O que é uma parada cardiorrespiratória (PCR) em cães e gatos
Parada cardiorrespiratória é a combinação de inconsciência com ausência de respiração efetiva e, muitas vezes, ausência de batimentos/pulso. Em casa, o objetivo do tutor não é “curar” a causa, e sim manter oxigênio e circulação mínimos até o atendimento veterinário. Mesmo com manobras corretas, a taxa de sucesso fora da clínica é limitada, mas iniciar rapidamente pode fazer diferença.
Quando suspeitar de PCR (sinais práticos)
- Animal não responde a voz/toque e está “mole”.
- Não há movimentos respiratórios (peito não sobe) ou há apenas gasping (suspiros espaçados, irregulares), que não contam como respiração eficaz.
- Mucosas (gengiva/língua) podem estar pálidas, azuladas ou acinzentadas.
Checagem rápida antes de iniciar
1) Confirme inconsciência e respiração (10 segundos)
Com o animal deitado, observe o tórax e aproxime o ouvido do focinho. Procure por subida do peito e fluxo de ar. Se em até 10 segundos você não identificar respiração efetiva, trate como emergência.
2) Checar pulso (se você souber e conseguir em até 10 segundos)
Se for possível sem atrasar, tente sentir o pulso:
- Cães: artéria femoral (parte interna da coxa, perto da virilha).
- Gatos: femoral também é o local mais útil; pode ser difícil em situações de estresse.
Se você não encontrar pulso rapidamente, não perca tempo: inicie compressões. Em PCR, cada segundo conta.
RCP para tutores: compressões torácicas + ventilação de resgate
A reanimação cardiopulmonar (RCP) combina compressões (para circular sangue) e ventilações (para oxigenar). A prioridade é manter compressões contínuas com pausas mínimas.
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Posicionamento do animal
- Em geral, coloque o animal em decúbito lateral (de lado) sobre superfície firme.
- Estenda o pescoço de forma neutra para facilitar passagem de ar (sem hiperextensão exagerada).
- Feche a boca para ventilar pelo nariz (na maioria dos casos).
Onde colocar as mãos (varia por porte e conformação)
Regra prática: comprimir a região do tórax que melhor “transmite” a força ao coração e grandes vasos.
- Cães e gatos de tórax arredondado (a maioria): mãos sobre a parte mais larga do tórax, aproximadamente atrás do cotovelo.
- Cães de peito profundo (ex.: galgos, doberman): mãos mais próximas do coração, atrás do cotovelo, um pouco mais baixo no tórax.
- Cães de tórax muito largo/achatado (ex.: bulldog): pode funcionar melhor com o animal em decúbito dorsal (de barriga para cima), comprimindo o esterno (meio do peito). Se isso for difícil, mantenha de lado e comprima a parte mais larga do tórax.
- Filhotes e animais muito pequenos: use uma mão ou técnica de “abraço” (polegar de um lado e dedos do outro, comprimindo o tórax).
Como fazer as compressões (técnica)
- Braços estendidos, ombros alinhados sobre as mãos.
- Comprima o tórax em linha reta, com força suficiente para deprimir cerca de 1/3 a 1/2 da largura do tórax.
- Permita retorno completo do tórax entre compressões (não “apoie” o peso).
- Mantenha ritmo constante e evite interrupções.
Ritmo e ciclos (padrão prático para tutores)
Use como referência:
- Compressões: 100 a 120 por minuto (rápidas e regulares).
- Ciclo: 30 compressões + 2 ventilações.
- Pausas: apenas o tempo necessário para as 2 ventilações (idealmente < 5–10 segundos).
Se houver apenas uma pessoa e ventilar estiver difícil, priorize compressões contínuas e faça ventilações quando conseguir sem longas pausas.
Ventilação de resgate (como fazer com segurança)
O objetivo é ver o tórax subir suavemente. Ventilar forte demais pode empurrar ar para o estômago e aumentar risco de regurgitação.
- Feche a boca do animal.
- Sele o focinho com sua boca (em cães pequenos) ou sopre pelas narinas mantendo vedação (em cães maiores). Em gatos, geralmente é possível vedar o focinho com a boca do tutor.
