Prevenção de erros de medicação no cálculo: barreiras, dupla checagem e análise de plausibilidade

Capítulo 12

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Barreiras práticas para prevenir erros de medicação no cálculo

Erros de cálculo raramente acontecem por “não saber fazer conta”; eles surgem quando uma etapa de verificação falha (unidade, escala, leitura do rótulo, plausibilidade clínica, conferência independente). A forma mais eficaz de reduzir risco é estruturar o preparo como um conjunto de barreiras sucessivas: se uma falhar, outra deve capturar o erro antes da administração.

Barreira 1 — Validação por unidades (análise dimensional)

A análise dimensional é uma checagem de coerência: as unidades devem “se cancelar” até restar exatamente a unidade do que você quer administrar (mL, mg, mcg/min, mL/h etc.). Se sobrar unidade errada (por exemplo, mg², mL/mg), há erro no caminho.

Como aplicar (passo a passo):

  • Defina a saída: o que você precisa no final? Ex.: mL a aspirar, mL/h na bomba, mg total.
  • Escreva a prescrição com unidade: ex.: 500 mcg.
  • Escreva a apresentação/concentração com unidade: ex.: 1 mg/mL (ou 1000 mcg/mL).
  • Monte a fração para cancelar unidades: escolha a forma que elimina o que não quer e deixa a unidade final.
  • Cheque o “resto”: a unidade final precisa bater com a saída definida.

Exemplo rápido (detecção de troca mg↔mcg):

Prescrito: 500 mcg. Frasco: 1 mg/mL.

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500 mcg × (1 mL / 1 mg)

As unidades não cancelam (mcg com mg). Você é obrigado a converter para alinhar unidades, o que evita administrar 500 mg por engano.

Forma correta:

500 mcg × (1 mg / 1000 mcg) × (1 mL / 1 mg) = 0,5 mL

Barreira 2 — Estimativa de ordem de grandeza (sanity check numérico)

Antes de finalizar, faça uma estimativa aproximada (sem calculadora, quando possível) para saber se o resultado está na “escala certa”. Essa barreira captura erros de ponto decimal, zeros a mais/menos e conversões equivocadas.

Como aplicar (passo a passo):

  • Arredonde mentalmente números para facilitar (ex.: 0,96 → 1; 4,8 → 5).
  • Use relações simples (metade, dobro, 10×, 100×).
  • Compare o resultado exato com a estimativa: se diferir por 10× ou 100×, pare e revise.

Exemplo (ponto decimal):

Você calcula volume para administrar 0,25 mg de um medicamento 1 mg/mL.

Estimativa: se é 1 mg em 1 mL, então 0,25 mg deve ser cerca de 1/4 de mL → ~0,25 mL. Se o cálculo der 2,5 mL ou 0,025 mL, há forte suspeita de erro de casa decimal.

Barreira 3 — Comparação com doses usuais (quando disponível)

Quando houver referência local (protocolos institucionais, diretrizes do serviço, tabela de doses usuais do próprio hospital), compare a dose calculada com a faixa esperada. Essa barreira não substitui a prescrição, mas identifica valores implausíveis para aquele paciente/indicação.

Como aplicar (passo a passo):

  • Identifique a unidade clínica relevante: dose por administração, dose diária, taxa por hora/minuto.
  • Compare com a faixa usual do protocolo do serviço (se existir).
  • Se estiver fora da faixa, não “ajuste” por conta própria: interrompa o processo e valide com prescritor/farmácia/enfermagem responsável conforme fluxo institucional.

Exemplo (plausibilidade por faixa): se uma dose típica é da ordem de microgramas e o seu resultado final está em miligramas, isso sugere erro de escala (1000×) mesmo antes de olhar o rótulo.

Barreira 4 — Conferência independente (dupla checagem efetiva)

Dupla checagem só funciona quando é independente: o segundo profissional não deve ver seu resultado antes de fazer o próprio cálculo e leitura do rótulo. “Confirmar” um número já dito tende a reproduzir o mesmo erro.

