Por que protocolos e fluxos importam no SUAS municipal
Protocolos e fluxos são combinações de regras operacionais (o que fazer, quando, como e por quem) e caminhos de atendimento (etapas e decisões) que organizam a jornada do usuário no SUAS municipal. O objetivo é reduzir descontinuidade (perda de informação, “empurra-empurra”, repetição de entrevistas), garantir responsabilização (cada unidade e profissional sabe o que deve entregar) e produzir registros rastreáveis (o que foi feito, por qual motivo e qual foi o resultado).
Na prática, um bom fluxo municipal responde a perguntas simples: onde entra, quem acolhe, como se decide prioridade/risco, para onde encaminha, como volta a informação (contrarreferência) e quando e como encerra o acompanhamento.
Componentes mínimos de um protocolo municipal
- Escopo: quais demandas cobre (ex.: violência, insegurança alimentar, documentação, situação de rua).
- Portas de entrada: unidades e canais (presencial, busca ativa, demanda espontânea, encaminhamento).
- Critérios de prioridade: sinais de risco, urgência e vulnerabilidade.
- Etapas padronizadas: acolhimento, triagem, avaliação de risco, encaminhamento, contrarreferência, acompanhamento e encerramento.
- Papéis e responsabilidades: por unidade e por profissional (quem registra, quem decide, quem executa, quem supervisiona).
- Registros obrigatórios: formulários, campos mínimos, prazos de lançamento e guarda documental.
- Pontos de decisão: “se/então” (ex.: se risco iminente, então acionar rede X em até Y horas).
- Prazos: tempo máximo para retorno, reavaliação e resposta do encaminhamento.
- Contrarreferência: como a unidade/serviço que recebeu o encaminhamento devolve informação e plano de ação.
- Proteção de dados e sigilo: acesso por perfil, compartilhamento mínimo necessário e consentimento quando aplicável.
Como elaborar protocolos e fluxos: passo a passo prático
1) Mapear o “fluxo real” e os gargalos
Antes de padronizar, descreva como o atendimento ocorre hoje. Faça um mapa simples com: entrada, primeira escuta, registros, decisões, encaminhamentos, retornos e encerramentos. Identifique gargalos típicos: ausência de contrarreferência, encaminhamentos sem objetivo, duplicidade de atendimento, falta de registro de decisão e prazos indefinidos.
Ferramenta rápida: oficina de 2 horas com representantes das unidades e da gestão, usando post-its para desenhar o caminho do usuário e marcar onde “quebra”.
2) Definir o escopo e os fluxos prioritários
Escolha demandas frequentes e de alto risco/impacto para iniciar (ex.: violência, insegurança alimentar, ausência de documentação, situação de rua). Para cada uma, defina: critérios de prioridade, quais unidades participam e quais registros são indispensáveis.
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3) Padronizar o acolhimento (primeira escuta) com roteiro mínimo
O protocolo de acolhimento deve garantir que qualquer profissional designado consiga realizar uma escuta inicial com qualidade e registrar informações essenciais sem transformar o acolhimento em “interrogatório”.
Roteiro mínimo de acolhimento (campos essenciais):
- Identificação e contatos (incluindo referência para recado, quando seguro).
- Composição familiar e pessoas de referência.
- Demanda principal (em palavras do usuário) e demandas associadas.
- Condições imediatas: alimentação hoje, local de dormir, segurança, saúde urgente.
- Riscos e violências: sinais, autor(es), frequência, presença de crianças/adolescentes/idosos/PCD.
- Rede já acionada (saúde, escola, conselho, justiça, organizações).
- Consentimentos e restrições de contato (ex.: não ligar em certos horários).
- Encaminhamento imediato (se houver) e orientação entregue.
Ponto de decisão: ao final do acolhimento, o protocolo deve obrigar a classificar o caso em uma categoria de prioridade (ex.: imediato/urgente/programado) e indicar o próximo passo (triagem, avaliação de risco, atendimento no mesmo dia, encaminhamento imediato).
4) Estruturar a triagem com critérios objetivos
A triagem organiza a fila e evita que casos graves aguardem por ordem de chegada. Ela não substitui o acompanhamento, mas define prioridade e rota.
Exemplo de critérios de triagem (checklist):
- Imediato (hoje): risco à vida, violência em curso, criança desacompanhada, pessoa sem local para dormir hoje, ameaça grave, necessidade de medida protetiva urgente, desorientação/sofrimento intenso sem suporte.
