O que são emergências gastrointestinais e abdominais
Vômitos, diarreia e distensão abdominal são sinais comuns em cães e gatos, mas variam de quadros leves (autolimitados) a situações de urgência que podem evoluir rapidamente. O objetivo do tutor nos primeiros socorros é: reconhecer sinais de alerta, evitar medidas que pioram o quadro (especialmente medicações caseiras), manter o animal seguro e reunir informações úteis para o veterinário.
Quadro leve x sinais de urgência: como diferenciar
Use a combinação de frequência, aparência do conteúdo, estado geral e sinais associados. Um episódio isolado em um animal ativo pode ser observado por curto período com orientação veterinária. Já sinais repetidos, sangue, dor e distensão exigem atendimento rápido.
| Situação mais compatível com quadro leve (ainda assim requer atenção) | Sinais de urgência (procure atendimento imediato) |
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Como reconhecer desidratação em casa (avaliação prática)
A desidratação piora rapidamente com vômitos e diarreia. Você pode fazer uma triagem simples para relatar ao veterinário (não substitui exame clínico).
- Gengivas: devem estar úmidas e “escorregadias”. Se estiverem pegajosas/secas, é sinal de desidratação.
- Tempo de preenchimento capilar (TPC): pressione suavemente a gengiva até ficar pálida e solte. O normal é voltar ao rosa em até ~2 segundos. Se demorar mais, é sinal de alerta (pode indicar desidratação ou problemas circulatórios).
- Teste da pele (turgor): puxe delicadamente a pele da nuca (cães) ou lateral do tórax (gatos) e solte. Ela deve voltar rapidamente. Se “demorar” para voltar, sugere desidratação (em animais idosos pode ser menos confiável).
- Urina: pouca urina, urina muito escura ou ausência de micção são sinais importantes para relatar.
Vômitos: o que observar e quando suspeitar de algo grave
O que observar no vômito (para relatar)
- Frequência e horário: quantas vezes vomitou e em quanto tempo.
- Relação com comida/água: vomita logo após comer? após beber?
- Aspecto: alimento não digerido, espuma, bile amarela, presença de pelos (gatos), odor muito forte.
- Sangue: vermelho vivo ou escuro (tipo “borra de café”).
- Corpos estranhos: pedaços de brinquedo, tecido, plástico, linha, osso, plantas.
Risco de corpo estranho: sinais que aumentam a suspeita
Corpos estranhos podem causar obstrução intestinal e perfuração. Em gatos, fios/linhas são especialmente perigosos (podem “serrar” o intestino).
- Vômitos persistentes, principalmente após comer ou beber
- Falta de apetite, apatia
- Dor abdominal, postura encolhida
- Diarreia pode ou não ocorrer; às vezes há constipação
- Histórico de mastigar/engolir objetos (brinquedos, meias, ossos, lixo)
- Alerta específico: se houver linha/fio saindo pela boca ou ânus, não puxe. Isso pode causar lesões graves. Procure atendimento imediatamente.
Tentativa de vomitar sem sucesso: por que é um sinal crítico
Arcadas/ânsia repetidas sem sair conteúdo, com salivação, inquietação e desconforto, podem indicar distensão gástrica importante e, em cães, risco de dilatação e torção gástrica (GDV). Essa condição é uma emergência cirúrgica.
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Diarreia: o que observar e sinais de gravidade
O que observar nas fezes (para relatar)
- Frequência: quantas evacuações e em quanto tempo.
- Volume e urgência: grande volume (mais “intestino delgado”) x pequenas quantidades com urgência e muco (mais “intestino grosso”).
- Presença de sangue: vermelho vivo, coágulos, ou fezes negras (melena).
- Muco, vermes visíveis ou odor muito diferente do habitual.
- Acidentes em casa e esforço para evacuar.
Quando a diarreia tende a ser mais perigosa
- Com vômitos associados (perda de líquidos maior)
- Com sangue, fraqueza, febre, dor abdominal
- Em filhotes (risco rápido de desidratação e hipoglicemia)
- Após acesso a lixo, alimentos gordurosos, ossos, plantas, água de poças
- Após mudança abrupta de ração ou ingestão de algo suspeito
Distensão abdominal: quando pensar em torção gástrica (principalmente em cães)
O que é e por que é tão urgente
A distensão pode ser por gases, líquido, aumento de órgãos ou obstrução. Em cães, especialmente de porte grande/peito profundo, a dilatação e torção gástrica ocorre quando o estômago dilata e pode girar, comprometendo circulação e causando choque rapidamente.
