Objetivos da fixação e do curativo no acesso venoso periférico (AVP)
A fixação e o curativo do AVP têm três objetivos principais: estabilizar o cateter (reduzir micromovimentos e tração), proteger a integridade da pele (evitar lesões por adesivo, maceração e dermatite) e prevenir complicações (infiltração/extravasamento, flebite, sangramento e infecção local). Um curativo “bonito” não é sinônimo de curativo seguro: o critério é manter o sítio visível/avaliável, seco, bem aderido e sem tensão sobre pele e cateter.
Escolha do tipo de curativo: quando usar filme transparente ou gaze
Filme transparente (poliuretano semipermeável)
- Vantagens: permite inspeção contínua do sítio, barreira contra água e microrganismos, boa fixação quando a pele está seca e íntegra.
- Indicações comuns: sítio sem sangramento ativo, pele com boa tolerância a adesivos, necessidade de visualização frequente.
- Pontos de atenção: se houver umidade/sudorese intensa, pode descolar e favorecer maceração; em pele frágil, a remoção pode causar lesão.
Gaze estéril + fixação (fitas/adesivo apropriado)
- Vantagens: melhor absorção quando há pequeno sangramento/umidade; pode ser mais tolerável em algumas peles sensíveis quando combinada com barreira cutânea e adesivos adequados.
- Indicações comuns: sangramento no sítio, exsudato, sudorese intensa, dificuldade de manter filme aderido.
- Pontos de atenção: dificulta visualização direta do ponto de inserção; exige inspeção mais frequente e técnica de troca criteriosa.
Dispositivos de estabilização (quando disponíveis)
Dispositivos de estabilização (ex.: bases adesivas com trava, estabilizadores tipo “ancoragem”) reduzem tração no cateter e micromovimentos, diminuindo risco de infiltração, flebite mecânica e perda precoce do acesso. Sempre que disponíveis, são preferíveis a “muitas voltas de fita” sobre o cateter.
Princípios práticos: estabilização sem tensão e proteção da pele
1) Estabilização do cateter
- Evite tração: o cateter deve permanecer alinhado ao trajeto do vaso e sem “puxar” quando o paciente move o membro.
- Evite micromovimentos: pequenas movimentações repetidas na inserção irritam o endotélio e aumentam risco de flebite e infiltração.
- Não comprima o hub: fitas sobre o hub podem criar pontos de pressão e desconforto, além de dificultar avaliação.
2) Aplicação do curativo sem tensão (“pele neutra”)
- Regra de ouro: a pele deve estar em posição natural (sem esticar) no momento de colar o adesivo. Colar com a pele tracionada favorece bolhas, dor e lesão por remoção.
- Adesivo deve aderir, não “puxar”: se o curativo estiver “repuxando” a pele, ajuste imediatamente.
3) Proteção da pele (especialmente pele frágil)
- Barreira cutânea (spray/toalhete) pode reduzir dermatite e lesão por adesivo, principalmente em idosos, desnutridos, uso de corticoide, pele muito seca ou com histórico de alergia.
- Escolha de adesivo: prefira adesivos hipoalergênicos e de menor agressividade quando necessário; evite “reforçar” com múltiplas camadas desnecessárias.
- Remoção segura: retirar lentamente, paralelamente à pele, sustentando a pele com a outra mão; se permitido pelo serviço, usar removedor de adesivo para pele frágil.
Passo a passo: montagem de fixação e curativo com filme transparente
Objetivo: manter o ponto de inserção visível, o cateter estabilizado e o conjunto protegido contra tração e umidade.
Prepare a pele: certifique-se de que a pele ao redor esteja seca. Se houver sudorese, seque cuidadosamente e considere barreira cutânea conforme protocolo.
Estabilize o hub com dispositivo (se disponível): posicione o estabilizador de forma que o hub fique firme, sem compressão excessiva e sem dobrar o cateter.
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Posicione o filme transparente: aplique o filme cobrindo o ponto de inserção e o hub, mantendo a pele em posição neutra. Alise do centro para as bordas para reduzir bolhas e melhorar aderência.
