Prevenção e manejo de infiltração e extravasamento: identificação precoce e condutas seguras

Capítulo 8

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Conceitos essenciais: infiltração x extravasamento

Infiltração é o escape de solução não vesicante (ex.: soro, eletrólitos, alguns antibióticos não irritantes) do vaso para o tecido ao redor do cateter. Em geral causa desconforto e edema, com menor risco de necrose, mas pode gerar lesão por pressão e comprometimento circulatório quando volumosa.

Extravasamento é o escape de substância vesicante (capaz de causar bolhas/necrose) ou irritante (inflamação intensa, dor, risco de lesão) para o tecido. É uma urgência local: quanto mais cedo identificado, menor a extensão do dano.

Ponto-chave: clinicamente, os sinais iniciais podem ser semelhantes. A diferença crítica é o potencial de dano do fármaco/solução. Por isso, ao suspeitar, trate como evento relevante e verifique imediatamente qual substância está infundindo.

Identificação precoce: sinais e como checar à beira-leito

Sinais precoces mais comuns

  • Edema ao redor do sítio (aumento de volume, pele esticada).
  • Frio local (frequente em infiltração de soluções frias/ambiente) ou alteração de temperatura em relação ao membro contralateral.
  • Dor, ardor ou queimação durante infusão ou ao flush.
  • Resistência ao flush (maior pressão para infundir) ou queixa de dor ao flush.
  • Diminuição do gotejamento / alarme de oclusão na bomba / dificuldade de manter a taxa prescrita.
  • Alteração de cor (palidez, eritema, moteado) e tensão da pele.
  • Ausência de retorno venoso (quando aplicável) associada a sintomas locais.

Checagem rápida e sistemática (30–60 segundos)

  • Pare e observe: compare com o membro contralateral (volume, cor, temperatura).
  • Pergunte: “Está ardendo? Doendo? Sentiu pressão?” (dor desproporcional é alerta).
  • Palpe ao redor do curativo (sem massagear): identifique endurecimento, frio/calor, dor à palpação.
  • Verifique o fluxo: gotejamento, alarmes, necessidade de aumentar pressão para manter infusão.
  • Considere o que está infundindo: se for irritante/vesicante, eleve o nível de urgência e siga protocolo específico.

Gradação de severidade (uso prático)

A gradação ajuda a padronizar condutas, comunicação e documentação. Use como referência clínica (adapte ao protocolo institucional).

GrauAchados típicosImpacto/risco
1 (leve)Edema discreto, desconforto leve, pele íntegra, sem alteração importante de cor/temperaturaBaixo; monitorar e intervir precocemente
2 (moderado)Edema evidente, dor moderada, frio ou eritema local, redução do fluxo/alarme ocasionalRisco de lesão tecidual, especialmente se irritante
3 (grave)Edema importante, dor intensa, pele muito tensa, alteração de perfusão (palidez, cianose), bolhas iniciaisAlto; risco de necrose/compartimental
4 (muito grave)Bolhas, necrose, ulceração, comprometimento neurovascular (parestesia, diminuição de pulso), dor desproporcionalUrgência; pode requerer avaliação cirúrgica

Alerta de gravidade imediata: dor intensa e progressiva, parestesia, extremidade fria/pálida, diminuição de pulsos, edema rápido e tenso, bolhas ou suspeita de vesicante.

Continue em nosso aplicativo e ...
  • Ouça o áudio com a tela desligada
  • Ganhe Certificado após a conclusão
  • + de 5000 cursos para você explorar!
ou continue lendo abaixo...
Download App

Baixar o aplicativo

Condutas imediatas: passo a passo seguro

1) Ação imediata ao suspeitar

  1. Suspender a infusão imediatamente (pare a bomba/feche o equipo). Não “teste” aumentando a pressão.
  2. Manter o cateter no lugar inicialmente se houver suspeita de extravasamento de vesicante/irritante, pois pode ser necessário aspirar o máximo possível do fármaco pelo próprio cateter e/ou administrar antídoto conforme protocolo.
  3. Avaliar o membro: extensão do edema, dor, cor, temperatura, perfusão distal (enchimento capilar, pulsos quando aplicável), sensibilidade e mobilidade.
  4. Delimitar a área (se protocolo permitir): marcar suavemente o contorno do edema/eritema para acompanhar progressão.
  5. Elevar o membro para reduzir edema (desde que não haja contraindicação clínica).

