Primeiros Socorros Veterinários para Tutores: fraturas, luxações e lesões musculoesqueléticas

Capítulo 11

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

+ Exercício

O que são fraturas, luxações e lesões musculoesqueléticas

Fratura é a quebra parcial ou total de um osso. Pode ser fechada (sem ferida na pele) ou exposta (quando há ferida e o osso pode estar visível ou contaminado). Luxação é quando um osso “sai do lugar” na articulação (ex.: ombro, cotovelo, quadril, joelho), geralmente com dor intensa e incapacidade de apoiar. Entorses e lesões musculares envolvem ligamentos, tendões e músculos (estiramentos, rupturas parciais), podendo causar claudicação (mancar), dor e inchaço.

Em primeiros socorros, o objetivo é suspeitar corretamente, evitar piora (mais dor, sangramento interno, lesão de nervos/vasos) e imobilizar de forma provisória quando isso for possível e seguro, sem tentar “colocar no lugar”.

Como suspeitar: sinais que sugerem fratura ou luxação

Sinais comuns (principalmente em fratura/luxação)

  • Dor aguda: vocalização, tentativa de morder ao tocar, respiração ofegante por dor, tremores.
  • Impotência funcional: não apoia a pata, arrasta o membro, evita movimentar.
  • Deformidade: ângulo anormal, “torto”, encurtamento aparente do membro, assimetria.
  • Inchaço rápido e calor local.
  • Crepitação: sensação/ruído de “areia” ou atrito ao movimentar (não provoque isso; se perceber ao mínimo toque, pare).
  • Mobilidade anormal: dobra onde não deveria dobrar (não teste).

Quando pensar mais em entorse/lesão muscular

  • Mancar, mas ainda consegue apoiar parcialmente.
  • Dor ao esticar/contrair, sem deformidade evidente.
  • Inchaço moderado, mais localizado em articulação ou massa muscular.

Alertas de gravidade (priorize atendimento imediato)

  • Fratura exposta (ferida com osso visível ou suspeita de comunicação com o osso).
  • Perda de sensibilidade na extremidade (não reage ao toque leve).
  • Pata fria, muito pálida/arroxeada ou inchaço que aumenta rapidamente.
  • Dor incontrolável, agitação extrema ou prostração.

O que NÃO fazer

  • Não “encaixe” o osso e não tente reduzir luxação (colocar a articulação no lugar). Isso pode romper vasos, nervos e piorar a fratura.
  • Não force movimentação para “ver se está quebrado”.
  • Não aperte demais bandagens/talas: pode cortar a circulação.
  • Não dê medicamentos humanos para dor/inflamação.

Restrição de movimento: a medida mais importante

Antes mesmo de pensar em tala, foque em reduzir movimento. Quanto menos o membro se mexer, menor a chance de agravar a lesão.

  • Cães pequenos e gatos: contenha em caixa de transporte firme, com toalhas enroladas para limitar rotação do corpo.
  • Cães médios/grandes: mantenha em espaço pequeno, com guia curta; evite escadas, sofá e pulos.
  • Evite que o animal se debata: ambiente silencioso, pouca manipulação, luz baixa se necessário.

Imobilização provisória: quando vale a pena e quando evitar

Quando considerar uma tala improvisada

  • Suspeita de fratura/luxação em membro com deformidade ou dor intensa, e você precisa transportar até a clínica.
  • O animal permite manipulação mínima sem luta intensa.

Quando pode ser melhor NÃO talar (apenas restringir e transportar)

  • O animal está muito agressivo por dor e a manipulação vai causar risco de mordida ou piora.
  • Lesões próximas ao ombro ou quadril: talas caseiras frequentemente não estabilizam bem essas regiões e podem aumentar dor. Nesses casos, priorize restrição de movimento e transporte cuidadoso.
  • ferida extensa com sangramento importante ou suspeita de fratura exposta: cubra a ferida com gaze/pano limpo sem pressionar o osso e transporte; talar pode contaminar mais e causar dor intensa.

Materiais domésticos úteis para uma tala improvisada

Escolha materiais rígidos e leves. Exemplos:

  • Rígidos (estrutura): régua grande, revista grossa bem enrolada, pedaço de papelão firme, colher de pau, cabo de vassoura cortado (para cães maiores), talas prontas se houver.
  • Acolchoamento: toalha, pano macio, algodão, fralda, meia grossa, gaze (se tiver).
  • Fixação: atadura, faixa de tecido, fita crepe larga, fita adesiva (com cuidado para não colar nos pelos), esparadrapo (se tiver).
  • Proteção de ferida (se houver): gaze/pano limpo levemente umedecido com soro/água limpa para cobrir, sem “empurrar” nada para dentro.

Passo a passo: como fazer uma tala provisória sem piorar a circulação

1) Prepare o ambiente e o material

  • Deixe tudo ao alcance antes de tocar no animal.
  • Se possível, peça ajuda de outra pessoa para segurar o corpo com firmeza e suavidade.
  • Mantenha o membro na posição em que foi encontrado, sem tentar alinhar.

2) Observe rapidamente a circulação antes de imobilizar

  • Compare com o outro membro: temperatura, cor das almofadinhas (coxins) e presença de inchaço.
  • Se conseguir sem causar dor excessiva, pressione levemente a unha/coxins e veja se a cor volta em 1–2 segundos (sinal indireto de perfusão). Se não conseguir avaliar, siga com acolchoamento e fixação sem apertar.

3) Acolchoe primeiro (sempre)

  • Envolva o membro com uma camada macia (toalha fina, pano, algodão ou gaze), principalmente sobre proeminências ósseas (punho/carpal, tornozelo/tarso, cotovelo, joelho).
  • O acolchoamento evita feridas por pressão e ajuda a distribuir a força da bandagem.