Sinais típicos que exigem atendimento imediato
- Abdômen visivelmente aumentado e tenso
- Inquietação, andar sem parar, incapacidade de se acomodar
- Arcadas sem vomitar (ou sai pouca espuma)
- Salivação intensa
- Respiração ofegante, fraqueza, gengivas pálidas
Conduta do tutor: não tente “aliviar gases”, não ofereça comida/água, não massageie o abdômen. Vá imediatamente ao veterinário.
Por que evitar medicar em casa
Medicações humanas e “receitas” caseiras podem mascarar sinais, atrasar o diagnóstico e causar intoxicação. Além disso, em casos de obstrução, torção ou perfuração, alguns remédios pioram o risco de complicações.
- Anti-inflamatórios e analgésicos humanos podem causar úlceras, sangramentos e lesão renal em cães e gatos.
- Antieméticos/antidiarreicos sem avaliação podem reter toxinas, dificultar a identificação de corpo estranho ou atrasar cirurgia.
- Antibióticos sem indicação podem piorar diarreia e não tratam a causa real.
- Carvão ativado só deve ser usado quando indicado para intoxicações específicas e com orientação (não é “cura” para vômito/diarreia em geral).
Se o veterinário prescrever algo por telefone/teleorientação, siga exatamente dose e intervalo. Caso contrário, foque em observação e suporte seguro.
Condutas seguras até a consulta (passo a passo)
1) Defina o nível de urgência
- Se houver qualquer sinal de urgência (vômitos repetidos, sangue, desidratação, dor abdominal, arcadas sem vômito, abdômen distendido, apatia intensa): não espere para “ver se melhora”.
- Se for um quadro leve e o animal estiver bem disposto: entre em contato com a clínica para orientação de observação e alimentação/jejum.
2) Jejum e água: o que é seguro
Jejum não é regra universal e deve ser orientado pelo veterinário, especialmente em filhotes, diabéticos e animais debilitados. Ainda assim, há medidas geralmente seguras enquanto você busca orientação:
- Se está vomitando repetidamente: não ofereça comida. Água pode piorar o vômito; aguarde orientação. Se o veterinário permitir, ofereça pequenas quantidades (ex.: 1–2 colheres de chá para gatos e cães pequenos; 1–2 colheres de sopa para cães médios/grandes) a cada 10–15 minutos, observando se mantém.
- Se há diarreia sem vômito e o animal está bem: água costuma ser permitida em pequenas quantidades frequentes. Evite grandes volumes de uma vez.
- Nunca force água com seringa em animal nauseado ou prostrado (risco de aspiração).
3) Controle do ambiente e conforto
- Mantenha o animal em local calmo, com fácil acesso a um lugar para evacuar.
- Evite exercícios, brincadeiras e estresse.
- Se houver dor abdominal, manipule o mínimo possível.
4) O que guardar/registrar para ajudar o veterinário
- Horário do início dos sinais e evolução (melhora/piora).
- Número de episódios de vômito/diarreia.
- Fotos do vômito/fezes (se possível) e descrição do aspecto (sangue, muco, cor).
- Ingestões suspeitas nas últimas 24–72h: lixo, ossos, brinquedos, plantas, alimentos gordurosos, mudança de ração, acesso a rua.
- Hidratação: gengivas úmidas ou secas, TPC aproximado, urina (quantidade/cor).
- Comportamento: apatia, inquietação, postura de dor, tremores, salivação.
- Abdômen: aumentou de tamanho? está duro? há arcadas sem vômito?
- Medicações já usadas (nome, dose, horário) — se por engano deu algo, informe.
5) O que NÃO fazer enquanto aguarda atendimento
- Não dar remédios humanos (analgésicos, anti-inflamatórios, antidiarreicos, antieméticos) sem prescrição.
- Não oferecer leite, óleo, “chás” ou alimentos gordurosos.
- Não induzir vômito em suspeita de corpo estranho, dor abdominal intensa, sangue, prostração ou distensão.
- Não puxar fios/linhas visíveis.
- Não tentar “desinflar” o abdômen com massagens ou compressões.
Checklist rápido de sinais para relatar na triagem
- Vômito: quantas vezes, quando, aspecto, sangue (sim/não)
- Diarreia: quantas vezes, sangue/muco, fezes negras (sim/não)
- Água: consegue manter? vomita após beber?
- Hidratação: gengiva úmida/pegajosa, TPC > 2s (sim/não), urina reduzida (sim/não)
- Dor: postura encolhida/“oração”, reage ao toque (sim/não)
- Distensão: abdômen aumentado/duro, arcadas sem vômito (sim/não)
- Risco de corpo estranho: acesso a brinquedos, ossos, lixo, linha (sim/não)
- Grupo de risco: filhote/idoso/doença crônica (sim/não)