Modelo prático de dupla checagem independente:

  • Profissional A: interpreta prescrição, seleciona apresentação, faz o cálculo e registra sem verbalizar o resultado.
  • Profissional B: repete do zero: prescrição → rótulo → cálculo → resultado.
  • Comparação: só então os resultados são comparados. Se divergirem, ambos revisam as etapas (não apenas a conta final).
  • Itens mínimos a checar: paciente certo, medicamento certo, concentração/apresentação certa, via certa, dose/taxa certa, diluente/volume final certo, velocidade certa, compatibilidade/estabilidade conforme rotina local.

Quando priorizar dupla checagem: medicamentos de alto risco, pediatria/neonatologia, doses muito pequenas (microvolumes), infusões contínuas, reconstituições complexas, mudanças de concentração e situações de urgência com alta carga cognitiva.

Barreira 5 — Padronização de concentrações e redução de variabilidade

Padronizar concentrações (quando permitido por protocolo) reduz a chance de confundir apresentações e facilita a conferência. Variabilidade (cada profissional preparando uma concentração diferente) aumenta risco de programação errada de bomba e de troca de seringas/bolsas.

Práticas de padronização (aplicáveis conforme política institucional):

  • Concentrações padrão por unidade (UTI, pediatria, centro cirúrgico) e por medicamento.
  • Rótulos internos com campos fixos: concentração final, quantidade total de fármaco, volume final, diluente, data/hora, responsável.
  • Uso de seringas/bolsas padronizadas para infusões (ex.: volumes finais fixos).
  • Biblioteca de drogas na bomba (quando disponível) alinhada às concentrações padrão.

Erros frequentes: casos demonstrativos e como detectar antes de administrar

Caso 1 — Troca mg ↔ mcg (erro 1000×)

Cenário: prescrição 200 mcg. Ampola: 1 mg/mL.

Erro típico: tratar 200 mcg como 200 mg ou como 0,2 mg sem converter corretamente.

Como detectar com barreiras:

  • Unidades: se você não converte mcg↔mg, a conta “não fecha” dimensionalmente.
  • Ordem de grandeza: 200 mcg é 0,2 mg; se o volume calculado for centenas de mL ou dezenas de mL para uma ampola concentrada, é implausível.
  • Dose usual: se o medicamento costuma ser prescrito em microgramas, resultado em miligramas acende alerta.

Correção (estrutura de cálculo):

200 mcg × (1 mg / 1000 mcg) = 0,2 mg; 0,2 mg ÷ (1 mg/mL) = 0,2 mL

Caso 2 — Ponto decimal e zero à esquerda/direita

Cenário: dose pretendida 0,4 mg e alguém lê/lança como 4 mg (10×) ou 0,04 mg (10× menor).

Como detectar com barreiras:

  • Ordem de grandeza: pergunte “faz sentido ser 10× maior/menor?” antes de preparar.
  • Comparação com dose usual: se a faixa típica é próxima de 0,x mg, 4 mg foge do padrão.
  • Dupla checagem: o segundo profissional deve ler a prescrição original, não a transcrição.

Medidas práticas:

  • Evitar zero à direita (ex.: escrever 1,0 mg) quando isso for fonte de confusão local; preferir 1 mg.
  • Usar zero à esquerda para doses <1 (ex.: 0,4 mg) para evitar leitura como 4 mg.

Caso 3 — Interpretação errada do rótulo (quantidade total vs concentração)

Cenário: frasco-ampola rotulado como 500 mg/10 mL. Alguém interpreta como 500 mg/mL.

Como detectar com barreiras:

  • Unidades: o rótulo traz dois números; você precisa transformar em mg/mL antes de usar em regra de três.
  • Ordem de grandeza: 500 mg/mL seria extremamente concentrado para muitas apresentações; 500 mg em 10 mL sugere 50 mg/mL.
  • Dupla checagem: o segundo profissional deve ler o rótulo diretamente e verbalizar “quantidade total no frasco” e “volume total”.

Correção:

500 mg / 10 mL = 50 mg/mL

Caso 4 — Confusão entre apresentações/concentrações diferentes do mesmo medicamento

Cenário: existem ampolas de 10 mg/2 mL e de 50 mg/10 mL. Ambas resultam em 5 mg/mL, mas outras vezes apresentações diferentes geram concentrações diferentes e o erro passa despercebido.

