Psicologia social das redes sociais e comportamento online

Capítulo 1

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Como a psicologia social explica o comportamento online

A psicologia social parte da ideia de que o comportamento não é apenas “traço de personalidade”: ele muda conforme o contexto (o ambiente digital, as regras implícitas, o tipo de público) e conforme os grupos aos quais a pessoa sente que pertence. Em redes sociais, isso aparece em escolhas aparentemente simples: o que postar, quando comentar, que tom usar, o que curtir, o que ignorar e o que compartilhar.

Em ambientes digitais, três características amplificam a influência social: visibilidade (muita gente pode ver), persistência (o conteúdo fica registrado) e mensurabilidade (reações viram números: curtidas, comentários, compartilhamentos). Esses elementos transformam interações sociais em sinais rápidos de aceitação, rejeição ou indiferença.

Definições operacionais (para observar no dia a dia)

Identidade social

Definição operacional: é a parte do autoconceito baseada em “a quais grupos eu pertenço” e “como quero ser reconhecido”. No digital, identidade social se manifesta em sinais como: temas recorrentes, estilo de linguagem, referências culturais, posicionamentos, estética do perfil e até o tipo de conteúdo que a pessoa evita para não “desalinhar” com o grupo.

Exemplo prático: alguém que se percebe como parte de um grupo “profissional e competente” tende a postar conquistas, bastidores de trabalho e opiniões cuidadosas; pode evitar humor ácido ou desabafos muito íntimos, mesmo que isso faça parte de sua vida offline.

Normas (explícitas e implícitas)

Definição operacional: são regras de comportamento percebidas como “o que se faz aqui” (descritivas) e “o que se aprova aqui” (injuntivas). Em redes, normas aparecem como padrões de formato (texto curto vs. longo), tom (irônico, sério, motivacional), frequência de postagem e o que é considerado “cringe”, “forçado”, “necessário” ou “inaceitável”.

Continue em nosso aplicativo e ...
  • Ouça o áudio com a tela desligada
  • Ganhe Certificado após a conclusão
  • + de 5000 cursos para você explorar!
ou continue lendo abaixo...
Download App

Baixar o aplicativo

Exemplo prático: em um grupo onde a norma é “não expor problemas pessoais”, uma postagem vulnerável pode receber silêncio (norma descritiva: ninguém comenta) ou críticas (norma injuntiva: “não é lugar para isso”).

Influência social

Definição operacional: é qualquer mudança no comportamento, opinião ou expressão causada pela presença real, imaginada ou inferida de outras pessoas (a audiência). No digital, a influência pode ocorrer mesmo sem interação direta: basta imaginar como “vão reagir”.

Exemplo prático: antes de comentar, a pessoa relê e suaviza o texto para evitar interpretações negativas, porque imagina que colegas de trabalho também verão.

Aprovação social (sinais de aceitação)

Definição operacional: é o conjunto de sinais que indicam aceitação, validação ou prestígio social. Online, costuma ser traduzida em métricas (curtidas, compartilhamentos), qualidade dos comentários (elogios, concordância), e também em sinais indiretos (ser marcado, receber resposta rápida, ser incluído em conversas).

Exemplo prático: uma postagem com muitas curtidas vira “prova” de que aquele estilo funciona; a pessoa repete o formato e passa a evitar conteúdos que tiveram pouco retorno.

O ciclo social do comportamento online: indivíduo → audiência → feedback → ajuste

Uma forma prática de entender hábitos digitais é observar um ciclo de quatro etapas. Ele explica por que certos comportamentos se repetem e viram padrão, mesmo quando a pessoa diz que “não liga”.