- Urgente (até 72h): violência recente sem risco iminente, insegurança alimentar grave, perda de moradia prevista, ausência total de renda com crianças, rompimento de vínculos com risco de abandono.
- Programado (até 15 dias): regularização documental sem risco associado, atualização cadastral, orientações gerais, demandas que podem ser atendidas por agenda.
Registro obrigatório: marcar no prontuário a categoria, os critérios que justificaram e o prazo definido para o próximo atendimento.
5) Criar um protocolo de avaliação de risco (e reavaliação)
A avaliação de risco aprofunda a triagem e orienta decisões: necessidade de proteção imediata, intensidade do acompanhamento, acionamento de rede e medidas de segurança. Deve ser padronizada para reduzir decisões arbitrárias e garantir rastreabilidade.
Estrutura recomendada:
- Fatores de risco: violência/ameaça, dependência de agressor, uso abusivo de substâncias no domicílio, presença de crianças/idosos/PCD, isolamento social, situação de rua, insegurança alimentar grave, ausência de documentos, transtornos mentais sem cuidado.
- Fatores de proteção: rede familiar segura, vizinhança solidária, renda mínima, vínculo com serviços, moradia estável, acesso à saúde.
- Plano de segurança (quando aplicável): contatos seguros, locais de apoio, orientações de emergência, restrições de informação.
- Classificação de risco: baixo/médio/alto (com critérios descritos no protocolo).
- Periodicidade de reavaliação: ex.: alto risco reavaliar em até 7 dias; médio em 30; baixo em 90 (ajustável ao município).
Registro obrigatório: data, profissional responsável, evidências/relatos que sustentam a classificação, decisões tomadas e prazos.
6) Padronizar encaminhamentos: o que não pode faltar
Encaminhamento é mais do que “mandar para outro lugar”. É um ato técnico com objetivo, informação mínima e responsabilidade de acompanhamento. Um protocolo municipal deve definir um modelo único de encaminhamento e um prazo de retorno (contrarreferência).
Encaminhamento completo deve conter:
- Identificação do usuário (e restrições de contato quando houver risco).
- Motivo do encaminhamento (problema/necessidade).
- Objetivo esperado (o que se quer obter com o serviço receptor).
- Resumo do que já foi feito (para evitar repetição).
- Classificação de risco e urgência (com prazo).
- Documentos anexos/necessários.
- Responsável pelo caso na unidade de origem (nome/cargo/contato institucional).
- Data prevista para retorno/contrarreferência.
Ponto de decisão: se o serviço receptor não confirmar recebimento/agenda em prazo definido, o protocolo deve prever “plano B” (novo contato, alternativa de serviço, escalonamento à coordenação).
7) Implantar contrarreferência com prazos e formato
Contrarreferência é a devolutiva do serviço/unidade que recebeu o encaminhamento, informando: se atendeu, o que foi feito, qual plano ficou acordado e quais pendências existem. Sem contrarreferência, o município perde coordenação do cuidado e não consegue responsabilizar a rede.
Modelo mínimo de contrarreferência:
- Status: atendido / agendado / não localizado / recusou / não elegível.
- Ações realizadas e resultados.
- Plano acordado e próximos passos (com datas).
- Riscos observados e recomendações.
- Necessidade de retorno à unidade de origem (sim/não) e motivo.
Prazos sugeridos: confirmação de recebimento em até 48h; contrarreferência inicial em até 15 dias (ou menor em casos urgentes).
8) Definir critérios e protocolo de encerramento do acompanhamento
Encerramento não é “sumir com o caso”; é registrar que o objetivo do acompanhamento foi atingido, que houve mudança de condição, ou que o usuário não deseja/ não adere, com tentativas documentadas e orientações finais. O protocolo deve evitar encerramentos automáticos sem avaliação.
Critérios comuns de encerramento (registrar qual se aplica):
- Objetivos do plano atingidos e risco reduzido/estabilizado.
- Mudança de território com transferência formal e contrarreferência.
- Encaminhamento efetivado com acompanhamento assumido por outro serviço (com contrarreferência registrada).
- Desistência/recusa: registrar orientações, riscos informados e canais para retorno.
- Não localização: registrar tentativas (datas/meios) e avaliação de risco antes de encerrar.