Como detectar com barreiras:

  • Padronização: usar sempre a apresentação definida pelo serviço reduz troca.
  • Leitura ativa do rótulo: confirmar “X mg em Y mL” e calcular mg/mL antes de aspirar.
  • Dupla checagem: checar se a ampola selecionada é a mesma prevista no cálculo.

Prática recomendada: no rascunho do cálculo, registrar explicitamente: Apresentação utilizada: ___ mg/___ mL (lote/ampola).

Caso 5 — Confusão de concentração após diluição/reconstituição (usar a concentração errada)

Cenário: após preparar uma seringa/bolsa, alguém calcula a taxa usando a concentração da ampola original, não a concentração final preparada.

Como detectar com barreiras:

  • Unidades: a taxa deve usar a concentração final (mg/mL ou mcg/mL) do que está na seringa/bolsa.
  • Padronização e rotulagem: rótulo deve destacar concentração final e quantidade total.
  • Dupla checagem: o segundo profissional confere se a concentração usada na conta é a mesma do rótulo do preparo.

Sinal de alerta: se a taxa calculada parece “boa demais” (muito baixa/alta) para a dose pretendida, revisar qual concentração foi usada.

Análise de plausibilidade: perguntas rápidas antes de administrar

  • Escala: estou em mg quando deveria estar em mcg (ou vice-versa)?
  • Volume: o volume a aspirar é compatível com a seringa disponível (não exige microvolume impraticável sem técnica/equipamento)?
  • Tempo: a taxa em mL/h faz sentido para o volume total e duração prevista (não vai acabar em minutos quando deveria durar horas)?
  • Concentração: usei a concentração final do preparo (seringa/bolsa) e não a da ampola?
  • Rótulo: interpretei corretamente “X mg em Y mL” e não confundi com mg/mL?

Protocolo de auditoria do próprio cálculo (revisão em 7 passos)

  1. Releitura da prescrição: dose, unidade, via, intervalo/tempo de infusão, paciente/peso (se aplicável) e indicação.
  2. Identificação da apresentação: registrar exatamente como está no rótulo (quantidade total e volume total).
  3. Definição do objetivo: o que será produzido/administrado (mL a aspirar, mL/h, mg total, mcg/min etc.).
  4. Montagem do cálculo com unidades: escrever a conta de forma que as unidades se cancelem até a unidade final desejada.
  5. Checagem de ordem de grandeza: estimativa mental e comparação (procure discrepâncias de 10×/100×/1000×).
  6. Plausibilidade clínica: comparar com faixa usual/protocolo quando disponível e com o contexto (idade, peso, função renal/hepática, via).
  7. Conferência final do preparo: rótulo do que foi preparado (concentração final, volume final, data/hora, responsável) e correspondência com o que será programado/administrado.

Checklist imprimível (cálculo seguro antes da administração)

ItemVerificaçãoOK
1. PrescriçãoLi diretamente a prescrição original (dose, unidade, via, tempo/taxa)
2. Unidade-alvoDefini a unidade final necessária (mL, mL/h, mg, mcg/min)
3. RótuloRegistrei “X mg em Y mL” (não presumi mg/mL)
4. Concentração usadaUsei a concentração correta (ampola vs preparo final)
5. Análise dimensionalAs unidades se cancelam e sobra exatamente a unidade final
6. Ordem de grandezaEstimativa mental bate com o resultado (sem diferença 10×/100×/1000×)
7. PlausibilidadeResultado compatível com dose usual/protocolo (quando disponível)
8. Apresentação corretaConfirmei que a ampola/frasco selecionado é o mesmo do cálculo
9. Rotulagem do preparoConcentração final, quantidade total, volume final, diluente, data/hora, responsável
10. Dupla checagemOutro profissional refez de forma independente e concordou
11. ProgramaçãoTaxa/volume/tempo na bomba ou volume aspirado conferem com o cálculo
12. Pausa de segurançaSe algo “parece estranho”, parei e revisei antes de administrar

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Para que a dupla checagem seja efetiva na prevenção de erros de cálculo e preparo de medicamentos, qual prática é essencial?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A dupla checagem precisa ser independente: o segundo profissional deve repetir prescrição → rótulo → cálculo sem ver o resultado do primeiro. Só depois os resultados são comparados, reduzindo a chance de repetir o mesmo erro.

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