Primeiros Socorros Veterinários para Tutores: feridas, cortes e cuidados imediatos com a pele

Capítulo 9

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

O que é uma ferida e por que ela exige cuidado imediato

Ferida é qualquer ruptura da barreira da pele (e às vezes de camadas mais profundas), permitindo sangramento, dor e entrada de sujeira e microrganismos. Nos primeiros minutos, o objetivo do tutor é reduzir contaminação, proteger o local e evitar piora por lambedura, atrito ou manipulação excessiva. Mesmo feridas “pequenas” podem esconder profundidade, corpo estranho ou infecção, especialmente em mordidas e perfurações.

Tipos de ferida: como reconhecer e o que isso muda no cuidado

Abrasão (ralado, escoriação)

  • Como parece: área superficial, avermelhada, pode “arder”, às vezes com pouca ou nenhuma hemorragia, frequentemente com sujeira/grãos.
  • Risco principal: contaminação superficial e dor.
  • Conduta geral: irrigação generosa e proteção contra lambedura; muitas podem ficar cobertas nas primeiras horas para evitar sujeira.

Laceração (corte irregular/rasgo)

  • Como parece: bordas irregulares, pele “aberta”, pode sangrar bastante; pode haver retalho de pele.
  • Risco principal: sangramento, contaminação e necessidade de sutura.
  • Conduta geral: irrigar sem esfregar, cobrir com curativo temporário e procurar avaliação veterinária, especialmente se profunda ou extensa.

Incisão (corte “limpo”)

  • Como parece: bordas mais retas (ex.: vidro, lâmina), sangramento variável.
  • Risco principal: pode precisar de sutura rápida para melhor cicatrização.
  • Conduta geral: irrigar, cobrir e encaminhar; não “fechar” em casa com cola, fita ou grampos.

Perfuração (furo)

  • Como parece: orifício pequeno na pele, às vezes quase invisível; pode haver dor desproporcional e pouco sangramento externo.
  • Risco principal: infecção profunda, abscesso, lesão de estruturas internas e corpo estranho retido.
  • Conduta geral: não explorar com pinça/dedo; irrigar apenas a superfície, cobrir e procurar atendimento com prioridade.

Mordida (de cão/gato/outro animal)

  • Como parece: pode ser combinação de perfurações e rasgos; em gatos, frequentemente pequenos furos que fecham rápido por fora.
  • Risco principal: altíssimo risco de infecção e abscesso; pode haver esmagamento de tecidos.
  • Conduta geral: considerar sempre como potencialmente grave; irrigar, cobrir e buscar atendimento no mesmo dia (muitas exigem antibiótico e limpeza profunda).

Avaliação rápida da ferida (sem “mexer demais”)

Antes de limpar, observe e decida o mínimo necessário. Use luz boa e, se possível, peça ajuda para conter o animal com calma.

  • Local: perto de olhos, boca, genitais, patas e articulações tende a complicar mais.
  • Tamanho e profundidade aparente: bordas afastadas, “buraco” ou tecido visível sugerem profundidade.
  • Sangramento: pingando/escorrendo continuamente é mais preocupante do que “umedeceu e parou”.
  • Contaminação: terra, areia, pelos grudados, fezes, saliva (mordida) aumentam risco.
  • Dor e função: dor intensa, mancar, não apoiar, ou reação agressiva ao toque sugerem lesão maior.

Irrigação: como reduzir contaminação inicial de forma segura

Irrigação é “lavar com pressão suave” para remover sujeira e reduzir carga bacteriana. É preferível a esfregar, que machuca e empurra sujeira para dentro.

O que usar

  • Soro fisiológico 0,9% é a melhor opção.
  • Água corrente potável pode ser usada se não houver soro (principalmente em abrasões).
  • Seringa (ex.: 20–60 mL) ajuda a direcionar o jato com controle.

O que evitar

  • Álcool, água oxigenada, iodo forte ou “antissépticos concentrados” dentro da ferida: podem irritar tecidos e atrasar cicatrização.
  • Pomadas humanas com anestésico/corticoide/antibiótico sem orientação: risco de toxicidade por lambedura e piora de infecção.
  • “Receitas caseiras” (vinagre, pó de café, etc.).