Registro obrigatório: síntese do percurso, resultados, pendências, orientações, e data de encerramento com responsável técnico.
Papéis definidos por unidade e por profissional (matriz de responsabilidades)
Para reduzir falhas, o protocolo deve explicitar “quem faz o quê” em cada etapa. Uma forma simples é usar uma matriz do tipo RACI (Responsável, Aprovador, Consultado, Informado).
| Etapa | Responsável (executa) | Aprovador (decide/valida) | Consultado | Informado |
|---|---|---|---|---|
| Acolhimento e registro inicial | Profissional de referência do atendimento/recepção técnica | Coordenação da unidade (quando houver exceção) | Equipe técnica | Gestão (em casos graves) |
| Triagem e prioridade | Equipe técnica designada | Coordenação da unidade | Vigilância/gestão (se necessário) | Usuário e equipe |
| Avaliação de risco | Técnico responsável pelo caso | Coordenação técnica (alto risco) | Rede parceira (quando pertinente) | Gestão (alto risco) |
| Encaminhamento | Técnico responsável pelo caso | Coordenação (quando envolve exceções/alto risco) | Serviço receptor | Usuário |
| Contrarreferência | Serviço receptor (técnico designado) | Coordenação do serviço receptor | Unidade de origem | Gestão (quando pactuado) |
| Encerramento | Técnico responsável | Coordenação (amostragem/alto risco) | Equipe | Usuário |
Dica operacional: publique uma versão resumida (1 página) do fluxo por unidade, com telefones institucionais, horários, e prazos de resposta. Isso reduz encaminhamentos “no escuro”.
Exemplos de fluxos para demandas frequentes (com pontos de decisão e registros)
1) Violência (doméstica, sexual, contra criança/adolescente, idoso, PCD)
Objetivo do fluxo: garantir proteção imediata quando necessário, reduzir revitimização e assegurar registro e contrarreferência entre unidades e rede.
Entrada (demanda espontânea / encaminhamento / busca ativa) → Acolhimento com plano de segurança → Triagem (imediato/urgente/programado) → Avaliação de risco (alto/médio/baixo) → Encaminhamentos e ações de proteção → Contrarreferência → Acompanhamento/reavaliação → EncerramentoPontos de decisão:
- Se violência em curso ou ameaça grave: atendimento no mesmo dia, plano de segurança, acionar rede de proteção conforme necessidade e registrar medidas adotadas.
- Se há criança/adolescente/idoso/PCD em risco: registrar sinais, responsáveis, e acionar os órgãos competentes conforme protocolo local pactuado; definir responsável pelo caso e prazos de retorno.
- Se o agressor acompanha o usuário: restringir informações, ajustar forma de contato, registrar risco e combinar estratégia segura de retorno.
Registros necessários:
- Relato do usuário (com linguagem descritiva, sem julgamentos).
- Classificação de risco e justificativa.
- Plano de segurança (orientações e contatos seguros).
- Encaminhamentos realizados (objetivo, prazo, responsável).
- Contrarreferência recebida (status e ações).
- Reavaliações (datas e mudanças no risco).
2) Insegurança alimentar (falta de alimentos, risco de fome)
Objetivo do fluxo: responder rapidamente à urgência alimentar e organizar encaminhamentos para respostas continuadas, com registro do que foi ofertado e do que ficou pendente.
Entrada → Acolhimento (verificar alimentação hoje e crianças) → Triagem (imediato/urgente) → Avaliação breve de risco social → Oferta/encaminhamento para resposta imediata → Plano de acompanhamento (se necessário) → Contrarreferência (quando houver rede parceira) → ReavaliaçãoPontos de decisão:
- Se não há alimento para hoje: resposta no mesmo dia (conforme oferta municipal) e registro do tipo/quantidade/critério utilizado.
- Se há crianças pequenas/idosos/gestantes: priorizar atendimento e reavaliação mais rápida.
- Se há recorrência (retornos frequentes): abrir avaliação mais completa para identificar causas (desemprego, rompimento familiar, violência, saúde) e definir plano com prazos.
Registros necessários:
- Condição alimentar declarada e sinais observados.
- Critério de prioridade aplicado.
- Benefício/apoio concedido (data, responsável, comprovante quando aplicável).
- Encaminhamentos (objetivo e prazo) e retorno agendado.
