O que é uma ferida e por que ela exige cuidado imediato
Ferida é qualquer ruptura da barreira da pele (e às vezes de camadas mais profundas), permitindo sangramento, dor e entrada de sujeira e microrganismos. Nos primeiros minutos, o objetivo do tutor é reduzir contaminação, proteger o local e evitar piora por lambedura, atrito ou manipulação excessiva. Mesmo feridas “pequenas” podem esconder profundidade, corpo estranho ou infecção, especialmente em mordidas e perfurações.
Tipos de ferida: como reconhecer e o que isso muda no cuidado
Abrasão (ralado, escoriação)
- Como parece: área superficial, avermelhada, pode “arder”, às vezes com pouca ou nenhuma hemorragia, frequentemente com sujeira/grãos.
- Risco principal: contaminação superficial e dor.
- Conduta geral: irrigação generosa e proteção contra lambedura; muitas podem ficar cobertas nas primeiras horas para evitar sujeira.
Laceração (corte irregular/rasgo)
- Como parece: bordas irregulares, pele “aberta”, pode sangrar bastante; pode haver retalho de pele.
- Risco principal: sangramento, contaminação e necessidade de sutura.
- Conduta geral: irrigar sem esfregar, cobrir com curativo temporário e procurar avaliação veterinária, especialmente se profunda ou extensa.
Incisão (corte “limpo”)
- Como parece: bordas mais retas (ex.: vidro, lâmina), sangramento variável.
- Risco principal: pode precisar de sutura rápida para melhor cicatrização.
- Conduta geral: irrigar, cobrir e encaminhar; não “fechar” em casa com cola, fita ou grampos.
Perfuração (furo)
- Como parece: orifício pequeno na pele, às vezes quase invisível; pode haver dor desproporcional e pouco sangramento externo.
- Risco principal: infecção profunda, abscesso, lesão de estruturas internas e corpo estranho retido.
- Conduta geral: não explorar com pinça/dedo; irrigar apenas a superfície, cobrir e procurar atendimento com prioridade.
Mordida (de cão/gato/outro animal)
- Como parece: pode ser combinação de perfurações e rasgos; em gatos, frequentemente pequenos furos que fecham rápido por fora.
- Risco principal: altíssimo risco de infecção e abscesso; pode haver esmagamento de tecidos.
- Conduta geral: considerar sempre como potencialmente grave; irrigar, cobrir e buscar atendimento no mesmo dia (muitas exigem antibiótico e limpeza profunda).
Avaliação rápida da ferida (sem “mexer demais”)
Antes de limpar, observe e decida o mínimo necessário. Use luz boa e, se possível, peça ajuda para conter o animal com calma.
- Local: perto de olhos, boca, genitais, patas e articulações tende a complicar mais.
- Tamanho e profundidade aparente: bordas afastadas, “buraco” ou tecido visível sugerem profundidade.
- Sangramento: pingando/escorrendo continuamente é mais preocupante do que “umedeceu e parou”.
- Contaminação: terra, areia, pelos grudados, fezes, saliva (mordida) aumentam risco.
- Dor e função: dor intensa, mancar, não apoiar, ou reação agressiva ao toque sugerem lesão maior.
Irrigação: como reduzir contaminação inicial de forma segura
Irrigação é “lavar com pressão suave” para remover sujeira e reduzir carga bacteriana. É preferível a esfregar, que machuca e empurra sujeira para dentro.
O que usar
- Soro fisiológico 0,9% é a melhor opção.
- Água corrente potável pode ser usada se não houver soro (principalmente em abrasões).
- Seringa (ex.: 20–60 mL) ajuda a direcionar o jato com controle.
O que evitar
- Álcool, água oxigenada, iodo forte ou “antissépticos concentrados” dentro da ferida: podem irritar tecidos e atrasar cicatrização.
- Pomadas humanas com anestésico/corticoide/antibiótico sem orientação: risco de toxicidade por lambedura e piora de infecção.
- “Receitas caseiras” (vinagre, pó de café, etc.).
Passo a passo prático de irrigação
- Prepare o material: soro/água, gaze limpa, seringa (se tiver), toalha.
- Exponha a área: afaste os pelos com os dedos; se houver muito pelo cobrindo, não tente tosar profundamente se o animal estiver agitado (risco de piorar).
- Remova sujeira solta: com gaze umedecida, apenas “encostando e levantando” (sem esfregar).
- Irrigue em abundância: direcione o jato do centro para fora, repetindo até a água sair mais limpa. Em abrasões com areia, seja generoso no volume.
- Seque ao redor: seque a pele ao redor com gaze/toalha, sem fricção sobre a área aberta.
- Não explore profundidade: não introduza cotonete, pinça ou dedo para “ver até onde vai”.
Exemplo: um ralado no flanco após queda no asfalto com grãos de areia: irrigue por 2–5 minutos com soro/água, removendo grãos soltos com gaze umedecida. Depois, proteja para evitar que o animal lamba e para não grudar sujeira.
Curativo temporário: como proteger até chegar ao veterinário
O curativo temporário tem três funções: proteger contra sujeira, reduzir lambedura e diminuir atrito/dor. Ele não substitui avaliação quando há profundidade, mordida ou sinais de infecção.