Crie “alça de segurança” no extensor (se houver): deixe uma pequena folga do extensor (loop) e fixe o extensor na pele com fita apropriada, para que qualquer puxão atue no extensor e não no cateter.
Direcione o extensor: posicione-o no sentido do membro, evitando cruzar articulações quando possível (ex.: evitar que o extensor fique tensionado ao flexionar punho/cotovelo).
Verifique conforto e mobilidade: peça ao paciente para movimentar suavemente o membro; observe se há tração no cateter ou repuxamento da pele.
Identifique o curativo: registre data, hora e identificação do profissional em etiqueta ou fita própria, sem cobrir o ponto de inserção e sem impedir a visualização do sítio.
Passo a passo: montagem de fixação e curativo com gaze
Objetivo: absorver pequena umidade/sangramento e manter estabilização, com inspeção frequente.
Controle de umidade/sangramento: se houver sangramento, aplique gaze estéril com leve pressão até cessar. Evite “tamponar” com excesso de camadas que aumentem pressão e desconforto.
Posicione gaze estéril sobre o ponto de inserção e hub, sem deslocar o cateter.
Fixe sem estrangular: use fitas/adesivos adequados para manter a gaze no lugar, evitando compressão que prejudique perfusão local ou cause dor.
Estabilize o extensor com alça de segurança e fixação em ponto separado do curativo principal, reduzindo tração no cateter.
Identifique com data/hora/profissional em local visível.
Posicionamento de extensores e conexões: reduzindo tração e perda do acesso
- Fixe o extensor na pele com fita apropriada em um ponto que permita mobilidade, mas impeça que o peso do equipo “puxe” o cateter.
- Evite ângulos agudos no extensor e no hub, pois favorecem oclusão e desconforto.
- Evite deixar conexões “penduradas”: o movimento do paciente e o peso do equipo aumentam risco de deslocamento, infiltração e sangramento.
- Em áreas de articulação (punho, fossa antecubital): redobre atenção à folga do extensor e à estabilização; se necessário, ajuste o posicionamento para minimizar flexão direta sobre o cateter.
Identificação do curativo: rastreabilidade e segurança
A identificação deve ser clara e padronizada, contendo data, hora e profissional. Evite escrever diretamente sobre o filme no local que prejudique a inspeção do sítio. A identificação facilita auditoria, programação de inspeções e decisão de troca quando há dúvida sobre tempo de permanência do curativo.
Cuidados com pele sensível e paciente idoso
Riscos comuns
- Lesão por adesivo (skin tear): remoção agressiva ou adesivo muito aderente em pele frágil.
- Dermatite de contato: eritema, prurido, ardor e descamação sob adesivos.
- Maceração: pele esbranquiçada e amolecida por umidade retida.
Medidas práticas
- Use barreira cutânea conforme protocolo, principalmente se houver histórico de sensibilidade.
- Prefira estabilizadores para reduzir necessidade de múltiplas fitas.
- Evite “reforços” excessivos: mais fita pode significar mais trauma na remoção.
- Planeje a remoção: retire lentamente, sustentando a pele; se houver dor intensa ou sinais de lesão, reavalie o tipo de adesivo/curativo.
- Revezamento de pontos de fixação do extensor (quando possível) para não agredir sempre a mesma área.
Rotina de inspeção do AVP e do curativo
Inspecionar significa observar e palpar cuidadosamente (quando aplicável) e correlacionar com queixas do paciente. A frequência deve seguir o protocolo institucional e a condição clínica, mas a lógica é: quanto maior o risco, mais frequente a inspeção (idoso, pele frágil, confusão, agitação, sudorese, curativo com gaze, uso de soluções irritantes).
Checklist de inspeção (prático)
- Curativo: está aderido? há bordas descolando? está seco? há sujidade?
- Ponto de inserção: hiperemia, edema, dor, calor, endurecimento, secreção?
- Integridade da pele: maceração, bolhas, descamação, lesão por adesivo?
- Estabilização: há tração no cateter ao mover o membro? o extensor está fixo?
- Funcionamento: sinais de infiltração (inchaço, pele fria, desconforto) durante infusão?
- Queixa do paciente: ardor, dor ao toque ou durante infusão, prurido sob o curativo?