- Sopre por cerca de 1 segundo, apenas até observar elevação do tórax.
- Deixe o ar sair e repita a segunda ventilação.
Se houver suspeita de obstrução de vias aéreas (ex.: engasgo não resolvido), a ventilação pode não entrar; nesse caso, não insista em sopros longos. Retome compressões e reavalie rapidamente a via aérea quando possível, sem prolongar pausas.
Reavaliações rápidas durante a RCP
Quando checar sinais de retorno
A cada 2 minutos (aproximadamente 5 ciclos de 30:2), faça uma checagem muito rápida (até 10 segundos) de:
- Respiração efetiva (peito sobe regularmente).
- Movimentos voluntários/retorno de consciência.
- Pulso (se você souber checar).
Se houver sinais claros de retorno, pare compressões e mantenha o animal em posição confortável, monitorando respiração enquanto se desloca para a clínica.
Troca de reanimador (quando há mais de uma pessoa)
Compressões cansam rápido e perdem qualidade. Se houver duas pessoas:
- Troque quem faz compressões a cada 2 minutos (ou antes, se a pessoa cansar).
- A troca deve ser rápida (idealmente em menos de 5 segundos), combinada com a pausa de ventilação ou com uma contagem combinada.
- Uma pessoa pode focar em compressões enquanto a outra faz ventilações e organiza deslocamento/contato com a clínica.
Como conciliar RCP e ida imediata ao veterinário
Se você estiver sozinho
- Se estiver em casa e a clínica for próxima, pode ser mais efetivo iniciar RCP por 2 minutos e então partir imediatamente, tentando manter compressões apenas se for possível com segurança (na prática, sozinho isso costuma ser inviável no carro).
- Priorize chegar rápido: na clínica há oxigênio, medicamentos, intubação e desfibrilação quando indicada.
Se houver duas ou mais pessoas
- Uma pessoa dirige e a outra realiza RCP no banco traseiro, com o animal em superfície o mais firme possível (tábua, bandeja rígida, assoalho do carro). Use cinto de segurança quando possível sem impedir as manobras.
- Combine antes: quem comprime, quem ventila, quando trocar, e qual rota.
Critérios para interromper a RCP (para tutores)
Interromper é uma decisão difícil. Para tutores, critérios práticos incluem:
- Retorno de respiração efetiva e/ou movimentos claros.
- Exaustão física do reanimador sem possibilidade de revezamento.
- Impossibilidade de manter segurança (risco de acidente, ambiente perigoso).
- Orientação direta de um veterinário por telefone, quando disponível.
Se você parar por exaustão e o animal continuar sem respirar, priorize deslocamento imediato para a clínica.
Expectativas realistas e riscos das manobras
O que é realista esperar
- Fora do ambiente hospitalar, a chance de retorno sustentado é baixa, especialmente se a PCR não foi presenciada.
- Quando a PCR é recente e a RCP começa rápido, as chances melhoram, mas ainda dependem muito da causa (ex.: afogamento, choque elétrico, anestesia, doenças cardíacas).
Riscos e efeitos colaterais possíveis
- Fraturas de costelas e dor posterior podem ocorrer mesmo com técnica correta.
- Lesões internas são possíveis se a compressão for muito forte ou em local inadequado.
- Regurgitação/aspiração pode ocorrer com ventilação excessiva; por isso, sopros curtos e apenas até elevar o tórax.
Apesar dos riscos, em PCR o animal está em situação de vida ou morte; a prioridade é tentar restabelecer circulação e oxigenação até o atendimento.
Checklist rápido (para memorizar)
1) Inconsciente + sem respiração efetiva? (10 s) → SIM: iniciar RCP. 2) Pulso só se der para checar em 10 s. Se não achar: compressões. 3) Posição: de lado em superfície firme (na maioria). 4) Compressões: 100–120/min, profundidade 1/3–1/2 do tórax, retorno completo. 5) Ciclo: 30 compressões + 2 ventilações (sopros de 1 s, até subir o peito). 6) Reavaliar a cada 2 min (≤10 s). 7) Trocar reanimador a cada 2 min, pausas mínimas. 8) Ir à clínica o quanto antes; com 2 pessoas, RCP durante o deslocamento.