Conceito e importância das infecções relacionadas à assistência (IRAS) no pós-operatório
Infecção no sítio cirúrgico (ISC) é a infecção que ocorre na incisão, nos tecidos manipulados ou em cavidades/órgãos abordados durante a cirurgia, geralmente dentro de 30 dias do procedimento (ou até 90 dias/1 ano em alguns casos com implantes, conforme protocolo institucional). No pós-operatório, a enfermagem tem papel central em reconhecer precocemente sinais sugestivos, reduzir fatores de risco modificáveis e acionar rapidamente a equipe diante de sinais críticos.
Além da ISC, outras IRAS frequentes no pós-operatório incluem infecção relacionada a cateter venoso (periférico ou central), infecção do trato urinário associada a sonda vesical, pneumonia associada à assistência e infecções por microrganismos multirresistentes por transmissão cruzada. A prevenção depende de práticas consistentes: higiene de mãos, técnica asséptica e manejo seguro de dispositivos.
Sinais de infecção: o que observar e como registrar
Sinais locais na ferida operatória
- Calor local persistente ou em aumento.
- Rubor (vermelhidão) que se expande, com bordas mal definidas ou progressão ao longo das horas/dias.
- Dor desproporcional ao esperado, nova ou em piora após período de melhora.
- Edema endurecido (induração) e sensibilidade aumentada.
- Secreção purulenta (espessa, amarelada/esverdeada, com odor forte) ou drenagem turva.
- Deiscência (abertura) parcial/total da incisão, principalmente se associada a exsudato.
- Crepitação ou bolhas/necrose (sinais de gravidade; exigir comunicação imediata).
Sinais sistêmicos
- Febre (conforme protocolo: por exemplo, ≥ 38,0 °C) ou febre persistente.
- Calafrios, tremores, mal-estar importante.
- Taquicardia e/ou hipotensão associadas a suspeita infecciosa (sinais de possível sepse).
- Alteração do nível de consciência, especialmente em idosos.
- Leucocitose (quando exame disponível) e/ou aumento de marcadores inflamatórios conforme prescrição e rotina.
Registro recomendado: descrever achados de forma objetiva (local, extensão, aspecto, odor, quantidade), usar medidas (cm) quando possível e registrar horário de início/progressão. Evitar termos vagos como “ferida ruim”; preferir “rubor de 3 cm ao redor da incisão, exsudato seropurulento moderado, odor forte, dor 7/10 à palpação”.
Inflamação pós-operatória esperada vs suspeita infecciosa
Algum grau de inflamação é esperado após cirurgia, especialmente nos primeiros dias. O desafio é identificar quando o padrão deixa de ser compatível com cicatrização e passa a sugerir infecção.
| Achado | Mais compatível com inflamação esperada | Mais sugestivo de infecção |
|---|---|---|
| Vermelhidão | Leve, localizada na linha da incisão, sem progressão | Expansiva, com bordas irregulares, calor importante |
| Edema | Leve a moderado, reduzindo gradualmente | Induração crescente, tensão local, dor à palpação |
| Dor | Melhora progressiva com o tempo | Piora após melhora inicial ou dor desproporcional |
| Secreção | Pequena quantidade serosa/serossanguinolenta inicial | Purulenta, turva, com odor, aumento do volume |
| Temperatura | Afebril ou febrícula transitória conforme protocolo | Febre persistente, calafrios, sinais sistêmicos |
| Ferida | Bordas aproximadas, sem abertura | Deiscência, necrose, bolhas, crepitação |
Exemplo prático: no 2º dia pós-operatório, discreto rubor de 0,5–1 cm ao redor da incisão e pequena drenagem serosa no curativo pode ser esperado. Já no 5º dia, rubor que aumentou para 4 cm, com calor, dor em piora e secreção turva sugere suspeita infecciosa e requer avaliação imediata.
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Medidas de prevenção: práticas essenciais no cuidado diário
1) Higiene de mãos: quando e como reforçar
A higiene de mãos é a medida isolada mais efetiva para reduzir transmissão cruzada. Deve ser realizada conforme os “momentos” institucionais (antes de tocar o paciente, antes de procedimento limpo/asséptico, após risco de exposição a fluidos, após tocar o paciente, após tocar superfícies próximas).
- Álcool gel: preferir quando mãos não estiverem visivelmente sujas; friccionar todas as superfícies por tempo recomendado.
