Por que a qualidade do traçado importa na prática
Um traçado com artefatos pode simular arritmias, mascarar alterações reais (como isquemia) e levar a condutas inadequadas. Na enfermagem, a prioridade é diferenciar rapidamente: alteração verdadeira do ritmo versus ruído/erro de aquisição. A regra prática é: se o monitor “mostra” algo grave, mas o paciente está estável e o pulso é regular, pense primeiro em artefato e confirme com checagens simples e um novo registro.
Como avaliar visualmente um traçado “confiável”
- Linha de base relativamente estável (sem oscilações lentas amplas).
- Complexos QRS com morfologia consistente batimento a batimento (no mesmo canal/derivação).
- Ruído mínimo entre os complexos (segmento isoelétrico “limpo”).
- Coerência clínica: frequência e ritmo compatíveis com pulso e sinais vitais.
Artefatos comuns: reconhecimento, causas e correções
1) Tremor muscular (atividade muscular/“shivering”)
Como reconhecer: traçado com serrilhado fino e rápido, “pelos” sobre a linha de base, podendo dificultar a visualização de ondas pequenas. Em alguns casos, pode lembrar fibrilação atrial ou flutter, mas os QRS costumam manter regularidade e morfologia.
Causas prováveis no leito: frio/calafrios, dor, ansiedade, tremor (Parkinson), esforço para respirar, paciente tenso, posicionamento desconfortável.
Correção rápida e segura (passo a passo):
- Avalie o paciente: está com frio, dor ou dispneia? Trate a causa (cobertor, analgesia conforme prescrição, conforto).
- Peça para relaxar braços e pernas; reposicione para reduzir tensão muscular.
- Evite apoiar eletrodos sobre músculos em contração evidente; se necessário, reposicione em área mais estável (mantendo padrão institucional).
- Repita o registro após estabilizar o tremor.
2) Interferência elétrica (rede elétrica/60 Hz)
Como reconhecer: padrão regular de “onda” ou serrilhado uniforme, de alta frequência, muitas vezes constante em todo o traçado. Pode aparecer como uma vibração contínua sobre a linha de base.
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Causas prováveis no leito: equipamentos próximos (bombas, colchão pneumático, aquecedor), cabo do ECG próximo a cabos de energia, tomada sem aterramento, extensão/benjamim, eletrocautério (em ambiente cirúrgico), má blindagem/isolamento.
Correção rápida e segura (passo a passo):
- Afaste cabos do ECG de cabos de energia e fontes de interferência; evite cabos enrolados.
- Verifique se o equipamento está em tomada adequada e, quando aplicável, com aterramento.
- Desligue temporariamente (se clinicamente seguro) equipamentos não essenciais próximos e observe se o ruído cessa.
- Troque o cabo do paciente/derivação se houver suspeita de falha de blindagem.
- Repita o ECG em outro ponto de energia/ambiente se necessário.
3) Mau contato (eletrodo parcialmente descolado/contato intermitente)
Como reconhecer: “picos” abruptos, falhas intermitentes, trechos com linha reta (perda de sinal), ruído irregular que piora com movimento. Pode haver mensagens de lead off no monitor.
Causas prováveis no leito: suor, oleosidade, pelos, pele úmida, eletrodo mal aderido, tração do cabo, paciente agitado.
Correção rápida e segura (passo a passo):
- Inspecione visualmente cada eletrodo: bordas levantadas, gel deslocado, umidade.
- Seque a pele e, se necessário, limpe com gaze; remova oleosidade/suor.
- Reforce a fixação (conforme protocolo) ou substitua o eletrodo.
- Reduza tração: prenda o cabo na roupa/lençol para criar “alívio de tensão”.
- Confirme no monitor se o alerta de derivação desconectada desapareceu e repita o registro.
4) Eletrodo ressecado (gel seco/validade/armazenamento inadequado)
Como reconhecer: sinal fraco, ruído persistente apesar de boa fixação, instabilidade da linha de base e piora progressiva ao longo do tempo. Pode ocorrer em vários canais simultaneamente.
