Punção venosa periférica: passo a passo da técnica segura para enfermagem

Capítulo 4

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Conceito e objetivo da punção venosa periférica (PVP)

A punção venosa periférica (PVP) é a inserção de um cateter curto em uma veia periférica para permitir infusão de soluções/medicações, manutenção de acesso venoso e, em alguns casos, coleta de amostras conforme protocolo institucional. Uma técnica segura busca: obter acesso funcional na menor quantidade de tentativas possível, reduzir dor e ansiedade, evitar complicações (infiltração, flebite, hematoma, extravasamento) e garantir um dispositivo estável e pérvio.

Roteiro operacional completo (técnica segura, do início ao fim)

1) Avaliação do membro e decisão do sítio (antes de tocar no garrote)

  • Inspecione e palpe o membro escolhido: calibre, turgor, trajeto, mobilidade da veia, presença de edema, hematomas, dor, áreas com curativos, sinais de flebite prévia.
  • Verifique restrições conforme política local: membro com fístula/AVF, pós-mastectomia/linfadenectomia, infecção local, queimadura, trombose suspeita, lesão cutânea extensa, membro com acesso já instalado que deve ser preservado, etc.
  • Considere o objetivo terapêutico: soluções irritantes/vesicantes, necessidade de alto fluxo, tempo previsto de terapia e compatibilidade do calibre do cateter com a veia e a terapia.
  • Planeje a punção: visualize o trajeto e escolha um ponto que permita estabilização e menor mobilidade articular (evitar áreas de flexão quando possível).

2) Posicionamento e conforto do paciente (antes da antissepsia)

  • Posicione o membro com apoio (travesseiro/coxins), mantendo o punho/antebraço relaxados.
  • Explique em linguagem simples o que será feito e combine sinais (ex.: avisar se sentir dor intensa/queimação).
  • Se necessário, use estratégias de conforto: aquecimento local por curto período (conforme protocolo), respiração guiada, distração, analgesia tópica quando disponível e indicada.

3) Aplicação do torniquete: ajuste e tempo

  • Coloque o torniquete a aproximadamente 7–10 cm acima do local pretendido (ou conforme prática institucional), sem pinçar pele.
  • Ajuste para ocluir retorno venoso sem interromper pulso arterial distal (verifique pulso e perfusão distal quando aplicável).
  • Tempo: mantenha o torniquete pelo menor tempo possível. Como referência prática, evite ultrapassar 1 minuto contínuo; se precisar de mais tempo para localizar veia, afrouxe por 1–2 minutos e reaplique.
  • Peça para o paciente abrir e fechar a mão suavemente (evitar “bombear” vigorosamente por longos períodos, que pode aumentar desconforto e alterar condições locais).

4) Antissepsia do sítio e tempo de secagem

  • Realize antissepsia no ponto escolhido e área ao redor com fricção suficiente para cobrir um campo amplo.
  • Respeite o tempo de secagem: aguarde secar completamente antes de puncionar. Não abane, não assopre e não toque novamente na pele preparada.
  • Se houver recontaminação (toque acidental, paciente encosta, luva encosta em área não estéril e retorna ao sítio), repita a antissepsia e aguarde nova secagem.

5) Estabilização da veia e ângulo de punção

  • Tracione a pele distalmente ao ponto de punção para estabilizar a veia (reduz “rolamento” e melhora controle do ângulo).
  • Introduza o cateter com bisel para cima, com ângulo inicial em torno de 10–30°, ajustando conforme profundidade da veia (mais superficial = menor ângulo).
  • Avance com movimentos firmes e controlados, evitando “serrar” a pele.

6) Visualização de refluxo (flashback): o que significa e o que fazer

  • Refluxo visível na câmara indica que a ponta do dispositivo atingiu o lúmen venoso.
  • Ao ver refluxo, reduza o ângulo (aproxime o cateter da pele) e avance 1–2 mm para garantir que o cateter (não apenas a agulha) esteja no interior da veia.
  • Se houver refluxo e, ao avançar, ele some com resistência, suspeite de punção parcial ou transfixação (ver seção de insucesso).

