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Engenharia Social e Fraudes Digitais: prevenção, detecção e resposta

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Procedimentos internos de reporte: como escalar suspeitas com segurança

Capítulo 18

Tempo estimado de leitura: 15 minutos

+ Exercício

Procedimentos internos de reporte são o conjunto de regras, canais e responsabilidades que orientam como qualquer colaborador deve comunicar uma suspeita de fraude digital, tentativa de engenharia social ou incidente relacionado, de forma rápida, rastreável e segura. O objetivo é reduzir o tempo entre a identificação do sinal e a ação de contenção, evitando que a pessoa tente “resolver sozinha” e acabe apagando evidências, expondo dados ou ampliando o impacto.

Um bom procedimento de reporte precisa equilibrar três coisas: velocidade (para conter), precisão (para direcionar ao time certo) e segurança (para não alertar o atacante, não vazar informações e não comprometer a investigação). Na prática, isso significa ter caminhos claros de escalonamento, critérios de severidade, orientações do que registrar e do que não fazer, e um modelo de comunicação que proteja o denunciante e a organização.

O que significa “escalar suspeitas com segurança”

Escalar com segurança é encaminhar a suspeita para as áreas responsáveis (Segurança da Informação, TI, Jurídico, Compliance, Financeiro, RH, Gestão de Riscos, ou um CSIRT/SOC) usando canais oficiais e com o mínimo de exposição. “Segurança”, aqui, envolve:

  • Segurança operacional: não interagir com o possível fraudador, não “testar” links e anexos, não compartilhar a suspeita em grupos informais, e não usar canais que possam ser monitorados por terceiros.
  • Segurança da evidência: preservar registros (mensagens, cabeçalhos, logs, prints com contexto) sem alterar o conteúdo e sem apagar itens que possam ser necessários para análise.
  • Segurança jurídica e de privacidade: evitar coletar ou distribuir dados pessoais além do necessário, respeitar políticas internas e manter confidencialidade.
  • Segurança do denunciante: permitir reporte sem medo de retaliação, com possibilidade de anonimato quando aplicável, e com orientações claras para reduzir exposição.

O escalonamento seguro também evita dois erros comuns: o “pânico” (disparar mensagens para todo mundo sem triagem) e a “paralisia” (não reportar por achar que é pouca coisa). O procedimento deve deixar explícito que reportar uma suspeita que depois se mostra falsa é aceitável e esperado.

Princípios de um procedimento interno eficaz

1) Canais oficiais e redundantes

Deve existir mais de um canal, porque o canal principal pode estar indisponível durante um incidente. Exemplos de canais internos típicos: portal de chamados, e-mail dedicado de segurança, número interno/ramal, formulário no intranet, chat corporativo com bot de reporte, e um canal de emergência 24/7 para eventos críticos. Cada canal precisa ter instruções simples: o que enviar, como anexar evidências e qual SLA esperado.

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2) Triagem rápida com critérios de severidade

O procedimento deve definir níveis (por exemplo: Baixo, Médio, Alto, Crítico) com exemplos práticos do que se encaixa em cada um. A severidade determina prioridade, quem é acionado e que medidas imediatas são autorizadas (por exemplo, bloquear conta, suspender transação, isolar dispositivo).

3) Separação entre “reporte” e “investigação”

O colaborador reporta e preserva; a investigação e contenção ficam com as equipes designadas. Isso reduz risco de destruição de evidências e evita ações não coordenadas (como avisar o suposto remetente por um canal comprometido).

4) Registro padronizado

Um formulário ou checklist padronizado melhora a qualidade da informação e acelera a triagem. O padrão deve pedir contexto suficiente sem exigir conhecimento técnico avançado.

5) Confidencialidade e necessidade de saber

O procedimento deve orientar que detalhes do caso só sejam compartilhados com quem participa da resposta. Isso reduz vazamento interno, boatos e risco de o atacante ser alertado (especialmente quando há comprometimento de contas).

Quem deve receber o reporte: matriz de encaminhamento

Uma forma prática de evitar “jogo de empurra” é manter uma matriz simples de encaminhamento. Exemplos de roteamento (ajuste conforme sua organização):

  • Suspeita de comprometimento de conta corporativa: Service Desk/TI + Segurança da Informação (prioridade alta).
  • Suspeita de fraude envolvendo pagamento, nota fiscal, alteração de dados bancários: Financeiro + Segurança + Compliance (e, se necessário, Jurídico).
  • Suspeita envolvendo dados pessoais de clientes/colaboradores: Segurança + Privacidade/DPO + Jurídico (avaliar notificação regulatória).
  • Suspeita envolvendo assédio, coerção, ameaça, extorsão: Segurança + RH + Jurídico (e orientação de segurança pessoal quando aplicável).
  • Suspeita em fornecedor/parceiro (cadeia de suprimentos): Compras/Procurement + Segurança + Gestão de Terceiros.

