Primeiros Socorros Veterinários para Tutores: emergências gastrointestinais e abdominais (vômitos, diarreia e distensão)

Capítulo 16

Tempo estimado de leitura: 8 minutos

+ Exercício

O que são emergências gastrointestinais e abdominais

Vômitos, diarreia e distensão abdominal são sinais comuns em cães e gatos, mas variam de quadros leves (autolimitados) a situações de urgência que podem evoluir rapidamente. O objetivo do tutor nos primeiros socorros é: reconhecer sinais de alerta, evitar medidas que pioram o quadro (especialmente medicações caseiras), manter o animal seguro e reunir informações úteis para o veterinário.

Quadro leve x sinais de urgência: como diferenciar

Use a combinação de frequência, aparência do conteúdo, estado geral e sinais associados. Um episódio isolado em um animal ativo pode ser observado por curto período com orientação veterinária. Já sinais repetidos, sangue, dor e distensão exigem atendimento rápido.

Situação mais compatível com quadro leve (ainda assim requer atenção)Sinais de urgência (procure atendimento imediato)
  • 1 episódio de vômito e o animal segue alerta
  • Diarreia leve sem sangue, comendo/aceitando água
  • Sem dor aparente ao tocar o abdômen
  • Sem distensão abdominal
  • Vômitos repetidos (vários episódios em poucas horas) ou incapacidade de manter água
  • Sangue no vômito (vermelho vivo ou “borra de café”) ou nas fezes (vermelho vivo ou fezes negras)
  • Sinais de desidratação, fraqueza, apatia, colapso
  • Dor abdominal evidente (chorar, rosnar ao toque, postura “encurvada”, “posição de oração”)
  • Tentativas de vomitar sem sucesso (ânsia/arcadas) especialmente com salivação e inquietação
  • Abdômen distendido/“estufado”, duro ou aumentando de tamanho
  • Filhotes, idosos, gestantes, animais com doenças crônicas: qualquer piora é mais urgente

Como reconhecer desidratação em casa (avaliação prática)

A desidratação piora rapidamente com vômitos e diarreia. Você pode fazer uma triagem simples para relatar ao veterinário (não substitui exame clínico).

  • Gengivas: devem estar úmidas e “escorregadias”. Se estiverem pegajosas/secas, é sinal de desidratação.
  • Tempo de preenchimento capilar (TPC): pressione suavemente a gengiva até ficar pálida e solte. O normal é voltar ao rosa em até ~2 segundos. Se demorar mais, é sinal de alerta (pode indicar desidratação ou problemas circulatórios).
  • Teste da pele (turgor): puxe delicadamente a pele da nuca (cães) ou lateral do tórax (gatos) e solte. Ela deve voltar rapidamente. Se “demorar” para voltar, sugere desidratação (em animais idosos pode ser menos confiável).
  • Urina: pouca urina, urina muito escura ou ausência de micção são sinais importantes para relatar.

Vômitos: o que observar e quando suspeitar de algo grave

O que observar no vômito (para relatar)

  • Frequência e horário: quantas vezes vomitou e em quanto tempo.
  • Relação com comida/água: vomita logo após comer? após beber?
  • Aspecto: alimento não digerido, espuma, bile amarela, presença de pelos (gatos), odor muito forte.
  • Sangue: vermelho vivo ou escuro (tipo “borra de café”).
  • Corpos estranhos: pedaços de brinquedo, tecido, plástico, linha, osso, plantas.

Risco de corpo estranho: sinais que aumentam a suspeita

Corpos estranhos podem causar obstrução intestinal e perfuração. Em gatos, fios/linhas são especialmente perigosos (podem “serrar” o intestino).

  • Vômitos persistentes, principalmente após comer ou beber
  • Falta de apetite, apatia
  • Dor abdominal, postura encolhida
  • Diarreia pode ou não ocorrer; às vezes há constipação
  • Histórico de mastigar/engolir objetos (brinquedos, meias, ossos, lixo)
  • Alerta específico: se houver linha/fio saindo pela boca ou ânus, não puxe. Isso pode causar lesões graves. Procure atendimento imediatamente.

Tentativa de vomitar sem sucesso: por que é um sinal crítico

Arcadas/ânsia repetidas sem sair conteúdo, com salivação, inquietação e desconforto, podem indicar distensão gástrica importante e, em cães, risco de dilatação e torção gástrica (GDV). Essa condição é uma emergência cirúrgica.

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Diarreia: o que observar e sinais de gravidade

O que observar nas fezes (para relatar)

  • Frequência: quantas evacuações e em quanto tempo.
  • Volume e urgência: grande volume (mais “intestino delgado”) x pequenas quantidades com urgência e muco (mais “intestino grosso”).
  • Presença de sangue: vermelho vivo, coágulos, ou fezes negras (melena).
  • Muco, vermes visíveis ou odor muito diferente do habitual.
  • Acidentes em casa e esforço para evacuar.

Quando a diarreia tende a ser mais perigosa

  • Com vômitos associados (perda de líquidos maior)
  • Com sangue, fraqueza, febre, dor abdominal
  • Em filhotes (risco rápido de desidratação e hipoglicemia)
  • Após acesso a lixo, alimentos gordurosos, ossos, plantas, água de poças
  • Após mudança abrupta de ração ou ingestão de algo suspeito

Distensão abdominal: quando pensar em torção gástrica (principalmente em cães)

O que é e por que é tão urgente

A distensão pode ser por gases, líquido, aumento de órgãos ou obstrução. Em cães, especialmente de porte grande/peito profundo, a dilatação e torção gástrica ocorre quando o estômago dilata e pode girar, comprometendo circulação e causando choque rapidamente.