7) Avanço do cateter (técnica para evitar transfixação)

  • Com o ângulo já reduzido, mantenha a veia estabilizada e avance somente o cateter para dentro do vaso, enquanto mantém a agulha estável conforme o tipo de dispositivo.
  • Evite avançar “tudo junto” com força: isso aumenta risco de transfixar a parede posterior.
  • Se sentir resistência incomum, pare e reavalie: forçar pode causar hematoma e perda do sítio.

8) Liberação do torniquete no momento correto

  • Após o cateter estar no vaso e antes de conectar/abrir o sistema, libere o torniquete para reduzir pressão venosa e risco de extravasamento/hematoma.
  • Se o protocolo exigir, o torniquete pode ser liberado imediatamente após confirmação de posicionamento e antes da fixação inicial, mantendo sempre controle do sangramento.

9) Conexão do dispositivo e controle de sangramento

  • Oclua o vaso proximalmente (quando aplicável) para reduzir refluxo de sangue durante a conexão.
  • Conecte o dispositivo prescrito (extensor, conector sem agulha, equipo) mantendo técnica limpa/asséptica conforme protocolo institucional.
  • Garanta que conexões estejam firmes, sem tensão no cateter.

10) Flush e verificação de permeabilidade

  • Realize flush com solução conforme protocolo (volume e tipo definidos pela instituição), observando:
  • Sinais de permeabilidade: flush flui sem resistência significativa, ausência de dor, ausência de edema local, retorno venoso quando indicado pelo tipo de dispositivo e política local.
  • Sinais de problema: resistência ao flush, dor/ardor, edema, pele fria/pálida, “empastamento” local, ausência de fluxo adequado. Nesses casos, interrompa e reavalie antes de administrar qualquer medicação.

11) Estabilização inicial e conforto do paciente

  • Faça estabilização para evitar tração e micro-movimentos (associados a flebite e perda do acesso):
  • Alinhe o cateter no sentido do trajeto venoso, sem dobrar o dispositivo.
  • Fixe de modo a permitir inspeção do sítio (curativo transparente quando indicado) e reduzir umidade/sujidade.
  • Organize o equipo/extensor com folga e ancoragem para não puxar ao movimentar o braço.
  • Reavalie conforto: pergunte sobre dor e ajuste posicionamento. Oriente o paciente a avisar se notar dor, inchaço, umidade no curativo ou dificuldade de movimentar.

Erros frequentes e como prevenir

Recontaminação da pele após antissepsia

  • Como ocorre: tocar o sítio após secagem, repalpar a veia sem barreira, encostar luva/algodão não estéril no local preparado.
  • Prevenção: planejar o ponto antes da antissepsia; após antissepsia, não repalpar. Se precisar confirmar veia, use técnica prevista em protocolo (ex.: palpação com barreira estéril quando aplicável) ou refaça antissepsia.

Punção transfixante (atravessar a veia)

  • Como reconhecer: refluxo inicial seguido de perda do refluxo, dor súbita, edema/hematoma rápido, resistência ao avanço/flush.
  • Prevenção: ângulo adequado (menor em veias superficiais), reduzir ângulo ao ver refluxo, avançar 1–2 mm e então progredir cateter com delicadeza.
  • Conduta: interromper, retirar, compressão local conforme protocolo e escolher novo sítio em outra veia/segmento.

Manipulação excessiva do cateter/agulha

  • Como ocorre: “procurar” a veia com movimentos amplos, reposicionar repetidamente, girar o dispositivo em excesso.
  • Riscos: trauma endotelial, hematoma, dor, flebite, perda do acesso.
  • Prevenção: se não houver refluxo em poucos segundos após entrada, pare, retire e replaneje (novo ângulo, novo ponto ou novo sítio), em vez de “pescar”.

