O que são fraturas, luxações e lesões musculoesqueléticas
Fratura é a quebra parcial ou total de um osso. Pode ser fechada (sem ferida na pele) ou exposta (quando há ferida e o osso pode estar visível ou contaminado). Luxação é quando um osso “sai do lugar” na articulação (ex.: ombro, cotovelo, quadril, joelho), geralmente com dor intensa e incapacidade de apoiar. Entorses e lesões musculares envolvem ligamentos, tendões e músculos (estiramentos, rupturas parciais), podendo causar claudicação (mancar), dor e inchaço.
Em primeiros socorros, o objetivo é suspeitar corretamente, evitar piora (mais dor, sangramento interno, lesão de nervos/vasos) e imobilizar de forma provisória quando isso for possível e seguro, sem tentar “colocar no lugar”.
Como suspeitar: sinais que sugerem fratura ou luxação
Sinais comuns (principalmente em fratura/luxação)
- Dor aguda: vocalização, tentativa de morder ao tocar, respiração ofegante por dor, tremores.
- Impotência funcional: não apoia a pata, arrasta o membro, evita movimentar.
- Deformidade: ângulo anormal, “torto”, encurtamento aparente do membro, assimetria.
- Inchaço rápido e calor local.
- Crepitação: sensação/ruído de “areia” ou atrito ao movimentar (não provoque isso; se perceber ao mínimo toque, pare).
- Mobilidade anormal: dobra onde não deveria dobrar (não teste).
Quando pensar mais em entorse/lesão muscular
- Mancar, mas ainda consegue apoiar parcialmente.
- Dor ao esticar/contrair, sem deformidade evidente.
- Inchaço moderado, mais localizado em articulação ou massa muscular.
Alertas de gravidade (priorize atendimento imediato)
- Fratura exposta (ferida com osso visível ou suspeita de comunicação com o osso).
- Perda de sensibilidade na extremidade (não reage ao toque leve).
- Pata fria, muito pálida/arroxeada ou inchaço que aumenta rapidamente.
- Dor incontrolável, agitação extrema ou prostração.
O que NÃO fazer
- Não “encaixe” o osso e não tente reduzir luxação (colocar a articulação no lugar). Isso pode romper vasos, nervos e piorar a fratura.
- Não force movimentação para “ver se está quebrado”.
- Não aperte demais bandagens/talas: pode cortar a circulação.
- Não dê medicamentos humanos para dor/inflamação.
Restrição de movimento: a medida mais importante
Antes mesmo de pensar em tala, foque em reduzir movimento. Quanto menos o membro se mexer, menor a chance de agravar a lesão.
- Cães pequenos e gatos: contenha em caixa de transporte firme, com toalhas enroladas para limitar rotação do corpo.
- Cães médios/grandes: mantenha em espaço pequeno, com guia curta; evite escadas, sofá e pulos.
- Evite que o animal se debata: ambiente silencioso, pouca manipulação, luz baixa se necessário.
Imobilização provisória: quando vale a pena e quando evitar
Quando considerar uma tala improvisada
- Suspeita de fratura/luxação em membro com deformidade ou dor intensa, e você precisa transportar até a clínica.
- O animal permite manipulação mínima sem luta intensa.
Quando pode ser melhor NÃO talar (apenas restringir e transportar)
- O animal está muito agressivo por dor e a manipulação vai causar risco de mordida ou piora.
- Lesões próximas ao ombro ou quadril: talas caseiras frequentemente não estabilizam bem essas regiões e podem aumentar dor. Nesses casos, priorize restrição de movimento e transporte cuidadoso.
- Há ferida extensa com sangramento importante ou suspeita de fratura exposta: cubra a ferida com gaze/pano limpo sem pressionar o osso e transporte; talar pode contaminar mais e causar dor intensa.
Materiais domésticos úteis para uma tala improvisada
Escolha materiais rígidos e leves. Exemplos:
- Rígidos (estrutura): régua grande, revista grossa bem enrolada, pedaço de papelão firme, colher de pau, cabo de vassoura cortado (para cães maiores), talas prontas se houver.
- Acolchoamento: toalha, pano macio, algodão, fralda, meia grossa, gaze (se tiver).
- Fixação: atadura, faixa de tecido, fita crepe larga, fita adesiva (com cuidado para não colar nos pelos), esparadrapo (se tiver).
- Proteção de ferida (se houver): gaze/pano limpo levemente umedecido com soro/água limpa para cobrir, sem “empurrar” nada para dentro.
Passo a passo: como fazer uma tala provisória sem piorar a circulação
1) Prepare o ambiente e o material
- Deixe tudo ao alcance antes de tocar no animal.
- Se possível, peça ajuda de outra pessoa para segurar o corpo com firmeza e suavidade.
- Mantenha o membro na posição em que foi encontrado, sem tentar alinhar.
2) Observe rapidamente a circulação antes de imobilizar
- Compare com o outro membro: temperatura, cor das almofadinhas (coxins) e presença de inchaço.