Passo a passo prático de irrigação

  1. Prepare o material: soro/água, gaze limpa, seringa (se tiver), toalha.
  2. Exponha a área: afaste os pelos com os dedos; se houver muito pelo cobrindo, não tente tosar profundamente se o animal estiver agitado (risco de piorar).
  3. Remova sujeira solta: com gaze umedecida, apenas “encostando e levantando” (sem esfregar).
  4. Irrigue em abundância: direcione o jato do centro para fora, repetindo até a água sair mais limpa. Em abrasões com areia, seja generoso no volume.
  5. Seque ao redor: seque a pele ao redor com gaze/toalha, sem fricção sobre a área aberta.
  6. Não explore profundidade: não introduza cotonete, pinça ou dedo para “ver até onde vai”.

Exemplo: um ralado no flanco após queda no asfalto com grãos de areia: irrigue por 2–5 minutos com soro/água, removendo grãos soltos com gaze umedecida. Depois, proteja para evitar que o animal lamba e para não grudar sujeira.

Curativo temporário: como proteger até chegar ao veterinário

O curativo temporário tem três funções: proteger contra sujeira, reduzir lambedura e diminuir atrito/dor. Ele não substitui avaliação quando há profundidade, mordida ou sinais de infecção.

Continue em nosso aplicativo e ...
  • Ouça o áudio com a tela desligada
  • Ganhe Certificado após a conclusão
  • + de 5000 cursos para você explorar!
ou continue lendo abaixo...
Download App

Baixar o aplicativo

Materiais úteis

  • Gaze estéril ou limpa (camada de contato)
  • Compressa absorvente (segunda camada, se houver secreção/sangue)
  • Atadura/rolinho e fita (para fixar)
  • Colar elizabetano/roupinha cirúrgica (para impedir lambedura)

Passo a passo do curativo simples (pele e tronco)

  1. Após irrigar, coloque uma gaze sobre a ferida (sem pomadas).
  2. Adicione camada absorvente se estiver úmido/sangrando.
  3. Fixe sem apertar: a bandagem deve ficar firme o suficiente para não cair, mas sem marcar a pele ou dificultar respiração/movimento.
  4. Verifique circulação se for em membro: dedos/patas não devem ficar frios, inchados ou arroxeados.

Curativo em pata (atenção especial)

Em patas, o curativo costuma escorregar e pode apertar com o inchaço. Se você não tem prática, faça uma proteção simples e procure atendimento.

  • Dica prática: após a gaze, use uma camada acolchoada (ex.: algodão/atadura macia) e finalize com atadura, sem compressão excessiva.
  • Alerta: se a pata inchar, o curativo pode virar um “torniquete”. Se notar dedos frios, inchaço acima do curativo ou dor piorando, remova e refaça mais solto.

Cobrir ou deixar aberto: como decidir

Quando geralmente é melhor cobrir

  • Feridas recentes com risco de sujar (animal vai ao quintal/rua).
  • Abrasões que ficam “raspando” em superfícies.
  • Feridas que o animal insiste em lamber (cobertura + colar).
  • Quando há sangramento leve ou exsudato (umidade).

Quando pode ser melhor deixar aberto (com proteção contra lambedura)

  • Feridas superficiais pequenas em ambiente limpo, após irrigação, sem sangramento ativo.
  • Quando o curativo não para no lugar e fica causando atrito (ex.: algumas áreas do tronco), desde que o animal não lamba e o local fique limpo.

Regra prática: se você não consegue garantir limpeza e impedir lambedura, prefira cobrir temporariamente e usar colar elizabetano.

Como evitar lambedura e automutilação

Lamber pode reabrir a ferida, introduzir bactérias e remover coágulos. Coçar com a pata também piora.

  • Colar elizabetano é a opção mais confiável.
  • Roupinha cirúrgica pode ajudar em tronco, mas não substitui o colar se o animal alcançar a área.
  • Meia/boot improvisado em pata pode proteger por curto período, mas deve ser frouxo e monitorado (umidade e aperto).
  • Unhas: se estiverem muito afiadas e o animal estiver se arranhando, evite manipular demais; priorize o colar e o atendimento.

