Primeiros Socorros Veterinários para Tutores: engasgo e sufocação (obstrução de vias aéreas)

Capítulo 7

Tempo estimado de leitura: 7 minutos

+ Exercício

O que é engasgo e sufocação (obstrução de vias aéreas)

Engasgo acontece quando um objeto (pedaço de alimento, osso, brinquedo, bola pequena, pedaço de graveto) fica preso na boca, faringe ou laringe e atrapalha a passagem de ar. A obstrução pode ser parcial (ainda passa algum ar) ou total (o ar não passa). Em obstrução total, o risco de parada respiratória é rápido, então a ação precisa ser imediata e objetiva.

Sinais: engasgo parcial vs. total

Engasgo parcial (ainda entra ar)

  • Tosse forte e repetida (o animal tenta expulsar o objeto).
  • Ruídos respiratórios (chiado/estridor), mas ainda há movimento de ar.
  • Gagging (ânsia de vômito), salivação aumentada.
  • Agitação, mas consegue inspirar e, às vezes, vocalizar.
  • Gengivas geralmente rosadas (podem ficar mais escuras se piorar).

Conduta geral: se está tossindo com força e respirando, em muitos casos a melhor “manobra” é não atrapalhar a tosse e preparar o deslocamento imediato ao veterinário. Intervenções agressivas podem empurrar o objeto para mais fundo.

Engasgo total (não entra ar adequadamente)

  • Incapacidade de respirar ou respiração muito fraca/ineficaz.
  • Desespero, tentativa de inspirar com boca aberta, pescoço estendido.
  • Incapacidade de vocalizar (latir/miar não sai ou sai muito fraco).
  • Cianose: língua e gengivas azuladas/arroxeadas (sinal tardio e grave).
  • Colapso ou fraqueza súbita.

Conduta geral: tratar como emergência imediata. Se você não consegue remover rapidamente, faça manobras para expulsão e siga para atendimento mesmo que o objeto saia.

Antes de agir: como se aproximar sem piorar o quadro

  • Risco de mordida é alto: dor e falta de ar fazem o animal reagir. Se possível, peça ajuda para alguém segurar o corpo com firmeza. Evite colocar o rosto perto da boca.
  • Não use focinheira em animal com dificuldade respiratória.
  • Objetivo: desobstruir sem empurrar o objeto para dentro e sem machucar a garganta.

Passo a passo prático (seguro) para tentativa de desobstrução

1) Avalie rapidamente: parcial ou total

  • Se há tosse forte e ar passando: mantenha o animal calmo, evite manipular excessivamente a boca e prepare o deslocamento imediato.
  • Se há incapacidade de respirar/vocalizar, cianose ou colapso: avance para inspeção e manobras de expulsão.

2) Inspeção visual da boca (sem “pescar” às cegas)

Como fazer:

  • Se o animal permitir, abra a boca com cuidado e use uma lanterna para olhar a entrada da garganta.
  • Puxe a língua suavemente para frente (isso pode melhorar a visualização e o fluxo de ar).
  • Procure um objeto visível (osso, bola, pedaço de brinquedo, espinho).

O que evitar:

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  • Não enfie os dedos às cegas. Você pode empurrar o objeto para mais fundo ou causar lacerações, além do risco de mordida.
  • Não faça “varredura” com pano, colher ou cabo de objeto dentro da garganta.

3) Quando tentar remoção com pinça (e quando não tentar)

Você pode tentar remover se:

  • O objeto está claramente visível e acessível na boca/faringe.
  • Você tem uma pinça longa (ex.: pinça hemostática) e consegue segurar com firmeza.
  • O animal está relativamente contido e você consegue agir em poucos segundos.

Como tentar:

  • Segure o objeto com a pinça e puxe no mesmo eixo em que entrou, com firmeza e controle.
  • Se o objeto escorrega repetidamente, pare e passe para manobras de expulsão.

Não tente remover se:

  • O objeto não está visível.
  • Está profundamente alojado ou parece “preso” (pode rasgar tecidos ao puxar).
  • É um objeto que pode fragmentar (ossos quebradiços, madeira) e você só consegue “esfarelar”.

4) Manobras de expulsão (compatíveis com porte e espécie)

As manobras abaixo visam aumentar a pressão do ar para expulsar o corpo estranho. Faça em sequência e reavalie rapidamente após cada tentativa. Se o animal desmaiar, a situação é crítica: tente desobstruir e siga imediatamente ao atendimento.