2) Aspiração e medidas locais (quando aplicável)

Se extravasamento de vesicante/irritante for possível:

  • Aspirar pelo cateter (sem flush): tente aspirar o máximo de solução/fármaco do lúmen e, se possível, do tecido adjacente conforme protocolo institucional.
  • Não realizar flush para “desobstruir” ou “ver se voltou”: isso pode disseminar a substância no tecido.
  • Compressas: aplicar fria ou morna conforme a substância e protocolo. Como regra geral, muitos vesicantes têm orientação específica; quando houver dúvida, priorize consultar o guia institucional/farmácia antes de escolher o tipo de compressa.
  • Analgesia conforme prescrição e necessidade, sem atrasar medidas locais.

Se infiltração de solução não vesicante:

  • Após suspender, geralmente retirar o cateter e realizar medidas de conforto (elevação, compressa conforme avaliação local e protocolo).
  • Reavaliar necessidade de novo acesso em outro local, evitando o membro afetado quando possível.

3) Decisão sobre retirar ou manter o cateter

  • Suspeita de extravasamento de vesicante/irritante: manter inicialmente para possível aspiração/antídoto; retirar conforme orientação do protocolo e equipe médica.
  • Infiltração sem risco químico: retirar após interromper e avaliar, pois o cateter não está funcional e pode piorar edema.

4) Comunicação e escalonamento

  • Acionar enfermeiro responsável/plantonista e seguir fluxo institucional.
  • Comunicar equipe médica quando: substância for vesicante/irritante; houver sinais grau 3–4; dor intensa; comprometimento neurovascular; bolhas/necrose; necessidade de antídoto; ou quando o paciente for de alto risco (ex.: fragilidade vascular, edema importante, sedação/incapacidade de relatar dor).
  • Contatar farmácia clínica/CIATox (quando disponível) para orientação específica de antídotos e compressas conforme o fármaco.

5) Documentação completa (o que não pode faltar)

  • Data/hora do evento e medicação/solução, concentração, volume estimado extravasado/infiltrado, taxa de infusão, via e dispositivo.
  • Sinais e sintomas (dor, edema, cor, temperatura), grau estimado e medidas de perfusão distal.
  • Condutas realizadas: suspensão, aspiração (volume aspirado), compressa (tipo/tempo), elevação, analgesia, antídoto (se aplicável), retirada/manutenção do cateter.
  • Comunicações (quem foi acionado, horário, orientações recebidas).
  • Evolução em reavaliações seriadas (ex.: 30 min, 1 h, 2 h, conforme gravidade).

6) Orientação ao paciente (e/ou acompanhante)

  • Explicar o que ocorreu em linguagem simples e o que está sendo feito.
  • Orientar a avisar imediatamente se houver piora de dor, aumento de inchaço, formigamento, mudança de cor, bolhas ou diminuição de movimento.
  • Evitar friccionar/massagear a área; manter membro elevado se orientado.
  • Informar plano de reavaliação e possíveis encaminhamentos.

Condutas conforme tipo de substância: vesicantes e irritantes

As condutas específicas variam por fármaco (antídotos, tipo de compressa, tempo de aplicação). Na prática de enfermagem, o essencial é reconhecer rapidamente quando há risco químico e não agravar o evento.

Como agir com segurança quando não há certeza do risco

  • Tratar como potencial extravasamento até confirmar o perfil do medicamento.
  • Não flush e não aplicar pressão para “fazer correr”.
  • Manter cateter para possível aspiração/antídoto e consultar imediatamente protocolo institucional/farmácia.
  • Priorizar reavaliações frequentes e documentação detalhada.

