Primeiros Socorros Veterinários para Tutores: quedas, atropelamentos e traumas internos suspeitos

Capítulo 12

Tempo estimado de leitura: 7 minutos

+ Exercício

O que é “trauma interno suspeito” e por que é tão perigoso

Após quedas, atropelamentos, pancadas fortes ou esmagamentos, um animal pode ter lesões internas (hemorragias, contusões pulmonares, ruptura de órgãos, pneumotórax, lesões no diafragma) mesmo sem feridas visíveis. O risco é que o quadro piore rapidamente por perda de sangue, dor intensa, dificuldade respiratória ou choque. Por isso, o foco do tutor é reconhecer sinais de alerta e reduzir ao máximo a movimentação até o atendimento veterinário.

Quando suspeitar, mesmo que “pareça bem”

  • Queda de altura (sofá, escada, janela, laje), principalmente em gatos.
  • Atropelamento, mesmo em baixa velocidade.
  • Briga com impacto/queda, mordidas profundas no tórax/abdômen.
  • Pancada por objeto, porta, portão, bicicleta, moto.
  • Animal encontrado após sumiço com sinais de dor, cansaço ou comportamento “diferente”.

Sinais de trauma interno: o que observar e como interpretar

1) Respiração difícil (sinal de emergência)

Lesões no tórax podem reduzir a capacidade de oxigenação. Observe:

  • Respiração rápida e superficial ou esforço para puxar o ar.
  • Abdômen “trabalhando” para respirar (movimento abdominal exagerado).
  • Postura de alívio: pescoço estendido, cotovelos afastados, recusa em deitar.
  • Ruídos (chiado, ronco) ou tosse após trauma.

Importante: não force o animal a deitar “para acalmar”. Se ele busca uma posição para respirar melhor, mantenha-o como está e priorize transporte imediato.

2) Gengivas pálidas/cinzentas ou muito brancas

Gengivas pálidas podem indicar má perfusão (choque) ou hemorragia interna. Se possível, levante o lábio e compare com a cor habitual do seu animal. Também é alerta se a língua estiver pálida ou acinzentada.

3) Abdômen distendido, duro ou doloroso

Um abdômen que “incha” após trauma pode sugerir sangramento interno, acúmulo de ar, ruptura de bexiga ou dor intensa. Sinais comuns:

Continue em nosso aplicativo e ...
  • Ouça o áudio com a tela desligada
  • Ganhe Certificado após a conclusão
  • + de 5000 cursos para você explorar!
ou continue lendo abaixo...
Download App

Baixar o aplicativo

  • Animal não deixa tocar na barriga, rosna, tenta morder ou chora.
  • Postura encurvada, “encolhido”, ou dificuldade para se levantar.
  • Respiração piora quando tenta deitar.

Evite apertar para “ver onde dói”. Palpação forte pode agravar sangramento e aumenta o estresse.

4) Fraqueza, cambaleio, colapso ou desmaio

Podem ser sinais de choque, dor extrema, hemorragia ou lesão neurológica. Atenção se o animal:

  • Não consegue ficar em pé, cai ao tentar andar.
  • Fica muito quieto, “desligado”, ou alterna agitação e apatia.
  • Tem olhar fixo, confusão ou resposta lenta.

5) Sangue em urina, vômito ou fezes

Indica possível lesão de vias urinárias, estômago/intestino ou sangramento interno. Pode aparecer como:

  • Urina rosada/vermelha ou esforço para urinar sem sair nada.
  • Vômito com sangue (vermelho vivo) ou aspecto de “borra de café”.
  • Fezes escuras (tipo piche) ou com sangue vivo.

Mesmo pequenas quantidades são relevantes após trauma.

O que fazer imediatamente: passo a passo focado em trauma interno

Passo 1) Interrompa a movimentação e reduza estímulos

  • Se o animal está andando, não incentive a caminhar “para ver se está bem”.
  • Mantenha-o em local silencioso, com pouca luz e sem aglomeração.
  • Evite manipular várias vezes para “inspecionar” o corpo.

Passo 2) Posicione com o mínimo de mudanças

  • Se há dificuldade respiratória, mantenha a posição que ele escolheu para respirar melhor (muitas vezes esternal: deitado com peito no chão).
  • Se ele tolera deitar e não há piora da respiração, prefira mantê-lo de lado com o pescoço alinhado, sem torções.
  • Evite elevar as patas traseiras ou “posição de choque” sem orientação veterinária: em trauma, isso pode piorar respiração ou dor.

Passo 3) Mantenha aquecimento moderado (sem superaquecer)

Trauma e choque podem reduzir a temperatura corporal. O objetivo é conservar calor sem causar hipertermia:

  • Cubra com manta/toalha leve, principalmente tronco.
  • Se estiver frio, use bolsa morna envolta em pano (nunca contato direto com a pele) e coloque ao lado do corpo, não sobre o abdômen dolorido.
  • Se o animal estiver ofegante ou quente, apenas isole do frio e evite cobertores pesados.

Passo 4) Não ofereça comida, água ou “fortificantes”

Em suspeita de trauma interno, não ofereça:

  • Água, leite, soro caseiro.
  • Ração, petiscos.
  • Medicamentos humanos ou analgésicos por conta própria.

