Principais erros no assentamento de azulejos e porcelanatos: causas, sintomas e prevenção

Capítulo 13

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

Por que os erros se repetem e como enxergá-los cedo

No assentamento de azulejos e porcelanatos, a maioria dos retrabalhos nasce de pequenas “quebras de processo”: base fora de condição, escolha/preparo incorreto de materiais, execução apressada (tempo em aberto, cura, rejunte) e falta de controles simples (verificação de aderência, juntas, planeza). O objetivo deste capítulo é reconhecer causas, identificar sintomas no local e aplicar prevenções padronizadas para reduzir falhas como som cavo, peças soltas, manchas, trincas, degraus e eflorescência.

Mapa de sintomas: o que cada sinal costuma indicar

Sintoma observadoO que costuma estar por trásOnde aparece mais
Som cavo ao percutirFalta de contato argamassa/peça, cordões não esmagados, tempo em aberto excedido, base com pó/contaminação, argamassa inadequadaPeças grandes, áreas quentes/ventiladas, paredes altas
Peça solta ou “descolando”Aderência insuficiente, base fraca, mistura errada, cura comprometida, ausência de dupla colagem quando necessáriaFachadas, áreas externas, pisos com tráfego
Manchas (escurecimento, “mapas”, halo)Umidade migrando, rejunte/argamassa com excesso de água, limpeza agressiva, contaminação por cimento/óleos, eflorescênciaPorcelanato polido, áreas molhadas, varandas
Trincas no rejunte ou na peçaMovimentação sem juntas, base fissurada, cura acelerada, assentamento sobre base instável, impactoTransições, grandes panos, portas/janelas
Degraus (lippage) entre peçasPlaneza insuficiente, empeno da peça, falta de controle de nível, argamassa com espessura irregular, assentamento “puxando”Porcelanatos grandes, paginações longas
Eflorescência (pó branco)Sais solúveis + umidade + caminho de migração; rejunte/argamassa muito “molhados”, base úmida, infiltraçãoÁreas externas, térreos, muros, varandas

Erros mais comuns: causas, sintomas e prevenção (com ações corretivas viáveis)

1) Base mal preparada (pó, contaminação, baixa resistência, irregularidade local)

Causa típica: iniciar o assentamento com superfície empoeirada, com nata fraca, tinta/selador, óleo/desmoldante, ou com pontos ocos/soltos. Mesmo quando a base “parece” firme, a camada superficial pode estar fraca e comprometer a aderência.

Sintomas: som cavo localizado, peças que soltam em placas, argamassa “fica na peça” e não na base (ou o inverso), manchas por umidade retida em pontos.

Prevenção padronizada:

  • Limpeza técnica antes de colar: varrer + aspirar (quando possível) + pano levemente úmido para tirar pó fino; não “lavar” a base e colar em seguida.
  • Teste rápido de superfície: raspar com espátula em alguns pontos; se esfarelar fácil, há camada fraca que precisa ser removida.
  • Controle de planeza local: antes de espalhar argamassa, passar régua curta (ex.: 1 m) para identificar “barrigas” e “vales” que geram espessuras exageradas.

Ação corretiva viável (quando já assentou e falhou): se houver áreas com som cavo/soltura, a correção confiável é remover as peças afetadas, eliminar a camada fraca/contaminada, recompor o trecho e reassentar. Injeções/“cola por trás” tendem a ser paliativas e podem mascarar problemas de base.

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2) Argamassa inadequada para a condição (peça, ambiente, solicitação)

Causa típica: usar argamassa sem desempenho compatível com porcelanato, áreas externas, variações térmicas, fachadas, piscinas, ou com o tamanho/absorção da peça.

Sintomas: descolamento com o tempo, som cavo progressivo, perda de aderência em bordas/cantos, eflorescência associada a umidade e microcaminhos.

Prevenção padronizada:

  • Confirmar compatibilidade com o tipo de revestimento e ambiente (interno/externo, molhado, fachada, aquecido).
  • Checar validade e armazenamento (saco empedrado, úmido ou vencido perde desempenho).
  • Padronizar uma “ficha de obra” com: produto, lote, data, ambiente e responsável pela mistura.

Ação corretiva viável: quando a argamassa é inadequada e o problema é aderência, normalmente a correção efetiva é substituição do assentamento no trecho. Em casos iniciais, pode-se mapear e remover apenas áreas comprometidas, desde que a base esteja íntegra.

3) Mistura errada (água demais/menos, tempo de maturação ignorado, retempera)

Causa típica: “acertar no olho”, adicionar água para “render”, não respeitar descanso/maturação, ou retempera (colocar água depois que começou a endurecer).

Sintomas: baixa aderência, argamassa “escorrendo” na parede, retração e fissuras no rejunte/assentamento, manchas por excesso de água, perda de tempo em aberto real.

