Prevenção e manejo de flebite associada ao acesso venoso periférico em enfermagem

Capítulo 7

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

Definição operacional de flebite associada ao acesso venoso periférico

Flebite é a inflamação da parede da veia relacionada ao cateter venoso periférico (CVP) e/ou às soluções/medicamentos infundidos. Operacionalmente, na prática assistencial, considera-se flebite quando há dor ou sensibilidade ao longo da veia associada a eritema e/ou endurecimento (cordão venoso), com ou sem edema e calor local, ocorrendo durante o uso do CVP ou após sua remoção. A gravidade é classificada por estágios, o que orienta condutas e monitoramento.

Fatores de risco (mecânico, químico e infeccioso)

1) Fatores mecânicos

  • Calibre inadequado (cateter maior que o necessário), aumentando atrito na parede venosa.
  • Veia de pequeno calibre para o cateter escolhido, ou veia tortuosa, com maior contato do cateter com a íntima.
  • Localização desfavorável (áreas de flexão e regiões com maior movimento), favorecendo microtraumas repetidos.
  • Cateter mal estabilizado (micromovimentos), tração do equipo e manipulações frequentes.
  • Tempo de permanência sem reavaliação clínica adequada (não é “tempo” isolado, mas tempo + sinais/sintomas).
  • Múltiplas tentativas e punções traumáticas no mesmo membro, predispondo inflamação e hematoma.

2) Fatores químicos

  • Osmolaridade e pH extremos (soluções irritantes/vesicantes), aumentando agressão endotelial.
  • Alta concentração por diluição insuficiente.
  • Velocidade de infusão elevada para a veia e para o tipo de solução.
  • Incompatibilidade medicamentosa (precipitação/irritação), especialmente em infusões sequenciais sem lavagem adequada.
  • Uso repetido do mesmo acesso para fármacos irritantes sem estratégia de alternância/monitoramento intensificado.

3) Fatores infecciosos

  • Colonização do sítio e migração de microrganismos ao longo do trajeto do cateter.
  • Manipulação frequente do sistema com falhas de técnica (ex.: conexões desconectadas, tampas contaminadas).
  • Curativo úmido/sujo/descolado e integridade de pele comprometida.
  • Imunossupressão, diabetes, desnutrição e outras condições do paciente que aumentam risco de infecção e pioram resposta inflamatória.

Medidas preventivas (aplicação prática no dia a dia)

Seleção de veia e calibre (princípios práticos)

  • Escolher o menor calibre que atenda à terapia prescrita (reduz trauma mecânico).
  • Preferir veias retas e de bom calibre para terapias mais irritantes, evitando trajetos sinuosos.
  • Evitar áreas de flexão quando possível (punho/fossa antecubital) em terapias contínuas, pois movimento aumenta micromovimento do cateter.
  • Planejar conforme a terapia: se houver previsão de soluções irritantes/alta osmolaridade ou necessidade de múltiplas infusões, discutir precocemente alternativa de acesso (ex.: acesso central) conforme protocolo institucional e prescrição.

Estabilização do cateter e do equipo

  • Estabilizar para reduzir micromovimento: o objetivo é que o cateter “acompanhe” a veia sem tração externa.
  • Ancorar o equipo de modo que o peso do sistema não fique sobre o hub do cateter.
  • Reavaliar após mobilização (banho, troca de roupa, transporte): são momentos comuns de tração inadvertida.

Diluição e velocidade de infusão

  • Conferir diluição e via recomendadas no protocolo/guia institucional antes de administrar.
  • Preferir infusão mais lenta para fármacos irritantes quando permitido, reduzindo agressão endotelial.
  • Monitorar durante os primeiros minutos de infusões de maior risco: dor/ardor precoce pode ser sinal inicial de irritação química ou infiltração.

Compatibilidade de medicamentos e sequência de administração

  • Checar compatibilidade antes de coadministrar em Y ou em sequência no mesmo acesso.
  • Evitar “misturas” no mesmo lúmen sem confirmação de compatibilidade.
  • Realizar lavagem entre medicamentos conforme protocolo institucional, especialmente quando houver risco de incompatibilidade ou irritação.

Vigilância do sítio (rotina objetiva de avaliação)

Padronize uma avaliação rápida e repetível em cada checagem do acesso:

  • Inspeção: eritema, edema, exsudato, integridade do curativo.
  • Palpação (quando possível, sem comprometer curativo): calor, endurecimento, dor ao toque.
  • Queixa do paciente: dor, ardor, “repuxo”, sensação de calor.
  • Funcionamento: resistência ao flush, alarme de oclusão, retorno venoso (quando aplicável).