Cães pequenos (porte pequeno) e gatos: compressões abdominais com o animal suspenso

Posição:

  • Segure o animal com as costas encostadas no seu peito, ou suspenda com a cabeça levemente para baixo (sem sacudir).
  • Em gatos, contenha com firmeza, evitando torções; eles podem arranhar intensamente.

Manobra (tipo “Heimlich” adaptado):

  • Faça um punho e posicione-o logo atrás das últimas costelas (parte macia do abdômen, abaixo do tórax).
  • Com a outra mão, apoie o punho e aplique compressões rápidas para dentro e para cima, em direção ao tórax.
  • Realize 4 a 5 compressões e então abra a boca para verificar se o objeto apareceu na entrada.

Se o objeto aparecer: remova com pinça (ou com os dedos somente se estiver totalmente visível e fácil de pegar).

Cães grandes: compressões abdominais com o animal em pé ou deitado de lado

Opção A (em pé):

  • Fique atrás do cão, abrace a cintura.
  • Feche um punho e coloque logo atrás das últimas costelas.
  • Puxe com força para dentro e para cima em movimentos rápidos.
  • Faça 4 a 5 compressões e reavalie a boca.

Opção B (deitado de lado):

  • Deite o cão de lado em superfície firme.
  • Coloque as mãos na região abdominal logo atrás das costelas.
  • Comprima para dentro e em direção ao tórax em impulsos rápidos.
  • Reavalie a boca após a sequência.

Alternativa/adição: “golpes” entre as escápulas (tapas nas costas)

Podem ajudar quando o objeto está mais alto e o animal ainda tem algum tônus.

  • Com a palma da mão, aplique 3 a 5 golpes firmes entre as escápulas (entre os “ombros”).
  • Reavalie a boca.

Evite golpes excessivos ou muito fortes em animais pequenos/frágeis (risco de lesão).

Quando parar (para não causar lesão) e o que fazer em seguida

Pare a tentativa e priorize deslocamento imediato se:

  • Você não consegue visualizar o objeto e as manobras não funcionam após algumas sequências.
  • sangramento na boca, suspeita de perfuração, ou o animal piora com a manipulação.
  • O animal fica muito agitado e você perde controle seguro (risco de mordida e de trauma).

Mesmo que o objeto saia, ainda precisa de veterinário

  • Podem ficar lesões na garganta, edema (inchaço) e dor.
  • Fragmentos podem ter sido aspirados para vias aéreas inferiores.
  • O animal pode desenvolver inflamação/infecção ou dificuldade respiratória horas depois.

Observação prática: após a resolução, monitore respiração (esforço, ruídos, língua arroxeada), tosse persistente, vômitos, apatia. Qualquer alteração é motivo para atendimento urgente.

O que nunca fazer

  • Nunca enfiar os dedos às cegas na garganta.
  • Nunca oferecer água ou comida para “empurrar” o objeto.
  • Nunca tentar induzir vômito em situação de engasgo/sufocação.
  • Nunca sacudir o animal (risco de trauma e piora da obstrução).
  • Nunca insistir por muito tempo em tentativas que não funcionam: alternar inspeção rápida e manobras, e seguir para atendimento.

Exemplos comuns e como decidir rápido

Exemplo 1: cão pequeno com tosse forte após pegar petisco grande

  • Se tosse forte e respira: mantenha calmo, evite “mexer” na boca, prepare para ir ao veterinário.
  • Se a tosse vira silêncio, língua escurece e ele não consegue inspirar: inspeção visual + manobras abdominais em sequência.

Exemplo 2: gato brincando com elástico e de repente abre a boca para respirar

  • Trate como potencial obstrução grave.
  • Inspeção visual rápida: se o elástico estiver visível e acessível, remoção com pinça; se não, compressões abdominais e deslocamento imediato.

Exemplo 3: cão grande com bola presa na entrada da garganta

  • Se a bola estiver visível e você conseguir segurar com pinça/pegador, tente remover sem empurrar.
  • Se não conseguir, compressões abdominais em pé e reavaliação rápida da boca entre as tentativas.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao avaliar um animal com sinais de engasgo, qual conduta é mais adequada quando há tosse forte e repetida, com passagem de ar (obstrução parcial)?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Na obstrução parcial, a tosse forte é um mecanismo para expulsar o corpo estranho. Intervenções agressivas podem empurrar o objeto para mais fundo e piorar o quadro; o mais seguro é não interromper a tosse e buscar atendimento imediato.

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