Do conceito ao portfólio vendável
“Conceito” é a ideia central que guia a coleção (tema, referências, sensações, ocasião de uso e códigos visuais). “Mix” é a tradução comercial desse conceito em um conjunto de produtos com categorias, preços, cores, tamanhos e quantidades planejadas para vender com previsibilidade.
O erro comum é tentar “expressar o conceito” com muitas peças diferentes e pouca repetição do que vende. O caminho mais seguro é: transformar o conceito em regras objetivas (materiais, modelagens, paleta, detalhes) e, em seguida, montar um portfólio enxuto com poucas SKU, porém com profundidade (tamanhos/cores/estoque) onde faz sentido.
1) Transforme o conceito em regras de produto (briefing técnico-comercial)
Antes de desenhar o mix, converta o conceito em decisões que restringem e facilitam a criação:
- Ocasião principal: trabalho, casual, noite, praia, fitness, etc.
- Silhuetas-chave: ex.: oversized + reto; ou acinturado + evasê.
- Materiais permitidos: ex.: malha canelada, tricoline, sarja com elastano.
- Detalhes assinatura: ex.: recortes, botões forrados, pesponto contrastante.
- Paleta: 2 neutros + 2 cores principais + 1 cor de acento.
- Faixa de preço por categoria: ex.: camiseta R$89–129; calça R$199–299.
Essas regras viram um “filtro”: se uma peça não encaixa, ela sai do mix (mesmo que seja bonita).
2) Defina categoria e arquitetura do portfólio
Categoria é o “onde você joga para ganhar”. Escolha 1 categoria principal e 1–2 categorias de suporte para compor looks e aumentar ticket médio.
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- Categoria principal (core): onde você terá mais profundidade e reposição (ex.: tops; ou bottoms; ou vestidos).
- Categorias de suporte: complementam e ajudam a vender o core (ex.: se core é calça, suporte pode ser blusa e terceira peça leve).
- Categoria de oportunidade (opcional): 1 item sazonal/teste (ex.: saia curta no verão) com baixo risco.
Exemplo (marca casual feminina): core = blusas e tops; suporte = calças e saias; oportunidade = terceira peça leve (kimono/camisa).
3) Escolha a linha: básicos, fashion e premium (e o papel de cada uma)
“Linha” é o nível de complexidade, preço e apelo. Você pode ter as três, mas com proporções claras.
- Básicos: alta recorrência, menor complexidade, mais reposição. Ex.: camiseta lisa, regata, calça reta.
- Fashion: tendência/novidade, giro moderado, risco maior. Ex.: recortes, assimetrias, estampa forte.
- Premium: materiais/acabamentos superiores, ticket alto, menor volume. Ex.: alfaiataria, seda/linho premium, construção complexa.
Regra prática para coleção enxuta: comece com predominância de básicos (para previsibilidade) e poucos fashion/premium (para desejo e imagem).
| Linha | Objetivo | Risco | Quando usar mais |
|---|---|---|---|
| Básicos | Vender sempre, repor | Baixo | Início da marca e caixa curto |
| Fashion | Novidade e tráfego | Médio | Calendário de lançamentos |
| Premium | Margem e posicionamento | Médio/alto | Quando produção e qualidade estão maduras |
4) Grade de tamanhos: defina com dados e com o seu público
Grade é a distribuição de tamanhos que você vai produzir por SKU. Sem histórico de vendas, use uma hipótese inicial e ajuste rápido.
Passo a passo prático:
- Escolha a grade base: ex.: PP–P–M–G–GG ou 34–36–38–40–42–44.
- Defina “tamanho central”: normalmente M (ou 38/40) concentra maior volume.
- Comece com uma curva simples (exemplo para 5 tamanhos): PP 10% / P 20% / M 40% / G 20% / GG 10%.
- Adapte por modelagem: peças ajustadas tendem a concentrar mais no centro; oversized pode “puxar” para tamanhos menores.
- Planeje prova e tabela de medidas: padronize medidas por categoria (top, bottom, vestido) para reduzir devoluções e retrabalho.
Dica operacional: se sua produção tem MOQ (mínimo por cor/modelo), reduza variações de cor antes de reduzir tamanhos. Falta de tamanho quebra venda; falta de cor costuma ser menos crítica.
5) Variações de cor: paleta curta, repetição inteligente
Cor aumenta SKU rapidamente. Para coleção enxuta, use cor como ferramenta de venda, não como “catálogo de opções”.