Mesmo com matriz, o procedimento deve permitir um “ponto único” (por exemplo, um e-mail ou hotline) que faça a triagem e encaminhe internamente, para não exigir que o colaborador saiba quem acionar.

Passo a passo prático: como reportar uma suspeita sem aumentar o risco

Passo 1 — Interrompa a ação e mantenha a calma

Se a suspeita surgiu durante uma tarefa (por exemplo, uma solicitação inesperada), pare antes de executar qualquer etapa adicional. Não tente “confirmar” clicando em links, abrindo anexos ou respondendo ao remetente. Se você já iniciou uma ação (por exemplo, inseriu credenciais), não tente “consertar” sozinho; reporte imediatamente e siga as orientações do time responsável.

Passo 2 — Não interaja com o possível atacante

Evite responder, negociar, pedir explicações ou “ganhar tempo”. Em muitos casos, qualquer resposta confirma que o canal está ativo e pode aumentar a pressão. Se for necessário manter comunicação por orientação do time de resposta (por exemplo, para coleta controlada de evidências), isso deve ser feito apenas com instruções explícitas.

Passo 3 — Preserve evidências de forma segura

Preservar evidências não significa copiar e distribuir para várias pessoas. Significa manter o material acessível para análise, com integridade e contexto. Boas práticas:

  • Guarde a mensagem original no sistema (não apague, não encaminhe para colegas). Se o procedimento interno pedir encaminhamento para um endereço de análise, use apenas esse endereço oficial.
  • Faça captura de tela com contexto quando necessário (mostrando remetente, data/hora, assunto, conteúdo relevante). Evite recortar demais e perder informações.
  • Anote detalhes observáveis: data/hora, canal, o que foi solicitado, qual sistema estava usando, e qualquer ação já realizada.
  • Não execute anexos para “ver do que se trata”. Se já abriu, informe exatamente o que ocorreu (por exemplo, “abri e apareceu uma tela pedindo login”).

Se a suspeita envolver transação financeira em andamento, registre também valores, contas envolvidas, identificadores de pedido e prazos, mas compartilhe apenas com os canais oficiais.

Passo 4 — Use o canal correto e indique urgência

Escolha o canal oficial mais rápido disponível. Se houver risco imediato (por exemplo, pagamento prestes a ser feito, conta possivelmente comprometida, vazamento em andamento), use o canal de emergência. Ao abrir o reporte, inclua no início uma indicação clara de urgência, como “ALTA PRIORIDADE: possível comprometimento de conta” ou “URGENTE: transação em andamento”.

Passo 5 — Envie um relato objetivo usando um modelo

Relatos longos e emocionais dificultam triagem. Use um modelo simples, com fatos verificáveis. Um formato prático é “O que aconteceu / Quando / Onde / Impacto / Ação já tomada”.

Modelo de reporte interno (exemplo de texto para chamado/e-mail oficial)
Assunto: [URGENTE] Suspeita de fraude digital - solicitação incomum

O que aconteceu: Recebi uma mensagem solicitando [ação solicitada].
Quando: 12/01/2026 às 10:35 (horário local).
Canal: [e-mail / chat / ligação / outro].
Origem aparente: [nome exibido / endereço / número].
O que me chamou atenção: [2-3 pontos objetivos].
Ação já realizada: [nenhuma / cliquei / abri anexo / informei dados / etc.].
Dados envolvidos (se houver): [tipo de dado, sem expor além do necessário].
Anexos/Evidências: [print, arquivo, ID do chamado, etc.].
Contato para retorno: [ramal / e-mail].

Quando houver risco de exposição de dados pessoais, descreva o tipo de dado (por exemplo, “dados cadastrais”, “documento de identificação”, “dados bancários”), evitando colar listas completas no corpo da mensagem.

Passo 6 — Siga as instruções de contenção e não faça mudanças não solicitadas

Após o reporte, aguarde orientações. Mudanças como “formatar o computador”, “apagar e-mails”, “desinstalar aplicativos” ou “alterar configurações” podem destruir evidências. Se a orientação for trocar senha, habilitar medidas adicionais ou desconectar da rede, faça exatamente como instruído e registre o horário em que executou.

Passo 7 — Documente a linha do tempo

Para incidentes relevantes, mantenha uma linha do tempo simples: quando recebeu, quando reportou, quando foi orientado, quais ações executou. Isso ajuda na investigação e na tomada de decisão (por exemplo, bloqueios, reversões, comunicações internas).

