O que é precificação por projeto (e por que ela protege sua lucratividade)
Precificação por projeto é definir um valor fechado para entregar um resultado específico (ex.: organizar um closet completo com categorização, setorização e etiquetagem), considerando todos os custos e riscos envolvidos. Diferente de “cobrar pelo tempo”, aqui você vende uma entrega com escopo, prazo e condições claras. Isso reduz discussões sobre velocidade, evita que o cliente compare seu trabalho com “faxina por hora” e permite incluir custos invisíveis (planejamento, deslocamento, compra de materiais, impostos e retrabalho).
Para precificar bem, você precisa transformar seu serviço em números: custo, capacidade de atendimento, risco e margem. O objetivo é que cada projeto pague: (1) seu tempo produtivo e improdutivo, (2) custos diretos, (3) custos indiretos, (4) impostos e (5) lucro.
Componentes do preço: o que entra na conta
1) Tempo (produtivo e improdutivo)
- Tempo produtivo: horas no local executando a organização.
- Tempo improdutivo (que precisa ser pago): briefing, planejamento, lista de compras, deslocamento, comunicação, pós-atendimento (ajustes, envio de orientações, prestação de contas de compras).
Regra prática: se você cobra apenas as horas “na casa”, você tende a trabalhar muitas horas sem receber por elas.
2) Complexidade
Complexidade é o fator que altera produtividade e risco. Alguns exemplos de fatores que aumentam complexidade:
- Alto volume de itens por m² (acúmulo).
- Muitos itens pequenos e misturados (miudezas, papelaria, cosméticos).
- Necessidade de triagem intensa e decisões do cliente.
- Espaço com limitações físicas (armários profundos, falta de prateleiras, pouca iluminação).
- Exigência estética alta (padronização, categorias finas, etiquetagem completa).
Você pode aplicar complexidade como: (a) multiplicador sobre horas estimadas, (b) adicional fixo, ou (c) faixa de preço por nível (básico, intermediário, avançado).
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3) Deslocamento
- Custo: combustível, pedágio, estacionamento, transporte público.
- Tempo: ida e volta (que reduz sua capacidade de atender outros clientes).
Modelos comuns: taxa fixa por raio (ex.: até 10 km, 10–20 km, acima de 20 km) ou valor por km + valor por hora de deslocamento.
4) Materiais e consumíveis
Inclua o que você usa e não retorna: etiquetas, fitas, sacos, panos, marcadores, caixas de descarte, protetores, etc. Mesmo que o valor unitário seja baixo, o volume ao longo do mês impacta.
5) Ajudantes/assistentes
Se você contrata apoio, o projeto precisa cobrir:
- Diária/hora do ajudante.
- Encargos (se aplicável) e custos de transporte/alimentação combinados.
- Seu tempo de coordenação (liderar também é trabalho).
6) Impostos e taxas
Considere o regime tributário e taxas de meios de pagamento (cartão, link, parcelamento). Uma forma simples é trabalhar com um percentual médio de impostos e taxas sobre o faturamento do projeto.
7) Margem (lucro)
Margem é o que sobra depois de pagar todos os custos e impostos. Ela remunera seu risco, sua experiência e permite reinvestimento (treinamentos, ferramentas, marketing, períodos sem demanda). Sem margem, você está apenas “trocando tempo por dinheiro” com alto desgaste.
Passo a passo para calcular o preço por projeto
Passo 1 — Defina sua taxa-base (hora interna)
Mesmo cobrando por projeto, você precisa de uma referência por hora para estimar. Uma forma prática:
- Some seus custos fixos mensais (internet, telefone, softwares, transporte médio, contabilidade, marketing, equipamentos, etc.).
- Defina seu pró-labore desejado (quanto você quer receber).
- Some uma reserva para imprevistos e investimento.
- Divida pelo número de horas faturáveis do mês (não confunda com horas trabalhadas).
taxa_hora_base = (custos_fixos_mensais + pro_labore + reserva) / horas_faturaveis_mesHoras faturáveis são as horas que você consegue vender. Ex.: se você trabalha 160h/mês, talvez só 80–110h sejam vendáveis (o resto vira administrativo, deslocamento, prospecção).
Passo 2 — Estime horas do projeto (com buffer)
Faça uma estimativa realista de:
- Horas no local (execução).
- Horas de preparação (planejamento, lista de compras).
- Horas de pós (prestação de contas, ajustes combinados).
Inclua um buffer (margem de segurança) para variações: 10% a 30%, conforme complexidade e nível de incerteza.
horas_totais = (horas_execucao + horas_planejamento + horas_pos) * (1 + buffer)Passo 3 — Aplique complexidade (se fizer sentido)
Se você usa multiplicador:
- Básico: 1,0
- Intermediário: 1,15
- Avançado: 1,30
horas_ajustadas = horas_totais * multiplicador_complexidadePasso 4 — Some custos diretos do projeto
- Deslocamento (custo + tempo, se você cobra).
- Consumíveis.
- Ajudantes.
- Estacionamento/pedágio.
custos_diretos = deslocamento + consumiveis + ajudantes + taxas_locaisPasso 5 — Calcule o subtotal do serviço
subtotal_servico = horas_ajustadas * taxa_hora_base + custos_diretosPasso 6 — Inclua impostos/taxas e margem
Há duas formas comuns:
- Margem “por dentro”: você define o preço final para que, depois de impostos, sobre sua margem.
- Margem “por fora”: você soma um percentual ao subtotal (mais simples, porém menos preciso se impostos forem sobre faturamento).