Passo a passo prático:
- Defina 2 neutros fixos (ex.: preto e off-white) para aparecerem em várias peças.
- Escolha 1–2 cores “herói” do conceito (ex.: verde oliva e terracota).
- Use 1 cor de acento em poucos itens (ex.: azul cobalto em 1 peça de imagem).
- Repita cores entre categorias para facilitar composição de looks (ex.: a mesma terracota em top e bottom).
- Limite cores por SKU: comece com 1–2 cores por modelo (3 cores só para peças âncora com alta certeza de venda).
6) Profundidade de estoque: quantidade por SKU com lógica de risco
Profundidade é quantas unidades você compra/produz por SKU (considerando tamanhos e cores). Em coleção enxuta, você reduz variedade e aumenta a chance de acertar com profundidade seletiva.
Heurística simples (ajuste à sua realidade de caixa e produção):
- Peças âncora: maior profundidade (porque você quer evitar ruptura).
- Itens de entrada: profundidade média (giram, mas precisam de preço e volume controlados).
- Itens de margem: profundidade média/baixa (dependem de aceitação, mas sustentam lucro).
- Peças de imagem: baixa profundidade (função é comunicar e atrair, não necessariamente vender em volume).
Controle de risco: se você não consegue repor rápido, aumente um pouco a profundidade das âncoras e reduza ainda mais as peças de imagem/fashion. Se consegue repor em 10–20 dias, faça primeira compra menor e planeje reposição.
Lógica de mix de produtos (o papel de cada peça)
Peças âncora (core sellers)
São as peças que sustentam o faturamento e têm alta recorrência. Normalmente são fáceis de entender, vestir e recomprar.
- Ex.: camiseta perfeita, calça reta, vestido básico, camisa clássica.
- Características: modelagem validada, cores neutras, boa margem ou bom giro, baixa devolução.
Itens de entrada (porta de entrada)
Produtos com preço mais acessível que trazem novos clientes e aumentam taxa de conversão.
- Ex.: regata, top simples, t-shirt estampada leve, acessório pequeno (se fizer sentido).
- Cuidado: não podem destruir margem nem gerar complexidade produtiva.
Itens de margem (profit drivers)
Peças com maior margem bruta (por percepção de valor, material, acabamento ou diferenciação) que elevam o lucro do mix.
- Ex.: terceira peça (blazer leve), vestido com construção melhor, calça com tecido premium.
- Estratégia: vender junto com âncoras (look completo) e usar fotos/styling para justificar valor.
Peças de imagem (brand builders)
Itens que comunicam o conceito e geram desejo, mesmo que vendam pouco. Elas “puxam” a percepção da coleção.
- Ex.: peça com cor de acento, estampa marcante, modelagem mais ousada.
- Regra: pouca profundidade e produção controlada.
Como criar uma mini-coleção com poucas SKU (reduzindo risco)
SKU é a combinação de modelo + cor (e às vezes variação de tecido). Tamanho não é SKU em muitos controles, mas impacta estoque. O objetivo é ter poucas SKU e alta coerência.
Modelo de mini-coleção (exemplo com 10–12 SKU)
Estrutura sugerida (ajuste à sua categoria):
- 4–5 SKU âncora (básicos): ex.: 2 tops + 2 bottoms + 1 vestido.
- 2–3 SKU de entrada: ex.: regata + t-shirt + short simples.
- 2–3 SKU de margem: ex.: terceira peça + vestido melhor + calça premium.
- 1 SKU de imagem: ex.: peça em cor acento ou detalhe assinatura forte.
Exemplo prático (casual feminino, paleta: preto, off, oliva, terracota, acento azul):
- Âncora: camiseta (preto/off), calça reta (preto), saia midi (oliva), camisa (off).
- Entrada: regata (preto), t-shirt (terracota).
- Margem: vestido midi (oliva), terceira peça leve (preto).
- Imagem: conjunto top + saia em azul (pouca quantidade) ou uma peça única statement.
Passo a passo para montar o mix enxuto
- Liste 20 ideias alinhadas ao conceito (sem censura).
- Corte para 12 usando critérios: repetição de silhueta, coerência de materiais, capacidade produtiva, preço-alvo.
- Classifique cada peça como: âncora, entrada, margem ou imagem.
- Garanta looks completos: cada bottom deve combinar com pelo menos 2 tops; cada terceira peça deve funcionar com 3 bases.