O que não fazer ao reportar (erros que aumentam o dano)

  • Não encaminhar para grupos amplos (listas gerais, grupos de chat com muitas pessoas). Isso espalha conteúdo potencialmente malicioso e aumenta vazamento de informação.
  • Não “testar” em colegas (“vou mandar para você ver se parece real”).
  • Não usar e-mail pessoal ou aplicativos não autorizados para compartilhar evidências.
  • Não confrontar o suposto remetente por canais possivelmente comprometidos.
  • Não apagar evidências por vergonha, medo ou tentativa de “limpar”.
  • Não atrasar o reporte esperando “mais sinais”. Em resposta a incidentes, minutos importam.

Como classificar a severidade: guia rápido para o colaborador

Para facilitar, o procedimento pode oferecer um guia de decisão. Um exemplo de critérios simples:

  • Crítico: há transação financeira em andamento; credenciais corporativas foram inseridas em local suspeito; há indício de acesso não autorizado; dados sensíveis podem estar sendo exfiltrados; executivo/área crítica envolvida; múltiplos colaboradores recebendo a mesma tentativa com sinais de automação.
  • Alto: tentativa bem direcionada a uma área específica; solicitação de informação sensível; anexo ou link suspeito recebido e possivelmente aberto; alteração de configuração ou comportamento estranho em conta/dispositivo.
  • Médio: mensagem suspeita sem ação tomada; tentativa genérica, mas com elementos convincentes; dúvida sobre legitimidade de solicitação.
  • Baixo: spam óbvio, sem interação e sem impacto, mas ainda útil para alimentar bloqueios e inteligência interna.

Mesmo em casos “baixos”, o reporte ajuda a organização a ajustar filtros, bloquear remetentes e identificar campanhas em andamento.

Escalonamento seguro em cenários comuns

Cenário A — Suspeita de comprometimento de conta

Sinais típicos incluem alertas de login, mensagens enviadas que você não reconhece, regras de encaminhamento criadas, ou colegas recebendo pedidos estranhos “em seu nome”. Procedimento de escalonamento seguro:

  • Reporte imediatamente pelo canal de alta prioridade.
  • Informe o que observou e horários aproximados.
  • Se orientado, faça troca de senha em dispositivo confiável e siga etapas de recuperação definidas pela TI.
  • Não avise contatos externos por conta própria; a comunicação deve ser coordenada para evitar fraude secundária.

Cenário B — Suspeita envolvendo pagamento ou dados bancários

Quando há risco financeiro, o escalonamento deve ser simultâneo para Segurança e Financeiro, com registro do status da transação. Procedimento:

  • Interrompa a execução (não aprove, não confirme, não “só finalizar”).
  • Reporte como urgente, incluindo valor, beneficiário, prazo e etapa do processo.
  • Se já houve envio, informe imediatamente para tentativa de bloqueio/recall conforme processos internos e bancários.
  • Preserve e-mails, anexos, instruções recebidas e identificadores do pedido.

Cenário C — Suspeita de vazamento de dados pessoais

Se você percebe que enviou dados para destinatário errado, anexou planilha indevida, ou acessou um sistema que expôs dados, o tempo é crucial para contenção e avaliação regulatória. Procedimento:

  • Reporte para Segurança e para o responsável por privacidade/DPO (ou canal equivalente).
  • Informe tipo de dado, volume aproximado, e quem recebeu/teve acesso (se conhecido).
  • Não tente “corrigir” reenviando ou pedindo para apagar por conta própria; siga orientação formal.

Cenário D — Suspeita envolvendo fornecedor/parceiro

Golpes podem explorar a cadeia de suprimentos. Procedimento:

  • Reporte com identificação do fornecedor, contrato/pedido relacionado e canal usado.
  • Evite contatar o fornecedor usando o mesmo canal da solicitação suspeita; aguarde orientação para usar contatos previamente cadastrados.
  • Encaminhe para a área de gestão de terceiros/compras conforme matriz interna.

