Primeiros Socorros Veterinários para Tutores: intoxicações e envenenamentos (o que fazer e o que evitar)

Capítulo 14

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

+ Exercício

O que são intoxicações e envenenamentos (e por que o tempo importa)

Intoxicação é quando o animal entra em contato com uma substância nociva (por ingestão, inalação ou contato com pele/olhos) e desenvolve sinais clínicos. “Envenenamento” costuma ser usado quando a substância é um veneno (por exemplo, raticidas), mas na prática o manejo inicial para tutores é semelhante: identificar rápido, interromper a exposição, preservar evidências e buscar orientação veterinária imediata.

Dois fatores mudam completamente a conduta: via de exposição (ingeriu? caiu na pele? respingou no olho? inalou?) e tempo desde a exposição (minutos/horas vs sinais tardios). Algumas toxinas causam sinais em minutos (xilitol, certos pesticidas), outras podem demorar horas a dias (alguns raticidas).

Identificação rápida: sinais e pistas de acesso

Pistas de que houve acesso a uma substância

  • Embalagens roídas, comprimidos faltando, lixo revirado, plantas mastigadas.
  • Cheiro forte no hálito/pelo (produtos de limpeza, solventes).
  • Manchas no focinho/patas, espuma na boca, vômito com cor incomum.
  • Relato de “caiu no chão” (medicamentos), “pegou na bolsa”, “abriu o armário”.

Sinais comuns que exigem ação imediata

  • Vômitos (com ou sem sangue), diarreia.
  • Hipersalivação (baba excessiva), náusea, engasgos.
  • Tremores, agitação, desorientação, fraqueza, apatia.
  • Dificuldade respiratória, respiração ruidosa, cianose (língua/gengiva arroxeadas).
  • Alterações de pupila, lacrimejamento, coceira intensa.
  • Colapso, convulsões.

Observação prática: sinais gastrointestinais isolados podem parecer “indigestão”, mas quando há suspeita de acesso (embalagem, planta, produto), trate como intoxicação até prova em contrário.

Lista prática de tóxicos comuns (para reconhecer rápido)

CategoriaExemplos comunsSinais que podem aparecerRisco típico
Medicamentos humanosParacetamol/acetaminofeno, ibuprofeno, diclofenaco, antidepressivos, ansiolíticos, estimulantes, descongestionantes, vitaminas/ferroVômitos, apatia, tremores, alterações cardíacas, dificuldade respiratória; em gatos, paracetamol pode causar mucosas amarronzadas e falta de arAlto (muitos têm margem de segurança baixa)
AlimentosChocolate/cacau, uvas/uvais passas, xilitol (gomas, doces, pastas “zero”), álcool, cafeínaVômitos/diarreia, agitação, tremores; xilitol pode causar fraqueza súbita e convulsõesAlto (especialmente xilitol e uvas/uvais)
Produtos de limpezaÁgua sanitária, desinfetantes, detergentes concentrados, limpadores alcalinos/ácidos, amôniaBaba, vômitos, dor oral, tosse; queimaduras em boca/pele/olhosVariável, pode ser grave por corrosão
RaticidasAnticoagulantes ("de sangue"), brometalina, colecalciferol (vitamina D), fosfetosSinais podem ser tardios: sangramentos, fraqueza, falta de ar; ou neurológicosMuito alto
PlantasLírios (muito perigosos para gatos), comigo-ninguém-pode, antúrio, copo-de-leite, azaleia, espirradeiraIrritação oral, vômitos; em gatos, lírios podem causar insuficiência renalDe moderado a muito alto
Outros domésticosInseticidas/pulguicidas mal usados, solventes, anticongelante (etilenoglicol)Tremores, salivação, vômitos; anticongelante pode evoluir para falência renalAlto

Importante: a gravidade depende de espécie (cão/gato), peso, dose, formulação (comprimido, líquido, gel), e tempo desde a exposição.

Preservar evidências: o que guardar e como registrar

Quanto melhor a informação, mais rápido o veterinário decide o antídoto ou o tratamento.

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O que preservar

  • Embalagem do produto/medicamento (com concentração, princípio ativo, lote).
  • Rótulo e bula (foto nítida serve).
  • Amostra do que sobrou (um pedaço do chocolate, planta, isca, comprimido).
  • Vômito ou fezes recentes (se possível, em saco/recipiente limpo, bem fechado).

O que anotar (em 30 segundos)

  • Horário provável do acesso e quando começaram os sinais.
  • Quantidade estimada ("meio tablete", "3 comprimidos de 400 mg", "um punhado").
  • Peso aproximado do animal.
  • Se já vomitou/defecou e como está (cor, sangue, espuma).
  • Qualquer medida feita em casa (lavagem, banho, etc.).

O que fazer imediatamente (sem repetir protocolos gerais)

1) Interrompa a exposição

  • Retire o animal do local e impeça novo acesso (feche o cômodo, recolha restos, isole outros pets).
  • Se houver produto no pelo/patas, evite que ele se lamba (use colar elizabetano se tiver; se não, improvise com supervisão constante até lavar).

2) Avalie a via: ingestão vs pele/olhos vs inalação

Use o fluxo de decisão abaixo para escolher a ação mais segura.

Fluxos de decisão (práticos) para tutores

Fluxo A — Suspeita de ingestão

SE o animal ingeriu algo (ou há forte suspeita) ENTÃO: 1) identifique o produto + horário + quantidade → 2) NÃO ofereça comida/leite/óleo → 3) NÃO induza vômito sem orientação → 4) procure orientação veterinária imediata e prepare transporte.

