Primeiros Socorros Veterinários para Tutores: convulsões e alterações neurológicas agudas

Capítulo 13

Tempo estimado de leitura: 7 minutos

+ Exercício

O que são convulsões e alterações neurológicas agudas

Convulsão é um episódio súbito de atividade elétrica anormal no cérebro que pode causar contrações musculares, perda de consciência, salivação, micção/defecação involuntária e movimentos involuntários. “Alterações neurológicas agudas” incluem sinais que aparecem de repente e sugerem comprometimento do sistema nervoso, como desorientação, perda de equilíbrio (ataxia), tremores, cabeça inclinada, andar em círculos, fraqueza súbita, alterações de visão, comportamento anormal ou colapso.

Nem todo movimento estranho é convulsão. Tremores por frio, dor intensa, ansiedade ou fraqueza podem parecer “crise”, mas costumam ocorrer com o animal consciente e responsivo. Já a convulsão frequentemente vem em ondas, com perda de controle corporal e, muitas vezes, alteração do nível de consciência.

Como reconhecer diferentes apresentações

1) Convulsão tônico-clônica (a “clássica”)

  • Fase tônica: rigidez do corpo, queda, membros estendidos, mandíbula rígida.
  • Fase clônica: “pedalar” com as patas, contrações rítmicas, tremores fortes.
  • Sinais associados: salivação espessa, vocalização, olhar fixo, micção/defecação, respiração irregular.

2) Convulsão focal (parcial)

  • Movimentos repetitivos em uma parte do corpo (ex.: contração de um lado da face, mastigação no vazio, tremor de uma pata).
  • Pode haver consciência preservada ou alterada.
  • Pode evoluir para tônico-clônica generalizada.

3) Tremores (nem sempre são convulsão)

  • Oscilações musculares finas ou moderadas, às vezes contínuas.
  • O animal geralmente responde ao tutor (olha, tenta andar, reage ao toque).
  • Podem ocorrer por frio, dor, estresse, hipoglicemia, intoxicações, febre, fraqueza.

4) Desorientação e comportamento anormal

  • Parecer “perdido”, não reconhecer o ambiente, olhar vago.
  • Andar sem objetivo, ficar preso em cantos, pressionar a cabeça contra a parede.
  • Agitação, medo repentino, reatividade incomum.

5) Ataxia (perda de coordenação)

  • Andar cambaleante, “bêbado”, cruzar as patas, cair para os lados.
  • Cabeça inclinada, nistagmo (olhos “batendo” de um lado para outro) podem acompanhar.
  • É um sinal de alerta: pode ocorrer em intoxicações, problemas vestibulares, AVC, inflamações, traumas, entre outras causas.

Como agir durante uma convulsão: passo a passo seguro

Passo 1 — Proteja o animal de acidentes (sem se expor)

  • Afastar objetos ao redor (cadeiras, mesas, pontas, fios, brinquedos duros).
  • Se estiver em local alto (sofá, cama), evite quedas: coloque almofadas ao redor ou deslize o animal cuidadosamente para o chão apenas se for seguro.
  • Se houver escadas por perto, bloqueie o acesso com um objeto grande (ex.: cadeira) sem encostar no animal.

Passo 2 — Reduza estímulos

  • Apague luzes fortes, reduza barulho, peça silêncio.
  • Afaste outros animais e crianças.
  • Evite tocar excessivamente: durante a crise, o animal não controla os movimentos.

Passo 3 — Não coloque a mão na boca

  • Não tente segurar a língua e não introduza objetos (colher, pano, dedos). Há alto risco de mordida involuntária.
  • O animal não “engole a língua” como mito popular sugere. O foco é evitar traumas e manter o ambiente seguro.

Passo 4 — Cronometre a duração

  • Use o relógio do celular e marque o início e o fim.
  • Se possível, anote: tipo de movimentos, se urinou/defecou, se houve vômito, se estava consciente antes.

Passo 5 — Registre vídeo quando possível

  • Um vídeo curto (10–30 segundos) ajuda muito o veterinário a diferenciar convulsão de tremores, síncope ou dor.
  • Filme à distância, sem flash e sem se aproximar da boca.

Passo 6 — Após cessar a crise, mantenha o animal em local seguro

  • Deixe-o em um ambiente calmo, com pouca luz.
  • Evite oferecer comida/água imediatamente se estiver desorientado (risco de engasgo). Aguarde recuperar coordenação e atenção.
  • Se precisar mover, faça com cuidado: alguns animais ficam agitados e podem morder sem reconhecer o tutor.

Período pós-ictal: o que esperar e como cuidar

O período pós-ictal é a fase após a convulsão. Pode durar minutos a horas e incluir desorientação, andar cambaleante, fome intensa, sede, cegueira temporária, inquietação, vocalização ou sonolência. Nessa fase, o animal pode parecer “fora de si” e reagir de forma imprevisível.

