Primeiros Socorros Veterinários para Tutores: emergências em filhotes, idosos e animais com doenças crônicas

Capítulo 18

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

Por que filhotes, idosos e animais crônicos “descompensam” mais rápido

Nesses grupos, pequenas alterações (pular uma refeição, um dia mais quente, um estresse, uma infecção leve) podem virar emergência em pouco tempo. Filhotes têm pouca reserva de glicose e se desidratam rapidamente; idosos costumam ter menor “margem” cardiovascular e renal; e animais com doenças crônicas podem entrar em crise quando a rotina de medicação, dieta e hidratação é interrompida. O objetivo do tutor nos primeiros socorros é reconhecer sinais de gravidade mais cedo, evitar pioras previsíveis e transportar com adaptações específicas.

Como adaptar sua triagem para grupos vulneráveis (sem repetir a triagem geral)

  • Seja mais “sensível” aos sinais: em filhotes e idosos, sinais discretos (fraqueza, apatia, respiração mais rápida) podem significar problema importante.
  • Observe tendência, não só um momento: piora progressiva em minutos/horas é mais preocupante do que um sintoma isolado que não evolui.
  • Priorize temperatura, hidratação e esforço respiratório: nesses grupos, alterações nesses três pontos costumam preceder colapso.
  • Considere a doença de base: o “normal” do seu animal pode ser diferente (ex.: um cardiopata pode cansar com pouco esforço). Tenha anotado o que o veterinário considera “alerta” para o seu caso.

Emergências comuns e o que fazer até chegar ao veterinário

1) Hipoglicemia em filhotes (e também em diabéticos com excesso de insulina)

Conceito: hipoglicemia é queda perigosa da glicose no sangue. Em filhotes (especialmente de raças pequenas), pode acontecer por jejum, frio, parasitas, diarreia/vômito, estresse ou doença. Em diabéticos, pode ocorrer por dose excessiva de insulina, refeição atrasada, exercício incomum ou vômitos.

Sinais de alerta (tendem a piorar rápido): fraqueza, tremores, desorientação, andar cambaleante, sonolência incomum, olhar “perdido”, vocalização diferente, convulsão, desmaio.

Passo a passo prático (filhote ou diabético consciente e capaz de engolir)

  • 1) Aqueça e reduza estresse: mantenha em local morno e calmo; o frio piora a hipoglicemia.
  • 2) Ofereça fonte de açúcar de ação rápida (somente se estiver consciente e engolindo bem): uma pequena quantidade de mel, glicose em gel ou xarope de milho aplicada na boca.
  • 3) Como aplicar com segurança: coloque uma pequena porção no dedo e passe na gengiva/bochecha por dentro, em camada fina. Evite “despejar” líquido na boca.
  • 4) Reavalie em 5–10 minutos: se melhorar, ofereça uma refeição leve adequada (ração do filhote ou a refeição do diabético, conforme orientação do veterinário) e siga para avaliação veterinária.
  • 5) Se não melhorar rapidamente ou se os sinais forem graves, vá imediatamente ao veterinário.

Se estiver inconsciente, convulsionando ou não conseguindo engolir: não ofereça alimentos ou líquidos. Você pode apenas passar uma camada mínima de mel/glicose na gengiva (sem forçar abertura da boca) e transportar com urgência.

O que informar ao veterinário: idade/peso, tempo desde a última refeição, episódios de vômito/diarreia, temperatura ambiente, e (em diabéticos) dose e horário da última insulina e última refeição.

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2) Desidratação rápida (filhotes, idosos e doentes crônicos)

Conceito: perda de água e eletrólitos pode ocorrer por vômitos, diarreia, febre, calor, pouca ingestão, doença renal, diabetes e algumas medicações. Filhotes e idosos têm menos reserva e podem entrar em choque mais cedo.

Sinais de alerta: gengivas secas/pegajosas, saliva espessa, olhos “fundos”, apatia, urina muito reduzida, vômitos/diarreia persistentes, respiração mais rápida, fraqueza ao levantar.