Sinais típicos que exigem atendimento imediato

  • Abdômen visivelmente aumentado e tenso
  • Inquietação, andar sem parar, incapacidade de se acomodar
  • Arcadas sem vomitar (ou sai pouca espuma)
  • Salivação intensa
  • Respiração ofegante, fraqueza, gengivas pálidas

Conduta do tutor: não tente “aliviar gases”, não ofereça comida/água, não massageie o abdômen. Vá imediatamente ao veterinário.

Por que evitar medicar em casa

Medicações humanas e “receitas” caseiras podem mascarar sinais, atrasar o diagnóstico e causar intoxicação. Além disso, em casos de obstrução, torção ou perfuração, alguns remédios pioram o risco de complicações.

  • Anti-inflamatórios e analgésicos humanos podem causar úlceras, sangramentos e lesão renal em cães e gatos.
  • Antieméticos/antidiarreicos sem avaliação podem reter toxinas, dificultar a identificação de corpo estranho ou atrasar cirurgia.
  • Antibióticos sem indicação podem piorar diarreia e não tratam a causa real.
  • Carvão ativado só deve ser usado quando indicado para intoxicações específicas e com orientação (não é “cura” para vômito/diarreia em geral).

Se o veterinário prescrever algo por telefone/teleorientação, siga exatamente dose e intervalo. Caso contrário, foque em observação e suporte seguro.

Condutas seguras até a consulta (passo a passo)

1) Defina o nível de urgência

  • Se houver qualquer sinal de urgência (vômitos repetidos, sangue, desidratação, dor abdominal, arcadas sem vômito, abdômen distendido, apatia intensa): não espere para “ver se melhora”.
  • Se for um quadro leve e o animal estiver bem disposto: entre em contato com a clínica para orientação de observação e alimentação/jejum.

2) Jejum e água: o que é seguro

Jejum não é regra universal e deve ser orientado pelo veterinário, especialmente em filhotes, diabéticos e animais debilitados. Ainda assim, há medidas geralmente seguras enquanto você busca orientação:

  • Se está vomitando repetidamente: não ofereça comida. Água pode piorar o vômito; aguarde orientação. Se o veterinário permitir, ofereça pequenas quantidades (ex.: 1–2 colheres de chá para gatos e cães pequenos; 1–2 colheres de sopa para cães médios/grandes) a cada 10–15 minutos, observando se mantém.
  • Se há diarreia sem vômito e o animal está bem: água costuma ser permitida em pequenas quantidades frequentes. Evite grandes volumes de uma vez.
  • Nunca force água com seringa em animal nauseado ou prostrado (risco de aspiração).

3) Controle do ambiente e conforto

  • Mantenha o animal em local calmo, com fácil acesso a um lugar para evacuar.
  • Evite exercícios, brincadeiras e estresse.
  • Se houver dor abdominal, manipule o mínimo possível.

4) O que guardar/registrar para ajudar o veterinário

  • Horário do início dos sinais e evolução (melhora/piora).
  • Número de episódios de vômito/diarreia.
  • Fotos do vômito/fezes (se possível) e descrição do aspecto (sangue, muco, cor).
  • Ingestões suspeitas nas últimas 24–72h: lixo, ossos, brinquedos, plantas, alimentos gordurosos, mudança de ração, acesso a rua.
  • Hidratação: gengivas úmidas ou secas, TPC aproximado, urina (quantidade/cor).
  • Comportamento: apatia, inquietação, postura de dor, tremores, salivação.
  • Abdômen: aumentou de tamanho? está duro? há arcadas sem vômito?
  • Medicações já usadas (nome, dose, horário) — se por engano deu algo, informe.

5) O que NÃO fazer enquanto aguarda atendimento

  • Não dar remédios humanos (analgésicos, anti-inflamatórios, antidiarreicos, antieméticos) sem prescrição.
  • Não oferecer leite, óleo, “chás” ou alimentos gordurosos.
  • Não induzir vômito em suspeita de corpo estranho, dor abdominal intensa, sangue, prostração ou distensão.
  • Não puxar fios/linhas visíveis.
  • Não tentar “desinflar” o abdômen com massagens ou compressões.

Checklist rápido de sinais para relatar na triagem

  • Vômito: quantas vezes, quando, aspecto, sangue (sim/não)
  • Diarreia: quantas vezes, sangue/muco, fezes negras (sim/não)
  • Água: consegue manter? vomita após beber?
  • Hidratação: gengiva úmida/pegajosa, TPC > 2s (sim/não), urina reduzida (sim/não)
  • Dor: postura encolhida/“oração”, reage ao toque (sim/não)
  • Distensão: abdômen aumentado/duro, arcadas sem vômito (sim/não)
  • Risco de corpo estranho: acesso a brinquedos, ossos, lixo, linha (sim/não)
  • Grupo de risco: filhote/idoso/doença crônica (sim/não)

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Um cão apresenta arcadas repetidas sem conseguir vomitar, salivação intensa, inquietação e abdômen visivelmente distendido e tenso. Qual deve ser a conduta imediata do tutor até chegar ao veterinário?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

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Arcadas sem vômito, salivação e abdômen distendido são sinais de urgência e podem indicar dilatação e torção gástrica. A conduta segura é não medicar, não tentar “aliviar gases”, não oferecer comida/água e ir imediatamente ao veterinário.

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