Cuidados práticos no pós-ictal

  • Ambiente controlado: mantenha em um cômodo pequeno e seguro, sem acesso a escadas/piscina.
  • Contato mínimo e calmo: fale baixo, evite abraços e manipulação do rosto.
  • Observe a respiração e a recuperação: a melhora costuma ser gradual.
  • Evite estímulos: visitas, barulho, brincadeiras e passeios até estabilizar.

Controle de temperatura: por que importa e como fazer

Convulsões prolongadas ou repetidas podem elevar a temperatura corporal (hipertermia) pelo esforço muscular contínuo. Isso é perigoso e pode agravar o quadro.

O que fazer

  • Se a crise foi longa, se houve várias crises em sequência, ou se o animal está muito quente ao toque, inicie resfriamento suave enquanto busca atendimento.
  • Ventilação: use ventilador em intensidade moderada, mantendo o animal em local arejado.
  • Compressas frescas (não geladas) em patas, axilas e virilha podem ajudar.
  • Evite água gelada e gelo direto: podem causar vasoconstrição e piorar a dissipação de calor, além de estresse.

Quando é emergência imediata: critérios de alerta

Procure atendimento veterinário com urgência (ou emergência) se ocorrer qualquer um dos itens abaixo:

Continue em nosso aplicativo e ...
  • Ouça o áudio com a tela desligada
  • Ganhe Certificado após a conclusão
  • + de 5000 cursos para você explorar!
ou continue lendo abaixo...
Download App

Baixar o aplicativo

  • Duração maior que 5 minutos (status epilepticus) ou dificuldade de parar.
  • Crises repetidas em curto intervalo (ex.: mais de uma em 24 horas, ou “em cluster”).
  • Primeiro episódio de convulsão na vida.
  • Filhotes ou idosos (maior risco de causas metabólicas, intoxicações e doenças graves).
  • Suspeita de intoxicação (acesso a venenos, plantas tóxicas, medicamentos humanos, produtos de limpeza, drogas, iscas, alimentos perigosos).
  • Recuperação anormal: não volta a reconhecer o ambiente, permanece muito desorientado por tempo prolongado, fraqueza intensa, dificuldade respiratória, colapso.
  • Sinais neurológicos graves sem convulsão: incapacidade de ficar em pé, cabeça pressionada contra objetos, andar em círculos contínuo, nistagmo intenso, cegueira súbita, dor intensa, vocalização persistente.

Checklist rápido para o tutor (para usar no momento)

1) Afastar objetos e reduzir estímulos (luz/ruído). 2) Não tocar na boca; não segurar língua. 3) Cronometrar início e fim. 4) Filmar um trecho, se seguro. 5) Após a crise: manter em local calmo e seguro. 6) Avaliar critérios de emergência (≥5 min, repetidas, 1ª vez, filhote/idoso, intoxicação). 7) Se crise longa/repetida: resfriamento suave e atendimento imediato.

Informações úteis para relatar ao veterinário

O que observarExemplos do que anotar
Duração“Começou 19:42 e terminou 19:44 (2 min)”
Tipo de episódioRigidez + movimentos de pedalar; tremor focal na face; queda súbita
ConsciênciaRespondia ao nome? Olhar fixo? Parecia ausente?
Antes do episódioVômito, ingestão suspeita, estresse, exercício, jejum, medicação recente
Depois do episódioDesorientação, cegueira temporária, agressividade, sonolência
FrequênciaPrimeira vez? Quantas em 24h? Intervalo entre crises

Diferenças práticas: convulsão x tremor x desmaio (para não confundir)

  • Convulsão: movimentos involuntários marcantes, possível perda de consciência, pós-ictal comum (desorientação depois).
  • Tremor: animal geralmente consciente e responsivo; pode piorar com frio/estresse; não costuma ter pós-ictal típico.
  • Desmaio (síncope): queda súbita, pode ficar mole, recuperação rápida; pode haver poucos movimentos, mas geralmente sem fase tônico-clônica prolongada e sem pós-ictal longo.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Durante uma convulsão em um animal, qual conduta é a mais adequada para reduzir riscos e ajudar no atendimento veterinário posterior?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A conduta segura prioriza evitar acidentes, reduzir estímulos e não colocar a mão na boca (risco de mordida e o animal não “engole a língua”). Cronometrar a crise ajuda a avaliar gravidade e orientar o atendimento.

Próximo capitúlo

Primeiros Socorros Veterinários para Tutores: intoxicações e envenenamentos (o que fazer e o que evitar)

Arrow Right Icon
Capa do Ebook gratuito Primeiros Socorros Veterinários para Tutores: o que fazer até chegar ao veterinário
65%

Primeiros Socorros Veterinários para Tutores: o que fazer até chegar ao veterinário

Novo curso

20 páginas

Baixe o app para ganhar Certificação grátis e ouvir os cursos em background, mesmo com a tela desligada.