Sinais de sucesso e de insucesso (durante e após a punção)

Sinais de sucesso

  • Refluxo adequado no momento esperado.
  • Cateter avança sem resistência relevante.
  • Flush flui sem dor, sem edema e sem infiltração.
  • Sítio permanece seco, sem sangramento persistente, com curativo íntegro e dispositivo estável.

Sinais de insucesso/complicação imediata

  • Ausência de refluxo após entrada na pele e progressão compatível.
  • Edema, dor, queimação, pele fria/pálida, endurecimento local.
  • Hematoma em formação, sangramento que não cessa com medidas simples.
  • Resistência importante ao flush ou alarme de oclusão (quando aplicável).

Número de tentativas aceitáveis e conduta quando falhar

O número de tentativas deve seguir a política institucional. Na prática, muitos serviços adotam limites para reduzir trauma e atrasos terapêuticos (por exemplo, restringir tentativas por profissional e/ou por paciente). Independentemente do número definido, a decisão deve priorizar segurança e conforto.

Quando interromper e mudar a estratégia

  • Após tentativas sem sucesso conforme limite institucional.
  • Quando houver dor intensa, hematoma significativo, ansiedade elevada ou deterioração clínica.
  • Quando a veia escolhida se torna inviável (edema/hematoma) ou o membro apresenta piora de condições locais.

O que fazer quando falhar

  • Trocar de profissional: acionar colega com maior experiência ou equipe de terapia intravenosa, conforme fluxo local.
  • Mudar de sítio: escolher outra veia/segmento, preferindo área não traumatizada; evitar puncionar próximo a hematomas.
  • Recursos adicionais (conforme disponibilidade e protocolo): transiluminador, ultrassom para acesso periférico, aquecimento local, posicionamento otimizado, cateter de calibre/tecnologia apropriados.
  • Reavaliar indicação: se há necessidade de acesso alternativo (ex.: acesso guiado por US, midline, PICC, acesso central) conforme prescrição e protocolos.
  • Registrar: número de tentativas, locais puncionados, motivo do insucesso e condutas adotadas.

Checklist de segurança e qualidade (antes, durante e após)

EtapaVerificaçãoOK
PlanejamentoIndicação confirmada; membro avaliado; restrições verificadas; sítio escolhido com plano B( )
TorniqueteAplicado 7–10 cm acima; ajuste adequado; tempo minimizado (evitar > 1 min contínuo)( )
AntissepsiaFricção adequada; área ampla; secagem completa; sem toque/recontaminação( )
PunçãoÂngulo 10–30°; estabilização da veia; refluxo identificado; ângulo reduzido após refluxo( )
Avanço do cateterAvanço suave; sem força; sem manipulação excessiva; sem sinais de transfixação( )
TorniqueteLiberado no momento correto antes de conexão/fluxo contínuo( )
ConexõesDispositivo conectado e firme; controle de sangramento; sistema sem tensão( )
Flush/permeabilidadeFlush conforme protocolo; sem dor; sem edema; fluxo adequado( )
EstabilizaçãoCurativo/fixação íntegros; sítio visível para inspeção; equipo ancorado( )
Conforto e orientaçãoPaciente confortável; orientado a sinais de alerta (dor, inchaço, umidade, queimação)( )
RegistroLocal, calibre, nº de tentativas, intercorrências, avaliação pós-procedimento documentados( )

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Durante a punção venosa periférica, ao observar refluxo (flashback) na câmara do dispositivo, qual conduta torna a técnica mais segura e reduz o risco de transfixação?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O refluxo indica que a ponta atingiu o lúmen. Para evitar transfixar, deve-se reduzir o ângulo, avançar 1–2 mm e progredir apenas o cateter de forma suave, sem forçar.

Próximo capitúlo

Fixação e curativos de acesso venoso periférico: estabilização, integridade da pele e prevenção de complicações

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