Primeiros Socorros Veterinários para Tutores: hemorragias e controle de sangramento

Capítulo 10

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

+ Exercício

O que é hemorragia e por que o controle rápido importa

Hemorragia é a perda de sangue para fora dos vasos sanguíneos. Em casa, o objetivo do tutor não é “tratar a causa”, e sim reduzir a perda de sangue e ganhar tempo até o atendimento veterinário. Sangramentos podem parecer pequenos, mas alguns locais (unha, boca, orelha) sangram muito e assustam; outros (arteriais) podem levar a perda rápida de volume e risco de choque.

Classificação do sangramento: como reconhecer pelo aspecto

Sangramento capilar

  • Como é: “babado”/exsudação superficial, sangue escorre lentamente ou apenas umedece a pele/pelo.
  • Cor: vermelho vivo a vermelho médio.
  • Risco típico: geralmente menor, mas pode ser persistente em áreas muito vascularizadas ou em animais com distúrbio de coagulação.
  • Exemplo: arranhões, escoriações, pequenas abrasões.

Sangramento venoso

  • Como é: fluxo contínuo, sem jatos; pode “correr” de forma constante.
  • Cor: vermelho escuro (mais “vinho”).
  • Risco típico: moderado a alto, dependendo do calibre do vaso e do local; pode causar perda importante se não controlado.
  • Exemplo: cortes mais profundos em membros, cauda, orelha.

Sangramento arterial

  • Como é: jatos/pulsos sincronizados com o batimento; pode “espirrar” ou pulsar.
  • Cor: vermelho bem vivo.
  • Risco típico: alto e rápido; é uma emergência crítica.
  • Exemplo: ferimento profundo com jato pulsátil, amputação parcial, laceração grave.

Técnicas principais de controle de sangramento

1) Compressão direta (primeira escolha na maioria dos casos)

A compressão direta funciona porque aproxima os tecidos e reduz o fluxo no vaso, permitindo a formação do coágulo.

Passo a passo

  1. Use um material limpo e absorvente (gaze, pano limpo, fralda/absorvente). Se possível, use luvas.
  2. Coloque o material diretamente sobre o ponto que sangra. Se houver pelo atrapalhando e você conseguir ver o foco, melhor; se não, comprima a área mais provável do sangramento.
  3. Pressione firme e continuamente com a palma da mão. Evite “espiar” a cada poucos segundos: isso desfaz o coágulo.
  4. Mantenha por 5 a 10 minutos sem interromper. Em sangramentos mais importantes, mantenha por 10 a 15 minutos.
  5. Se encharcar, não retire a primeira gaze. Coloque outra por cima e continue pressionando (reforço de camadas).

Erros comuns: retirar a gaze inicial para “ver como está”, trocar o curativo repetidamente, pressionar de forma fraca ou intermitente.

2) Curativo compressivo (quando você precisa liberar as mãos)

O curativo compressivo mantém pressão constante no local, útil para membros e cauda. Ele deve ser firme o suficiente para controlar o sangramento, mas não tão apertado a ponto de cortar a circulação.

Passo a passo

  1. Camada de contato: coloque gaze/pano limpo sobre o sangramento (não remova se já estiver no lugar).
  2. Camada de pressão: adicione mais gazes dobradas ou um rolo de gaze para criar “volume” que pressione.
  3. Fixação: enfaixe com atadura/crepe ou faixa elástica, sobrepondo voltas. Em patas, envolva do distal para o proximal (da ponta para cima) para reduzir inchaço.
  4. Cheque circulação abaixo do curativo a cada 5–10 minutos: a pata deve permanecer morna, com cor razoável e sem dor intensa por compressão. Se ficar fria, muito pálida/arroxeada ou o animal reagir com dor forte, afrouxe.

Reforço sem remover: se o sangue atravessar, adicione mais camadas por cima e reforce a faixa. Remover a camada inicial costuma reiniciar o sangramento.

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3) Elevação do membro (quando é apropriado)

Elevar um membro sangrando acima do nível do coração pode reduzir a pressão hidrostática e ajudar a compressão direta/curativo a funcionar melhor.

  • Quando usar: sangramento em pata/perna, sem suspeita forte de fratura instável exposta ou dor extrema ao mover.
  • Como fazer: com o animal deitado, sustente o membro suavemente elevado enquanto mantém a compressão/curativo.
  • Evite: forçar posicionamento em caso de deformidade evidente, crepitação, dor intensa ou suspeita de fratura grave.

Torniquete: quando considerar e como usar com segurança

Torniquete é uma medida extrema e temporária para sangramento grave em membro quando a compressão direta e o curativo compressivo não controlam (especialmente em sangramento arterial com jato/pulsátil) ou quando há amputação parcial/trauma com perda sanguínea rápida.

Quando NÃO usar

  • Em sangramentos que controlam com compressão direta/curativo.
  • Em tronco, pescoço, cabeça ou cauda (não é indicado como torniquete clássico).
  • Como “prevenção” antes de tentar compressão.

