Objetivo do transporte e da imobilização em suspeita de trauma
Em traumas (quedas, atropelamentos, pancadas, brigas), o risco não é apenas a lesão visível. Movimentar o animal de forma inadequada pode aumentar a dor, agravar fraturas, provocar sangramentos e piorar lesões de coluna. O objetivo do tutor é reduzir movimento desnecessário, manter o corpo alinhado e chegar o mais rápido possível ao atendimento, sem “sacudir”, puxar ou forçar o animal.
Quando suspeitar de trauma importante
- Queda de altura (escadas, sofá alto, janela, telhado).
- Atropelamento ou impacto com bicicleta/moto/carro.
- Animal encontrado caído, com dificuldade para levantar ou andar.
- Dor intensa ao toque, choro, agressividade súbita por dor.
- Arrastar patas, fraqueza, tremores, postura “travada”.
- Feridas extensas, sangramento, deformidade de membro.
Princípios de manuseio: menos é mais
Alinhamento: cabeça, pescoço e tronco “em bloco”
Pense no corpo como uma peça única. Em suspeita de lesão de coluna, a regra é evitar torções: não dobrar o pescoço, não girar o tronco e não deixar a pelve “cair” enquanto o tórax é levantado (ou vice-versa). A cabeça deve ficar alinhada com o pescoço e o dorso, sem hiperextensão (muito para trás) e sem flexão (muito para frente).
O que evitar
- Não puxar pelas patas para arrastar ou “endireitar”. Isso pode agravar fraturas, luxações e lesões nervosas.
- Não pegar no colo como se fosse “bebê” em traumas moderados/graves: o corpo fica instável e pode dobrar a coluna.
- Não tentar “colocar no lugar” osso, articulação ou membro torto.
- Não apertar o tórax ao segurar: pode dificultar a respiração, especialmente em dor/choque.
Como reduzir dor durante o manuseio
- Movimentos lentos e coordenados, com poucas mudanças de posição.
- Falar baixo, diminuir estímulos (luz, barulho, pessoas em volta).
- Preferir superfícies firmes (maca improvisada) em vez de carregar “solto”.
Escolhendo o método de transporte
1) Caixa de transporte (preferencial quando disponível)
A caixa é útil porque limita movimentos e protege o animal durante o trajeto. Para trauma, o ideal é que o animal entre com o corpo o mais alinhado possível, evitando “dobrar” para passar pela porta.
- Melhor tipo: caixa rígida, com abertura superior (facilita colocar sem torcer).
- Forração: uma toalha ou cobertor dobrado para dar estabilidade e conforto, sem ficar “fofo” demais (o animal afunda e gira).
- Como colocar: se possível, deslize o animal sobre uma toalha (como “lençol”) e leve a toalha com ele para dentro da caixa, minimizando levantamento.
2) Cobertor como maca (muito útil em cães médios/grandes)
Um cobertor firme funciona como maca improvisada para manter tronco e coluna alinhados. É uma das opções mais seguras quando não há caixa ou quando o animal não cabe nela.
Passo a passo (2 a 4 pessoas, se possível)
- Prepare o cobertor aberto no chão, ao lado do animal.
- Deslize o cobertor por baixo: uma pessoa estabiliza cabeça/pescoço (sem dobrar), outra estabiliza tronco e pelve; com cuidado, “enrole” o cobertor até ele ficar sob o corpo.
- Levante em bloco: segure pelas bordas do cobertor, mantendo-o esticado (evita “rede” que dobra a coluna). Se houver 4 pessoas, duas ficam no tórax e duas na pelve.
- Mantenha o alinhamento: cabeça na linha do corpo; evite que o quadril fique mais baixo que o tórax.
- Transfira para o carro diretamente, reduzindo paradas e mudanças de posição.
Dica prática: se o cobertor for muito flexível, dobre-o ao meio ou use dois cobertores para aumentar a rigidez.
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3) Toalha para contenção de gatos (e cães pequenos reativos)
Gatos traumatizados podem reagir com arranhões e mordidas por dor e medo. A toalha ajuda a conter com segurança e reduz estímulos visuais, mas deve ser usada sem apertar o tórax.
Passo a passo: “enrolar sem comprimir”
- Abra uma toalha grande no chão.
- Posicione o gato no centro (se necessário, conduza com a própria toalha, sem agarrar pela nuca).
- Envolva primeiro um lado e depois o outro, formando um “charuto” firme o suficiente para impedir que as patas saiam, mas sem apertar o peito.
- Deixe o nariz livre para respirar e mantenha a cabeça alinhada ao corpo.
- Transfira o gato enrolado para a caixa de transporte (ideal) ou para uma superfície firme.
