Quedas e traumatismos em bebês e crianças: avaliação, observação e sinais neurológicos

Capítulo 6

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

Por que quedas são tão frequentes e quando preocupam

Quedas são uma das causas mais comuns de traumatismos em bebês e crianças porque a coordenação motora ainda está em desenvolvimento, a cabeça é proporcionalmente maior (o que favorece impactos cranianos) e a curiosidade leva a explorar ambientes sem noção de risco. A maioria das quedas é leve, mas algumas podem causar lesões na cabeça, coluna, ossos e órgãos internos. O objetivo dos primeiros cuidados é identificar rapidamente sinais de gravidade, evitar piorar uma possível lesão e decidir entre observação em casa ou avaliação médica imediata.

Riscos comuns no dia a dia

  • Queda do trocador: acontece em segundos, mesmo com o cuidador ao lado; geralmente envolve altura relativamente grande para um bebê e impacto direto.
  • Cama/sofá: frequente quando o bebê começa a rolar; pode parecer “baixo”, mas ainda assim causar trauma craniano, especialmente se houver quina ou piso duro.
  • Escadas: risco de múltiplos impactos e torções; pode envolver cabeça, coluna e membros.
  • Playground: escorregadores, balanços, trepa-trepas; colisões com outras crianças e quedas de altura variável.

Fatores que aumentam a gravidade

Use estes fatores para entender por que duas quedas “parecidas” podem ter consequências diferentes:

  • Altura: quanto maior a altura, maior a energia do impacto. Em bebês, mesmo alturas moderadas podem ser relevantes.
  • Tipo de impacto: queda com impacto direto na cabeça, ou com rotação/“chicote” do pescoço, tende a ser mais preocupante.
  • Superfície: piso de cerâmica, concreto e asfalto aumentam risco; superfícies emborrachadas/areia amortecem, mas não eliminam o risco.
  • Objeto/quina: bater em quina de móvel, degrau ou brinquedo rígido concentra força em área pequena.
  • Idade: bebês e crianças pequenas têm crânio e pescoço mais vulneráveis; também podem não conseguir relatar sintomas como dor de cabeça ou tontura.
  • Mecanismo “não observado”: se ninguém viu a queda, é mais difícil estimar altura, impacto e sintomas iniciais.

Avaliação inicial após a queda (passo a passo)

Este roteiro ajuda a organizar a observação nos primeiros minutos. Se houver suspeita de lesão grave, priorize manter a criança quieta e buscar atendimento.

1) Pare e observe antes de levantar

  • Se a queda foi de escada, altura maior, ou houve impacto forte na cabeça/pescoço, evite movimentar até avaliar sinais de lesão cervical (ver seção “Quando imobilizar e não movimentar”).
  • Veja se a criança está acordada, se reage ao seu chamado e se chora de forma habitual (em bebês, o choro é um sinal importante de responsividade).

2) Estado geral e comportamento

  • Como está o nível de alerta? A criança está ativa, reconhece pessoas, interage, brinca (quando apropriado para a idade)?
  • Choro: choro imediato e consolável costuma ser mais tranquilizador do que ausência de choro com apatia. Choro inconsolável e persistente pode indicar dor importante.
  • Comportamento diferente: irritabilidade fora do padrão, confusão, “olhar perdido”, recusa persistente de contato/brincadeira.

3) Vômitos e alimentação

  • Observe se houve vômito após a queda. Vômitos repetidos são sinal de alerta para trauma craniano.
  • Em bebês, diferencie regurgitação habitual de vômito em jato ou repetido após o impacto.

4) Dor e localização

  • Pergunte onde dói (se a criança fala) e observe se protege uma região, evita mexer um braço/perna, ou não quer apoiar o pé.
  • Em bebês, sinais indiretos: choro ao tocar uma área, recusa em movimentar um membro, irritação ao trocar roupa.

5) Procure sangramentos, inchaços e feridas

  • Examine couro cabeludo, face, boca e nariz. O couro cabeludo pode sangrar bastante mesmo em cortes pequenos.
  • Observe hematomas (caroços) e lacerações. Se houver ferida, controle sangramento com compressão suave com pano limpo.

6) Verifique deformidades e função dos membros

  • Compare lados: há inchaço assimétrico, deformidade, encurtamento, rotação anormal?
  • Peça movimentos simples: abrir/fechar mão, mexer dedos do pé, dobrar/esticar (sem forçar se houver dor intensa).
  • Se suspeitar de fratura, imobilize na posição encontrada e evite manipular.

7) Atenção ao pescoço e coluna

  • Se a criança refere dor no pescoço/costas, se houve queda de altura, impacto forte, ou se está “mole”/muito quieta, trate como possível lesão cervical até avaliação médica.

Sinais de alerta para trauma craniano (quando procurar avaliação urgente)

Trauma craniano pode variar de leve a grave. Alguns sinais podem aparecer imediatamente ou nas horas seguintes. Procure atendimento imediato se houver qualquer um dos itens abaixo:

  • Sonolência excessiva (difícil de acordar, “apagando” fora do horário habitual) ou queda importante do nível de alerta.
  • Confusão, desorientação, fala enrolada, comportamento muito diferente do habitual.
  • Convulsão após a queda.
  • Vômitos repetidos (mais de um episódio, especialmente se persistentes).
  • Perda de consciência, mesmo que breve, ou “desmaio”.
  • Dor de cabeça intensa ou que piora progressivamente (em crianças maiores que conseguem relatar).
  • Assimetria pupilar (uma pupila maior que a outra), visão dupla, dificuldade para focar o olhar.
  • Fraqueza em um lado do corpo, dificuldade para andar, falta de coordenação.
  • Sangramento persistente em ferida na cabeça que não controla com compressão, ou ferida profunda.
  • Saída de líquido claro pelo nariz ou ouvido, ou sangramento pelo ouvido.
  • Hematoma grande em bebê pequeno, especialmente em regiões como atrás da orelha ou ao redor dos olhos (aparecendo depois).
  • Queda de mecanismo importante (altura considerável, escada, impacto em quina, atropelamento, colisão em alta velocidade), mesmo que pareça bem no início.

