Conceitos essenciais: infiltração x extravasamento
Infiltração é o escape de solução não vesicante (ex.: soro, eletrólitos, alguns antibióticos não irritantes) do vaso para o tecido ao redor do cateter. Em geral causa desconforto e edema, com menor risco de necrose, mas pode gerar lesão por pressão e comprometimento circulatório quando volumosa.
Extravasamento é o escape de substância vesicante (capaz de causar bolhas/necrose) ou irritante (inflamação intensa, dor, risco de lesão) para o tecido. É uma urgência local: quanto mais cedo identificado, menor a extensão do dano.
Ponto-chave: clinicamente, os sinais iniciais podem ser semelhantes. A diferença crítica é o potencial de dano do fármaco/solução. Por isso, ao suspeitar, trate como evento relevante e verifique imediatamente qual substância está infundindo.
Identificação precoce: sinais e como checar à beira-leito
Sinais precoces mais comuns
- Edema ao redor do sítio (aumento de volume, pele esticada).
- Frio local (frequente em infiltração de soluções frias/ambiente) ou alteração de temperatura em relação ao membro contralateral.
- Dor, ardor ou queimação durante infusão ou ao flush.
- Resistência ao flush (maior pressão para infundir) ou queixa de dor ao flush.
- Diminuição do gotejamento / alarme de oclusão na bomba / dificuldade de manter a taxa prescrita.
- Alteração de cor (palidez, eritema, moteado) e tensão da pele.
- Ausência de retorno venoso (quando aplicável) associada a sintomas locais.
Checagem rápida e sistemática (30–60 segundos)
- Pare e observe: compare com o membro contralateral (volume, cor, temperatura).
- Pergunte: “Está ardendo? Doendo? Sentiu pressão?” (dor desproporcional é alerta).
- Palpe ao redor do curativo (sem massagear): identifique endurecimento, frio/calor, dor à palpação.
- Verifique o fluxo: gotejamento, alarmes, necessidade de aumentar pressão para manter infusão.
- Considere o que está infundindo: se for irritante/vesicante, eleve o nível de urgência e siga protocolo específico.
Gradação de severidade (uso prático)
A gradação ajuda a padronizar condutas, comunicação e documentação. Use como referência clínica (adapte ao protocolo institucional).
| Grau | Achados típicos | Impacto/risco |
|---|---|---|
| 1 (leve) | Edema discreto, desconforto leve, pele íntegra, sem alteração importante de cor/temperatura | Baixo; monitorar e intervir precocemente |
| 2 (moderado) | Edema evidente, dor moderada, frio ou eritema local, redução do fluxo/alarme ocasional | Risco de lesão tecidual, especialmente se irritante |
| 3 (grave) | Edema importante, dor intensa, pele muito tensa, alteração de perfusão (palidez, cianose), bolhas iniciais | Alto; risco de necrose/compartimental |
| 4 (muito grave) | Bolhas, necrose, ulceração, comprometimento neurovascular (parestesia, diminuição de pulso), dor desproporcional | Urgência; pode requerer avaliação cirúrgica |
Alerta de gravidade imediata: dor intensa e progressiva, parestesia, extremidade fria/pálida, diminuição de pulsos, edema rápido e tenso, bolhas ou suspeita de vesicante.
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Condutas imediatas: passo a passo seguro
1) Ação imediata ao suspeitar
- Suspender a infusão imediatamente (pare a bomba/feche o equipo). Não “teste” aumentando a pressão.
- Manter o cateter no lugar inicialmente se houver suspeita de extravasamento de vesicante/irritante, pois pode ser necessário aspirar o máximo possível do fármaco pelo próprio cateter e/ou administrar antídoto conforme protocolo.
- Avaliar o membro: extensão do edema, dor, cor, temperatura, perfusão distal (enchimento capilar, pulsos quando aplicável), sensibilidade e mobilidade.
- Delimitar a área (se protocolo permitir): marcar suavemente o contorno do edema/eritema para acompanhar progressão.
- Elevar o membro para reduzir edema (desde que não haja contraindicação clínica).
2) Aspiração e medidas locais (quando aplicável)
Se extravasamento de vesicante/irritante for possível:
- Aspirar pelo cateter (sem flush): tente aspirar o máximo de solução/fármaco do lúmen e, se possível, do tecido adjacente conforme protocolo institucional.
- Não realizar flush para “desobstruir” ou “ver se voltou”: isso pode disseminar a substância no tecido.
- Compressas: aplicar fria ou morna conforme a substância e protocolo. Como regra geral, muitos vesicantes têm orientação específica; quando houver dúvida, priorize consultar o guia institucional/farmácia antes de escolher o tipo de compressa.
- Analgesia conforme prescrição e necessidade, sem atrasar medidas locais.
Se infiltração de solução não vesicante:
- Após suspender, geralmente retirar o cateter e realizar medidas de conforto (elevação, compressa conforme avaliação local e protocolo).
- Reavaliar necessidade de novo acesso em outro local, evitando o membro afetado quando possível.
3) Decisão sobre retirar ou manter o cateter
- Suspeita de extravasamento de vesicante/irritante: manter inicialmente para possível aspiração/antídoto; retirar conforme orientação do protocolo e equipe médica.
- Infiltração sem risco químico: retirar após interromper e avaliar, pois o cateter não está funcional e pode piorar edema.
4) Comunicação e escalonamento
- Acionar enfermeiro responsável/plantonista e seguir fluxo institucional.
- Comunicar equipe médica quando: substância for vesicante/irritante; houver sinais grau 3–4; dor intensa; comprometimento neurovascular; bolhas/necrose; necessidade de antídoto; ou quando o paciente for de alto risco (ex.: fragilidade vascular, edema importante, sedação/incapacidade de relatar dor).