Como aplicar (passo a passo)

  1. Local: acima do ferimento (mais próximo do corpo), no mesmo membro, sobre uma região com mais “massa” (evite articulações).
  2. Material: faixa larga (atadura, faixa de tecido dobrada). Evite cordas finas/fio, que lesionam mais.
  3. Aperto: aperte até o sangramento reduzir drasticamente/parar. Em arterial grave, precisa ser bem firme.
  4. Marque o horário: anote o horário exato de aplicação e informe à clínica. Se possível, escreva em um papel preso ao animal/caixa de transporte ou no próprio curativo com caneta.
  5. Transporte imediato: torniquete não é solução definitiva; é ponte até o veterinário.

Observação importante: o torniquete pode causar dano tecidual se mantido por muito tempo. Por isso, só use quando realmente necessário e com deslocamento imediato para atendimento.

Orientações específicas por local de sangramento

Unha quebrada (principalmente esporão)

Unhas têm uma região vascularizada (“sabugo/quick”) que sangra bastante quando exposta. O sangramento pode parecer desproporcional ao tamanho da lesão.

O que fazer

  1. Compressão direta na ponta do dedo com gaze por 5–10 minutos.
  2. Curativo em “botinha”: envolva o dedo/pata com gaze e depois atadura, firme o suficiente para manter pressão, sem cortar circulação.
  3. Evite mexer na unha quebrada (puxar/arrancar) em casa; pode aumentar a dor e o sangramento.
  4. Se o curativo encharcar: reforce camadas por cima, sem retirar a primeira.

Quando preocupar mais: sangramento que não reduz após 10–15 minutos de compressão, unha parcialmente pendurada com dor intensa, ou animal lambendo/arrancando o curativo repetidamente.

Boca (língua, gengiva, lábio)

A boca sangra muito por ser altamente vascularizada, e o sangue se mistura com saliva, parecendo “mais” do que é. Ainda assim, cortes de língua e lacerações podem ser importantes.

O que fazer

  1. Se for seguro, faça compressão com gaze diretamente no ponto que sangra (lábio/gengiva/língua), mantendo por alguns minutos.
  2. Use gaze enrolada para facilitar a pegada e reduzir risco de mordida acidental.
  3. Evite colocar a mão profundamente na boca se o animal estiver dolorido/agitado.
  4. Se houver sangramento intenso ou dificuldade para respirar/engolir sangue, priorize deslocamento imediato.

Não faça: “tamponar” a garganta, usar pós/colas caseiras, ou tentar suturar.

Orelha (pavilhão auricular)

Feridas na orelha costumam sangrar muito e reabrir com o sacudir da cabeça. O controle depende de compressão e imobilização relativa da orelha.

O que fazer

  1. Compressão direta com gaze no ponto de sangramento.
  2. Curativo compressivo envolvendo a orelha: dobre a orelha suavemente contra a cabeça (sem torcer) e enfaixe ao redor da cabeça para manter pressão. Deixe espaço para respiração e não cubra completamente as narinas.
  3. Reforce sem remover se atravessar sangue.

Atenção: curativos na cabeça podem escorregar; verifique se não está apertando olhos/pescoço e se o animal está respirando confortavelmente.

Sinais de choque por perda sanguínea: o que observar enquanto controla o sangramento

Choque hemorrágico acontece quando a perda de sangue reduz a perfusão dos órgãos. Reconhecer cedo ajuda a acelerar a decisão de ir imediatamente ao veterinário.

  • Gengivas pálidas (ou muito claras) e/ou tempo de preenchimento capilar prolongado (gengiva demora a “voltar a cor” após pressionar).
  • Fraqueza, prostração, desmaio ou dificuldade para ficar em pé.
  • Respiração rápida e/ou ofegante sem esforço físico.
  • Batimentos acelerados (taquicardia) e pulso fraco.
  • Extremidades frias (orelhas/patas frias), tremores.
  • Alteração de consciência: confusão, olhar “vazio”, pouca resposta.

Conduta prática enquanto aguarda/transporte: mantenha o animal aquecido (sem superaquecer), minimize movimentação, mantenha compressão/curativo funcionando e siga para atendimento com urgência, informando que há suspeita de perda sanguínea importante.

Checklist rápido: controle de sangramento em 60 segundos

  • Identifique o tipo: capilar (exsuda), venoso (fluxo contínuo), arterial (jato/pulsátil).
  • Faça compressão direta firme e contínua por 5–10 min.
  • Não remova a primeira gaze; reforce camadas por cima.
  • Transforme em curativo compressivo se precisar liberar as mãos.
  • Eleve o membro se for apropriado e não piorar dor/lesão.
  • Considere torniquete apenas em sangramento grave de membro que não controla; marque o horário e transporte imediatamente.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao fazer compressão direta para controlar um sangramento em um animal, qual conduta ajuda a manter o coágulo e reduzir a perda de sangue?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A pressão firme e contínua favorece a formação do coágulo. Retirar a primeira gaze para “espiar” tende a desfazer o coágulo; se encharcar, o correto é reforçar com novas camadas por cima e manter a compressão.

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