Critérios para troca do curativo
Trocar curativo não é apenas “por tempo”: é principalmente por condição. Realize troca conforme protocolo institucional e sempre que houver:
- Descolamento (bordas levantadas, perda de vedação).
- Sujidade visível.
- Umidade sob o curativo (suor, água do banho, exsudato).
- Sangramento no sítio ou sob o curativo.
- Sinais de infecção local (ex.: secreção, aumento progressivo de hiperemia, dor, calor, edema).
- Suspeita de infiltração/extravasamento ou deslocamento do cateter.
- Reação cutânea (dermatite, bolhas, prurido intenso, lesão por adesivo).
Orientações para banho e mobilidade do paciente
Banho
- Filme transparente oferece barreira melhor, mas não é garantia se houver bordas descoladas. Oriente evitar jato direto e fricção sobre o curativo.
- Curativo com gaze tende a umedecer com facilidade: orientar proteção adicional conforme rotina do serviço e troca se umedecer.
- Após o banho: inspecionar bordas, presença de umidade e aderência. Umidade retida aumenta risco de maceração e descolamento.
Mobilidade
- Evite tração ao levantar do leito: orientar o paciente a não usar o membro com AVP como apoio principal se isso tensionar o equipo.
- Organize o equipo: mantenha linhas com folga suficiente e fixadas para não “puxarem” ao caminhar ou mudar de posição.
- Em pacientes agitados/confusos: reforçar estabilização do extensor e considerar estratégias institucionais para reduzir manipulação do acesso.
Exemplos práticos: montagem correta vs. incorreta (e consequências)
Exemplo 1 — Extensor sem fixação
Correto: extensor com pequena alça de segurança e fixado na pele em ponto separado do curativo principal, mantendo folga para movimento.
Incorreto: extensor “pendurado” sem fixação.
Consequências prováveis: tração contínua no hub, deslocamento do cateter, dor, sangramento no sítio, infiltração e perda precoce do AVP.
Exemplo 2 — Curativo aplicado com pele esticada
Correto: pele em posição neutra; filme aplicado e alisado sem repuxar.
Incorreto: profissional estica a pele para “colar melhor” e aplica o filme sob tensão.
Consequências prováveis: bolhas, desconforto, descolamento precoce com movimento, lesão por adesivo na remoção (especialmente em idosos).
Exemplo 3 — “Muita fita” sobre o hub
Correto: estabilizador próprio (ou fixação mínima e estratégica) mantendo hub estável e ponto de inserção visível.
Incorreto: múltiplas camadas de fita cobrindo hub e parte do sítio, dificultando inspeção.
Consequências prováveis: inspeção prejudicada (atraso na identificação de flebite/infiltração), maior risco de maceração por oclusão, maior trauma na remoção e dermatite.
Exemplo 4 — Curativo úmido mantido “para não mexer no acesso”
Correto: curativo úmido é trocado prontamente; pele é seca e protegida; reavaliar tipo de curativo (filme vs gaze) e necessidade de barreira cutânea.
Incorreto: manter curativo úmido por receio de perder o acesso.
Consequências prováveis: maceração, descolamento, aumento de risco de infecção local e falha do AVP.
Dicas rápidas de tomada de decisão (situações comuns)
| Situação | Conduta prática | Risco se não ajustar |
|---|---|---|
| Paciente com sudorese intensa e filme descolando | Reavaliar preparo da pele, considerar barreira cutânea e/ou gaze conforme protocolo; reforçar estabilização do extensor | Descolamento, umidade, maceração, perda do acesso |
| Idoso com pele frágil e histórico de lesão por adesivo | Barreira cutânea, adesivo menos agressivo, estabilizador para reduzir fitas; remoção lenta e paralela | Skin tear, dor, dermatite, interrupção de terapia |
| Curativo íntegro, mas paciente refere ardor/prurido | Inspecionar bordas e pele; suspeitar dermatite; considerar troca por material alternativo conforme protocolo | Lesão cutânea progressiva, descolamento, risco de infecção |
| Extensor tensiona ao flexionar punho/cotovelo | Reposicionar fixação do extensor, criar folga (loop) e ajustar direção do equipo | Tração, infiltração, sangramento e perda do AVP |