3) Ausência de documentação (sem RG/CPF/Certidão, impedindo acesso a serviços)
Objetivo do fluxo: evitar que a falta de documento paralise o atendimento e padronizar a rota de regularização com responsabilidades e prazos.
Entrada → Acolhimento (identificar quais documentos faltam e por quê) → Triagem (programado/urgente se houver risco associado) → Checklist documental → Encaminhamento para emissão/regularização → Contrarreferência (protocolo/andamento) → Atualização de registros → Encerramento quando regularizadoPontos de decisão:
- Se a pessoa não sabe dados básicos (filiação, local de nascimento): prever etapa de reconstrução de informações e busca de registros, com prazos e responsável.
- Se há impedimento imediato de acesso a direito essencial: tratar como urgente e registrar a urgência no encaminhamento.
- Se há suspeita de fraude/uso indevido: registrar sinais e seguir protocolo municipal de verificação, preservando sigilo e evitando exposição.
Registros necessários:
- Lista de documentos faltantes e motivo (perda, roubo, nunca teve, conflito familiar).
- Encaminhamento com objetivo (emitir 2ª via, regularizar CPF etc.) e documentos de suporte.
- Número de protocolo/agenda (quando houver) e prazo de retorno.
- Contrarreferência: status do processo (emitido, pendente, exigência).
4) Situação de rua (abordagem, demanda espontânea, encaminhamento)
Objetivo do fluxo: garantir resposta imediata para necessidades básicas e segurança, organizar encaminhamentos e registrar decisões, respeitando autonomia e reduzindo perdas de vínculo.
Entrada (abordagem/encaminhamento/demanda) → Acolhimento (necessidades imediatas e segurança) → Triagem (imediato/urgente) → Avaliação de risco (saúde, violência, clima, uso de substâncias, vínculos) → Encaminhamentos e plano de curto prazo → Contrarreferência → Reavaliação frequentePontos de decisão:
- Se há risco imediato (frio extremo, ferimentos, ameaça): acionar resposta emergencial e registrar horário e providências.
- Se a pessoa recusa encaminhamento: registrar recusa, orientações fornecidas, avaliação de risco e estratégia de novo contato (quando possível).
- Se há documentos perdidos e ausência de contato: priorizar estratégia de identificação e canal seguro de retorno.
Registros necessários:
- Local de abordagem/atendimento e condições observadas.
- Necessidades imediatas atendidas e encaminhamentos.
- Plano de curto prazo (próximos 7 dias) com responsável e data de recontato.
- Contrarreferência do serviço receptor (acolhimento, saúde, documentação etc.).
Checklist de qualidade do fluxo (para uso da coordenação)
- Existe um único modelo de encaminhamento e contrarreferência no município?
- Todo caso tem responsável definido (nome e função) e prazo de retorno?
- Há critérios escritos de triagem e risco, com reavaliação programada?
- Os registros incluem decisão + justificativa + prazo (não apenas “encaminhado”)?
- Há rotina de cobrança de contrarreferência e tratamento de não resposta?
- Encerramentos registram motivo, tentativas e orientação quando aplicável?
Modelos curtos (copiáveis) para padronização
Modelo de encaminhamento (campos)
1. Unidade de origem / responsável / contato institucional: ________ Data: __/__/____ Prazo: __/__/____ Urgência: ( ) Imediato ( ) 72h ( ) 15 dias ( ) Outro: ___ 2. Identificação do usuário (e restrições de contato): ______________________________ 3. Motivo do encaminhamento (demanda): ________________________________________ 4. Objetivo esperado (resultado): _______________________________________________ 5. Resumo do atendimento já realizado: __________________________________________ 6. Classificação de risco e justificativa: _________________________________________ 7. Documentos anexos/necessários: _____________________________________________ 8. Retorno/contrarreferência: enviar até __/__/____ para __________________________Modelo de contrarreferência (campos)
1. Serviço receptor / responsável / contato: __________________ Data: __/__/____ 2. Status: ( ) Atendido ( ) Agendado ( ) Não localizado ( ) Recusou ( ) Não elegível 3. Ações realizadas e resultados: _______________________________________________ 4. Plano acordado e próximos passos (datas): ____________________________________ 5. Riscos observados e recomendações: __________________________________________ 6. Necessita retorno à unidade de origem? ( ) Sim ( ) Não Motivo: ________________