Importante: em bebês, sinais podem ser mais sutis: irritabilidade persistente, recusa alimentar, choro diferente, “moleza” incomum ou dificuldade para manter o olhar.

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Quando imobilizar e não movimentar

Movimentar uma criança com possível lesão de coluna pode agravar danos. Considere não movimentar e manter a cabeça/pescoço alinhados (sem torcer) enquanto busca ajuda se houver:

  • Queda de altura relevante, queda de escadas com múltiplos impactos, ou impacto forte na cabeça/pescoço.
  • Queixa de dor no pescoço ou nas costas.
  • Formigamento, fraqueza, dificuldade para mexer braços/pernas.
  • Alteração do nível de consciência, confusão, sonolência importante.
  • Deformidade evidente, suspeita de fratura importante, ou dor intensa ao tentar mover.

Como manter a criança mais segura até avaliação

  • Se estiver no chão, não puxe pelos braços para levantar.
  • Mantenha a criança deitada, com a cabeça em posição neutra (olhando para cima), evitando flexão/extensão do pescoço.
  • Se precisar proteger do frio, cubra com manta sem mudar a posição.
  • Se houver vômito e a criança estiver sonolenta, a prioridade é evitar aspiração; em cenário de suspeita de coluna, a rotação deve ser mínima e idealmente feita por mais de um adulto treinado. Na dúvida, busque ajuda emergencial.

Observação em casa quando a criança é liberada (o que monitorar)

Quando não há sinais de gravidade e a orientação é observar, as primeiras 6 a 24 horas costumam ser o período mais importante. O objetivo é perceber mudanças no estado neurológico e no comportamento.

Checklist prático de observação nas horas seguintes

  • Nível de alerta: está acordando e interagindo como de costume? Em bebês, mantém contato visual e reage a estímulos?
  • Sonolência: dormir pode ser normal, mas observe se é possível acordar com facilidade e se a criança responde de forma habitual.
  • Vômitos: anote horário e número de episódios. Vômitos repetidos são alerta.
  • Dor: dor de cabeça forte, dor que piora, ou choro inconsolável persistente.
  • Marcha e coordenação: em crianças que andam, observe se tropeça, cambaleia ou evita apoiar um lado.
  • Visão e pupilas: queixa de visão borrada, estrabismo súbito, pupilas diferentes.
  • Comportamento: confusão, irritabilidade extrema, apatia, “não parece ela mesma”.
  • Alimentação: recusa persistente para mamar/comer, especialmente se associada a sonolência ou vômitos.
  • Feridas e hematomas: aumento rápido de inchaço, sangramento que reaparece, dor local intensa.

Como organizar a vigilância sem exageros

  • Nas primeiras horas, mantenha a criança por perto e evite atividades agitadas (corridas, bicicleta, cama elástica, brincadeiras de impacto).
  • Se a criança dormir, verifique periodicamente se acorda e responde de forma adequada para a idade (por exemplo: abre os olhos, reconhece, reclama, se acalma).
  • Evite dar novos medicamentos sem orientação, especialmente se houver suspeita de trauma craniano; se já houver orientação médica para analgésico, siga dose e intervalo recomendados.

Prevenção: ajustes simples que reduzem quedas

Em casa

  • Trocador: mantenha uma mão no bebê o tempo todo; deixe fraldas e itens ao alcance antes de começar; prefira trocar no chão quando possível.
  • Cama/sofá: não deixe bebê sozinho; use berço com grades adequadas; evite “ninhos” e almofadas que dão falsa sensação de segurança.
  • Escadas: instale portões de segurança no topo e na base; mantenha degraus livres de objetos; ensine a descer com supervisão quando a criança estiver pronta.
  • Janelas e varandas: redes/telas de proteção e travas; não deixe móveis que sirvam de “escada” perto de janelas.
  • Banheiro: tapetes antiderrapantes; supervisão constante em banheira e piso molhado.
  • Organização: retire tapetes soltos, fios e brinquedos do caminho em áreas de circulação.

No playground e na rua

  • Prefira áreas com piso amortecedor (borracha, areia adequada) e equipamentos compatíveis com a idade.
  • Supervisione escorregadores e balanços; quedas acontecem em transições (subir/descer, entrar/sair).
  • Capacete e equipamentos de proteção quando aplicável (bicicleta, patinete), ajustados corretamente.

Exemplos rápidos de aplicação

CenárioO que fazer na horaO que observar depois
Bebê cai do sofá e chora, acalma no colo, sem vômitosExaminar cabeça e corpo, observar comportamento e alimentaçãoSonolência incomum, vômitos, irritabilidade persistente, piora do inchaço
Criança cai da escada, bate a cabeça e fica muito quietaEvitar movimentar, manter alinhamento do pescoço, buscar avaliação urgenteAlteração de consciência, vômitos repetidos, convulsão, fraqueza
Queda no playground com dor no braço e deformidadeImobilizar na posição encontrada, não tentar “colocar no lugar”Inchaço progressivo, dor intensa, alteração de cor/temperatura da mão

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Após uma queda, em qual situação a conduta mais adequada é não movimentar a criança e buscar avaliação urgente?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Quedas de mecanismo importante e sinais como sonolência importante, ficar “mole”/muito quieta ou dor no pescoço/costas sugerem risco de lesão cervical ou trauma craniano. Nesses casos, deve-se evitar movimentar e procurar atendimento urgente.

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