- Contatar farmácia clínica/CIATox (quando disponível) para orientação específica de antídotos e compressas conforme o fármaco.
5) Documentação completa (o que não pode faltar)
- Data/hora do evento e medicação/solução, concentração, volume estimado extravasado/infiltrado, taxa de infusão, via e dispositivo.
- Sinais e sintomas (dor, edema, cor, temperatura), grau estimado e medidas de perfusão distal.
- Condutas realizadas: suspensão, aspiração (volume aspirado), compressa (tipo/tempo), elevação, analgesia, antídoto (se aplicável), retirada/manutenção do cateter.
- Comunicações (quem foi acionado, horário, orientações recebidas).
- Evolução em reavaliações seriadas (ex.: 30 min, 1 h, 2 h, conforme gravidade).
6) Orientação ao paciente (e/ou acompanhante)
- Explicar o que ocorreu em linguagem simples e o que está sendo feito.
- Orientar a avisar imediatamente se houver piora de dor, aumento de inchaço, formigamento, mudança de cor, bolhas ou diminuição de movimento.
- Evitar friccionar/massagear a área; manter membro elevado se orientado.
- Informar plano de reavaliação e possíveis encaminhamentos.
Condutas conforme tipo de substância: vesicantes e irritantes
As condutas específicas variam por fármaco (antídotos, tipo de compressa, tempo de aplicação). Na prática de enfermagem, o essencial é reconhecer rapidamente quando há risco químico e não agravar o evento.
Como agir com segurança quando não há certeza do risco
- Tratar como potencial extravasamento até confirmar o perfil do medicamento.
- Não flush e não aplicar pressão para “fazer correr”.
- Manter cateter para possível aspiração/antídoto e consultar imediatamente protocolo institucional/farmácia.
- Priorizar reavaliações frequentes e documentação detalhada.
Estratégias para reduzir risco (foco em prática diária)
Durante a terapia intravenosa
- Fixação e estabilização eficazes: reduzir microtração e movimentação do cateter (principal gatilho de deslocamento).
- Escolha criteriosa do sítio: preferir locais com bom calibre e menor mobilidade; evitar áreas de flexão quando possível (antecubital, punho) para reduzir deslocamento e oclusão intermitente.
- Compatibilidade entre terapia e acesso: para infusões de maior risco (irritantes/vesicantes), considerar necessidade de acesso mais adequado conforme protocolo (ex.: avaliação de acesso central quando indicado).
- Monitorização em infusões contínuas: checar o sítio em intervalos regulares e sempre que houver alarme, queixa do paciente ou alteração de gotejamento.
- Atenção redobrada em pacientes com comunicação limitada (sedados, confusos, pediatria, neuropatia): inspeção/palpação mais frequentes, pois a dor pode não ser relatada.
- Evitar contenção do fluxo por posicionamento: dobras do membro, compressão por roupas/lençóis, apoio sobre o cateter.
Sinais operacionais que devem disparar reavaliação imediata
- Necessidade repetida de “ajustar” o membro para manter gotejamento.
- Alarmes de pressão/oclusão recorrentes.
- Queixa de ardor/dor em qualquer momento da infusão.
- Curativo úmido, descolando ou com acúmulo de fluido sob a película.
Quadro crítico: faça / não faça
| Situação | FAÇA | NÃO FAÇA |
|---|---|---|
| Suspeita de infiltração/extravasamento | Suspender infusão imediatamente; avaliar membro; elevar; delimitar área se protocolo permitir | Ignorar sinais iniciais; “esperar para ver” mantendo infusão |
| Possível vesicante/irritante em infusão | Manter cateter inicialmente; aspirar quando indicado; acionar protocolo/farmácia/equipe médica | Retirar cateter de imediato sem orientação (pode perder via para aspiração/antídoto) |
| Resistência ao flush / dor ao flush | Interromper e reavaliar; considerar infiltração/extravasamento; checar perfusão distal | Forçar flush para “desentupir” |
| Edema importante e pele tensa | Elevar membro; reavaliar frequentemente; documentar progressão; escalonar se sinais graves | Massagear a área (pode disseminar substância e aumentar lesão) |
| Alarme de oclusão na bomba | Inspecionar sítio e trajeto do equipo; avaliar dor/edema; interromper se suspeita | Aumentar pressão/velocidade para manter taxa sem examinar o sítio |
| Sinais neurovasculares (parestesia, palidez, frio, pulso reduzido) | Tratar como urgência; suspender; elevar; acionar equipe médica imediatamente | Aplicar compressão local apertada ou atrasar escalonamento |
| Documentação do evento | Registrar substância, volume estimado, grau, condutas, comunicações e reavaliações | Registrar apenas “infiltrou” sem detalhes (dificulta continuidade e segurança) |
Exemplo prático (simulação rápida de tomada de decisão)
Cenário: paciente em antibiótico IV em bomba. Você observa alarme de oclusão e o paciente refere ardor no local. Ao inspecionar, há edema discreto e pele mais fria ao toque.
- 1) Suspender infusão.
- 2) Avaliar: dor, edema, cor, temperatura, perfusão distal; comparar com membro contralateral.
- 3) Identificar o fármaco: se for irritante/vesicante, manter cateter e seguir protocolo (aspiração/antídoto/ compressa específica); se não vesicante, retirar cateter após avaliação e medidas locais.
- 4) Elevar membro e aplicar medida local conforme protocolo.
- 5) Documentar e programar reavaliação seriada; orientar paciente a sinalizar piora.