Cortes, sangramentos e feridas na infância: controle, limpeza e curativos

Capítulo 7

Tempo estimado de leitura: 7 minutos

+ Exercício

Tipos de feridas na infância: como diferenciar

Identificar o tipo de ferida ajuda a escolher a melhor forma de limpar, controlar o sangramento e decidir se precisa de avaliação médica.

Escoriação (ralado)

  • Como é: raspagem superficial da pele, comum em joelhos e cotovelos.
  • Sangra? pouco; pode “arder” bastante.
  • Risco principal: sujeira (areia, terra) presa na pele.

Corte superficial

  • Como é: corte fino, com bordas próximas, geralmente não muito profundo.
  • Sangra? pode sangrar de leve a moderado, mas costuma parar com compressão.
  • Exemplos comuns: papel, borda de brinquedo, pequenos acidentes na cozinha.

Ferida profunda (laceração/ferida aberta)

  • Como é: bordas afastadas, profundidade maior, pode haver “buraco” ou tecido visível.
  • Sangra? pode ser intenso ou persistente.
  • Exemplos comuns: vidro, metal, quedas com corte, objetos pontiagudos.

Controle de sangramento: o que fazer na prática

Na maioria dos sangramentos externos, a medida mais eficaz é pressão direta e contínua. Evite “espiar” a ferida a todo momento, pois isso reinicia o sangramento.

Passo a passo: pressão direta

  1. Proteja-se se possível (luvas). Se não tiver, use uma barreira limpa (gaze, pano limpo).
  2. Coloque uma gaze ou pano limpo diretamente sobre o local que sangra.
  3. Pressione firme e continuamente com a palma da mão.
  4. Mantenha a compressão por 10 minutos sem levantar para olhar. Use um relógio.
  5. Se ainda sangrar, mantenha a pressão por mais 10 minutos.
  6. Se o pano/gaze encharcar, não retire a primeira camada; coloque outra por cima e continue pressionando.

Elevação: quando ajuda

Se a ferida estiver em braço ou perna e não houver suspeita de fratura importante, deformidade, dor intensa ao mover ou grande inchaço, você pode elevar o membro acima do nível do coração enquanto mantém a pressão direta. A elevação é um complemento; não substitui a compressão.

Curativo compressivo (quando o sangramento diminuiu)

Após controlar o sangramento com pressão direta, você pode fazer um curativo que mantenha leve compressão:

  1. Coloque gaze sobre a ferida.
  2. Enrole com atadura/faixa sem apertar a ponto de causar dormência, formigamento, frio ou mudança de cor.
  3. Confira circulação: dedos devem permanecer rosados e quentes; a criança não deve reclamar de “aperto” progressivo.

Sangramento nasal (epistaxe): como agir

Sangramento nasal é comum na infância (ar seco, coçar o nariz, resfriados). A técnica correta costuma resolver.

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  1. Sente a criança e incline o tronco levemente para frente (não para trás).
  2. Aperte a parte macia do nariz (asas nasais), logo abaixo do osso, com firmeza.
  3. Mantenha por 10 minutos sem soltar para checar.
  4. Se continuar, repita por mais 10 minutos.
  5. Após parar, evite assoar, cutucar ou esforço físico por algumas horas.

Evite: inclinar a cabeça para trás (engole sangue), colocar algodão profundamente, “tampar” com objetos, ou pedir para assoar durante o sangramento.

Limpeza segura: reduzir risco de infecção sem agredir a pele

O objetivo é remover sujeira e reduzir germes sem machucar mais o tecido.

Passo a passo: limpeza de escoriações e cortes superficiais

  1. Lave as mãos (ou higienize) antes de mexer na ferida.
  2. Enxágue com água corrente (torneira, chuveirinho) por alguns minutos. A água corrente ajuda a expulsar partículas.
  3. Use sabonete suave apenas na pele ao redor da ferida. Evite esfregar dentro do corte.
  4. Remova sujeira visível com cuidado: se houver grãos de areia/terra, tente retirar com gaze úmida ou pinça limpa. Se estiver grudado e doloroso, não force.
  5. Seque ao redor com pano limpo, sem fricção sobre a área ferida.