Passo a passo prático (quando o animal está alerta e sem vômitos frequentes)

  • 1) Ofereça pequenas quantidades de água com frequência (goles pequenos a cada poucos minutos).
  • 2) Prefira solução de reidratação oral se recomendada pelo veterinário para o seu animal; em alguns casos pode ajudar a repor eletrólitos.
  • 3) Se houver vômitos: pare de oferecer grandes volumes; tente microgoles. Se vomitar repetidamente, trate como urgência e transporte.
  • 4) Mantenha aquecido e em repouso: esforço e calor aumentam perdas.

Não force água em animal prostrado, com alteração neurológica ou com risco de aspiração. Em renais/cardiopatas, excesso de líquidos pode ser perigoso: siga o plano previamente definido pelo veterinário.

3) Crises respiratórias em braquicefálicos (pug, bulldog, shih tzu, persa etc.)

Conceito: braquicefálicos têm vias aéreas mais estreitas e podem entrar em sofrimento respiratório com calor, excitação, exercício, dor, estresse ou obstruções. O esforço para respirar pode piorar rapidamente e levar a colapso.

Sinais de gravidade: respiração muito ruidosa e difícil, pescoço estendido para tentar puxar ar, língua/gengivas arroxeadas ou muito pálidas, salivação intensa, incapacidade de deitar sem piorar, colapso.

Passo a passo prático

  • 1) Interrompa atividade e reduza estímulos: silêncio, pouca manipulação, sem “forçar” a caminhar.
  • 2) Ambiente fresco e ventilado: ar condicionado/ventilador (sem jato direto forte no rosto se isso aumentar o estresse).
  • 3) Posição: mantenha o animal com o pescoço em posição neutra ou levemente estendido, sem dobrar o pescoço.
  • 4) Evite focinheira e coleiras apertadas: prefira peitoral para transporte, sem compressão do pescoço.
  • 5) Transporte imediato se houver esforço respiratório moderado a grave, coloração alterada de mucosas, desmaio, ou piora rápida.

Erros comuns: tentar “acalmar” com banho quente, oferecer água à força durante crise, ou insistir em caminhada para “pegar ar”.

4) Insuficiência cardíaca (suspeita de edema pulmonar) e colapsos em cardiopatas

Conceito: em alguns cardiopatas, o coração não consegue bombear adequadamente e pode haver acúmulo de líquido nos pulmões (edema), causando falta de ar. Estresse e esforço pioram.

Sinais de alerta: respiração rápida em repouso, dificuldade para respirar, tosse (especialmente à noite), postura sentada com pescoço estendido, intolerância ao exercício, desmaio, gengivas pálidas/arroxeadas.

Passo a passo prático

  • 1) Repouso absoluto: carregue, não faça o animal andar.
  • 2) Posição confortável: muitos respiram melhor com o peito elevado (posição esternal).
  • 3) Minimize manipulação: evite deitar de lado se isso piorar a respiração.
  • 4) Medicações “de resgate”: só administre se houver prescrição prévia e orientação clara do veterinário (dose e quando usar). Não improvise diuréticos.
  • 5) Transporte urgente: dificuldade respiratória em cardiopata é emergência.

Atenção com líquidos: não ofereça grandes volumes “para hidratar” um cardiopata em crise; isso pode agravar edema.

5) Insuficiência renal e crises urêmicas (especialmente em idosos)

Conceito: rins doentes têm dificuldade de eliminar toxinas e manter equilíbrio de água e eletrólitos. Desidratação, infecções, vômitos/diarreia, uso de anti-inflamatórios e mudanças de dieta podem precipitar piora.

Sinais de alerta: vômitos repetidos, apatia intensa, hálito com odor forte/amoniacal, falta de apetite, tremores, desorientação, redução importante de urina ou esforço para urinar, desidratação.

Passo a passo prático

  • 1) Suspenda riscos conhecidos: não administre anti-inflamatórios por conta própria; evite “remédios caseiros”.
  • 2) Se estiver alerta: ofereça água em pequenos goles; não force.
  • 3) Preserve amostras: se possível, leve informação sobre urina (frequência/volume) e episódios de vômito.
  • 4) Transporte prioritário se houver vômitos persistentes, prostração, sinais neurológicos, ou pouca urina.

