Primeiros Socorros Veterinários para Tutores: parada cardiorrespiratória e suporte básico até o veterinário

Capítulo 8

Tempo estimado de leitura: 7 minutos

+ Exercício

O que é uma parada cardiorrespiratória (PCR) em cães e gatos

Parada cardiorrespiratória é a combinação de inconsciência com ausência de respiração efetiva e, muitas vezes, ausência de batimentos/pulso. Em casa, o objetivo do tutor não é “curar” a causa, e sim manter oxigênio e circulação mínimos até o atendimento veterinário. Mesmo com manobras corretas, a taxa de sucesso fora da clínica é limitada, mas iniciar rapidamente pode fazer diferença.

Quando suspeitar de PCR (sinais práticos)

  • Animal não responde a voz/toque e está “mole”.
  • Não há movimentos respiratórios (peito não sobe) ou há apenas gasping (suspiros espaçados, irregulares), que não contam como respiração eficaz.
  • Mucosas (gengiva/língua) podem estar pálidas, azuladas ou acinzentadas.

Checagem rápida antes de iniciar

1) Confirme inconsciência e respiração (10 segundos)

Com o animal deitado, observe o tórax e aproxime o ouvido do focinho. Procure por subida do peito e fluxo de ar. Se em até 10 segundos você não identificar respiração efetiva, trate como emergência.

2) Checar pulso (se você souber e conseguir em até 10 segundos)

Se for possível sem atrasar, tente sentir o pulso:

  • Cães: artéria femoral (parte interna da coxa, perto da virilha).
  • Gatos: femoral também é o local mais útil; pode ser difícil em situações de estresse.

Se você não encontrar pulso rapidamente, não perca tempo: inicie compressões. Em PCR, cada segundo conta.

RCP para tutores: compressões torácicas + ventilação de resgate

A reanimação cardiopulmonar (RCP) combina compressões (para circular sangue) e ventilações (para oxigenar). A prioridade é manter compressões contínuas com pausas mínimas.

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Posicionamento do animal

  • Em geral, coloque o animal em decúbito lateral (de lado) sobre superfície firme.
  • Estenda o pescoço de forma neutra para facilitar passagem de ar (sem hiperextensão exagerada).
  • Feche a boca para ventilar pelo nariz (na maioria dos casos).

Onde colocar as mãos (varia por porte e conformação)

Regra prática: comprimir a região do tórax que melhor “transmite” a força ao coração e grandes vasos.

  • Cães e gatos de tórax arredondado (a maioria): mãos sobre a parte mais larga do tórax, aproximadamente atrás do cotovelo.
  • Cães de peito profundo (ex.: galgos, doberman): mãos mais próximas do coração, atrás do cotovelo, um pouco mais baixo no tórax.
  • Cães de tórax muito largo/achatado (ex.: bulldog): pode funcionar melhor com o animal em decúbito dorsal (de barriga para cima), comprimindo o esterno (meio do peito). Se isso for difícil, mantenha de lado e comprima a parte mais larga do tórax.
  • Filhotes e animais muito pequenos: use uma mão ou técnica de “abraço” (polegar de um lado e dedos do outro, comprimindo o tórax).

Como fazer as compressões (técnica)

  • Braços estendidos, ombros alinhados sobre as mãos.
  • Comprima o tórax em linha reta, com força suficiente para deprimir cerca de 1/3 a 1/2 da largura do tórax.
  • Permita retorno completo do tórax entre compressões (não “apoie” o peso).
  • Mantenha ritmo constante e evite interrupções.

Ritmo e ciclos (padrão prático para tutores)

Use como referência:

  • Compressões: 100 a 120 por minuto (rápidas e regulares).
  • Ciclo: 30 compressões + 2 ventilações.
  • Pausas: apenas o tempo necessário para as 2 ventilações (idealmente < 5–10 segundos).

Se houver apenas uma pessoa e ventilar estiver difícil, priorize compressões contínuas e faça ventilações quando conseguir sem longas pausas.

Ventilação de resgate (como fazer com segurança)

O objetivo é ver o tórax subir suavemente. Ventilar forte demais pode empurrar ar para o estômago e aumentar risco de regurgitação.

  1. Feche a boca do animal.
  2. Sele o focinho com sua boca (em cães pequenos) ou sopre pelas narinas mantendo vedação (em cães maiores). Em gatos, geralmente é possível vedar o focinho com a boca do tutor.
  3. Sopre por cerca de 1 segundo, apenas até observar elevação do tórax.
  4. Deixe o ar sair e repita a segunda ventilação.