- Água e sabão: usar quando houver sujidade visível, após uso do banheiro e em situações definidas por protocolo (ex.: suspeita de certos patógenos).
- Boas práticas: unhas curtas, sem adornos, atenção a polegares e espaços interdigitais.
2) Técnica asséptica: pontos críticos na rotina
- Preparar material em superfície limpa e organizada, evitando “cruzar” itens limpos com itens potencialmente contaminados.
- Manter campo limpo e reduzir interrupções durante procedimentos.
- Uso correto de EPIs conforme risco (luvas, máscara, avental), lembrando que luvas não substituem higiene de mãos.
- Não reutilizar itens de uso único e respeitar validade/integração de embalagens.
3) Cuidados com acessos venosos (periféricos e centrais): prevenção de infecção relacionada a cateter
Infecções associadas a cateter podem evoluir rapidamente. A prevenção depende de manutenção adequada e avaliação diária da necessidade do dispositivo.
- Avaliar o sítio a cada turno: dor, rubor, calor, endurecimento, secreção, extravasamento, integridade do curativo.
- Manter conexões íntegras: minimizar desconexões; desinfetar conectores/portas conforme protocolo antes de acessar.
- Curativo do cateter: manter limpo, seco e bem aderido; trocar se úmido, sujo, descolando ou conforme rotina institucional.
- Fixação: evitar tração e micro-movimentos que favorecem flebite e colonização.
- Necessidade diária: sinalizar para remoção quando não houver indicação clínica.
Sinais de alerta em cateter: flebite importante, secreção no ponto de inserção, febre sem foco aparente, calafrios durante infusão, dor intensa no trajeto venoso. Esses achados exigem comunicação rápida e condutas conforme protocolo (ex.: suspensão de infusão, avaliação médica, possível coleta de culturas).
4) Manejo de curativos e proteção do sítio cirúrgico
O objetivo é reduzir contaminação, manter ambiente adequado de cicatrização e identificar precocemente alterações. Além da técnica, a prevenção inclui manter o curativo seco, orientar o paciente a não manipular a ferida e evitar umidade prolongada.
- Manter curativo limpo e seco; trocar imediatamente se saturado, úmido ou descolado.
- Evitar manipulação desnecessária da ferida e do curativo.
- Observar pele ao redor: maceração por umidade, dermatite por adesivo, lesões por fricção (podem simular rubor infeccioso).
- Controle de contaminação: descarte correto de materiais e higiene de mãos antes e após o cuidado.
5) Educação do paciente e família: prevenção após alta e autocuidado
Parte relevante das ISC é identificada após a alta. A enfermagem deve orientar sinais de alerta e cuidados práticos, usando linguagem simples e checando compreensão.
- O que observar em casa: aumento de vermelhidão, calor, dor em piora, secreção turva/purulenta, mau cheiro, abertura dos pontos, febre/calafrios.
- Cuidados com a ferida: manter limpa e seca conforme orientação; não aplicar pomadas/soluções sem prescrição; não retirar crostas.
- Higiene: banho conforme liberado; secar com toque suave; trocar curativo conforme prescrito.
- Quando procurar serviço: febre conforme critério institucional, secreção purulenta, dor intensa, sangramento importante, mal-estar progressivo.
- Adesão: reforçar uso correto de antibiótico se prescrito (horários, não interromper por conta própria).
Exemplo de checagem de entendimento: pedir ao paciente para repetir com as próprias palavras “quais sinais na ferida fariam você procurar o hospital” e “como manter o curativo em casa”.
Coleta de material quando indicada por protocolo: passo a passo prático
A coleta inadequada pode gerar falso-negativo, contaminar amostras e atrasar condutas. Sempre seguir protocolo institucional e prescrição. Em geral, coleta-se material antes de iniciar antibiótico, quando possível e seguro.
Coleta de secreção/ferida (quando houver indicação)
- Confirmar indicação: presença de secreção purulenta, deiscência com exsudato, suspeita clínica de ISC, conforme protocolo.
- Preparar material: swab estéril com meio de transporte, soro fisiológico estéril (se indicado), gaze estéril, EPIs, etiqueta de identificação, requisição.
- Higiene de mãos e paramentação conforme risco.
- Expor a área minimizando contaminação do campo.
- Se houver crostas/exsudato superficial: remover suavemente o excesso superficial com técnica estéril, se protocolo permitir, para coletar material mais representativo.
