Primeiros Socorros Veterinários para Tutores: choque térmico, hipotermia e emergências relacionadas à temperatura

Capítulo 15

Tempo estimado de leitura: 7 minutos

+ Exercício

Emergências relacionadas à temperatura: o que são e por que pioram rápido

Alterações de temperatura corporal podem evoluir em minutos para falência de órgãos. Em geral, o tutor lida com dois cenários: hipertermia/choque térmico (golpe de calor), quando o corpo não consegue dissipar calor, e hipotermia, quando o corpo perde calor mais rápido do que consegue produzir. Cães e gatos têm capacidade limitada de resfriamento (principalmente por ofegância) e podem descompensar rapidamente em ambientes quentes, úmidos, sem ventilação, durante exercício, em carros fechados ou após exposição ao sol. Já a hipotermia ocorre com frio, chuva, vento, imersão em água fria, pós-banho, anestesia recente, filhotes/idosos, animais muito magros ou doentes.

Quando suspeitar de choque térmico (hipertermia/golpe de calor)

  • Ofegância intensa (respiração muito rápida, língua muito para fora, dificuldade para “recuperar”)
  • Mucosas muito vermelhas (gengivas e língua avermelhadas; em fases tardias podem ficar pálidas/arroxeadas)
  • Salivação espessa, vômitos e/ou diarreia
  • Fraqueza, desorientação, andar cambaleante
  • Colapso, prostração, convulsões
  • Corpo muito quente ao toque (especialmente cabeça, orelhas, axilas/virilha)

Atenção: choque térmico é emergência imediata. Mesmo que o animal “melhore” com resfriamento, pode haver lesão interna (coagulação alterada, rim, intestino, cérebro). O objetivo do tutor é iniciar resfriamento seguro e ir ao atendimento.

Quando suspeitar de hipotermia

  • Tremores (podem desaparecer em hipotermia grave)
  • Letargia, sonolência, fraqueza
  • Extremidades frias (orelhas, patas, cauda), pele fria
  • Respiração mais lenta e pulso fraco (em casos graves)
  • Rigidez, confusão, colapso

Hipotermia também é emergência, especialmente se houver molhamento, vento, filhote/idoso, ou se o animal estiver muito apático.

Medidas imediatas seguras no choque térmico (resfriamento gradual)

Objetivo prático

Reduzir a temperatura corporal de forma controlada, melhorando a dissipação de calor sem causar vasoconstrição intensa (que atrapalha a perda de calor) ou choque por resfriamento abrupto.

Passo a passo (em casa, na rua ou antes de sair para a clínica)

  1. Interrompa a exposição ao calor: leve para sombra/ambiente ventilado e fresco imediatamente.
  2. Ventilação ativa: use ventilador, vento do carro (ar ligado) ou abane com uma toalha/cartão. A ventilação potencializa a evaporação.
  3. Umedeça com água fresca (não gelada): aplique água em pequenas quantidades no corpo, priorizando pescoço, axilas, virilha e barriga. Pode ser com pano molhado, borrifador ou garrafa.
  4. Compressas úmidas: use toalhas molhadas em água fresca nas áreas de maior fluxo sanguíneo (axilas/virilha/pescoço). Troque quando aquecerem.
  5. Evite cobrir o animal inteiro com toalha molhada por muito tempo: isso pode “abafar” e reduzir evaporação. Prefira molhar e ventilar.
  6. Ofereça água em pequenos goles se o animal estiver consciente e conseguindo engolir. Não force e não dê grandes volumes de uma vez.
  7. Prepare saída imediata para atendimento: mantenha ventilação durante o transporte (ar condicionado ligado, janelas com fluxo de ar, sem deixar o animal no porta-malas fechado).

Onde colocar compressas (e onde não colocar)

  • Locais adequados: virilha, axilas, pescoço, barriga (áreas com vasos mais superficiais).
  • Evite: focar apenas em patas/orelhas como única medida (pode ser insuficiente), e evite gelo direto na pele.

O que evitar no choque térmico (erros comuns)

  • Banho gelado súbito ou imersão em água muito fria: pode causar vasoconstrição e piorar a dissipação de calor; também aumenta risco de aspiração se o animal estiver fraco.
  • Gelo direto prolongado (sacos de gelo encostados na pele): pode causar queimadura por frio e vasoconstrição.
  • “Enrolar” o animal em toalhas molhadas sem ventilação: reduz evaporação.
  • Forçar água na boca: risco de aspiração.
  • Demorar para sair esperando “normalizar” totalmente em casa.

Quando interromper o resfriamento e partir para atendimento imediato

Em choque térmico, a regra é: resfriar enquanto se organiza para ir ao veterinário. Interrompa o resfriamento ativo (compressas/água) e mantenha apenas ventilação leve quando:

Continue em nosso aplicativo e ...
  • Ouça o áudio com a tela desligada
  • Ganhe Certificado após a conclusão
  • + de 5000 cursos para você explorar!
ou continue lendo abaixo...
Download App

Baixar o aplicativo

  • O animal estiver mais alerta e a ofegância reduzir claramente, ou
  • Você perceber que ele começou a tremer ou ficar “frio” nas extremidades (sinal de resfriamento excessivo), ou
  • Não houver melhora em poucos minutos, ou houver piora.

