Primeiros Socorros Veterinários para Tutores: o que NÃO fazer (erros frequentes que pioram o quadro)

Capítulo 19

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

+ Exercício

O que “NÃO fazer” em primeiros socorros veterinários

Em emergências, muitos erros acontecem por impulso: tentar “resolver em casa”, usar receitas populares ou aplicar técnicas sem treinamento. O risco é piorar dor, sangramento, intoxicação, lesões internas, infecções e até causar aspiração (entrada de líquido/alimento nas vias aéreas). A regra prática deste capítulo é: evite intervenções invasivas e medicamentos sem orientação; foque em proteger, conter, manter o animal estável e chegar ao veterinário.

Lista comentada de condutas perigosas (e a alternativa segura)

1) Administrar analgésicos/anti-inflamatórios humanos

Por que é arriscado: muitos medicamentos de uso humano são tóxicos para cães e, principalmente, para gatos. Podem causar úlceras e hemorragia gastrointestinal, insuficiência renal, lesão hepática, alterações neurológicas e mascarar sinais importantes para o diagnóstico. Além disso, a dose “por peso” não é simples e varia por espécie, idade e doenças pré-existentes.

Erros comuns: dar “meio comprimido” de analgésico, repetir dose por achar que “não fez efeito”, combinar dois anti-inflamatórios, usar sobras de receita antiga.

Alternativa segura até chegar ao veterinário:

  • Não medique por conta própria. Se houver dor, mantenha o animal em repouso, em ambiente calmo e com pouca luz/ruído.
  • Restrinja movimentos (principalmente em suspeita de trauma) e evite manipular a área dolorida.
  • Use medidas físicas seguras quando aplicável: compressa fria externa por poucos minutos em contusões superficiais (sem pressionar feridas abertas), sempre observando desconforto.
  • Se já tomou algo: anote nome do medicamento, dose, horário e leve a embalagem ao atendimento.

2) Dar leite/óleo/limão para “cortar veneno”

Por que é arriscado: essas substâncias não neutralizam toxinas e podem piorar a absorção de alguns venenos (especialmente os lipossolúveis). Leite e óleo podem desencadear vômitos/diarreia e aumentar risco de aspiração. Limão e outras soluções ácidas podem irritar mucosas e agravar queimaduras químicas em boca e esôfago.

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Alternativa segura até chegar ao veterinário:

  • Não ofereça “antídotos caseiros”.
  • Remova o acesso à substância e, se houver resíduo na boca/pelos, faça limpeza externa cuidadosa (sem forçar ingestão de água).
  • Guarde amostra/embalagem do possível tóxico e registre horário e quantidade estimada.
  • Procure orientação imediata com clínica/plantão para conduta específica (há casos em que induzir vômito é contraindicado).

3) Forçar água (ou comida) em animal com risco de aspiração

Por que é arriscado: animais com vômitos, engasgos recentes, convulsão, rebaixamento de consciência, fraqueza intensa ou dificuldade respiratória podem aspirar líquidos/alimentos para os pulmões, causando pneumonia aspirativa e piora rápida da respiração.

Quando o risco é maior: animal sonolento, cambaleante, com língua arroxeada/pálida, respirando com esforço, tossindo após tentar beber, ou que não consegue engolir normalmente.

Alternativa segura até chegar ao veterinário (passo a passo):

  1. Não ofereça nada por via oral se houver qualquer dúvida sobre deglutição/consciência.
  2. Mantenha a cabeça e o pescoço em posição neutra (sem hiperextensão) e o animal em repouso.
  3. Se estiver consciente e pedindo água, ofereça apenas pequenos goles em recipiente baixo, sem seringa e sem inclinar a cabeça para trás.
  4. Se tossir/engasgar, interrompa imediatamente e priorize deslocamento ao atendimento.

4) Tentar costurar feridas em casa

Por que é arriscado: fechar uma ferida sem avaliação pode aprisionar sujeira e bactérias, formar abscesso, necrose e dificultar drenagem. Feridas podem ter lesões profundas (tendões, vasos, nervos) e sangramentos que parecem controlados mas voltam. Além disso, material inadequado e falta de assepsia aumentam infecção.

Alternativa segura até chegar ao veterinário:

  • Não feche a ferida.
  • Proteja com curativo limpo: compressa/gaze estéril ou pano limpo, fixando sem apertar demais.
  • Controle sangramento com pressão direta (sem “pontos” improvisados).
  • Evite pomadas aleatórias e pós cicatrizantes que dificultam limpeza profissional.

5) Tentar reduzir fraturas ou “colocar no lugar” luxações

Por que é arriscado: manipular ossos e articulações sem imagem e sem analgesia pode causar dor extrema, romper vasos/nervos, transformar fratura fechada em aberta, agravar hemorragia e aumentar dano a tecidos. Em luxações, pode haver fratura associada; “encaixar” à força piora.

