O que muda no momento de publicar
Publicar não é apenas “apertar o botão”. É a passagem do material apurado e editado para um produto público, indexável, compartilhável e sujeito a reações imediatas. Nesse ponto, o risco principal é duplo: (1) falhas técnicas e de apresentação (link quebrado, legenda errada, crédito ausente) que prejudicam a compreensão; (2) lacunas de contexto que abrem espaço para interpretações equivocadas. A publicação bem-feita garante que o leitor entenda o essencial, consiga acessar evidências (quando possível) e saiba exatamente o que está sendo afirmado.
Checklist de pré-publicação (última checagem)
Use este checklist como rotina fixa. Ele foca no que costuma dar problema nos minutos finais.
1) Conferência de elementos essenciais
- Quem/onde/quando: o texto deixa claro quem é o personagem central, onde ocorreu e em que data/horário?
- Números e unidades: valores, percentuais, datas, nomes de órgãos e cargos estão consistentes em todo o texto?
- Grafia de nomes: pessoas, instituições, bairros, ruas, siglas e cargos (especialmente em títulos e legendas).
- Trechos sensíveis: acusações, suspeitas, crimes, saúde, menores, dados pessoais — verifique se a redação está precisa e se o contexto evita inferências indevidas.
2) Inserção de links e documentos (com responsabilidade)
Links e documentos servem para orientar o leitor e sustentar afirmações, mas precisam ser usados com critério.
- Linkar para a fonte primária quando existir (decisão judicial, relatório, edital, base de dados, nota oficial).
- Evitar “linkar por linkar”: cada link deve responder “o que o leitor ganha ao clicar?”.
- Checar se o link abre em diferentes dispositivos e se não exige login inesperado.
- Documentos anexados: confirme se não há dados pessoais desnecessários (CPF, endereço, telefone, assinaturas) antes de publicar. Se necessário, publique com tarjas/anonimização.
- Contexto do documento: apresente em uma frase o que é, de quando é e por que importa (ex.: “Relatório de auditoria de 2024, que aponta…”).
3) Créditos (texto, foto, vídeo, dados)
- Autoria: repórter(es), edição, fotografia/imagens, infografia/dados, cinegrafia/áudio quando aplicável.
- Agências e bancos: se houver material de terceiros, credite conforme contrato/licença.
- Colaborações: se alguém forneceu planilha, análise ou acesso, registre o crédito interno e o público quando for política do veículo.
4) Legendas e contexto visual
Legenda errada é um dos erros mais comuns e mais danosos.
- O que a imagem mostra (sem interpretar além do visível).
- Onde/quando foi feita (se souber; se não souber, não invente).
- Quem aparece: cuidado com identificação incorreta; se houver dúvida, use descrição genérica.
- Contexto mínimo: por que aquela imagem está ali e como se relaciona com o texto.
5) “Teste de leitura do público” (30–60 segundos)
Antes de publicar, faça uma leitura rápida como se você não soubesse nada do assunto.
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- O primeiro parágrafo explica o fato sem jargão?
- Há termos técnicos sem explicação?
- O texto deixa claro o que é confirmado e o que é estimativa/hipótese?
- O leitor entende por que isso importa agora?
Passo a passo prático: rotina de publicação
Uma sequência simples reduz erros de última hora e padroniza a entrega.
- Travar a versão: defina qual é a versão final do texto e evite mudanças paralelas (um arquivo/aba por vez).
- Rodar o checklist (itens acima) com foco em: números, nomes, legenda, links.
- Inserir links e anexos: priorize fonte primária; revise se o texto não promete um link que não está lá (ex.: “veja o documento” sem documento).
- Revisar títulos, subtítulos e chamadas para garantir que não ampliam o que o texto não sustenta.
- Conferir metadados (quando aplicável): data/hora, tags/editorias, imagem de capa, descrição curta.
- Pré-visualizar em desktop e celular: quebras estranhas, tabelas ilegíveis, imagens cortadas, links clicáveis.