4) Posicione a tala rígida

  • Coloque o material rígido ao lado do membro, sem empurrar contra a área mais dolorida.
  • Regra prática: a tala deve reduzir movimento das articulações próximas à lesão. Em geral, tente abranger a articulação acima e abaixo quando possível, sem forçar alinhamento.
  • Se não souber onde está a fratura, trate como se fosse na região mais dolorida e estabilize o máximo que der sem causar sofrimento.

5) Fixe com voltas firmes, porém não apertadas

  • Comece a fixação distal para proximal (da ponta da pata em direção ao corpo) com atadura/faixa, sobre o acolchoamento e a tala.
  • Faça voltas sobrepostas, mantendo a tala no lugar.
  • Não cubra totalmente os dedos se possível: deixar parte visível ajuda a monitorar inchaço e cor.
  • Evite nós volumosos pressionando a pele; prefira fita/amarração lateral.

6) Reavalie a circulação após talar (checagem obrigatória)

  • Verifique se os dedos/coxins estão quentes e com cor semelhante ao outro membro.
  • Observe se há inchaço aumentando nos dedos ou se ficaram arroxeados/pálidos.
  • Se a pata ficar fria, muito inchada, roxa, ou o animal demonstrar dor pior imediatamente após a tala, afrouxe a fixação e refaça com menos tensão.

7) Se houver ferida próxima

  • Cubra com gaze/pano limpo antes do acolchoamento.
  • Não tente “limpar profundamente” nem remover fragmentos.
  • Se houver sangramento leve, uma cobertura protetora é suficiente; se sangrar mais, a prioridade é controlar o sangramento conforme orientação específica para hemorragias (sem apertar diretamente sobre osso exposto).

Imobilização alternativa: tipoia (membro anterior) e contenção do membro posterior

Tipoia simples para membro anterior (quando a tala não é viável)

Uma tipoia pode reduzir movimento do ombro/cotovelo em alguns casos, mas não substitui avaliação veterinária.

Continue em nosso aplicativo e ...
  • Ouça o áudio com a tela desligada
  • Ganhe Certificado após a conclusão
  • + de 5000 cursos para você explorar!
ou continue lendo abaixo...
Download App

Baixar o aplicativo

  • Use um pano largo (lenço, toalha pequena).
  • Passe por baixo do antebraço, sustentando a pata junto ao tórax.
  • Amarre as pontas nas costas, sem apertar o pescoço.
  • Monitore respiração e conforto; se o animal ficar mais agitado, remova e apenas restrinja movimento.

Membro posterior

Tipoias são menos eficazes. Em muitos casos, é melhor restringir movimento e transportar com cuidado. Se conseguir talar sem luta e sem dor excessiva, siga o passo a passo da tala acolchoada.

Como transportar com suspeita de fratura/luxação no membro

  • Carregue mantendo o corpo alinhado e evitando que o membro lesionado balance.
  • Para animais pequenos: use caixa de transporte com toalhas enroladas como “calços” para limitar rolamento.
  • Para cães maiores: use uma superfície firme improvisada (tábua, porta leve, tapete rígido) como maca, se necessário, para reduzir deslocamentos.
  • Evite escadas e mudanças bruscas de direção; faça movimentos lentos.
  • Se o animal tentar apoiar a pata, mantenha-o em guia curta e, se possível, carregue.

Exemplos práticos (situações comuns)

Exemplo 1: cão mancando após salto do sofá, sem deformidade

  • Suspeita: entorse/lesão muscular.
  • Conduta: restringir atividade (sem correr/pular), manter em local pequeno, evitar manipular a articulação, e procurar avaliação. Se houver piora rápida, dor intensa ou incapacidade total de apoiar, trate como fratura e restrinja/transportar.

Exemplo 2: gato com pata “torta” após queda, dor intensa

  • Suspeita: fratura/luxação.
  • Conduta: contenção mínima, caixa de transporte; se tolerado, tala acolchoada com régua/papelão e faixa, sem alinhar. Reavaliar circulação após fixação.

Exemplo 3: ferida com suspeita de osso exposto

  • Suspeita: fratura exposta.
  • Conduta: cobrir com gaze/pano limpo (sem pressionar o osso), restringir movimento e transportar imediatamente. Evitar talas complexas se isso aumentar manipulação e dor.

Checklist rápido: imobilização segura

ItemVerificação
Não reduzir/encaixarO membro ficou na posição encontrada
AcolchoamentoHá camada macia entre pele e tala
FixaçãoFirme, sem estrangular; dedos preferencialmente visíveis
CirculaçãoPata quente, cor adequada, sem inchaço progressivo nos dedos
RestriçãoAnimal contido para não correr/pular
TransporteMovimentos lentos, membro estabilizado, mínimo balanço

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao suspeitar de fratura ou luxação em um membro, qual conduta de primeiros socorros é a mais adequada até chegar ao veterinário?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O foco é evitar piora: não tentar encaixar nem testar mobilidade. Deve-se restringir movimento, manter a posição encontrada e, quando possível e seguro, imobilizar com acolchoamento e fixação sem comprometer a circulação, seguindo para atendimento.

Próximo capitúlo

Primeiros Socorros Veterinários para Tutores: quedas, atropelamentos e traumas internos suspeitos

Arrow Right Icon
Capa do Ebook gratuito Primeiros Socorros Veterinários para Tutores: o que fazer até chegar ao veterinário
55%

Primeiros Socorros Veterinários para Tutores: o que fazer até chegar ao veterinário

Novo curso

20 páginas

Baixe o app para ganhar Certificação grátis e ouvir os cursos em background, mesmo com a tela desligada.