Alternativa segura até chegar ao veterinário:

  • Não tente alinhar.
  • Imobilize como está com suporte externo macio e estável (sem apertar a ponto de cortar circulação).
  • Restrinja movimento e transporte com cuidado, evitando que o membro “balance”.
  • Observe sinais de circulação distal (pata fria, muito inchada, roxa/pálida) e afrouxe bandagens se necessário.

6) Usar álcool, água oxigenada ou produtos “fortes” em profundidade

Por que é arriscado: álcool e água oxigenada podem lesar tecido saudável, atrasar cicatrização, aumentar dor e irritação. Em cavidades profundas, podem empurrar sujeira para dentro, formar bolhas de gás no tecido e dificultar avaliação. Alguns antissépticos concentrados também queimam e pioram a lesão.

Alternativa segura até chegar ao veterinário (passo a passo):

  1. Se for uma ferida superficial, prefira lavagem suave com soro fisiológico ou água corrente limpa, sem jato forte.
  2. Se for profunda/perfurante, não “cave” nem irrigue com pressão; apenas cubra com material limpo e controle sangramento.
  3. Não aplique álcool/água oxigenada diretamente no leito da ferida.
  4. Se houver suspeita de queimadura química, a conduta muda (lavagem prolongada pode ser necessária), então priorize orientação imediata da clínica.

7) Atrasar o atendimento “esperando melhorar”

Por que é arriscado: algumas emergências têm janela curta: hemorragias internas, obstruções, torções, intoxicações, choque, dificuldades respiratórias e traumas podem piorar de forma silenciosa. O animal pode “parecer calmo” por dor intensa, medo ou queda de pressão, o que engana o tutor.

Sinais em que esperar costuma piorar: respiração difícil/ruidosa, gengivas pálidas/azuladas, fraqueza súbita, desmaio, abdômen distendido e dolorido, sangramento que não cessa, vômitos repetidos, convulsões, suspeita de ingestão de tóxico, trauma (queda/atropelamento), dor intensa que impede de andar.

Alternativa segura até chegar ao veterinário:

  • Decida por atendimento imediato quando houver sinais de gravidade, mesmo que “passe e volte”.
  • Registre horários (início dos sinais, episódios de vômito/convulsão, medicações dadas) para informar com precisão.
  • Prepare transporte e documentos (carteira de vacinação, lista de doenças/medicações) sem atrasar a saída.

8) Manipular excessivamente após atropelamento ou queda (ou “fazer o animal andar para ver se está bem”)

Por que é arriscado: após trauma, pode haver lesão de coluna, fraturas instáveis, hemorragia interna e contusão pulmonar. Fazer o animal levantar, apertar o abdômen “para testar”, virar repetidas vezes ou carregar sem suporte pode agravar sangramentos, piorar dor e causar dano neurológico.

Alternativa segura até chegar ao veterinário (passo a passo):

  1. Evite testes (não peça para andar, não “apalpe para procurar fratura” de forma vigorosa).
  2. Minimize movimentos: mantenha o corpo alinhado e faça transferências com apoio rígido (tábua/maca improvisada) quando possível.
  3. Controle sangramentos visíveis com pressão direta e proteja feridas com curativo limpo.
  4. Mantenha aquecido com manta leve (sem superaquecer) e reduza estímulos.
  5. Transporte imediatamente para avaliação, mesmo que pareça “só assustado”.

Checklist rápido: antes de agir, pergunte-se

  • Isso pode intoxicar, queimar ou irritar? (medicamentos humanos, álcool, água oxigenada, receitas caseiras)
  • Isso pode entrar no pulmão? (forçar água/comida, dar líquidos com seringa)
  • Isso pode piorar uma lesão interna/óssea? (manipular trauma, “encaixar” fratura/luxação, fazer andar)
  • Estou fechando algo que deveria drenar/ser avaliado? (costurar ferida, colar pele)
  • Estou perdendo tempo valioso? (esperar “para ver se melhora”)

Como comunicar o erro (se ele aconteceu) sem perder tempo

Se alguma conduta perigosa já foi feita, isso não deve atrasar a ida ao veterinário. Leve informações objetivas para reduzir riscos:

O que informarExemplo do que anotar
Medicamento/produto usadoNome comercial e princípio ativo (se souber), concentração
Quantidade e horário“1/2 comprimido às 14:30”, “2 colheres de óleo às 15:10”
Via de administraçãoOral, pele, olho, ferida
Reação observadaVômito, salivação, sonolência, tremores, tosse após beber
Suspeita de causaPlanta, produto de limpeza, alimento, atropelamento

Importante: leve embalagens, rótulos, fotos do produto e, quando seguro, amostra do que foi ingerido (em recipiente fechado). Isso ajuda a equipe a escolher o tratamento correto.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em uma suspeita de intoxicação em cão ou gato, qual conduta é mais segura até conseguir atendimento veterinário?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Leite/óleo/limão não neutralizam toxinas e podem piorar a absorção, causar vômitos e aumentar o risco de aspiração. O mais seguro é impedir nova exposição, registrar informações, levar embalagem/amostra e buscar orientação imediata para a conduta correta.

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