O que é engasgo e sufocação (obstrução de vias aéreas)
Engasgo acontece quando um objeto (pedaço de alimento, osso, brinquedo, bola pequena, pedaço de graveto) fica preso na boca, faringe ou laringe e atrapalha a passagem de ar. A obstrução pode ser parcial (ainda passa algum ar) ou total (o ar não passa). Em obstrução total, o risco de parada respiratória é rápido, então a ação precisa ser imediata e objetiva.
Sinais: engasgo parcial vs. total
Engasgo parcial (ainda entra ar)
- Tosse forte e repetida (o animal tenta expulsar o objeto).
- Ruídos respiratórios (chiado/estridor), mas ainda há movimento de ar.
- Gagging (ânsia de vômito), salivação aumentada.
- Agitação, mas consegue inspirar e, às vezes, vocalizar.
- Gengivas geralmente rosadas (podem ficar mais escuras se piorar).
Conduta geral: se está tossindo com força e respirando, em muitos casos a melhor “manobra” é não atrapalhar a tosse e preparar o deslocamento imediato ao veterinário. Intervenções agressivas podem empurrar o objeto para mais fundo.
Engasgo total (não entra ar adequadamente)
- Incapacidade de respirar ou respiração muito fraca/ineficaz.
- Desespero, tentativa de inspirar com boca aberta, pescoço estendido.
- Incapacidade de vocalizar (latir/miar não sai ou sai muito fraco).
- Cianose: língua e gengivas azuladas/arroxeadas (sinal tardio e grave).
- Colapso ou fraqueza súbita.
Conduta geral: tratar como emergência imediata. Se você não consegue remover rapidamente, faça manobras para expulsão e siga para atendimento mesmo que o objeto saia.
Antes de agir: como se aproximar sem piorar o quadro
- Risco de mordida é alto: dor e falta de ar fazem o animal reagir. Se possível, peça ajuda para alguém segurar o corpo com firmeza. Evite colocar o rosto perto da boca.
- Não use focinheira em animal com dificuldade respiratória.
- Objetivo: desobstruir sem empurrar o objeto para dentro e sem machucar a garganta.
Passo a passo prático (seguro) para tentativa de desobstrução
1) Avalie rapidamente: parcial ou total
- Se há tosse forte e ar passando: mantenha o animal calmo, evite manipular excessivamente a boca e prepare o deslocamento imediato.
- Se há incapacidade de respirar/vocalizar, cianose ou colapso: avance para inspeção e manobras de expulsão.
2) Inspeção visual da boca (sem “pescar” às cegas)
Como fazer:
- Se o animal permitir, abra a boca com cuidado e use uma lanterna para olhar a entrada da garganta.
- Puxe a língua suavemente para frente (isso pode melhorar a visualização e o fluxo de ar).
- Procure um objeto visível (osso, bola, pedaço de brinquedo, espinho).
O que evitar:
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- Não enfie os dedos às cegas. Você pode empurrar o objeto para mais fundo ou causar lacerações, além do risco de mordida.
- Não faça “varredura” com pano, colher ou cabo de objeto dentro da garganta.
3) Quando tentar remoção com pinça (e quando não tentar)
Você pode tentar remover se:
- O objeto está claramente visível e acessível na boca/faringe.
- Você tem uma pinça longa (ex.: pinça hemostática) e consegue segurar com firmeza.
- O animal está relativamente contido e você consegue agir em poucos segundos.
Como tentar:
- Segure o objeto com a pinça e puxe no mesmo eixo em que entrou, com firmeza e controle.
- Se o objeto escorrega repetidamente, pare e passe para manobras de expulsão.
Não tente remover se:
- O objeto não está visível.
- Está profundamente alojado ou parece “preso” (pode rasgar tecidos ao puxar).
- É um objeto que pode fragmentar (ossos quebradiços, madeira) e você só consegue “esfarelar”.
4) Manobras de expulsão (compatíveis com porte e espécie)
As manobras abaixo visam aumentar a pressão do ar para expulsar o corpo estranho. Faça em sequência e reavalie rapidamente após cada tentativa. Se o animal desmaiar, a situação é crítica: tente desobstruir e siga imediatamente ao atendimento.