Dica prática: dor localizada durante infusão é um dos sinais mais precoces. Trate como alerta para interromper e avaliar antes de “apenas diminuir a velocidade”.

Reconhecimento clínico por estágios (classificação prática)

Use uma escala institucional quando disponível. Abaixo, um modelo amplamente utilizado na prática clínica (adapte ao protocolo local):

EstágioSinais e sintomas típicosInterpretação prática
1Eritema no sítio com ou sem dorInflamação inicial; exige reavaliação imediata e conduta para evitar progressão
2Dor + eritema + edemaFlebite estabelecida; risco de piora se mantiver infusão no mesmo sítio
3Dor + eritema + edema + endurecimento/cordão venoso palpávelComprometimento mais significativo da veia; geralmente indica remoção e medidas locais
4Estágio 3 + secreção purulenta e/ou sinais sistêmicos (febre) ou extensão importanteSuspeita de componente infeccioso; requer abordagem ampliada, notificação e possível coleta conforme protocolo

Observação: endurecimento em trajeto venoso pode persistir por dias após remoção. O que define gravidade é o conjunto: dor, progressão, calor, edema, secreção e sinais sistêmicos.

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Condutas frente à suspeita ou flebite confirmada (passo a passo)

Passo a passo imediato (suspeita durante uso do CVP)

  1. Interromper a infusão imediatamente (clampear/pausar bomba) para evitar maior agressão.
  2. Avaliar o sítio e o trajeto venoso: dor, eritema, edema, calor, cordão, presença de exsudato; comparar com membro contralateral.
  3. Classificar o estágio conforme escala institucional e documentar.
  4. Decidir sobre remoção do cateter: em geral, remover quando houver dor persistente, edema, cordão venoso, progressão de sinais, ou qualquer suspeita de infecção. Se o protocolo permitir observação em estágio muito inicial, isso deve ser exceção, com reavaliação frequente e sem infusão de irritantes.
  5. Reinstalar acesso em outro local se houver necessidade de manter terapia IV, preferindo membro contralateral e veia mais adequada ao tipo de infusão.
  6. Medidas locais conforme protocolo institucional: frequentemente incluem compressas mornas para flebite mecânica/química (alívio e vasodilatação) e elevação do membro; em suspeita infecciosa, seguir orientação específica (pode haver restrição a calor local dependendo do caso e do protocolo).
  7. Revisar a causa provável: calibre, local, estabilização, velocidade, diluição, compatibilidade, frequência de manipulação. Ajustar o plano para evitar recorrência.

Quando suspeitar de componente infeccioso (alertas)

  • Presença de secreção no sítio, odor, aumento progressivo do eritema, dor intensa, calor importante.
  • Febre ou mal-estar sem outra causa evidente.
  • Endurecimento extenso com sinais inflamatórios marcantes.

Nesses casos, além da remoção quando indicada, seguir o protocolo institucional para avaliação médica, necessidade de culturas (ex.: ponta de cateter quando aplicável), e monitoramento de sinais vitais.

Notificação, registro e monitoramento

  • Notificar o evento conforme política de segurança do paciente (evento adverso/queixa técnica), especialmente estágios 2–4, recorrência, ou suspeita infecciosa.
  • Registrar de forma completa e objetiva (ver exemplos abaixo).
  • Monitorar evolução: reavaliar dor, eritema e edema em intervalos definidos; orientar o paciente a relatar piora.
  • Escalonar (comunicar enfermeiro responsável/médico) quando houver progressão, sinais sistêmicos, secreção, dor desproporcional ou falha de melhora com medidas iniciais.

Diferenciação: flebite vs outras condições comuns

Flebite vs hematoma

  • Hematoma: mancha arroxeada/escurecida, geralmente após punção traumática ou extravasamento de sangue; pode haver dor e edema local, mas não costuma haver cordão venoso e o eritema inflamatório é menos típico.
  • Flebite: eritema em faixa/ao longo da veia, dor à palpação no trajeto venoso, possível cordão endurecido.

Ponto prático: hematoma aparece mais como “equimose” localizada; flebite tende a “desenhar” a veia.

Flebite vs infiltração/extravasamento

  • Infiltração (solução não vesicante): edema, pele fria/pálida, desconforto, redução do fluxo; eritema pode ser discreto. O trajeto venoso pode não estar doloroso como na flebite.
  • Extravasamento (vesicante/irritante): dor/queimação, edema, alteração de cor, possível bolha/necrose (dependendo do agente). É uma urgência conforme protocolo do medicamento.
  • Flebite: calor e eritema mais típicos, dor ao longo da veia, cordão venoso; edema pode existir, mas o padrão é inflamatório venoso.