- Reduza cores: priorize neutros nas âncoras; use cor herói em 1–2 categorias; acento só em imagem.
- Defina grade e profundidade por papel no mix (âncora mais profunda; imagem mais rasa).
- Cheque complexidade: se duas peças exigem processos difíceis (ex.: zíper invisível + forro + bordado), mantenha apenas uma delas.
Reposição versus lançamentos: como planejar sem travar caixa
Você precisa equilibrar continuidade (reposição do que vende) com novidade (motivo para o cliente voltar). Em operação enxuta, a reposição costuma ser o motor de caixa; lançamentos são o motor de atenção.
Estratégia prática em 2 trilhas
- Trilha A — Continuidade (reposição): 60–80% do esforço produtivo. Inclui âncoras e alguns itens de entrada. Objetivo: não deixar faltar tamanho/cor.
- Trilha B — Cápsulas (lançamentos): 20–40% do esforço. Inclui fashion, margem e imagem. Objetivo: testar e aprender.
Como decidir o que repor
Crie regras simples para não depender de “feeling”.
- Ponto de reposição: quando um SKU atinge X% de venda do estoque inicial (ex.: 60–70%), você aciona reposição.
- Tempo de reposição: considere lead time (produção + transporte). Se leva 20 dias, você precisa pedir antes de acabar.
- Reposição seletiva: reponha primeiro os tamanhos centrais e cores neutras (onde a demanda é mais estável).
Exemplo de regra simples (âncora): Se vendeu 70% do estoque e ainda faltam 30 dias para o próximo lançamento, repor 1x a quantidade do tamanho M e 0,5x dos tamanhos P/G. Para cores: repor neutros primeiro.Como planejar lançamentos sem inflar SKU
- Troque 1 variável por vez: mesma modelagem, nova cor; ou mesma cor, novo detalhe. Isso reduz risco e facilita produção.
- Use cápsulas pequenas: 2–4 SKU por lançamento, com baixa profundidade.
- Reaproveite base de modelagem: um vestido pode gerar versão curta/longa; uma camisa pode virar cropped.
Matriz de decisão de mix: custo, demanda e complexidade produtiva
Para decidir o que entra no mix (e com que profundidade), use uma matriz simples que compara três fatores. A ideia é priorizar peças com alta demanda esperada, custo controlado e baixa/média complexidade.
Como pontuar (1 a 5)
- Demanda (D): 1 = nicho/incerto; 5 = muito provável de vender (baseado em intenção de compra, pré-venda, pedidos, comportamento do público).
- Custo (C): 1 = custo alto (aperta margem); 5 = custo baixo (ajuda margem e preço).
- Complexidade (K): 1 = muito complexa (muitos processos, risco de defeito, lead time alto); 5 = simples e repetível.
Score sugerido para priorização:
Score = (2 * D) + C + KDemanda pesa mais porque estoque parado é o maior risco.
Tabela modelo (preencha para cada peça candidata)
| Peça | Papel no mix | D (1-5) | C (1-5) | K (1-5) | Score | Decisão |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Camiseta modelagem A (preto/off) | Âncora | 5 | 4 | 5 | 19 | Entrar + alta profundidade + reposição |
| Calça reta sarja (preto) | Âncora/Margem | 4 | 3 | 3 | 14 | Entrar + profundidade média |
| Vestido com recortes e zíper | Imagem/Fashion | 3 | 2 | 2 | 10 | Entrar com baixa profundidade (cápsula) |
| Blazer forrado premium | Margem | 3 | 1 | 1 | 9 | Testar só se houver demanda (lista de espera) |
Regras de decisão com base na matriz
- Score alto (≥15): ótimo para âncora/continuidade; priorize cores neutras e grade completa.
- Score médio (11–14): bom para cápsula ou margem; profundidade moderada e teste de cor.
- Score baixo (≤10): só entra se tiver função clara (imagem) ou validação prévia (encomendas, lista de espera, sinal).
Checklist final do mix enxuto:
- Tenho pelo menos 3–5 SKU âncora com reposição planejada?
- Meu mix permite looks completos (combinações reais)?
- As cores estão repetidas de forma inteligente (neutros + heróis + acento controlado)?
- A grade está coerente com o público e com a modelagem?
- As peças de imagem estão com baixa profundidade e custo/complexidade sob controle?
- Existe um plano claro do que é reposição (continuidade) e do que é cápsula (lançamento)?