Cães pequenos (porte pequeno) e gatos: compressões abdominais com o animal suspenso
Posição:
- Segure o animal com as costas encostadas no seu peito, ou suspenda com a cabeça levemente para baixo (sem sacudir).
- Em gatos, contenha com firmeza, evitando torções; eles podem arranhar intensamente.
Manobra (tipo “Heimlich” adaptado):
- Faça um punho e posicione-o logo atrás das últimas costelas (parte macia do abdômen, abaixo do tórax).
- Com a outra mão, apoie o punho e aplique compressões rápidas para dentro e para cima, em direção ao tórax.
- Realize 4 a 5 compressões e então abra a boca para verificar se o objeto apareceu na entrada.
Se o objeto aparecer: remova com pinça (ou com os dedos somente se estiver totalmente visível e fácil de pegar).
Cães grandes: compressões abdominais com o animal em pé ou deitado de lado
Opção A (em pé):
- Fique atrás do cão, abrace a cintura.
- Feche um punho e coloque logo atrás das últimas costelas.
- Puxe com força para dentro e para cima em movimentos rápidos.
- Faça 4 a 5 compressões e reavalie a boca.
Opção B (deitado de lado):
- Deite o cão de lado em superfície firme.
- Coloque as mãos na região abdominal logo atrás das costelas.
- Comprima para dentro e em direção ao tórax em impulsos rápidos.
- Reavalie a boca após a sequência.
Alternativa/adição: “golpes” entre as escápulas (tapas nas costas)
Podem ajudar quando o objeto está mais alto e o animal ainda tem algum tônus.
- Com a palma da mão, aplique 3 a 5 golpes firmes entre as escápulas (entre os “ombros”).
- Reavalie a boca.
Evite golpes excessivos ou muito fortes em animais pequenos/frágeis (risco de lesão).
Quando parar (para não causar lesão) e o que fazer em seguida
Pare a tentativa e priorize deslocamento imediato se:
- Você não consegue visualizar o objeto e as manobras não funcionam após algumas sequências.
- Há sangramento na boca, suspeita de perfuração, ou o animal piora com a manipulação.
- O animal fica muito agitado e você perde controle seguro (risco de mordida e de trauma).
Mesmo que o objeto saia, ainda precisa de veterinário
- Podem ficar lesões na garganta, edema (inchaço) e dor.
- Fragmentos podem ter sido aspirados para vias aéreas inferiores.
- O animal pode desenvolver inflamação/infecção ou dificuldade respiratória horas depois.
Observação prática: após a resolução, monitore respiração (esforço, ruídos, língua arroxeada), tosse persistente, vômitos, apatia. Qualquer alteração é motivo para atendimento urgente.
O que nunca fazer
- Nunca enfiar os dedos às cegas na garganta.
- Nunca oferecer água ou comida para “empurrar” o objeto.
- Nunca tentar induzir vômito em situação de engasgo/sufocação.
- Nunca sacudir o animal (risco de trauma e piora da obstrução).
- Nunca insistir por muito tempo em tentativas que não funcionam: alternar inspeção rápida e manobras, e seguir para atendimento.
Exemplos comuns e como decidir rápido
Exemplo 1: cão pequeno com tosse forte após pegar petisco grande
- Se tosse forte e respira: mantenha calmo, evite “mexer” na boca, prepare para ir ao veterinário.
- Se a tosse vira silêncio, língua escurece e ele não consegue inspirar: inspeção visual + manobras abdominais em sequência.
Exemplo 2: gato brincando com elástico e de repente abre a boca para respirar
- Trate como potencial obstrução grave.
- Inspeção visual rápida: se o elástico estiver visível e acessível, remoção com pinça; se não, compressões abdominais e deslocamento imediato.
Exemplo 3: cão grande com bola presa na entrada da garganta
- Se a bola estiver visível e você conseguir segurar com pinça/pegador, tente remover sem empurrar.
- Se não conseguir, compressões abdominais em pé e reavaliação rápida da boca entre as tentativas.