e eletrólitos. Faça uma avaliação estruturada e documente.

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Sinais clínicos úteis

  • Ingesta e diurese: consegue ingerir líquidos? última micção? volume reduzido?
  • Mucosas: secas? saliva espessa?
  • Olhos: encovados (especialmente em crianças, quando aplicável ao serviço).
  • Pele: turgor diminuído (interpretar com cautela em idosos).
  • Perfusão periférica: extremidades frias, enchimento capilar lento.
  • Ortostatismo: tontura ao levantar, fraqueza (se protocolo permitir aferição ortostática).
  • Estado mental: irritabilidade, sonolência, confusão (pode indicar hipoperfusão/alterações metabólicas).

Classificação prática (orientativa)

Grau suspeitoAchados comunsImplicação na triagem
LeveSede, mucosa levemente seca, diurese preservadaOrientar hidratação oral se tolerada e manter vigilância
ModeradaTaquicardia, mucosas secas, diurese reduzida, tonturaConsiderar acesso venoso conforme protocolo e reavaliação frequente
GraveLetargia/confusão, perfusão ruim, hipotensão/choque, anúriaAtendimento imediato, monitorização e reposição volêmica conforme prescrição/protocolo

Risco metabólico: quando suspeitar e o que perguntar

Vômitos e diarreia podem precipitar distúrbios hidroeletrolíticos e acidobásicos. Alguns quadros “imitam” gastroenterite, mas são metabólicos.

Triagem dirigida para risco metabólico

  • Diabetes: polidipsia/poliúria prévias, perda de peso, hálito cetônico, respiração profunda, glicemias elevadas em casa, uso irregular de insulina (suspeitar cetoacidose).
  • Doença renal: risco de hipercalemia e piora rápida com desidratação.
  • Uso de diuréticos/laxantes: risco de hipocalemia e arritmias.
  • Vômitos prolongados: risco de alcalose metabólica e hipocloremia.
  • Diarreia volumosa: risco de acidose metabólica e hipocalemia.

Quando disponível e previsto em protocolo, glicemia capilar pode ser um dado crítico em pacientes com vômitos, prostração, confusão, taquipneia ou história de diabetes.

Passo a passo prático: fluxo de triagem para dor abdominal e queixas GI

Passo 1 — Identificar queixa principal e “pior sinal”

Defina em uma frase: “dor abdominal + vômitos”, “diarreia com sangue”, “hematêmese”, etc. Em seguida, procure ativamente o pior sinal associado: síncope, sangramento volumoso, sinais de choque, defesa/rigidez, dor desproporcional.

Passo 2 — Perguntas-chave (30–60 segundos)

  • Quando começou? Está piorando?
  • Consegue ingerir líquidos? Quantas vezes vomitou/evacuou?
  • Tem sangue no vômito ou nas fezes? Fezes negras?
  • Teve desmaio/tontura importante?
  • Onde dói mais? A dor é “fora do comum” para você?
  • É idoso, gestante, diabético, renal crônico, anticoagulado?

Passo 3 — Exame focado na triagem (sem aprofundar exame físico completo)

  • Inspeção: palidez, sudorese, prostração, distensão abdominal.
  • Palpação suave quando aplicável: dor localizada intensa, defesa/rigidez (se presente, interromper e priorizar fluxo).
  • Perfusão: extremidades, enchimento capilar, nível de hidratação.
  • Observação de vômito/fezes se disponíveis (cor, presença de sangue).

Passo 4 — Decidir prioridade e necessidade de intervenções imediatas

Com base nos achados, direcione para atendimento imediato/urgente conforme protocolo institucional. Em pacientes com sinais de hipoperfusão, sangramento significativo, vômitos incoercíveis ou suspeita de abdome agudo cirúrgico/vascular, antecipe necessidades: monitorização, acesso venoso, coleta de exames e preparo para imagem, conforme rotinas locais.