Passo a passo prático (padrão de mistura em obra):

  1. Medir água com recipiente graduado (não por mangueira “no olhômetro”).
  2. Adicionar pó na água (reduz grumos) e misturar com hélice até homogeneizar.
  3. Respeitar maturação (descanso) e remisturar sem adicionar água.
  4. Proibir retempera: endureceu, descartar. Planejar bateladas menores.

Ação corretiva viável: se a mistura foi errada e o assentamento ainda está fresco, remover e refazer imediatamente. Se já curou e há som cavo/soltura, tratar como falha de aderência: remover trecho e reassentar.

4) Exceder o tempo em aberto / formar película na argamassa

Causa típica: espalhar área grande, trabalhar sob vento/sol, demorar para assentar, ou “pente” inadequado que não garante esmagamento. A argamassa cria película e perde capacidade de aderir à peça.

Sintomas: som cavo em placas, descolamento “limpo” (argamassa fica na base e a peça sai quase sem material), falhas concentradas no fim do pano assentado.

Prevenção padronizada:

  • Trabalhar por faixas compatíveis com o ritmo da equipe.
  • Teste do dedo em pontos: se a superfície “puxa” e não suja o dedo, está peliculada e deve ser removida e refeita.
  • Ambiente: reduzir corrente de ar e insolação direta quando possível.

Ação corretiva viável: durante a execução, raspar e reaplicar a argamassa peliculada. Depois de curado, apenas remoção e reassentamento das áreas ocas.

5) Ausência de dupla colagem quando necessária

Causa típica: confiar apenas na argamassa na base em porcelanatos de baixa absorção, peças grandes, áreas externas ou quando a peça tem relevo no tardoz que dificulta o contato.

Sintomas: som cavo principalmente em cantos e bordas, quebras por impacto em áreas ocas, descolamento pontual com “ilhas” sem transferência de argamassa.

Prevenção padronizada:

  • Verificação de cobertura por amostragem: levantar uma peça a cada X m² no início do pano e checar transferência.
  • Padronizar ferramenta (desempenadeira adequada) e ângulo de aplicação para cordões uniformes.

Ação corretiva viável: se identificado durante a execução, corrigir imediatamente (reaplicar e reassentar). Após cura, remover e refazer onde houver oco/soltura.

6) Falta de juntas (mínimas, movimentação, dessolidarização) ou juntas “fechadas” por argamassa

Causa típica: encostar peça com peça para “ficar bonito”, ignorar juntas em grandes panos, ou deixar argamassa subir e preencher o espaço que deveria receber rejunte.

Sintomas: trincas no rejunte, estufamento (“tenda”), peças pressionando e lascando cantos, ruídos ao caminhar, fissuras próximas a encontros com paredes/colunas.

Prevenção padronizada:

  • Espaçadores e controle visual contínuo (não só no início).
  • Limpeza de juntas durante o assentamento: remover excesso de argamassa que invade a junta antes de endurecer.
  • Respeitar juntas previstas no projeto/ambiente e não “rejuntar” juntas de movimentação com material rígido.

Ação corretiva viável: quando o problema é junta “travada” por argamassa, pode ser possível reabrir com ferramenta apropriada (raspador/serra oscilante com cuidado) e refazer o rejunte. Se já houve estufamento/descolamento, remover e reassentar com juntas corretas.

7) Rejuntamento precoce (antes da cura mínima do assentamento)

Causa típica: pressa de liberar área, cronograma apertado, desconhecimento do tempo de cura. O rejunte “trava” movimentações iniciais e pode manchar ou fissurar.

Sintomas: rejunte esfarelando, fissuras lineares, manchas ao redor das juntas, peças que “mexem” ao pisar mesmo com rejunte aplicado.

Prevenção padronizada:

  • Planejar frentes de serviço para não depender de rejuntar no mesmo dia.
  • Teste simples de estabilidade: tentar movimentar uma peça com sucção leve (ventosa) em área discreta; se houver microjogo, não rejuntar.

Ação corretiva viável: remover rejunte deteriorado, aguardar estabilização/cura do assentamento e rejuntar novamente. Se houver peças soltas, corrigir o assentamento antes.

8) Limpeza incorreta (durante e após rejunte) e uso de produtos agressivos

Causa típica: excesso de água na esponja, “lavar” o rejunte recém-aplicado, usar ácido/removedor inadequado, ou atrasar a limpeza do véu cimentício.

Sintomas: rejunte fraco e poroso, manchas, perda de cor, “queima” superficial, riscos em porcelanato polido, halos ao redor das juntas.

Prevenção padronizada:

  • Esponja bem torcida e passadas leves, sem encharcar.
  • Troca frequente de água para não espalhar resíduos.
  • Teste em área pequena antes de qualquer produto químico.

Ação corretiva viável: para véu/resíduo, aplicar método de limpeza compatível com o material e com o tipo de rejunte, sempre por teste. Para rejunte “lavado” e fraco, remover e refazer.