Atenção: se o gato estiver com respiração difícil, evite qualquer contenção que pressione o tórax; priorize caixa com mínimo manuseio.
Estabilização do tronco em quedas e atropelamentos
Como “travar” o corpo para não dobrar
Em suspeita de lesão de coluna, o foco é impedir flexão/torção. Você pode usar itens simples para estabilizar:
- Superfície rígida: tábua lisa, porta removida, prateleira resistente, bandeja rígida grande, base de caixa plástica firme. Coloque um cobertor fino por cima para conforto.
- Rolinho lateral: toalhas enroladas ao lado do corpo (uma de cada lado) para reduzir “balanço” durante o transporte.
- Fixação leve: faixas de pano ou tiras de lençol podem passar por cima do tronco e da pelve, prendendo na maca improvisada, sem apertar (deve caber dois dedos entre faixa e corpo).
Como manter a cabeça alinhada
- Use uma toalha enrolada pequena ao lado do pescoço (como “calço”) para evitar que a cabeça caia para um lado.
- Evite elevar demais o queixo; a posição deve ser neutra.
- Se houver vômito ou saliva excessiva, incline o conjunto (maca) levemente de lado, sem torcer o pescoço, para ajudar a drenagem e reduzir risco de aspiração.
Cuidados com membros: fraturas e dor
Como manusear sem piorar
- Ao levantar ou transferir, apoie o corpo (tórax e pelve), não o membro lesionado.
- Se um membro estiver “pendendo”, não deixe balançar: aproxime-o do corpo com uma toalha como suporte, sem forçar alinhamento.
- Evite dobrar articulações doloridas para “caber” na caixa; prefira caixa maior ou maca.
Imobilização simples (somente se não atrasar a ida)
Em geral, para tutores, a prioridade é transporte estável. Uma imobilização improvisada pode ser útil quando o membro está muito instável e o trajeto é longo, desde que não cause dor adicional.
- Material: toalha, gaze/tecido, papelão firme ou revista grossa como tala.
- Regra: imobilize na posição em que está, sem “endireitar”.
- Fixação: prenda com tiras de pano sem apertar (verifique se não fica frio/inchado abaixo).
Se houver dor intensa ao tentar colocar a tala, pare e foque em estabilizar o corpo para o transporte.
Deslocamento no carro: segurança e estabilidade
Caixa de transporte: como fixar
- Coloque a caixa no assoalho atrás do banco da frente (mais estável) ou no banco traseiro com cinto passando pela caixa, bem firme.
- Evite caixa solta no porta-malas (sedan) ou em área que deslize.
- Mantenha a caixa nivelada; use toalhas ao redor para “calçar” e impedir que tombe em curvas.
Maca improvisada: como posicionar
- Preferir o banco traseiro rebatido (quando possível) ou o porta-malas de carros tipo hatch/SUV, com a maca bem apoiada e sem inclinação.
- Uma pessoa pode ir ao lado para estabilizar a maca com as mãos, sem mexer no animal.
- Dirigir com suavidade: evitar freadas bruscas, buracos e curvas rápidas.
Ventilação e temperatura
- Ambiente ventilado, sem vento direto forte no rosto do animal.
- Evite calor excessivo dentro do carro; em dias quentes, ar-condicionado moderado.
Evitar transporte no colo
No colo, o animal pode se debater, cair, dobrar a coluna e ainda distrair o motorista. Além disso, em caso de frenagem, há risco de impacto. Use caixa ou maca sempre que possível.
Ao chegar na clínica: entrega rápida e relato objetivo
Antes de entrar
- Se possível, avise a clínica que você chegou (telefone/portaria) e descreva que é suspeita de trauma, para prepararem a equipe e a entrada.
- Peça ajuda para retirar do carro se o animal estiver em maca ou se for pesado.
Como entregar o animal
- Mantenha o animal na mesma superfície (caixa/maca) até a equipe orientar.
- Evite abrir a caixa em área movimentada; deixe para a equipe em local apropriado.
- Se estiver com toalha de contenção (gato), informe antes de soltar qualquer parte.
Relato objetivo (modelo rápido)
Use frases curtas, na ordem:
- O que aconteceu: “Queda de aproximadamente 2 metros” / “Atropelamento agora há 15 minutos”.
- Desde quando: horário aproximado.
- O que você observou: “Não apoia a pata traseira”, “Chora ao tocar”, “Está ofegante”, “Não consegue levantar”.
- O que você fez: “Transportei em cobertor como maca, sem mexer na coluna; não dei medicamentos”.
Esse formato ajuda a equipe a agir mais rápido e reduz perguntas repetidas no momento de maior urgência.