Passo 5 — Acesso venoso e exames: quando considerar (conforme protocolo)

A indicação exata varia por instituição, mas na prática de triagem costuma ser considerada quando há instabilidade, desidratação moderada/grave, sangramento digestivo, vômitos persistentes, suspeita de abdome agudo cirúrgico ou risco metabólico.

  • Acesso venoso periférico: considerar em desidratação moderada/grave, vômitos incoercíveis, sangramento, necessidade provável de analgesia/antiemético EV, coleta seriada.
  • Exames laboratoriais frequentemente associados a protocolos: hemograma (sangramento/infeção), eletrólitos e função renal (vômitos/diarreia/desidratação), glicemia (risco metabólico), gasometria/lactato quando suspeita de hipoperfusão/isquemia, amilase/lipase em dor epigástrica sugestiva, beta-hCG em mulheres em idade fértil quando indicado.
  • Tipagem e provas de compatibilidade quando sangramento digestivo significativo é suspeito (conforme fluxo local).

Passo 6 — Reavaliação na sala de espera/observação

Queixas GI podem deteriorar rapidamente. Programe reavaliação conforme risco: piora da dor, novos episódios de vômito/diarreia, aparecimento de sangue, sinais de desidratação progressiva, alteração do estado mental ou queda de perfusão devem gerar reclassificação.

Exemplos práticos de aplicação na triagem

Caso 1: dor abdominal com defesa

Queixa: dor súbita em abdome inferior, piora ao caminhar, náuseas. Achado: defesa à palpação suave. Conduta de triagem: priorizar atendimento médico imediato conforme protocolo; preparar acesso venoso e coleta conforme rotina; manter jejum até avaliação.

Caso 2: vômitos incoercíveis e sinais de desidratação

Queixa: 12 episódios de vômito em 8 horas, não tolera líquidos. Achados: mucosas secas, tontura ao levantar, diurese reduzida. Conduta de triagem: classificar como maior urgência que casos leves; considerar acesso venoso e exames de eletrólitos/função renal conforme protocolo; monitorar resposta clínica.

Caso 3: sangramento digestivo com sintomas de hipoperfusão

Queixa: fezes negras desde ontem, hoje com fraqueza e quase desmaio. Achados: palidez, sudorese, perfusão periférica ruim. Conduta de triagem: atendimento imediato; priorizar monitorização, acesso venoso calibroso conforme rotina, coleta para hemograma e tipagem se indicado, e comunicação rápida com equipe médica.

Caso 4: idoso com dor “estranha” e exame pouco expressivo

Queixa: dor abdominal difusa intensa, início súbito, sem vômitos importantes. Achados: abdome sem grande defesa, mas paciente muito álgico e ansioso. Conduta de triagem: valorizar “dor desproporcional”; elevar prioridade e sinalizar suspeita de causa vascular/metabólica; considerar exames e monitorização conforme protocolo.

Documentação essencial na triagem (para continuidade do cuidado)

  • Início, localização e intensidade da dor; presença de migração.
  • Número de episódios de vômito/diarreia e capacidade de hidratação oral.
  • Presença e tipo de sangramento (hematêmese, melena, hematoquezia) e estimativa de volume.
  • Sinais de desidratação e perfusão; diurese recente.
  • Comorbidades e medicamentos de risco (anticoagulantes, AINE, diuréticos, insulina).
  • Situações especiais: idade avançada, gestação suspeita/confirmada.
  • Intervenções realizadas conforme protocolo (ex.: acesso venoso, glicemia capilar, coleta de exames) e horário.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Durante a triagem de um paciente com queixas gastrointestinais, qual achado deve elevar imediatamente a prioridade por sugerir condição abdominal potencialmente grave?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A dor desproporcional ao exame é um gatilho de alta prioridade, pois pode indicar causa vascular grave, como isquemia mesentérica, exigindo avaliação urgente e possível monitorização/exames conforme protocolo.

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