Animais renais podem ter restrições específicas de fluidos e dieta: siga o plano definido pelo veterinário.

6) Diabetes: hipoglicemia x hiperglicemia (cetoacidose) — como diferenciar na prática

Conceito: no diabetes, duas emergências opostas podem ocorrer. Hipoglicemia (glicose baixa) costuma ser mais imediata e pode causar convulsão/coma. Hiperglicemia grave/cetoacidose (glicose alta com desidratação e acidez) evolui em horas a dias e é muito séria.

QuadroMais comum apósSinais típicosConduta do tutor
HipoglicemiaInsulina + pouca comida, atraso na refeição, vômitos, exercícioTremores, fraqueza, desorientação, convulsão, desmaioSe consciente: açúcar na gengiva e ir ao vet. Se inconsciente: açúcar na gengiva sem forçar e transporte urgente
Hiperglicemia/cetoacidoseFalta de insulina, infecção, estresse, doença associadaMuita sede/urina, vômitos, apatia, respiração diferente, desidratação, hálito alteradoNão “corrigir” com insulina extra sem orientação. Transporte urgente

Regra de segurança: se você não tem certeza do que está acontecendo, não aplique dose extra de insulina. Priorize transporte e informe horários/doses.

7) Epilepsia e crises em animais com histórico (sem repetir o capítulo de convulsões)

Conceito: animais epilépticos podem ter crises isoladas ou em “cluster” (várias em sequência) e status epilepticus (crise prolongada), que exigem ação rápida. O diferencial aqui é ter um plano pré-combinado com medicação de resgate e critérios claros de ida imediata.

Sinais de maior gravidade em epilépticos: crise longa, repetição em curto período, recuperação muito lenta, temperatura corporal subindo, dificuldade respiratória após a crise, ou mudança do padrão habitual.

Passo a passo prático (foco no plano do animal crônico)

  • 1) Cronometre o início e fim da crise (isso muda a conduta do veterinário).
  • 2) Use medicação de resgate somente se já prescrita e se os critérios do seu plano forem atingidos (ex.: crise acima de X minutos ou segunda crise no mesmo dia).
  • 3) Controle de temperatura: após a crise, mantenha ambiente fresco; hipertermia pode ocorrer.
  • 4) Transporte se houver repetição, crise prolongada, ou recuperação incomum.

Transporte e manuseio: adaptações por grupo

Filhotes

  • Evite hipotermia: use manta e bolsa de água morna bem envolta (nunca em contato direto com a pele).
  • Transporte em caixa com toalhas para reduzir impacto e estresse.
  • Leve alimento habitual e informação de horários de refeição (útil em suspeita de hipoglicemia).

Idosos

  • Movimente com cuidado: podem ter dor articular e fragilidade; use suporte sob tórax e quadris.
  • Evite longas esperas em pé: priorize repouso durante deslocamento.
  • Leve lista de medicações e comorbidades (coração, rim, fígado, endocrinopatias).

Braquicefálicos

  • Ambiente fresco e mínimo estresse durante todo o trajeto.
  • Peitoral, não coleira; pescoço livre.
  • Posição esternal e cabeça alinhada; evite apertar o tórax.

Cardíacos/renais/diabéticos/epilépticos

  • Leve o “dossiê” do plano (impresso ou no celular): diagnósticos, doses, horários, última administração, restrições.
  • Evite improvisos: não altere dose por conta própria; não ofereça grandes volumes de água sem orientação em cardiopatas/renais.
  • Priorize rapidez com estabilidade: menos manipulação, mais informação objetiva para a equipe.

