Definição operacional de flebite associada ao acesso venoso periférico
Flebite é a inflamação da parede da veia relacionada ao cateter venoso periférico (CVP) e/ou às soluções/medicamentos infundidos. Operacionalmente, na prática assistencial, considera-se flebite quando há dor ou sensibilidade ao longo da veia associada a eritema e/ou endurecimento (cordão venoso), com ou sem edema e calor local, ocorrendo durante o uso do CVP ou após sua remoção. A gravidade é classificada por estágios, o que orienta condutas e monitoramento.
Fatores de risco (mecânico, químico e infeccioso)
1) Fatores mecânicos
- Calibre inadequado (cateter maior que o necessário), aumentando atrito na parede venosa.
- Veia de pequeno calibre para o cateter escolhido, ou veia tortuosa, com maior contato do cateter com a íntima.
- Localização desfavorável (áreas de flexão e regiões com maior movimento), favorecendo microtraumas repetidos.
- Cateter mal estabilizado (micromovimentos), tração do equipo e manipulações frequentes.
- Tempo de permanência sem reavaliação clínica adequada (não é “tempo” isolado, mas tempo + sinais/sintomas).
- Múltiplas tentativas e punções traumáticas no mesmo membro, predispondo inflamação e hematoma.
2) Fatores químicos
- Osmolaridade e pH extremos (soluções irritantes/vesicantes), aumentando agressão endotelial.
- Alta concentração por diluição insuficiente.
- Velocidade de infusão elevada para a veia e para o tipo de solução.
- Incompatibilidade medicamentosa (precipitação/irritação), especialmente em infusões sequenciais sem lavagem adequada.
- Uso repetido do mesmo acesso para fármacos irritantes sem estratégia de alternância/monitoramento intensificado.
3) Fatores infecciosos
- Colonização do sítio e migração de microrganismos ao longo do trajeto do cateter.
- Manipulação frequente do sistema com falhas de técnica (ex.: conexões desconectadas, tampas contaminadas).
- Curativo úmido/sujo/descolado e integridade de pele comprometida.
- Imunossupressão, diabetes, desnutrição e outras condições do paciente que aumentam risco de infecção e pioram resposta inflamatória.
Medidas preventivas (aplicação prática no dia a dia)
Seleção de veia e calibre (princípios práticos)
- Escolher o menor calibre que atenda à terapia prescrita (reduz trauma mecânico).
- Preferir veias retas e de bom calibre para terapias mais irritantes, evitando trajetos sinuosos.
- Evitar áreas de flexão quando possível (punho/fossa antecubital) em terapias contínuas, pois movimento aumenta micromovimento do cateter.
- Planejar conforme a terapia: se houver previsão de soluções irritantes/alta osmolaridade ou necessidade de múltiplas infusões, discutir precocemente alternativa de acesso (ex.: acesso central) conforme protocolo institucional e prescrição.
Estabilização do cateter e do equipo
- Estabilizar para reduzir micromovimento: o objetivo é que o cateter “acompanhe” a veia sem tração externa.
- Ancorar o equipo de modo que o peso do sistema não fique sobre o hub do cateter.
- Reavaliar após mobilização (banho, troca de roupa, transporte): são momentos comuns de tração inadvertida.
Diluição e velocidade de infusão
- Conferir diluição e via recomendadas no protocolo/guia institucional antes de administrar.
- Preferir infusão mais lenta para fármacos irritantes quando permitido, reduzindo agressão endotelial.
- Monitorar durante os primeiros minutos de infusões de maior risco: dor/ardor precoce pode ser sinal inicial de irritação química ou infiltração.
Compatibilidade de medicamentos e sequência de administração
- Checar compatibilidade antes de coadministrar em Y ou em sequência no mesmo acesso.
- Evitar “misturas” no mesmo lúmen sem confirmação de compatibilidade.
- Realizar lavagem entre medicamentos conforme protocolo institucional, especialmente quando houver risco de incompatibilidade ou irritação.
Vigilância do sítio (rotina objetiva de avaliação)
Padronize uma avaliação rápida e repetível em cada checagem do acesso:
- Inspeção: eritema, edema, exsudato, integridade do curativo.
- Palpação (quando possível, sem comprometer curativo): calor, endurecimento, dor ao toque.