Mapa conceitual (com setas e relações)

Indivíduo (objetivos, identidade social, humor, valores, inseguranças)  →  Audiência (quem eu acho que está vendo)  →  Feedback (métricas + comentários + silêncio)  →  Ajuste (o que repito, evito, intensifico ou escondo)  →  (volta ao indivíduo: hábitos e expectativas se consolidam)
EtapaO que observarExemplo comum
IndivíduoIntenção e identidade ativada (“quem eu estou sendo aqui?”)Postar algo para parecer competente, engraçado ou engajado
AudiênciaAudiência real vs. imaginada (amigos, colegas, família, desconhecidos)Evitar um tema porque “vai dar discussão” com certos contatos
FeedbackReações explícitas (curtidas, comentários) e implícitas (silêncio, unfollow)Receber muitas curtidas em um post de opinião
AjusteRepetição, autocensura, mudança de tom, mudança de horário, mudança de temaPassar a postar mais opiniões e menos conteúdo pessoal

Como o contexto e os grupos moldam postagens, comentários, curtidas e compartilhamentos

Postagens: “o que eu mostro” e “o que eu escondo”

Postar é um ato social: envolve selecionar aspectos da própria vida e organizá-los para uma audiência. A psicologia social ajuda a ver que a decisão não é só “vontade”, mas também gestão de impressão: como quero ser percebido por grupos relevantes.

  • Influência do grupo: se o grupo valoriza produtividade, posts de descanso podem ser evitados.
  • Influência do contexto: se o ambiente é percebido como “público e permanente”, a pessoa tende a ser mais cautelosa.

Situação comum: alguém quer postar uma foto simples do dia, mas escolhe outra mais “apresentável” porque imagina julgamento de colegas. O ajuste acontece antes mesmo do feedback: a audiência imaginada já influencia.

Comentários: normas de tom e risco social

Comentar envolve risco: discordar pode gerar conflito; elogiar pode parecer “puxa-saquismo”; fazer piada pode ser mal interpretado. Por isso, comentários são altamente guiados por normas e por leitura do clima do grupo.

  • Norma descritiva: “ninguém discute aqui” → comentários viram apenas elogios curtos.
  • Norma injuntiva: “discordar é malvisto” → a pessoa evita debates, mesmo tendo argumentos.

Situação comum: em um post polêmico, a pessoa escreve um comentário longo, apaga e troca por um emoji ou por silêncio. Esse é um ajuste de comportamento motivado por expectativa de feedback social.

Curtidas: microaprovação e sinalização de pertencimento

Curtir é um comportamento pequeno, mas socialmente carregado: pode significar apoio, concordância, amizade, alinhamento com um grupo ou apenas “vi”. Por ser rápido, vira uma forma de sinalização (mostrar de que lado estou, com quem me importo, o que valorizo).

  • Identidade social: curtir conteúdos do próprio grupo reforça pertencimento.
  • Influência: a pessoa pode curtir para manter reciprocidade (“curtiu o meu, curto o dela”).

Situação comum: alguém evita curtir um conteúdo para não ser associado a uma posição, mesmo concordando. Aqui, a audiência imaginada (quem verá a curtida) pesa mais que a opinião pessoal.

Compartilhamentos: amplificação e responsabilidade social

Compartilhar aumenta alcance e, com isso, aumenta a responsabilidade percebida: “se eu espalhar isso, o que diz sobre mim?”. Por isso, compartilhamentos tendem a ser mais seletivos e mais ligados à identidade e às normas do grupo.

  • Normas: em certos grupos, compartilhar notícias é valorizado; em outros, é visto como “militância” ou “drama”.
  • Aprovação social: compartilhar algo que rende engajamento pode reforçar o hábito de buscar temas “quentes”.

Situação comum: a pessoa compartilha um conteúdo não só pelo conteúdo, mas porque “vai render conversa” e aumentar interação — um ajuste orientado por feedback esperado.

Passo a passo prático: analisando uma interação com lente de psicologia social

Use este roteiro para entender por que você (ou alguém) agiu de determinada forma em uma situação comum de rede social. A ideia é transformar conceitos em observação concreta.

1) Descreva o comportamento observável (sem interpretar)

  • O que aconteceu? (postou, comentou, curtiu, apagou, compartilhou, silenciou)
  • Quando? Em que contexto? (horário, tema, público provável)

Exemplo: “Postei uma opinião e depois apaguei em 10 minutos.”