O que evitar na limpeza

  • Álcool, água oxigenada e iodo dentro da ferida: podem irritar e atrasar cicatrização. Se forem usados, que seja apenas na pele ao redor e com orientação profissional.
  • Esfregar com força para “tirar tudo”: aumenta sangramento e dor.
  • Jatos muito fortes diretamente em feridas profundas: podem causar mais trauma.

Cobertura e curativos: como proteger e favorecer cicatrização

Curativos protegem contra sujeira, reduzem atrito e ajudam a manter um ambiente adequado para cicatrização.

Escolhendo o curativo

  • Escoriações: após limpeza, cobrir com gaze não aderente ou curativo próprio para abrasão. Em áreas de atrito (joelho), fixar bem sem apertar.
  • Cortes superficiais: gaze/curativo adesivo. Se as bordas estiverem bem aproximadas, um curativo tipo “borboleta” pode ajudar a manter as bordas juntas (sem substituir avaliação quando necessário).
  • Feridas com sangramento recente: gaze + compressão leve (curativo compressivo) após controle do sangramento.

Passo a passo: curativo simples

  1. Com a ferida limpa e sangramento controlado, coloque gaze estéril ou curativo limpo sobre a área.
  2. Fixe com fita/atadura, garantindo que a criança consiga movimentar a região sem dor excessiva.
  3. Se o curativo grudar na troca, umedecer com água para soltar sem arrancar a casquinha.

Quando procurar avaliação para pontos (sutura) ou atendimento

Algumas feridas precisam ser avaliadas para fechamento (pontos, cola cirúrgica ou fita apropriada) e para limpeza mais profunda.

Critérios práticos que sugerem necessidade de avaliação

  • Bordas afastadas (a ferida “abre” e não se mantém fechada).
  • Profundidade importante ou aparência de “buraco”; tecido amarelado (gordura) ou estruturas mais profundas visíveis.
  • Sangramento que não cessa após 20 minutos de pressão direta bem feita.
  • Ferida por mordida (animal ou humana), mesmo pequena, pelo risco de infecção.
  • Muita sujeira (terra, asfalto, farpas) que não sai com irrigação suave.
  • Localização de maior risco funcional/estético: rosto, lábios, pálpebras, nariz, orelhas, mãos, dedos, genitais.
  • Ferida sobre articulação (joelho, cotovelo) que abre ao dobrar.
  • Objeto perfurante (prego, arame) ou corte por vidro com suspeita de fragmento.
  • Dor desproporcional, perda de sensibilidade, dificuldade de mexer dedos/mão/pé, ou suspeita de lesão de tendão.

Importante sobre o tempo

Feridas que precisam de fechamento costumam ter melhor resultado quando avaliadas o quanto antes. Se você suspeita que pode precisar de pontos, evite manipular excessivamente e mantenha a ferida coberta com gaze limpa.

Cuidados após o curativo

Troca e higiene

  • Primeiras 24–48 horas: mantenha o curativo limpo e seco quando possível.
  • Troca: troque se molhar, sujar ou descolar. Em escoriações, pode ser necessário trocar diariamente.
  • Banho: água corrente é preferível; evite deixar de molho por muito tempo se a ferida estiver recente.

Proteção e conforto

  • Evite atrito (roupas ásperas, brincadeiras que raspem o local) nos primeiros dias.
  • Se a criança coça o curativo, reforce a fixação e mantenha unhas curtas.

O que observar: sinais de infecção

É comum haver leve vermelhidão ao redor no início, mas atenção se houver piora progressiva.

  • Vermelhidão que aumenta e se espalha.
  • Calor local e dor crescente.
  • Inchaço importante.
  • Saída de pus ou secreção com mau cheiro.
  • Febre associada ou mal-estar.
  • Listras vermelhas subindo pelo braço/perna a partir da ferida.
  • Ferida que não melhora após alguns dias ou que volta a sangrar com facilidade.

Se houver sinais de infecção

Mantenha a área limpa, não esprema, não “fure” bolhas ou coleções e procure avaliação para orientação e possível tratamento.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao fazer pressão direta para controlar um sangramento externo, o que deve ser feito se a gaze ou pano ficar encharcado de sangue?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Ao retirar a primeira camada, você pode desfazer o coágulo e reiniciar o sangramento. O correto é manter a gaze inicial, adicionar outra por cima e manter pressão direta e contínua pelo tempo recomendado.

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