Motivos: risco de vômito e aspiração, necessidade de anestesia/sedação no atendimento, piora de sangramento com alguns fármacos e mascaramento de sinais importantes.

Passo 5) Priorize transporte imediato (mesmo sem sinais “dramáticos”)

Trauma interno pode evoluir em minutos a horas. Vá ao veterinário imediatamente se houver qualquer sinal de alerta (respiração difícil, gengivas pálidas, fraqueza, dor abdominal, colapso, sangramentos). Se o evento foi significativo (atropelamento/queda alta), considere avaliação urgente mesmo que o animal esteja aparentemente normal.

Passo 6) Registre informações úteis para a equipe

Enquanto organiza a saída, anote no celular:

  • Horário do acidente e o que aconteceu (queda de qual altura, atropelamento em que região do corpo, etc.).
  • Mudanças desde o evento (piorou a respiração? ficou mais quieto?).
  • Presença de vômito, urina com sangue, tosse, desmaio.

O que evitar (erros comuns que pioram o quadro)

  • “Testar” andando: fazer o animal caminhar para ver se manca pode agravar hemorragia interna e dor.
  • Apertar abdômen/tórax para localizar dor.
  • Banho para “limpar” após atropelamento: aumenta estresse e perda de calor.
  • Dar anti-inflamatório/analgésico humano: pode causar intoxicação e aumentar risco de sangramento ou complicar anestesia.
  • Esperar dormir e ver amanhã após trauma importante.

Checklist de observações nas primeiras horas (mesmo quando “parece bem”)

Use este checklist para monitorar nas primeiras 6–12 horas após o evento (e também no caminho/na sala de espera). Se qualquer item aparecer, antecipe o atendimento ou informe imediatamente a clínica.

O que observarComo checar em casaSinal de alerta
RespiraçãoObserve em repouso, sem tocarEsforço, barriga “puxando”, respiração muito rápida, postura com pescoço estendido, piora ao deitar
Cor das gengivasLevante o lábio rapidamentePálida, branca, cinza/azulada
Nível de energiaCompare com o normalFraqueza, cambaleio, desmaio, não consegue levantar
ComportamentoReação ao chamado e ao toque leveConfusão, apatia intensa, agitação incomum, vocalização de dor
AbdômenObserve formato e postura (sem apertar)Distensão, rigidez, postura encurvada, proteção ao toque
UrinaVeja a cor no local onde urinaRosada/vermelha, esforço sem urinar, dor ao urinar
VômitoChecar episódios e aspectoSangue vermelho, “borra de café”, vômitos repetidos
FezesSe evacuar, observe corPreta (melena) ou com sangue vivo
Temperatura periféricaToque patas e orelhasMuito frias + apatia (pode sugerir choque); ou muito quente + ofegante
DorSem manipular demaisChoro, rosnado ao toque leve, respiração piora com dor

Como usar o checklist na prática

  • Faça uma checagem inicial logo após o evento e repita a cada 15–30 minutos enquanto organiza o deslocamento ou aguarda atendimento.
  • Se o animal “melhorar” e depois piorar (ex.: fica mais quieto, gengiva empalidece, respiração acelera), trate como urgência: isso é compatível com evolução de hemorragia interna.
  • Se houver dúvida entre “observar” e “ir agora”, em trauma a escolha mais segura é ir agora.

Exemplos práticos de decisão rápida

Exemplo 1: gato caiu da janela e está andando

Mesmo andando, quedas podem causar contusão pulmonar e sangramento interno. Se ele está ofegante, com boca aberta, ou se recusa a deitar, trate como emergência. Mantenha-o quieto, aquecimento leve, sem água/comida e vá imediatamente.

Exemplo 2: cão atropelado “de leve” e sem feridas

Atropelamento pode causar trauma torácico/abdominal sem cortes. Se as gengivas estão mais pálidas que o normal, se há fraqueza ou dor ao se mover, priorize atendimento imediato. Evite deixá-lo subir escadas ou entrar sozinho no carro.

Exemplo 3: pancada no abdômen e urina rosada horas depois

Sangue na urina após trauma sugere lesão urinária. Não ofereça água “para lavar” nem espere passar. Mantenha repouso absoluto e procure atendimento urgente.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Após uma queda ou atropelamento, qual conduta do tutor é mais adequada ao suspeitar de trauma interno, mesmo sem feridas visíveis?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Traumas internos podem piorar rapidamente sem sinais externos. O mais seguro é minimizar a movimentação, respeitar a postura respiratória, evitar comida/água e medicamentos por conta própria, e buscar atendimento veterinário imediato.

Próximo capitúlo

Primeiros Socorros Veterinários para Tutores: convulsões e alterações neurológicas agudas

Arrow Right Icon
Capa do Ebook gratuito Primeiros Socorros Veterinários para Tutores: o que fazer até chegar ao veterinário
60%

Primeiros Socorros Veterinários para Tutores: o que fazer até chegar ao veterinário

Novo curso

20 páginas

Baixe o app para ganhar Certificação grátis e ouvir os cursos em background, mesmo com a tela desligada.