- Coletar do local adequado: preferir área de maior suspeita (ex.: base da ferida, ponto de drenagem), evitando apenas “varrer” pele íntegra ao redor.
- Acondicionar e identificar imediatamente: nome, registro, local anatômico, data/hora, antibiótico em uso (se aplicável).
- Enviar rapidamente ao laboratório conforme tempo/condições de transporte.
- Registrar no prontuário: motivo, aspecto da secreção, local, horário, intercorrências e para quem foi comunicado.
Observação importante: quando houver dreno, a coleta deve seguir protocolo específico. Em muitos serviços, evita-se coletar de bolsa/coletor por risco de contaminação; pode haver técnica padronizada para coleta do ponto apropriado.
Hemoculturas (quando indicadas)
Podem ser indicadas em febre com suspeita de bacteremia/sepse, calafrios importantes, instabilidade clínica ou suspeita de infecção relacionada a cateter, conforme protocolo e prescrição.
- Confirmar prescrição e número de pares de hemoculturas conforme rotina.
- Higiene de mãos e técnica rigorosamente asséptica.
- Antissepsia do sítio de punção e das tampas dos frascos conforme protocolo (tempo de contato do antisséptico).
- Coletar volume adequado (volume insuficiente reduz sensibilidade).
- Identificar frascos corretamente (local, horário, se coleta periférica e/ou de cateter quando indicado).
- Enviar imediatamente e registrar.
Comunicação rápida e escalonamento: quando acionar a equipe sem demora
Alguns achados exigem comunicação imediata ao enfermeiro responsável e ao time médico, seguindo fluxo institucional (incluindo CCIH quando aplicável). A comunicação deve ser objetiva, com dados essenciais e evolução temporal.
Sinais críticos para escalonamento imediato
- Secreção purulenta abundante associada a dor intensa, rubor expansivo ou deiscência.
- Febre persistente com calafrios ou piora do estado geral.
- Hipotensão, taquicardia importante, extremidades frias, confusão mental (suspeita de sepse).
- Necrose, bolhas, crepitação ou dor desproporcional (suspeita de infecção grave de partes moles).
- Sinais de infecção relacionada a cateter com repercussão sistêmica (calafrios durante infusão, febre sem foco, secreção no sítio).
Modelo prático de comunicação (estrutura tipo SBAR)
S (Situação): “Paciente no DPO 4, com ferida operatória apresentando secreção purulenta e febre.” B (Background): “Cirurgia abdominal, sem antibiótico em uso; curativo trocado hoje por saturação.” A (Avaliação): “Rubor 4 cm ao redor da incisão, calor local, dor 8/10, exsudato seropurulento moderado com odor; T 38,3°C; calafrios.” R (Recomendação): “Solicito avaliação imediata e orientação para coleta de cultura/hemoculturas conforme protocolo e conduta antibiótica.”Ao comunicar, incluir: horário de início, tendência (piora/melhora), intervenções já realizadas (ex.: troca de curativo por saturação), alergias relevantes e se há dispositivos invasivos.
Outras IRAS no pós-operatório: sinais de alerta e prevenção focada
Infecção do trato urinário associada a cateter (quando houver)
- Sinais: febre sem foco, dor suprapúbica, urina turva e com odor forte (lembrando que alterações isoladas de odor/cor não confirmam infecção), desconforto, piora clínica.
- Prevenção: manter sistema fechado, evitar desconexões, higiene de mãos antes de manipular, fixação adequada, manter coletor abaixo do nível da bexiga, esvaziar com técnica limpa e recipiente exclusivo.
Pneumonia associada à assistência
- Sinais: febre, tosse produtiva, secreção respiratória purulenta, piora de oxigenação, prostração.
- Prevenção: higiene de mãos, etiqueta respiratória, cuidados com equipamentos e circuitos conforme protocolo, incentivo à higiene oral quando aplicável e medidas prescritas pela equipe.
Transmissão cruzada e microrganismos multirresistentes
- Risco: contato com superfícies e mãos contaminadas, falhas em precauções.
- Prevenção: higiene de mãos consistente, precauções de contato/gotículas/aerossóis conforme sinalização, limpeza de equipamentos compartilhados entre pacientes, educação do paciente/família sobre não circular com aventais/luvas fora do quarto quando aplicável.