Vá imediatamente (sem tentar “terminar” o resfriamento em casa) se houver: colapso, vômitos repetidos, diarreia intensa, sangue em vômito/fezes, convulsões, mucosas muito pálidas/arroxeadas, dificuldade respiratória importante, ou se o animal for braquicefálico (pug, bulldog, shih tzu, persa) com esforço respiratório.

Medidas imediatas seguras na hipotermia (aquecimento progressivo)

Objetivo prático

Elevar a temperatura corporal aos poucos, reduzindo perda de calor e evitando aquecimento agressivo que pode causar instabilidade circulatória, queimaduras e piora do quadro.

Passo a passo

  1. Retire do frio e do vento: leve para local seco, protegido e aquecido.
  2. Se estiver molhado, seque com toalhas (umidade acelera perda de calor).
  3. Aqueça progressivamente com mantas/toalhas secas. Priorize o tronco (peito, abdômen, dorso) antes de extremidades.
  4. Fonte de calor morna e segura (opcional): bolsa de água morna envolta em toalha, manta térmica em baixa temperatura, ou garrafa morna envolta. Coloque ao lado do tronco, nunca em contato direto com a pele.
  5. Ambiente aquecido: aumente a temperatura do cômodo ou use aquecedor mantendo distância segura.
  6. Se consciente, ofereça água em pequenos goles. Evite alimentos se houver náusea, fraqueza extrema ou risco de engasgo.
  7. Transporte aquecido: caixa/cama com cobertores, evitando superaquecimento.

O que evitar na hipotermia (erros comuns)

  • Secador muito quente direto na pele: risco alto de queimaduras e superaquecimento localizado. Se usar, mantenha morno, distante e em movimento constante, por pouco tempo, e prefira toalhas/mantas.
  • Aquecimento agressivo (água quente, aquecedor encostado, bolsa muito quente): pode causar queimaduras e instabilidade.
  • Massagear vigorosamente extremidades frias: pode piorar dor/lesão e não é prioridade.

Quando parar as medidas caseiras e buscar atendimento imediato

Procure atendimento sem demora se houver:

  • Letargia intensa, não responde bem, não consegue ficar em pé
  • Tremores que cessam e o animal fica muito apático (pode indicar piora)
  • Respiração lenta, pulso fraco, mucosas pálidas
  • Filhote, idoso ou animal com doença prévia
  • Hipotermia após imersão (caiu em piscina/rios/mar) ou exposição prolongada

Checklist rápido: temperatura e segurança em 60 segundos

SituaçãoSinais comunsO que fazer agoraO que NÃO fazer
Choque térmicoOfegância intensa, mucosas vermelhas, vômitos, fraqueza/colapsoSombra + ventilação + água fresca/ compressas em virilha/axilas/pescoço + ir ao vetBanho gelado súbito, gelo direto prolongado, cobrir com toalha molhada sem ventilação, atrasar atendimento
HipotermiaTremores, letargia, extremidades frias, respiração lenta (grave)Secar + mantas + calor morno indireto no tronco + ambiente aquecido + ir ao vet se moderada/graveSecador quente, água quente, bolsa quente direto na pele, aquecer agressivamente

Exemplos práticos (situações comuns)

1) Cão ofegante após passeio em dia quente

Leve para sombra, ofereça água em pequenos goles, molhe barriga/virilha e ventile. Se houver vômito, desorientação ou colapso, inicie resfriamento e saia imediatamente para atendimento.

2) Gato preso em ambiente muito quente e sem ventilação

Coloque em local fresco e silencioso, ventile, umedeça levemente com água fresca (pano úmido em axilas/virilha/barriga). Gatos podem estressar com manipulação; faça o mínimo eficaz e transporte rapidamente.

3) Animal pequeno molhado após chuva/frio

Seque bem, envolva em manta seca, aqueça o tronco com fonte morna indireta e mantenha em ambiente aquecido. Se estiver muito apático ou com respiração lenta, vá ao atendimento.

Notas importantes para tutores

  • Braquicefálicos (focinho curto) e animais obesos têm maior risco de choque térmico; seja mais conservador e procure atendimento cedo.
  • Umidade alta reduz a eficiência da ofegância; ventilação e ambiente fresco fazem grande diferença.
  • Mesmo com melhora aparente após um episódio de calor intenso, ainda pode haver complicações internas; avaliação veterinária é recomendada.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao prestar primeiros socorros a um cão com suspeita de choque térmico, qual conduta é mais adequada para resfriar de forma segura antes de ir ao atendimento veterinário?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

No choque térmico, o resfriamento deve ser gradual e eficaz: sombra + ventilação + água fresca/ compressas em áreas como axilas e virilha. Banho gelado, gelo direto e cobrir sem ventilação podem causar vasoconstrição, reduzir a evaporação e piorar o quadro.

Próximo capitúlo

Primeiros Socorros Veterinários para Tutores: emergências gastrointestinais e abdominais (vômitos, diarreia e distensão)

Arrow Right Icon
Capa do Ebook gratuito Primeiros Socorros Veterinários para Tutores: o que fazer até chegar ao veterinário
75%

Primeiros Socorros Veterinários para Tutores: o que fazer até chegar ao veterinário

Novo curso

20 páginas

Baixe o app para ganhar Certificação grátis e ouvir os cursos em background, mesmo com a tela desligada.