- Se conseguir sem causar dor excessiva, pressione levemente a unha/coxins e veja se a cor volta em 1–2 segundos (sinal indireto de perfusão). Se não conseguir avaliar, siga com acolchoamento e fixação sem apertar.
3) Acolchoe primeiro (sempre)
- Envolva o membro com uma camada macia (toalha fina, pano, algodão ou gaze), principalmente sobre proeminências ósseas (punho/carpal, tornozelo/tarso, cotovelo, joelho).
- O acolchoamento evita feridas por pressão e ajuda a distribuir a força da bandagem.
4) Posicione a tala rígida
- Coloque o material rígido ao lado do membro, sem empurrar contra a área mais dolorida.
- Regra prática: a tala deve reduzir movimento das articulações próximas à lesão. Em geral, tente abranger a articulação acima e abaixo quando possível, sem forçar alinhamento.
- Se não souber onde está a fratura, trate como se fosse na região mais dolorida e estabilize o máximo que der sem causar sofrimento.
5) Fixe com voltas firmes, porém não apertadas
- Comece a fixação distal para proximal (da ponta da pata em direção ao corpo) com atadura/faixa, sobre o acolchoamento e a tala.
- Faça voltas sobrepostas, mantendo a tala no lugar.
- Não cubra totalmente os dedos se possível: deixar parte visível ajuda a monitorar inchaço e cor.
- Evite nós volumosos pressionando a pele; prefira fita/amarração lateral.
6) Reavalie a circulação após talar (checagem obrigatória)
- Verifique se os dedos/coxins estão quentes e com cor semelhante ao outro membro.
- Observe se há inchaço aumentando nos dedos ou se ficaram arroxeados/pálidos.
- Se a pata ficar fria, muito inchada, roxa, ou o animal demonstrar dor pior imediatamente após a tala, afrouxe a fixação e refaça com menos tensão.
7) Se houver ferida próxima
- Cubra com gaze/pano limpo antes do acolchoamento.
- Não tente “limpar profundamente” nem remover fragmentos.
- Se houver sangramento leve, uma cobertura protetora é suficiente; se sangrar mais, a prioridade é controlar o sangramento conforme orientação específica para hemorragias (sem apertar diretamente sobre osso exposto).
Imobilização alternativa: tipoia (membro anterior) e contenção do membro posterior
Tipoia simples para membro anterior (quando a tala não é viável)
Uma tipoia pode reduzir movimento do ombro/cotovelo em alguns casos, mas não substitui avaliação veterinária.
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- Use um pano largo (lenço, toalha pequena).
- Passe por baixo do antebraço, sustentando a pata junto ao tórax.
- Amarre as pontas nas costas, sem apertar o pescoço.
- Monitore respiração e conforto; se o animal ficar mais agitado, remova e apenas restrinja movimento.
Membro posterior
Tipoias são menos eficazes. Em muitos casos, é melhor restringir movimento e transportar com cuidado. Se conseguir talar sem luta e sem dor excessiva, siga o passo a passo da tala acolchoada.
Como transportar com suspeita de fratura/luxação no membro
- Carregue mantendo o corpo alinhado e evitando que o membro lesionado balance.
- Para animais pequenos: use caixa de transporte com toalhas enroladas como “calços” para limitar rolamento.
- Para cães maiores: use uma superfície firme improvisada (tábua, porta leve, tapete rígido) como maca, se necessário, para reduzir deslocamentos.
- Evite escadas e mudanças bruscas de direção; faça movimentos lentos.
- Se o animal tentar apoiar a pata, mantenha-o em guia curta e, se possível, carregue.
Exemplos práticos (situações comuns)
Exemplo 1: cão mancando após salto do sofá, sem deformidade
- Suspeita: entorse/lesão muscular.
- Conduta: restringir atividade (sem correr/pular), manter em local pequeno, evitar manipular a articulação, e procurar avaliação. Se houver piora rápida, dor intensa ou incapacidade total de apoiar, trate como fratura e restrinja/transportar.
Exemplo 2: gato com pata “torta” após queda, dor intensa
- Suspeita: fratura/luxação.
- Conduta: contenção mínima, caixa de transporte; se tolerado, tala acolchoada com régua/papelão e faixa, sem alinhar. Reavaliar circulação após fixação.
Exemplo 3: ferida com suspeita de osso exposto
- Suspeita: fratura exposta.
- Conduta: cobrir com gaze/pano limpo (sem pressionar o osso), restringir movimento e transportar imediatamente. Evitar talas complexas se isso aumentar manipulação e dor.
Checklist rápido: imobilização segura
| Item | Verificação |
|---|---|
| Não reduzir/encaixar | O membro ficou na posição encontrada |
| Acolchoamento | Há camada macia entre pele e tala |
| Fixação | Firme, sem estrangular; dedos preferencialmente visíveis |
| Circulação | Pata quente, cor adequada, sem inchaço progressivo nos dedos |
| Restrição | Animal contido para não correr/pular |
| Transporte | Movimentos lentos, membro estabilizado, mínimo balanço |