- Publicar e registrar internamente: horário, URL, versão publicada, observações (ex.: “aguardando retorno do órgão X”).
Rotinas após a publicação: acompanhar, corrigir, atualizar e desdobrar
Depois de publicado, o trabalho continua. O objetivo é manter a matéria correta, completa e útil, sem apagar rastros do que mudou.
Acompanhar reações (sem confundir barulho com relevância)
- Monitorar: comentários, e-mails, mensagens de fontes, retorno de assessorias, repercussão em outros veículos, notas oficiais.
- Classificar o retorno: (a) correção factual; (b) contestação com evidência; (c) opinião/discordância; (d) ataque/assédio; (e) informação nova.
- Registrar tudo que possa virar atualização: quem disse, quando, qual evidência apresentou.
Corrigir rapidamente (quando é erro) e documentar
Correção rápida reduz dano e aumenta confiança. O ponto-chave é separar erro (algo publicado incorretamente) de atualização (algo que mudou ou foi confirmado depois).
- Erro factual (nome, número, data, cargo, local): corrija assim que confirmado.
- Erro de contexto (frase ambígua, falta de explicação que induz a leitura errada): ajuste o texto e inclua nota de correção se a ambiguidade afetou o entendimento.
- Erro em legenda: trate como prioritário; legenda errada pode gerar acusações indevidas.
Atualizar com novos dados (sem reescrever a história)
Atualização responsável é adicionar informação nova, confirmada, e deixar claro o que mudou desde a publicação.
- O que justifica atualização: resposta oficial recebida depois, documento novo, dado revisado por órgão público, decisão judicial, confirmação de identidade, mudança no status do caso.
- Como atualizar: inserir novo parágrafo com data/hora, ajustar trechos afetados e acrescentar uma nota de atualização.
- Evitar “atualização cosmética”: trocar palavras sem necessidade ou sem transparência quando isso altera o sentido.
Planejar desdobramentos (follow-ups)
Uma boa pós-publicação transforma a repercussão em próximas pautas verificáveis.
- Novas entrevistas: quem ficou de fora e é essencial para equilibrar o tema? Quem pode explicar tecnicamente o impacto?
- Pedidos de dados: quais números faltaram? Ex.: série histórica, lista de contratos, geolocalização de ocorrências, orçamento por ano.
- Checagens derivadas: afirmações virais que surgiram após a matéria (o que é verdade? o que é distorção?).
- Serviço ao leitor: perguntas frequentes, guia prático, “o que se sabe até agora”, cronologia atualizada.
Protocolo de acompanhamento 24h/72h
Este protocolo organiza o pós-publicação para reduzir improviso e garantir resposta rápida a erros e novidades.
Nas primeiras 0–2 horas
- Verificação técnica: abrir a URL em celular e desktop; checar imagens, legendas, links, embeds, tabelas.
- Monitoramento inicial: identificar se há contestação factual imediata (ex.: “esse cargo está errado”).
- Registro: anotar retornos relevantes e separar o que é ruído do que é evidência.
Até 24 horas
- Rodada de retornos pendentes: se a matéria menciona “procuramos X”, tente novamente e registre tentativas (horário/canal).
- Checagem de repercussão: se outro ator publicou nota, documento ou vídeo, avaliar se é informação nova e verificável.
- Correções: se houver erro confirmado, corrigir e publicar nota de correção/atualização conforme padrão do veículo.
- Atualização pontual: incluir respostas oficiais recebidas após a publicação, com data/hora.
Entre 24 e 72 horas
- Revisão de completude: o leitor consegue entender o estado atual do caso sem buscar outras fontes?
- Desdobramentos: definir 1–3 follow-ups com tarefas claras (entrevistar, pedir dados, checar afirmação específica).
- Atualização estruturada: se o tema evoluiu, criar seção “O que mudou” ou “Últimas atualizações” com marcação temporal.