2) Identifique a identidade social ativada

  • Que “eu” estava em jogo? (profissional, amigo, membro de um grupo, familiar)
  • Que imagem eu queria manter?

Exemplo: “Eu estava no modo ‘profissional sensato’.”

3) Mapeie a audiência (real e imaginada)

  • Quem eu pensei que veria?
  • Quem eu não queria que visse?
  • Havia mistura de públicos (contextos colapsados)?

Exemplo: “Colegas de trabalho e familiares poderiam ver.”

4) Liste as normas percebidas

  • O que é comum as pessoas fazerem aqui? (norma descritiva)
  • O que é aprovado/reprovado aqui? (norma injuntiva)

Exemplo: “Aqui as pessoas evitam política; quem fala é rotulado.”

5) Identifique o feedback (ou a expectativa dele)

  • Que sinais apareceram? (curtidas, comentários, silêncio)
  • Que sinais eu previ? (medo de crítica, expectativa de apoio)

Exemplo: “Eu previ discussão e julgamento; o silêncio inicial confirmou minha ansiedade.”

6) Nomeie o ajuste de comportamento

  • O que mudou depois? (apagar, suavizar, postar menos, mudar tom)
  • Qual hábito isso reforça?

Exemplo: “Apaguei e passei a evitar opiniões; reforçou autocensura.”

Expectativas e hábitos: como o ciclo vira rotina

Quando o ciclo indivíduo → audiência → feedback → ajuste se repete, ele cria expectativas (“para dar certo, preciso postar assim”) e hábitos (checar reações, ajustar linguagem, evitar temas). Isso não depende apenas de “força de vontade”: é aprendizagem social baseada em sinais de aprovação e em normas do grupo.

Padrões comuns que surgem desse ciclo

  • Padronização do estilo: repetir formatos que geram aprovação (mesmo que canse).
  • Autocensura preventiva: não postar para evitar risco social.
  • Busca por previsibilidade: postar em horários/temas que “funcionam”.
  • Hipervigilância social: monitorar reações como indicador de valor social.

Mini-casos para treinar a leitura social (com o mapa conceitual)

Caso 1: comentário que vira silêncio

Indivíduo: quer participar e ser visto como inteligente. Audiência: grupo com pessoas influentes. Feedback: ninguém reage. Ajuste: para de comentar ou passa a comentar apenas elogios curtos.

Caso 2: curtidas como “termômetro” de pertencimento

Indivíduo: quer se sentir incluído. Audiência: amigos próximos. Feedback: poucos likes em um post pessoal. Ajuste: posta menos sobre si e mais sobre temas “neutros” que rendem mais aprovação.

Caso 3: compartilhamento para sinalizar alinhamento

Indivíduo: quer mostrar valores do grupo. Audiência: rede mista. Feedback: elogios de um subgrupo e críticas de outro. Ajuste: cria estratégia: compartilha só em espaços onde a norma é favorável (ou muda o enquadramento do texto para reduzir conflito).

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao observar que uma pessoa passou a evitar certos temas e mudou o tom das postagens depois de receber pouco engajamento, qual conceito explica melhor como esse padrão se forma nas redes sociais?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O padrão surge quando a pessoa considera quem está vendo (audiência), interpreta sinais como curtidas, comentários ou silêncio (feedback) e muda seu comportamento (ajuste), reforçando expectativas e hábitos ao repetir o ciclo.

Próximo capitúlo

Identidade, autoapresentação e construção do self nas redes sociais

Arrow Right Icon
Capa do Ebook gratuito Psicologia Social das Redes Sociais: Comparação, Pertencimento e Saúde Mental
7%

Psicologia Social das Redes Sociais: Comparação, Pertencimento e Saúde Mental

Novo curso

15 páginas

Baixe o app para ganhar Certificação grátis e ouvir os cursos em background, mesmo com a tela desligada.