- Queixa do paciente: dor, ardor, “repuxo”, sensação de calor.
- Funcionamento: resistência ao flush, alarme de oclusão, retorno venoso (quando aplicável).
Dica prática: dor localizada durante infusão é um dos sinais mais precoces. Trate como alerta para interromper e avaliar antes de “apenas diminuir a velocidade”.
Reconhecimento clínico por estágios (classificação prática)
Use uma escala institucional quando disponível. Abaixo, um modelo amplamente utilizado na prática clínica (adapte ao protocolo local):
| Estágio | Sinais e sintomas típicos | Interpretação prática |
|---|---|---|
| 1 | Eritema no sítio com ou sem dor | Inflamação inicial; exige reavaliação imediata e conduta para evitar progressão |
| 2 | Dor + eritema + edema | Flebite estabelecida; risco de piora se mantiver infusão no mesmo sítio |
| 3 | Dor + eritema + edema + endurecimento/cordão venoso palpável | Comprometimento mais significativo da veia; geralmente indica remoção e medidas locais |
| 4 | Estágio 3 + secreção purulenta e/ou sinais sistêmicos (febre) ou extensão importante | Suspeita de componente infeccioso; requer abordagem ampliada, notificação e possível coleta conforme protocolo |
Observação: endurecimento em trajeto venoso pode persistir por dias após remoção. O que define gravidade é o conjunto: dor, progressão, calor, edema, secreção e sinais sistêmicos.
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Condutas frente à suspeita ou flebite confirmada (passo a passo)
Passo a passo imediato (suspeita durante uso do CVP)
- Interromper a infusão imediatamente (clampear/pausar bomba) para evitar maior agressão.
- Avaliar o sítio e o trajeto venoso: dor, eritema, edema, calor, cordão, presença de exsudato; comparar com membro contralateral.
- Classificar o estágio conforme escala institucional e documentar.
- Decidir sobre remoção do cateter: em geral, remover quando houver dor persistente, edema, cordão venoso, progressão de sinais, ou qualquer suspeita de infecção. Se o protocolo permitir observação em estágio muito inicial, isso deve ser exceção, com reavaliação frequente e sem infusão de irritantes.
- Reinstalar acesso em outro local se houver necessidade de manter terapia IV, preferindo membro contralateral e veia mais adequada ao tipo de infusão.
- Medidas locais conforme protocolo institucional: frequentemente incluem compressas mornas para flebite mecânica/química (alívio e vasodilatação) e elevação do membro; em suspeita infecciosa, seguir orientação específica (pode haver restrição a calor local dependendo do caso e do protocolo).
- Revisar a causa provável: calibre, local, estabilização, velocidade, diluição, compatibilidade, frequência de manipulação. Ajustar o plano para evitar recorrência.
Quando suspeitar de componente infeccioso (alertas)
- Presença de secreção no sítio, odor, aumento progressivo do eritema, dor intensa, calor importante.
- Febre ou mal-estar sem outra causa evidente.
- Endurecimento extenso com sinais inflamatórios marcantes.
Nesses casos, além da remoção quando indicada, seguir o protocolo institucional para avaliação médica, necessidade de culturas (ex.: ponta de cateter quando aplicável), e monitoramento de sinais vitais.
Notificação, registro e monitoramento
- Notificar o evento conforme política de segurança do paciente (evento adverso/queixa técnica), especialmente estágios 2–4, recorrência, ou suspeita infecciosa.
- Registrar de forma completa e objetiva (ver exemplos abaixo).
- Monitorar evolução: reavaliar dor, eritema e edema em intervalos definidos; orientar o paciente a relatar piora.
- Escalonar (comunicar enfermeiro responsável/médico) quando houver progressão, sinais sistêmicos, secreção, dor desproporcional ou falha de melhora com medidas iniciais.
Diferenciação: flebite vs outras condições comuns
Flebite vs hematoma
- Hematoma: mancha arroxeada/escurecida, geralmente após punção traumática ou extravasamento de sangue; pode haver dor e edema local, mas não costuma haver cordão venoso e o eritema inflamatório é menos típico.
- Flebite: eritema em faixa/ao longo da veia, dor à palpação no trajeto venoso, possível cordão endurecido.
Ponto prático: hematoma aparece mais como “equimose” localizada; flebite tende a “desenhar” a veia.