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Materiais úteis
- Gaze estéril ou limpa (camada de contato)
- Compressa absorvente (segunda camada, se houver secreção/sangue)
- Atadura/rolinho e fita (para fixar)
- Colar elizabetano/roupinha cirúrgica (para impedir lambedura)
Passo a passo do curativo simples (pele e tronco)
- Após irrigar, coloque uma gaze sobre a ferida (sem pomadas).
- Adicione camada absorvente se estiver úmido/sangrando.
- Fixe sem apertar: a bandagem deve ficar firme o suficiente para não cair, mas sem marcar a pele ou dificultar respiração/movimento.
- Verifique circulação se for em membro: dedos/patas não devem ficar frios, inchados ou arroxeados.
Curativo em pata (atenção especial)
Em patas, o curativo costuma escorregar e pode apertar com o inchaço. Se você não tem prática, faça uma proteção simples e procure atendimento.
- Dica prática: após a gaze, use uma camada acolchoada (ex.: algodão/atadura macia) e finalize com atadura, sem compressão excessiva.
- Alerta: se a pata inchar, o curativo pode virar um “torniquete”. Se notar dedos frios, inchaço acima do curativo ou dor piorando, remova e refaça mais solto.
Cobrir ou deixar aberto: como decidir
Quando geralmente é melhor cobrir
- Feridas recentes com risco de sujar (animal vai ao quintal/rua).
- Abrasões que ficam “raspando” em superfícies.
- Feridas que o animal insiste em lamber (cobertura + colar).
- Quando há sangramento leve ou exsudato (umidade).
Quando pode ser melhor deixar aberto (com proteção contra lambedura)
- Feridas superficiais pequenas em ambiente limpo, após irrigação, sem sangramento ativo.
- Quando o curativo não para no lugar e fica causando atrito (ex.: algumas áreas do tronco), desde que o animal não lamba e o local fique limpo.
Regra prática: se você não consegue garantir limpeza e impedir lambedura, prefira cobrir temporariamente e usar colar elizabetano.
Como evitar lambedura e automutilação
Lamber pode reabrir a ferida, introduzir bactérias e remover coágulos. Coçar com a pata também piora.
- Colar elizabetano é a opção mais confiável.
- Roupinha cirúrgica pode ajudar em tronco, mas não substitui o colar se o animal alcançar a área.
- Meia/boot improvisado em pata pode proteger por curto período, mas deve ser frouxo e monitorado (umidade e aperto).
- Unhas: se estiverem muito afiadas e o animal estiver se arranhando, evite manipular demais; priorize o colar e o atendimento.
Reduzindo dor com mínima manipulação
- Toque mínimo: faça o essencial (irrigar e cobrir) e pare.
- Evite “testar” a ferida repetidamente para ver se dói ou se “abriu mais”.
- Não ofereça analgésicos humanos (muitos são tóxicos para cães e principalmente gatos).
- Frio local com barreira pode ajudar em contusão ao redor (não sobre ferida aberta): compressa fria envolta em pano por 5–10 minutos, se o animal tolerar.
Exemplo: laceração na orelha costuma doer e sangrar. Após irrigar suavemente, cubra com gaze e bandagem leve apenas para proteger no transporte, evitando ficar abrindo para “olhar”.
Sinais de infecção e complicações: o que observar nas horas e dias seguintes
- Vermelhidão crescente ao redor, calor local e inchaço progressivo.
- Dor aumentando em vez de melhorar.
- Secreção amarela/esverdeada, pus, crostas úmidas.
- Mau cheiro vindo da ferida ou do curativo.
- Febre, apatia, perda de apetite (sinais gerais).
- Abscesso: caroço dolorido, pele tensa; em mordidas de gato é comum aparecer 24–72 horas depois.
Critérios para atendimento urgente (não esperar “para ver”)
- Ferida profunda ou com bordas muito abertas (pode precisar de sutura e limpeza cirúrgica).
- Mordidas (especialmente de gato) e feridas por briga.
- Exposição de tecido (gordura amarela, músculo, tendão) ou qualquer estrutura visível.
- Perfuração (furo) mesmo pequena, principalmente em tórax/abdômen/pescoço.
- Mau cheiro, pus ou secreção espessa.
- Dor intensa, animal não deixa tocar, ou piora rápida.
- Feridas em face/olhos ou próximas a articulações.
- Corpo estranho preso (espinho grande, anzol, vidro): não puxar; estabilizar e ir ao veterinário.
Erros comuns que pioram feridas
- Fechar a ferida em casa com cola, fita, grampos ou “pontos improvisados”: pode aprisionar bactéria e formar abscesso.
- Esfregar com força para “limpar bem”: aumenta trauma e sangramento.
- Usar produtos irritantes dentro da ferida.
- Deixar sem proteção quando o animal lambe/coça.
- Curativo apertado em membros, causando inchaço e dor.
Checklist rápido (para agir em 5–10 minutos)
| Etapa | O que fazer | Evitar |
|---|---|---|
| Identificar tipo | abrasão, corte/rasgo, perfuração, mordida | “achar que é pequeno” só porque o furo é pequeno |
| Irrigar | soro/água potável em abundância, sem esfregar | álcool/água oxigenada/iodo forte dentro da ferida |
| Proteger | gaze + bandagem leve ou deixar aberto em ambiente limpo | curativo apertado ou que gruda na ferida |
| Impedir lambedura | colar elizabetano/roupinha | confiar que “ele não vai mexer” |
| Decidir urgência | profunda, mordida, tecido exposto, pus/mau cheiro, dor intensa = urgente | esperar dias para procurar ajuda |