Como desenhar um fluxo interno de reporte (para líderes e áreas de suporte)

Além de orientar colaboradores, a organização precisa de um fluxo operacional. Um desenho simples inclui: recepção, triagem, contenção, investigação, comunicação e registro. Abaixo, um exemplo de fluxo mínimo com responsabilidades:

  • Recepção (Service Desk/Canal único): registrar chamado, coletar informações mínimas, classificar severidade inicial.
  • Triagem (Segurança/SOC): validar indicadores, correlacionar com outros eventos, decidir contenção imediata.
  • Contenção (TI + Segurança): bloquear contas, isolar endpoints, bloquear domínios/remetentes, suspender integrações, conforme necessidade.
  • Investigação (Segurança + áreas afetadas): análise técnica e de processo, levantamento de impacto, identificação de escopo.
  • Comunicação (Comms/Segurança/Jurídico/Privacidade): mensagens internas, orientação a usuários, comunicação a clientes/autoridades quando aplicável.
  • Registro e lições aprendidas (GRC/Segurança): atualizar playbooks, treinar áreas, ajustar controles e métricas.

Esse fluxo deve estar documentado em playbooks curtos, com “gatilhos” de acionamento e contatos de plantão. Em incidentes críticos, defina quem tem autoridade para decisões rápidas (por exemplo, bloquear um serviço, suspender um pagamento, desabilitar uma conta executiva).

Checklist de qualidade do reporte (para reduzir idas e vindas)

Um reporte “bom o suficiente” geralmente contém:

  • Quem reporta e melhor contato para retorno.
  • Canal e origem aparente (endereço, número, usuário, perfil).
  • Data/hora e fuso, se relevante.
  • Resumo do pedido/ação solicitada.
  • O que foi feito (nada, clique, abertura, envio de dados, aprovação, etc.).
  • Evidências anexas com contexto (prints, arquivo original quando permitido, IDs).
  • Impacto potencial (financeiro, dados, acesso, reputação) e urgência (prazo).

Para reduzir risco, o checklist pode incluir um lembrete: “não encaminhe para colegas; use apenas o canal oficial”.

Proteção do denunciante e cultura de reporte

Procedimentos internos só funcionam se as pessoas se sentirem seguras para reportar. Isso envolve regras explícitas e práticas consistentes:

  • Não culpabilização: foco em aprender e conter, não em punir quem reporta rapidamente.
  • Confidencialidade: limitar acesso ao caso por necessidade de saber.
  • Opção de anonimato: quando aplicável (especialmente para suspeitas internas), com canal gerido por Compliance/Ética.
  • Feedback mínimo: informar ao reportante que o caso foi recebido e quais próximos passos são esperados, sem expor detalhes sensíveis.

Uma prática útil é padronizar respostas automáticas do canal de reporte com instruções imediatas (por exemplo, “não apague a mensagem”, “se você clicou, informe”, “se houver transação em andamento, ligue para o ramal X”).

Exemplos de mensagens internas prontas (templates)

Template 1 — Aviso interno para área específica (sem expor detalhes sensíveis)

Assunto: Alerta interno - tentativas de contato suspeitas em andamento

Identificamos tentativas de contato solicitando ações incomuns.
Orientação: não execute solicitações fora do processo e reporte imediatamente pelo canal oficial [canal].
Se você já interagiu (clicou, abriu anexo, informou dados), informe no reporte o que ocorreu e o horário aproximado.
Não compartilhe a mensagem suspeita em grupos; preserve e encaminhe apenas pelo canal oficial.

Template 2 — Pedido de informações adicionais ao reportante

Obrigado pelo reporte. Para triagem, precisamos de:
1) Horário aproximado do recebimento e do que foi feito (se houve ação).
2) Captura de tela mostrando remetente e conteúdo (com contexto).
3) Se houve download/abertura de arquivo, qual o nome do arquivo e onde foi salvo.
4) Se houve inserção de credenciais, em qual sistema e em qual dispositivo.

Por favor, não apague mensagens/arquivos relacionados até nova orientação.

Indicadores de maturidade do processo de reporte (para gestão)

Para garantir que o procedimento não fique apenas no papel, acompanhe indicadores operacionais:

  • Tempo até reporte: quanto tempo leva entre o recebimento da tentativa e a abertura do chamado.
  • Tempo de triagem: quanto tempo até classificar severidade e acionar contenção.
  • Qualidade do reporte: percentual de chamados com informações mínimas completas.
  • Taxa de recorrência por área: onde há mais incidentes e onde falta clareza de processo.
  • Volume por canal: se o canal principal está sendo usado e se há gargalos.

Esses indicadores ajudam a ajustar o procedimento: melhorar templates, treinar áreas com maior incidência, reforçar canais e reduzir fricção no reporte.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao identificar uma possível tentativa de fraude digital, qual conduta melhor representa escalar a suspeita com segurança dentro da organização?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Escalar com segurança prioriza velocidade, precisão e segurança: interromper a ação, evitar interação, preservar evidências e usar canais oficiais (incluindo emergência quando houver risco imediato), sem espalhar informações ou apagar registros.

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