Reduzindo dor com mínima manipulação

  • Toque mínimo: faça o essencial (irrigar e cobrir) e pare.
  • Evite “testar” a ferida repetidamente para ver se dói ou se “abriu mais”.
  • Não ofereça analgésicos humanos (muitos são tóxicos para cães e principalmente gatos).
  • Frio local com barreira pode ajudar em contusão ao redor (não sobre ferida aberta): compressa fria envolta em pano por 5–10 minutos, se o animal tolerar.

Exemplo: laceração na orelha costuma doer e sangrar. Após irrigar suavemente, cubra com gaze e bandagem leve apenas para proteger no transporte, evitando ficar abrindo para “olhar”.

Sinais de infecção e complicações: o que observar nas horas e dias seguintes

  • Vermelhidão crescente ao redor, calor local e inchaço progressivo.
  • Dor aumentando em vez de melhorar.
  • Secreção amarela/esverdeada, pus, crostas úmidas.
  • Mau cheiro vindo da ferida ou do curativo.
  • Febre, apatia, perda de apetite (sinais gerais).
  • Abscesso: caroço dolorido, pele tensa; em mordidas de gato é comum aparecer 24–72 horas depois.

Critérios para atendimento urgente (não esperar “para ver”)

  • Ferida profunda ou com bordas muito abertas (pode precisar de sutura e limpeza cirúrgica).
  • Mordidas (especialmente de gato) e feridas por briga.
  • Exposição de tecido (gordura amarela, músculo, tendão) ou qualquer estrutura visível.
  • Perfuração (furo) mesmo pequena, principalmente em tórax/abdômen/pescoço.
  • Mau cheiro, pus ou secreção espessa.
  • Dor intensa, animal não deixa tocar, ou piora rápida.
  • Feridas em face/olhos ou próximas a articulações.
  • Corpo estranho preso (espinho grande, anzol, vidro): não puxar; estabilizar e ir ao veterinário.

Erros comuns que pioram feridas

  • Fechar a ferida em casa com cola, fita, grampos ou “pontos improvisados”: pode aprisionar bactéria e formar abscesso.
  • Esfregar com força para “limpar bem”: aumenta trauma e sangramento.
  • Usar produtos irritantes dentro da ferida.
  • Deixar sem proteção quando o animal lambe/coça.
  • Curativo apertado em membros, causando inchaço e dor.

Checklist rápido (para agir em 5–10 minutos)

EtapaO que fazerEvitar
Identificar tipoabrasão, corte/rasgo, perfuração, mordida“achar que é pequeno” só porque o furo é pequeno
Irrigarsoro/água potável em abundância, sem esfregarálcool/água oxigenada/iodo forte dentro da ferida
Protegergaze + bandagem leve ou deixar aberto em ambiente limpocurativo apertado ou que gruda na ferida
Impedir lambeduracolar elizabetano/roupinhaconfiar que “ele não vai mexer”
Decidir urgênciaprofunda, mordida, tecido exposto, pus/mau cheiro, dor intensa = urgenteesperar dias para procurar ajuda

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao encontrar uma ferida por perfuração (um “furo” pequeno) no seu animal, qual conduta imediata é mais adequada até chegar ao veterinário?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Perfurações podem parecer pequenas, mas têm alto risco de infecção profunda e corpo estranho. O ideal é limpar com irrigação superficial, proteger com curativo e procurar atendimento rápido, evitando explorar a ferida ou usar produtos irritantes.

Próximo capitúlo

Primeiros Socorros Veterinários para Tutores: hemorragias e controle de sangramento

Arrow Right Icon
Capa do Ebook gratuito Primeiros Socorros Veterinários para Tutores: o que fazer até chegar ao veterinário
45%

Primeiros Socorros Veterinários para Tutores: o que fazer até chegar ao veterinário

Novo curso

20 páginas

Baixe o app para ganhar Certificação grátis e ouvir os cursos em background, mesmo com a tela desligada.