Sinais que são “mais graves” nesses grupos (atalhos de decisão)

  • Filhotes: fraqueza súbita, tremores, desorientação, temperatura baixa, diarreia/vômito com apatia, recusa total de alimento, choro incomum com prostração.
  • Idosos: desmaio, respiração rápida em repouso, incapacidade de levantar, confusão súbita, pouca urina, vômitos persistentes.
  • Braquicefálicos: esforço respiratório, língua/gengivas arroxeadas, colapso, piora com manipulação.
  • Cardíacos: falta de ar, tosse com cansaço, respiração acelerada em repouso, desmaio.
  • Renais: vômitos repetidos, apatia intensa, hálito muito alterado, pouca urina, desidratação.
  • Diabéticos: sinais neurológicos (suspeita de hipoglicemia), vômitos + apatia + desidratação (suspeita de cetoacidose).
  • Epilépticos: crise prolongada, crises em sequência, recuperação muito lenta, mudança do padrão.

Como montar um “plano de emergência” individual (para deixar pronto antes da crise)

1) Cartão de emergência (impresso e no celular)

Crie um cartão simples com:

  • Identificação: nome do animal, espécie/raça, idade, peso atualizado.
  • Diagnósticos: ex.: diabetes, insuficiência renal, cardiopatia, epilepsia, síndrome braquicefálica.
  • Alergias e restrições: medicamentos proibidos, restrição hídrica, dieta específica.
  • Medicações: nome, dose, via, horários; destaque medicação de resgate (quando usar e dose).
  • Últimos dados úteis: glicemia alvo (se o vet fornecer), frequência respiratória de repouso habitual (cardíacos), creatinina/estágio renal (se informado).

2) Contatos e rotas

  • Clínica principal: telefone, endereço, horário.
  • Plantão 24h: telefone, endereço, rota mais rápida.
  • Transporte: quem dirige, alternativa (vizinho/táxi pet), caixa de transporte acessível.

3) Protocolos “se acontecer X, eu faço Y” (definidos com o veterinário)

Peça ao veterinário para escrever orientações objetivas. Exemplos de itens para personalizar:

  • Diabetes: o que fazer se não comer; quando medir glicose; quando usar mel; quando ir direto ao plantão.
  • Epilepsia: critérios para medicação de resgate (tempo de crise, número de crises), e quando é emergência imediata.
  • Cardiopatia: sinais de edema pulmonar; se existe diurético de resgate e em quais situações; restrição de água/sódio.
  • Doença renal: como lidar com vômitos; limites de ingestão; medicações que não podem ser usadas.
  • Braquicefálicos: plano para dias quentes, limites de exercício, quando interromper passeio e ir ao vet.
  • Filhotes: rotina de alimentação (intervalos), prevenção de frio, e o que fazer se houver apatia/recusa alimentar.

4) Checklists rápidos para deixar na geladeira

CHECKLIST – SUSPEITA DE HIPOGLICEMIA (FILHOTE/DIABÉTICO) 1) Está consciente e engole? 2) Aplicar pequena camada de mel/glicose na gengiva 3) Reavaliar em 5–10 min 4) Oferecer refeição se melhorar 5) Ir ao veterinário e informar dose/horários (se diabético) CHECKLIST – CRISE RESPIRATÓRIA (BRAQUICEFÁLICO/CARDÍACO) 1) Repouso e mínimo estresse 2) Ambiente fresco 3) Pescoço livre, posição esternal 4) Não oferecer água à força 5) Transporte urgente CHECKLIST – DESIDRATAÇÃO RÁPIDA 1) Pequenos goles se alerta 2) Se vômitos repetidos: urgência 3) Não forçar líquidos em prostrado 4) Transporte e informe perdas (vômito/diarreia/urina)

5) Revisão periódica do plano

Atualize peso, doses e contatos a cada consulta ou mudança de medicação. Em doenças crônicas, pequenas alterações de dose são comuns; um plano desatualizado pode ser tão perigoso quanto não ter plano.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao suspeitar de hipoglicemia em um filhote ou em um diabético que está consciente e consegue engolir, qual conduta inicial é a mais adequada até chegar ao veterinário?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Se o animal estiver consciente e engolindo, a orientação é aquecer, reduzir estresse e oferecer açúcar de ação rápida em pequena quantidade na gengiva/bochecha, sem risco de aspiração. Depois, reavaliar em 5–10 min e seguir para atendimento veterinário.

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