Estratégias para reduzir risco (foco em prática diária)

Durante a terapia intravenosa

  • Fixação e estabilização eficazes: reduzir microtração e movimentação do cateter (principal gatilho de deslocamento).
  • Escolha criteriosa do sítio: preferir locais com bom calibre e menor mobilidade; evitar áreas de flexão quando possível (antecubital, punho) para reduzir deslocamento e oclusão intermitente.
  • Compatibilidade entre terapia e acesso: para infusões de maior risco (irritantes/vesicantes), considerar necessidade de acesso mais adequado conforme protocolo (ex.: avaliação de acesso central quando indicado).
  • Monitorização em infusões contínuas: checar o sítio em intervalos regulares e sempre que houver alarme, queixa do paciente ou alteração de gotejamento.
  • Atenção redobrada em pacientes com comunicação limitada (sedados, confusos, pediatria, neuropatia): inspeção/palpação mais frequentes, pois a dor pode não ser relatada.
  • Evitar contenção do fluxo por posicionamento: dobras do membro, compressão por roupas/lençóis, apoio sobre o cateter.

Sinais operacionais que devem disparar reavaliação imediata

  • Necessidade repetida de “ajustar” o membro para manter gotejamento.
  • Alarmes de pressão/oclusão recorrentes.
  • Queixa de ardor/dor em qualquer momento da infusão.
  • Curativo úmido, descolando ou com acúmulo de fluido sob a película.

Quadro crítico: faça / não faça

SituaçãoFAÇANÃO FAÇA
Suspeita de infiltração/extravasamentoSuspender infusão imediatamente; avaliar membro; elevar; delimitar área se protocolo permitirIgnorar sinais iniciais; “esperar para ver” mantendo infusão
Possível vesicante/irritante em infusãoManter cateter inicialmente; aspirar quando indicado; acionar protocolo/farmácia/equipe médicaRetirar cateter de imediato sem orientação (pode perder via para aspiração/antídoto)
Resistência ao flush / dor ao flushInterromper e reavaliar; considerar infiltração/extravasamento; checar perfusão distalForçar flush para “desentupir”
Edema importante e pele tensaElevar membro; reavaliar frequentemente; documentar progressão; escalonar se sinais gravesMassagear a área (pode disseminar substância e aumentar lesão)
Alarme de oclusão na bombaInspecionar sítio e trajeto do equipo; avaliar dor/edema; interromper se suspeitaAumentar pressão/velocidade para manter taxa sem examinar o sítio
Sinais neurovasculares (parestesia, palidez, frio, pulso reduzido)Tratar como urgência; suspender; elevar; acionar equipe médica imediatamenteAplicar compressão local apertada ou atrasar escalonamento
Documentação do eventoRegistrar substância, volume estimado, grau, condutas, comunicações e reavaliaçõesRegistrar apenas “infiltrou” sem detalhes (dificulta continuidade e segurança)

Exemplo prático (simulação rápida de tomada de decisão)

Cenário: paciente em antibiótico IV em bomba. Você observa alarme de oclusão e o paciente refere ardor no local. Ao inspecionar, há edema discreto e pele mais fria ao toque.

  • 1) Suspender infusão.
  • 2) Avaliar: dor, edema, cor, temperatura, perfusão distal; comparar com membro contralateral.
  • 3) Identificar o fármaco: se for irritante/vesicante, manter cateter e seguir protocolo (aspiração/antídoto/ compressa específica); se não vesicante, retirar cateter após avaliação e medidas locais.
  • 4) Elevar membro e aplicar medida local conforme protocolo.
  • 5) Documentar e programar reavaliação seriada; orientar paciente a sinalizar piora.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao suspeitar de infiltração/extravasamento durante uma infusão IV e não ter certeza se a substância é vesicante/irritante, qual é a conduta inicial mais segura?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Na suspeita, a prioridade é interromper a infusão e evitar piora do dano. Sem confirmar o risco, deve-se tratar como potencial extravasamento: não fazer flush/forçar pressão e manter o cateter inicialmente para possível aspiração/antídoto, conforme protocolo.

Próximo capitúlo

Retirada do acesso venoso periférico: técnica, hemostasia, cuidados com a pele e orientações

Arrow Right Icon
Capa do Ebook gratuito Coleta de Exames e Manejo de Acessos Venosos: Boas Práticas para Enfermagem
57%

Coleta de Exames e Manejo de Acessos Venosos: Boas Práticas para Enfermagem

Novo curso

14 páginas

Baixe o app para ganhar Certificação grátis e ouvir os cursos em background, mesmo com a tela desligada.