Flebite vs infiltração/extravasamento
- Infiltração (solução não vesicante): edema, pele fria/pálida, desconforto, redução do fluxo; eritema pode ser discreto. O trajeto venoso pode não estar doloroso como na flebite.
- Extravasamento (vesicante/irritante): dor/queimação, edema, alteração de cor, possível bolha/necrose (dependendo do agente). É uma urgência conforme protocolo do medicamento.
- Flebite: calor e eritema mais típicos, dor ao longo da veia, cordão venoso; edema pode existir, mas o padrão é inflamatório venoso.
Ponto prático: pele fria e pálida sugere infiltração; pele quente e avermelhada sugere flebite (avaliar sempre o conjunto e o tipo de infusão).
Flebite vs alergia/dermatite ao adesivo/antisséptico
- Alergia/dermatite: prurido importante, placas eritematosas com bordas compatíveis com o formato do adesivo/filme, possível descamação ou vesículas superficiais; geralmente não há dor no trajeto venoso nem cordão.
- Flebite: dor e sensibilidade venosa, eritema linear no trajeto, endurecimento.
Ponto prático: se o eritema “imita” o recorte do curativo e coça, pense em dermatite; se dói ao longo da veia, pense em flebite.
Exemplos de registros de enfermagem bem feitos (modelos)
Registros devem ser objetivos, com localização, achados, classificação, condutas, resposta e comunicações. Abaixo, exemplos adaptáveis:
Exemplo 1 — Suspeita inicial (estágio 1) durante infusão
Data/hora: 14/01/2026 10:20. AVP em MSD, dorso da mão, cateter 22G, curativo íntegro e seco. Paciente refere ardor leve no sítio durante infusão de ATB. À inspeção: eritema discreto (≈1 cm) no ponto de inserção, sem edema, sem exsudato. Palpação: sensibilidade local, sem cordão palpável, sem aumento de temperatura importante. Classificação: flebite estágio 1 (conforme escala institucional). Conduta: infusão pausada, sítio reavaliado; optado por remoção do cateter devido a queixa durante ATB. Novo acesso obtido em MSE, 22G, sem intercorrências. Orientado paciente a comunicar dor/ardor. Enfermeiro responsável comunicado.Exemplo 2 — Flebite estabelecida (estágio 2–3) com medidas locais e monitoramento
Data/hora: 14/01/2026 18:05. AVP em MSE, antebraço, 20G. Queixa de dor 6/10 e sensação de calor no trajeto venoso. Inspeção: eritema linear ~6 cm ao longo da veia + edema leve. Palpação: calor local e endurecimento/cordão venoso palpável. Sem exsudato. SSVV estáveis, afebril. Classificação: flebite estágio 3. Conduta: infusão interrompida e cateter removido; ponta íntegra. Realizada compressa morna conforme protocolo e elevação do membro. Novo acesso instalado em local alternativo para continuidade da terapia. Orientado paciente sobre sinais de piora. Programada reavaliação em 2h e a cada turno. Evento notificado no sistema institucional. Médico assistente comunicado.Exemplo 3 — Suspeita de componente infeccioso (estágio 4) e escalonamento
Data/hora: 15/01/2026 07:40. Paciente com AVP em MSD, antebraço. Inspeção: eritema extenso (~10 cm), edema moderado e presença de secreção amarelada no sítio; dor intensa à palpação e calor local. Paciente com T=38,2°C. Classificação: flebite estágio 4 / suspeita de infecção relacionada ao cateter. Conduta: infusão interrompida e cateter removido; realizado curativo conforme protocolo. Médico acionado imediatamente; coletadas amostras conforme prescrição/protocolo institucional. Monitorização de sinais vitais iniciada. Registro de notificação de evento e comunicação ao enfermeiro responsável. Paciente orientado e mantido em observação.Checklist do que não pode faltar no registro
- Local do acesso (membro e região), calibre do cateter e tempo aproximado de permanência (se disponível).
- Sinais: dor (com escala), eritema (tamanho), edema, calor, cordão, exsudato.
- Classificação por estágio/escala institucional.
- Condutas: pausa/interrupção, remoção, medidas locais, novo acesso, orientações.
- Comunicações e notificações realizadas.
- Plano de reavaliação e evolução.