Causas prováveis no leito: eletrodos antigos, pacote aberto há muito tempo, armazenamento em calor, baixa umidade, validade vencida.
Correção rápida e segura:
- Substitua por eletrodos novos (preferir pacote recém-aberto).
- Garanta pele seca e limpa antes de aplicar.
- Reavalie o traçado após 30–60 segundos para estabilização do contato.
5) Cabo danificado (fios rompidos/conector frouxo)
Como reconhecer: artefato que aparece ao manipular o cabo, ruído intermitente “dependente de posição”, perda de um canal específico repetidamente, alertas frequentes de desconexão mesmo com eletrodos bons.
Causas prováveis no leito: dobra excessiva, tração, desgaste por limpeza repetida, conector oxidado, cabo antigo.
Correção rápida e segura (passo a passo):
- Teste: mova suavemente o cabo próximo aos conectores e observe se o ruído surge (sem puxar eletrodos).
- Troque o cabo do paciente/derivação por outro disponível.
- Identifique e retire de uso o cabo suspeito, seguindo o fluxo de manutenção/engenharia clínica.
6) Movimentação do paciente (artefato de movimento)
Como reconhecer: oscilações grandes e irregulares, “saltos” na linha de base, distorção dos complexos durante mudança de decúbito, tosse, fala, higiene, transporte. Pode simular taquiarritmias ou extrassístoles.
Causas prováveis no leito: mudança de posição, fisioterapia, banho no leito, tremores, agitação, transporte em maca.
Correção rápida e segura:
- Se for ECG impresso, peça para o paciente ficar imóvel por alguns segundos e repetir o registro.
- Organize os cabos para não “puxarem” os eletrodos durante movimentos.
- Se o paciente estiver agitado, priorize segurança, contenção conforme protocolo e avaliação clínica; registre o melhor traçado possível e documente condições do registro.
7) Inversão de cabos (troca de derivações/limb leads invertidos)
Como reconhecer: padrão “estranho” e inconsistente com registros anteriores do mesmo paciente, eixo aparentemente invertido, ondas P e QRS com polaridade inesperada em derivações de membros. Um sinal clássico é a inversão de polaridade em derivações que antes eram predominantemente positivas, sem mudança clínica correspondente.
Causas prováveis no leito: troca acidental de conectores, pressa na montagem, cabos com cores semelhantes, reconexão após banho/transporte.
Correção rápida e segura (passo a passo):
- Verifique cada conexão no cabo do paciente (identificação por cor/letra) e confirme correspondência com o padrão do serviço.
- Se houver dúvida, desconecte e reconecte sistematicamente um a um, conferindo no monitor.
- Repita o ECG impresso após correção e compare com traçados prévios (se disponíveis).
8) Filtro inadequado (configuração do monitor/ECG)
Como reconhecer: traçado “bonito demais” porém com distorção: ondas P achatadas, segmento ST aparentemente alterado, QRS com bordas arredondadas ou atenuação de detalhes. Filtros podem reduzir ruído, mas também podem mascarar achados.
Causas prováveis no leito: modo de monitorização configurado para reduzir artefatos (ex.: filtros fortes), troca de perfil (monitor x diagnóstico), configuração padrão inadequada para ECG de 12 derivações.
Correção rápida e segura:
- Para ECG diagnóstico/impresso, use o modo/configuração recomendada pelo fabricante e protocolo institucional (evitar filtros excessivos que alterem ST).
- Se o objetivo é apenas monitorização de ritmo, filtros podem ser úteis; documente se o traçado foi obtido com filtro.
- Quando houver suspeita de alteração de ST ou morfologia, repita o registro com configuração diagnóstica.
9) Linha de base instável (baseline wander)
Como reconhecer: os complexos “sobem e descem” lentamente, como se a linha de base estivesse flutuando. Pode piorar com respiração profunda e dificultar avaliação de ST e T.