Ponto prático: pele fria e pálida sugere infiltração; pele quente e avermelhada sugere flebite (avaliar sempre o conjunto e o tipo de infusão).

Flebite vs alergia/dermatite ao adesivo/antisséptico

  • Alergia/dermatite: prurido importante, placas eritematosas com bordas compatíveis com o formato do adesivo/filme, possível descamação ou vesículas superficiais; geralmente não há dor no trajeto venoso nem cordão.
  • Flebite: dor e sensibilidade venosa, eritema linear no trajeto, endurecimento.

Ponto prático: se o eritema “imita” o recorte do curativo e coça, pense em dermatite; se dói ao longo da veia, pense em flebite.

Exemplos de registros de enfermagem bem feitos (modelos)

Registros devem ser objetivos, com localização, achados, classificação, condutas, resposta e comunicações. Abaixo, exemplos adaptáveis:

Exemplo 1 — Suspeita inicial (estágio 1) durante infusão

Data/hora: 14/01/2026 10:20. AVP em MSD, dorso da mão, cateter 22G, curativo íntegro e seco. Paciente refere ardor leve no sítio durante infusão de ATB. À inspeção: eritema discreto (≈1 cm) no ponto de inserção, sem edema, sem exsudato. Palpação: sensibilidade local, sem cordão palpável, sem aumento de temperatura importante. Classificação: flebite estágio 1 (conforme escala institucional). Conduta: infusão pausada, sítio reavaliado; optado por remoção do cateter devido a queixa durante ATB. Novo acesso obtido em MSE, 22G, sem intercorrências. Orientado paciente a comunicar dor/ardor. Enfermeiro responsável comunicado.

Exemplo 2 — Flebite estabelecida (estágio 2–3) com medidas locais e monitoramento

Data/hora: 14/01/2026 18:05. AVP em MSE, antebraço, 20G. Queixa de dor 6/10 e sensação de calor no trajeto venoso. Inspeção: eritema linear ~6 cm ao longo da veia + edema leve. Palpação: calor local e endurecimento/cordão venoso palpável. Sem exsudato. SSVV estáveis, afebril. Classificação: flebite estágio 3. Conduta: infusão interrompida e cateter removido; ponta íntegra. Realizada compressa morna conforme protocolo e elevação do membro. Novo acesso instalado em local alternativo para continuidade da terapia. Orientado paciente sobre sinais de piora. Programada reavaliação em 2h e a cada turno. Evento notificado no sistema institucional. Médico assistente comunicado.

Exemplo 3 — Suspeita de componente infeccioso (estágio 4) e escalonamento

Data/hora: 15/01/2026 07:40. Paciente com AVP em MSD, antebraço. Inspeção: eritema extenso (~10 cm), edema moderado e presença de secreção amarelada no sítio; dor intensa à palpação e calor local. Paciente com T=38,2°C. Classificação: flebite estágio 4 / suspeita de infecção relacionada ao cateter. Conduta: infusão interrompida e cateter removido; realizado curativo conforme protocolo. Médico acionado imediatamente; coletadas amostras conforme prescrição/protocolo institucional. Monitorização de sinais vitais iniciada. Registro de notificação de evento e comunicação ao enfermeiro responsável. Paciente orientado e mantido em observação.

Checklist do que não pode faltar no registro

  • Local do acesso (membro e região), calibre do cateter e tempo aproximado de permanência (se disponível).
  • Sinais: dor (com escala), eritema (tamanho), edema, calor, cordão, exsudato.
  • Classificação por estágio/escala institucional.
  • Condutas: pausa/interrupção, remoção, medidas locais, novo acesso, orientações.
  • Comunicações e notificações realizadas.
  • Plano de reavaliação e evolução.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao identificar dor no trajeto venoso acompanhada de eritema durante a infusão em um cateter venoso periférico, qual deve ser a conduta imediata mais adequada para prevenir progressão da flebite?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Dor associada a eritema é sinal precoce de flebite. A conduta inicial é pausar/interromper a infusão e avaliar o sítio e o trajeto venoso, classificando o estágio para definir medidas e necessidade de remoção do cateter.

Próximo capitúlo

Prevenção e manejo de infiltração e extravasamento: identificação precoce e condutas seguras

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