- Auditoria de links/documentos: garantir que anexos continuam acessíveis e que links externos não foram removidos (quando possível, usar versões arquivadas conforme política do veículo).
Como escrever notas de correção e de atualização (modelos práticos)
Nota de correção (erro factual)
Use quando algo estava errado no publicado. Seja específico e objetivo.
Correção (28 jan 2026, 14h10): Uma versão anterior informava que o contrato era de R$ 3,2 milhões. O valor correto é R$ 2,3 milhões, conforme o documento X. O texto foi corrigido.Nota de atualização (informação nova)
Use quando surgiu dado novo depois, sem que o anterior estivesse errado.
Atualização (28 jan 2026, 18h40): Após a publicação, a Secretaria Y enviou nota informando que abriu sindicância e que o prazo é de 30 dias. A resposta foi incluída no texto.Nota de esclarecimento (contexto que evita interpretação equivocada)
Use quando o texto pode ser lido de forma errada por falta de contexto, mesmo sem erro numérico.
Esclarecimento (29 jan 2026, 9h05): O termo “investigado” refere-se à abertura de procedimento e não implica acusação formal. O texto foi ajustado para explicitar essa diferença.Exemplos de atualização responsável (cenários comuns)
Cenário 1: Resposta oficial chega depois
Antes: “A reportagem procurou o órgão X, mas não obteve resposta até a publicação.”
Depois (atualização responsável): inserir a nota recebida, indicar horário e canal, e ajustar o trecho que dizia “sem resposta”.
- O que fazer: incluir a resposta na íntegra ou em resumo fiel; linkar o documento/nota se disponível; marcar como atualização com data/hora.
- O que evitar: apagar a menção de que não havia resposta sem registrar que agora há.
Cenário 2: Número estava errado por digitação
Problema: o texto publicou “15%” quando o correto era “1,5%”.
- O que fazer: corrigir o número, revisar todos os trechos onde ele aparece (título, olho, tabela, legenda), e publicar nota de correção indicando o erro e o correto.
- O que evitar: corrigir silenciosamente quando o erro muda a interpretação do fato.
Cenário 3: Vídeo/imagem usada fora de contexto
Problema: imagem ilustrativa pode ser interpretada como registro do evento.
- O que fazer: ajustar legenda para “imagem de arquivo/ilustrativa”, indicar data/local se aplicável, e trocar a imagem se a confusão persistir.
- O que evitar: manter legenda vaga (“momento da ação”) sem confirmação.
Cenário 4: Fato evolui (decisão, prisão, arquivamento, nova perícia)
Problema: a matéria vira referência e precisa refletir o estado atual.
- O que fazer: criar bloco “Situação atual” com data/hora; adicionar link para decisão/documento; manter a cronologia clara (o que era conhecido na publicação e o que mudou depois).
- O que evitar: reescrever o texto inteiro sem marcação temporal, apagando a sequência dos acontecimentos.
Ferramenta simples: log de mudanças (para controle interno)
Manter um log ajuda a equipe a não se perder em múltiplas edições e a responder a questionamentos com precisão.
| Data/hora | Tipo | O que mudou | Motivo/evidência | Responsável |
|---|---|---|---|---|
| 28 jan 14h10 | Correção | Valor do contrato: 3,2 mi → 2,3 mi | Documento X (link) | Editor(a) |
| 28 jan 18h40 | Atualização | Incluída nota da Secretaria Y | E-mail/nota oficial | Repórter |
Checklist rápido de pós-publicação (para colar na rotina)
- 0–2h: checagem técnica + monitoramento de contestação factual.
- Até 24h: cobrar retornos pendentes + corrigir erros confirmados + incluir respostas oficiais.
- 24–72h: organizar follow-ups + atualizar cronologia + revisar links/anexos.
- Sempre: diferenciar correção vs atualização; marcar data/hora; manter transparência sobre mudanças relevantes.