Causas prováveis no leito: eletrodos mal aderidos, pele úmida, cabos tracionados, respiração ampla (dispneia), posicionamento em área com movimento, interferência por movimento do leito.
Correção rápida e segura (passo a passo):
- Reforce/substitua eletrodos e reduza tração dos cabos.
- Peça para respirar normalmente e evitar falar durante o registro (se possível).
- Reposicione cabos para não balançarem; fixe-os.
- Repita o ECG após estabilizar por alguns segundos.
Protocolo de troubleshooting (enfermagem): prioridades em sequência
Use este roteiro sempre que o traçado estiver duvidoso, houver alerta de derivação desconectada ou o monitor sugerir arritmia incompatível com o estado do paciente.
1) Confirmar paciente e contexto
- Confirme identificação do paciente antes de imprimir/registrar.
- Verifique se o traçado corresponde ao paciente (especialmente após transporte/troca de leito).
2) Avaliar clínica imediatamente
- Consciência, perfusão, queixa de dor torácica, dispneia, tontura.
- Cheque sinais vitais conforme rotina e gravidade.
3) Checar pulso (correlacionar com o monitor)
- Palpe pulso central/periférico e compare com a frequência do monitor.
- Se o monitor mostra ritmo rápido/caótico, mas o pulso é regular e estável, suspeite de artefato.
- Se não há pulso ou há instabilidade, trate como emergência e acione suporte conforme protocolo.
4) Checar conexões e integridade do sistema
- Verifique se há lead off e reconecte derivação por derivação.
- Inspecione eletrodos: aderência, umidade, gel, validade.
- Inspecione cabos: tração, dobras, conectores frouxos; troque se necessário.
- Afaste cabos de fontes elétricas e organize para reduzir movimento.
5) Repetir registro e documentar condições
- Repita o ECG/strip após correções, com paciente imóvel e confortável.
- Se persistir ruído, mude eletrodos e cabo; considere outra tomada/local.
- Documente: presença de tremor, agitação, equipamentos próximos, filtros usados e intervenções realizadas.
Checklist rápido à beira-leito (para imprimir/lembrar)
| Achado no traçado | Suspeita principal | Ação imediata |
|---|---|---|
| Serrilhado fino contínuo | Tremor muscular | Aquecer/analgesia, relaxar, repetir |
| Ruído uniforme “vibrando” | Interferência elétrica | Afastar cabos, checar aterramento, trocar tomada/cabo |
| Picos abruptos e falhas | Mau contato | Secar pele, trocar eletrodo, fixar cabo |
| Sinal fraco persistente | Eletrodo ressecado | Trocar por eletrodo novo |
| Ruído ao mexer no fio | Cabo danificado | Trocar cabo e retirar de uso |
| Distorção durante mudança de posição | Movimentação | Imobilizar para registrar, organizar cabos |
| Morfologia “invertida” sem explicação | Inversão de cabos | Revisar conexões e repetir ECG |
| Ondas achatadas/ST estranho com traçado limpo | Filtro inadequado | Ajustar para modo diagnóstico e repetir |
| Traçado “flutuando” lentamente | Linha de base instável | Reforçar eletrodos, reduzir tração, repetir |
Exemplos práticos de tomada de decisão (situações comuns)
Situação A: “Fibrilação ventricular” no monitor, paciente conversando
- Ação: avaliar rapidamente consciência e pulso.
- Se pulso presente e regular: suspeitar de tremor muscular/interferência; checar eletrodos e cabos; repetir strip.
- Se pulso ausente: seguir protocolo de parada e acionar equipe.
Situação B: ST parece “deprimido”, mas o traçado está muito filtrado
- Ação: confirmar configuração (modo diagnóstico vs monitorização) e repetir ECG com filtros apropriados.
- Checar linha de base: se houver baseline wander, corrigir contato/tração antes de interpretar ST.
Situação C: Alertas repetidos de derivação desconectada após banho
- Ação: secar pele, trocar eletrodos, fixar cabos com alívio de tensão.
- Se persistir: testar e trocar cabo do paciente.