Se houver suspeita de obstrução de vias aéreas (ex.: engasgo não resolvido), a ventilação pode não entrar; nesse caso, não insista em sopros longos. Retome compressões e reavalie rapidamente a via aérea quando possível, sem prolongar pausas.

Reavaliações rápidas durante a RCP

Quando checar sinais de retorno

A cada 2 minutos (aproximadamente 5 ciclos de 30:2), faça uma checagem muito rápida (até 10 segundos) de:

  • Respiração efetiva (peito sobe regularmente).
  • Movimentos voluntários/retorno de consciência.
  • Pulso (se você souber checar).

Se houver sinais claros de retorno, pare compressões e mantenha o animal em posição confortável, monitorando respiração enquanto se desloca para a clínica.

Troca de reanimador (quando há mais de uma pessoa)

Compressões cansam rápido e perdem qualidade. Se houver duas pessoas:

  • Troque quem faz compressões a cada 2 minutos (ou antes, se a pessoa cansar).
  • A troca deve ser rápida (idealmente em menos de 5 segundos), combinada com a pausa de ventilação ou com uma contagem combinada.
  • Uma pessoa pode focar em compressões enquanto a outra faz ventilações e organiza deslocamento/contato com a clínica.

Como conciliar RCP e ida imediata ao veterinário

Se você estiver sozinho

  • Se estiver em casa e a clínica for próxima, pode ser mais efetivo iniciar RCP por 2 minutos e então partir imediatamente, tentando manter compressões apenas se for possível com segurança (na prática, sozinho isso costuma ser inviável no carro).
  • Priorize chegar rápido: na clínica há oxigênio, medicamentos, intubação e desfibrilação quando indicada.

Se houver duas ou mais pessoas

  • Uma pessoa dirige e a outra realiza RCP no banco traseiro, com o animal em superfície o mais firme possível (tábua, bandeja rígida, assoalho do carro). Use cinto de segurança quando possível sem impedir as manobras.
  • Combine antes: quem comprime, quem ventila, quando trocar, e qual rota.

Critérios para interromper a RCP (para tutores)

Interromper é uma decisão difícil. Para tutores, critérios práticos incluem:

  • Retorno de respiração efetiva e/ou movimentos claros.
  • Exaustão física do reanimador sem possibilidade de revezamento.
  • Impossibilidade de manter segurança (risco de acidente, ambiente perigoso).
  • Orientação direta de um veterinário por telefone, quando disponível.

Se você parar por exaustão e o animal continuar sem respirar, priorize deslocamento imediato para a clínica.

Expectativas realistas e riscos das manobras

O que é realista esperar

  • Fora do ambiente hospitalar, a chance de retorno sustentado é baixa, especialmente se a PCR não foi presenciada.
  • Quando a PCR é recente e a RCP começa rápido, as chances melhoram, mas ainda dependem muito da causa (ex.: afogamento, choque elétrico, anestesia, doenças cardíacas).

Riscos e efeitos colaterais possíveis

  • Fraturas de costelas e dor posterior podem ocorrer mesmo com técnica correta.
  • Lesões internas são possíveis se a compressão for muito forte ou em local inadequado.
  • Regurgitação/aspiração pode ocorrer com ventilação excessiva; por isso, sopros curtos e apenas até elevar o tórax.

Apesar dos riscos, em PCR o animal está em situação de vida ou morte; a prioridade é tentar restabelecer circulação e oxigenação até o atendimento.

Checklist rápido (para memorizar)

1) Inconsciente + sem respiração efetiva? (10 s)  → SIM: iniciar RCP. 2) Pulso só se der para checar em 10 s. Se não achar: compressões. 3) Posição: de lado em superfície firme (na maioria). 4) Compressões: 100–120/min, profundidade 1/3–1/2 do tórax, retorno completo. 5) Ciclo: 30 compressões + 2 ventilações (sopros de 1 s, até subir o peito). 6) Reavaliar a cada 2 min (≤10 s). 7) Trocar reanimador a cada 2 min, pausas mínimas. 8) Ir à clínica o quanto antes; com 2 pessoas, RCP durante o deslocamento.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao suspeitar de parada cardiorrespiratória em um cão ou gato e não conseguir encontrar o pulso rapidamente, qual deve ser a conduta mais adequada do tutor?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Se o pulso não for identificado em poucos segundos, não se deve perder tempo: em PCR cada segundo conta. A recomendação é iniciar compressões para manter circulação mínima, com pausas mínimas.

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