9) Cortes mal acabados e furações sem critério (aparecimento, lascas e trincas)

Causa típica: disco inadequado, pressão excessiva, falta de acabamento em bordas aparentes, furos muito próximos das bordas, ou ausência de alívio em recortes internos.

Sintomas: lascamento visível, trincas partindo de cantos de recortes, bordas cortantes, desalinhamento em encontros com perfis/rodapés.

Prevenção padronizada:

  • Padronizar acabamento para bordas aparentes (lixa/boina/diamantado conforme o caso).
  • Evitar cantos vivos em recortes internos: preferir raio/alívio para reduzir concentração de tensão.
  • Conferência a seco do encaixe antes de colar (principalmente em nichos, ralos lineares e registros).

Ação corretiva viável: se o defeito é estético e acessível, pode haver correção com acabamento local. Se há trinca estrutural na peça, a solução é substituir a peça.

Diagnóstico rápido por problema (checklist de obra)

A) Som cavo

  • Onde está? bordas/cantos (cobertura insuficiente) ou placas grandes (tempo em aberto/cordões).
  • Teste: percussão com cabo de ferramenta e marcação das áreas ocas.
  • Prováveis causas: película, falta de esmagamento, dupla colagem ausente, base com pó.
  • Correção viável: remover e reassentar as peças ocas; não “empurrar rejunte” para dentro esperando colar.

B) Peças soltas

  • Teste: tentar movimentar com ventosa; observar se há descolamento progressivo.
  • Prováveis causas: argamassa inadequada, mistura errada, base fraca/contaminada, cura comprometida.
  • Correção viável: remover, tratar base e reassentar com procedimento correto.

C) Manchas

  • Identificar padrão: manchas em “mapa” (umidade), halo no entorno das juntas (limpeza/água), manchas pontuais (produto químico).
  • Prováveis causas: excesso de água na mistura/limpeza, umidade migrando, produto agressivo.
  • Correção viável: secagem e limpeza compatível; se a origem for umidade/infiltração, tratar a causa antes de qualquer estética.

D) Trincas

  • Onde trincou? no rejunte (movimentação/retração) ou na peça (tensão/impacto/apoio irregular).
  • Prováveis causas: falta de juntas, base movimentando, rejunte precoce, recortes com cantos vivos.
  • Correção viável: reabrir juntas travadas, refazer rejunte; substituir peças trincadas e corrigir a causa.

E) Degraus (lippage)

  • Verificar: ocorre em sequência (base/execução) ou alternado (empeno da peça + falta de controle).
  • Prováveis causas: espessura irregular de argamassa, falta de controle de nível, assentamento sem checagem contínua.
  • Correção viável: em geral, substituição/recuperação do trecho; “desbaste” em porcelanato raramente fica aceitável e pode danificar acabamento.

F) Eflorescência

  • Confirmar: pó branco que volta após limpeza.
  • Prováveis causas: umidade + sais; excesso de água; infiltração; base úmida.
  • Correção viável: controlar fonte de umidade, permitir secagem, limpeza compatível; se persistir, investigar infiltração e caminhos de migração.

Medidas preventivas padronizadas (rotina para reduzir retrabalho)

1) Padrão de controle antes de começar o pano

  • Checklist de base: sem pó solto, sem contaminação, sem partes ocas; pontos críticos marcados.
  • Checklist de material: produto correto, dentro da validade, armazenamento seco, água medida.
  • Ferramentas: desempenadeira adequada, régua/nível, espaçadores, ventosas, balde limpo.

2) Padrão durante o assentamento

  • Trabalhar em faixas e controlar tempo em aberto com teste simples.
  • Amostragem de cobertura: levantar peças no início e a cada mudança de condição (sol/vento, troca de lote, mudança de tamanho).
  • Juntas sempre limpas: remover argamassa que invade a junta antes de endurecer.
  • Registro de ocorrências: anotar local, horário, condição climática e ação tomada (ajuda a evitar repetição).

3) Padrão para rejunte e limpeza imediata

  • Respeitar cura do assentamento antes de rejuntar.
  • Limpeza controlada: pouca água, esponja torcida, água limpa, sem “lavar” o rejunte.
  • Proteção de áreas prontas: evitar tráfego e contaminação por argamassa/rejunte de outras frentes.

4) Padrão de inspeção final por ambiente

  • Percussão amostral para mapear ocos antes de liberar.
  • Verificação de juntas (largura, continuidade, ausência de trincas e falhas).
  • Verificação de planeza e degraus em pontos críticos (portas, ralos, encontros de paginação).

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Durante o assentamento, ao perceber que a argamassa espalhada não suja o dedo e parece “puxar” ao toque, qual é a ação mais adequada para evitar falha de aderência?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Quando a argamassa forma película, ela perde capacidade de aderir. O procedimento indicado é remover (raspar) e reaplicar e ajustar o ritmo, trabalhando em faixas menores para não exceder o tempo em aberto.

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