Decisão por tempo e sinais

CenárioO que fazer agoraO que evitar
Ingestão recente (minutos até ~2 horas) e animal está alerta, sem tremores/convulsõesContate o veterinário/serviço de emergência com os dados e siga instruções. Mantenha o animal calmo e em observação contínua. Leve embalagem/amostra.Não induzir vômito por conta própria. Não dar carvão ativado sem dose/orientação. Não “neutralizar” com leite, pão, óleo.
Ingestão recente + já há sinais neurológicos (tremores, desorientação, convulsão) ou rebaixamentoPriorize deslocamento imediato. Se houver vômito espontâneo, mantenha a cabeça lateralizada para reduzir risco de aspiração.Não tentar provocar vômito (alto risco de aspiração). Não colocar nada na boca. Não oferecer água à força.
Sinais tardios (horas a dias) após possível acesso, especialmente com raticidasTrate como urgência: leve para avaliação mesmo que o acesso não seja confirmado. Leve qualquer evidência (isca, foto do produto).Não “esperar melhorar”. Não medicar com analgésicos humanos.

Por que “não induzir vômito” sem orientação? Em substâncias corrosivas (ácidos/álcalis), hidrocarbonetos/solventes, ou quando o animal está sonolento/convulsionando, provocar vômito pode causar queimaduras adicionais ou aspiração para o pulmão, piorando muito o quadro.

Fluxo B — Contato com pele (dermal)

SE caiu produto no pelo/pele → 1) impeça lambedura → 2) remova excesso com papel/toalha (sem esfregar) → 3) lave com água corrente morna e shampoo neutro por vários minutos → 4) se houver irritação intensa, dor, queimadura ou produto desconhecido, vá ao veterinário.

Passo a passo de lavagem segura (pele/pelo)

  • Use luvas se possível (para você não se contaminar).
  • Retire coleira/roupinhas contaminadas.
  • Enxágue com água corrente morna por tempo prolongado; depois aplique shampoo neutro e enxágue bem.
  • Se o produto for oleoso/pegajoso, pode exigir mais de uma ensaboada.
  • Se houver tremores, fraqueza ou dificuldade respiratória durante o banho, interrompa e procure atendimento imediatamente.

O que evitar no contato com pele

  • Não use solventes (álcool, thinner, querosene) para “tirar” o produto.
  • Não esfregue vigorosamente (pode aumentar absorção e irritação).
  • Não use pomadas/cremes “calmantes” sem orientação (podem piorar ou ser lambidos).

Fluxo C — Contato com olhos

SE respingou no olho → 1) lave imediatamente com soro fisiológico ou água corrente em fluxo suave por 10–20 minutos → 2) evite que o animal coce → 3) vá ao veterinário com o rótulo do produto.

Como lavar olhos na prática

  • Mantenha o animal contido com cuidado; se precisar, peça ajuda de outra pessoa.
  • Direcione o fluxo do canto interno para o externo, evitando contaminar o outro olho.
  • Se o animal fechar o olho por dor, continue irrigando suavemente; a rapidez faz diferença.

Fluxo D — Inalação (fumos, sprays, gases)

SE inalou fumaça/spray forte → 1) leve para local ventilado imediatamente → 2) evite esforço/excitação → 3) se houver tosse persistente, chiado, respiração difícil ou gengivas arroxeadas, procure emergência.

O que evitar (lista objetiva de “não faça”)

  • Não induza vômito sem orientação profissional (motivos: risco de aspiração, corrosão, piora clínica).
  • Não ofereça leite, óleo, manteiga, pão, carvão “caseiro”, limão, vinagre para “cortar o veneno”. Isso pode atrasar o tratamento e piorar a absorção.
  • Não dê medicamentos humanos para “segurar vômito/dor” (podem ser o próprio tóxico ou interagir).
  • Não force água com seringa em animal sonolento ou com náusea intensa (risco de aspiração).
  • Não use receitas de internet para antídotos caseiros.

Situações especiais: exemplos práticos de raciocínio rápido

Exemplo 1 — Chocolate

Você encontra embalagem roída e o cão está agitado e babando. Ação: recolha a embalagem (tipo e % cacau), estime quanto faltou, anote horário, contate o veterinário e prepare deslocamento. Evite oferecer comida “para diluir”.

Exemplo 2 — Xilitol (goma/doce/pasta)

Ingestão pode causar queda rápida de glicose. Se houve acesso recente, trate como urgência mesmo que pareça bem. Não espere aparecer tremor/colapso para sair.

Exemplo 3 — Produto de limpeza corrosivo

Se houve lambedura e há dor oral/baba intensa, não provoque vômito. Se respingou no pelo, lave; se respingou no olho, irrigue por 10–20 minutos e vá ao atendimento com o rótulo.

Exemplo 4 — Raticida

Mesmo sem sinais, se você viu o animal com isca na boca ou encontrou isca roída, preserve a embalagem e procure orientação imediata. Alguns raticidas têm sinais tardios: esperar sangramento aparecer é perder tempo.

Checklist rápido para levar junto ao animal

  • Embalagem/rótulo/foto do produto e qualquer amostra.
  • Registro: horário, quantidade estimada, sinais observados.
  • Vômito/fezes em recipiente fechado (se disponível).
  • Informação de peso aproximado e idade (filhote/idoso).

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao suspeitar que o animal ingeriu uma substância tóxica recentemente e ele está alerta, qual é a conduta inicial mais segura até conseguir orientação veterinária?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Na suspeita de ingestão recente com o animal alerta, a prioridade é reunir informações (produto, horário, quantidade), interromper condutas que podem piorar (alimentos e vômito induzido) e obter orientação veterinária imediata, levando evidências do que foi ingerido.

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