Modelo simples (por fora):
preco_final = subtotal_servico * (1 + margem) * (1 + impostos_e_taxas)Modelo mais fiel quando impostos incidem sobre o faturamento (por dentro):
preco_final = subtotal_servico / (1 - margem - impostos_e_taxas)Importante: use percentuais realistas e compatíveis com seu regime e meios de pagamento. Se você parcela no cartão, inclua a taxa do parcelamento.
Exemplo numérico (simplificado)
| Item | Valor |
|---|---|
| Taxa hora base | R$ 120 |
| Horas execução | 10h |
| Planejamento + pós | 2h |
| Buffer 20% | +2,4h |
| Horas totais | 14,4h |
| Complexidade (1,15) | 16,56h |
| Custos diretos (deslocamento + consumíveis) | R$ 180 |
| Subtotal serviço | 16,56 × 120 + 180 = R$ 2.167,20 |
Depois você aplica impostos/taxas e margem conforme seu modelo. O objetivo do exemplo é mostrar que o preço por projeto nasce de uma estrutura, não de “chute”.
Cobrar por hora, por diária ou por projeto fechado: diferenças e critérios
Cobrança por hora
Quando faz sentido:
- Demandas pequenas e bem delimitadas (ex.: 2–4 horas).
- Quando o cliente quer “testar” o serviço.
- Quando há muita incerteza e o cliente aceita pagar pelo tempo.
Riscos: o cliente pode interpretar que “mais rápido = mais barato”, pressionando por velocidade; e você pode subestimar tempo improdutivo.
Cobrança por diária
Quando faz sentido:
- Projetos médios em que a execução ocupa um dia inteiro.
- Quando o deslocamento é relevante e você precisa garantir o bloqueio da agenda.
Boa prática: defina o que é “diária” em horas (ex.: até 8h) e como funciona hora extra.
Cobrança por projeto fechado
Quando faz sentido:
- Projetos com escopo claro (ambientes definidos, entregáveis definidos).
- Quando você quer previsibilidade de receita e agenda.
- Quando você já tem histórico para estimar tempo com mais precisão.
Riscos: se o escopo não estiver bem escrito, você pode absorver retrabalho e “itens extras” sem cobrar.
Como escolher o modelo (checklist rápido)
- Escopo está claro? Se sim, projeto fechado tende a ser melhor.
- Há muitas variáveis fora do seu controle? Hora/diária pode reduzir risco (ou projeto com cláusulas de escopo e hora extra).
- Deslocamento é alto? Diária ou projeto fechado com taxa de deslocamento.
- Cliente quer previsibilidade? Projeto fechado com orçamento detalhado.
- Você tem dados de produtividade? Quanto mais dados, mais seguro é fechar projeto.
Construção de pacotes: por ambiente, por metragem e por horas
Pacotes por ambiente (mais fácil de entender)
Você define entregáveis e uma faixa de preço por ambiente. Exemplo de estrutura:
- Closet/guarda-roupa: triagem + categorização + setorização + dobras/pendurar + etiquetagem básica.
- Cozinha/despensa: setorização por uso + validade + contenção + etiquetagem.
- Home office/documentos: categorias + descarte + arquivamento + rotulagem.
Como precificar: crie uma “tabela interna” de horas médias por ambiente em três níveis (básico/intermediário/avançado). O cliente vê o pacote; você usa a tabela para não perder margem.
Pacotes por metragem (bom para casas maiores, exige critério)
Funciona melhor quando a metragem se relaciona com volume e esforço (nem sempre se relaciona). Use com cautela e inclua ressalvas de volume.
- Defina faixas (ex.: até 60 m², 61–120 m², acima de 120 m²).
- Amarre a metragem a um número de ambientes e a um limite de volume (ex.: “sem acúmulo severo”).
Pacotes por horas (blocos pré-pagos)
Você vende blocos (ex.: 10h, 20h) com regras claras.
- Vantagem: flexível e reduz discussão de escopo.
- Cuidados: defina validade do pacote, política de reagendamento e o que acontece se sobrar ou faltar horas.
Boa prática: blocos maiores podem ter valor/hora ligeiramente menor, desde que sua margem esteja preservada.
Como evitar “pacote genérico” que dá prejuízo
- Inclua limites (ex.: quantidade de armários, gavetas, prateleiras, ou “até X horas”).
- Defina o que é extra (ex.: desmontar móveis, descarte externo, montagem de organizadores complexos, limpeza pesada).
- Use faixas em vez de preço único quando o volume varia muito.
Como apresentar o orçamento de forma transparente (sem abrir sua planilha)
Transparência não significa mostrar todos os seus custos internos; significa o cliente entender o que está comprando, o que está incluído e quais são as regras.
Estrutura recomendada de orçamento
- Escopo: ambientes incluídos e entregáveis (o que será feito).
- Formato: projeto fechado / diária / horas (e quantas).
- Cronograma: datas previstas, duração estimada e dependências (ex.: presença do cliente para decisões).
- O que não está incluído: itens fora do escopo e serviços adicionais.
- Materiais/organizadores: como será a compra e cobrança (ver políticas abaixo).
- Investimento e condições de pagamento: valor, sinal, parcelas, forma de pagamento.
- Políticas: reagendamento, cancelamento, hora extra, validade de pacotes, etc.
Modelo de texto (adaptável) para “inclui / não inclui”
Inclui: triagem orientada, categorização, setorização, organização física, etiquetagem básica e orientação de manutenção no final do atendimento. 1 visita de ajuste de até 30 minutos (online) em até 7 dias após o término, se necessário. Não inclui: limpeza pesada, descarte externo (ecoponto/doação), montagem/desmontagem de móveis, compra de organizadores com pagamento antecipado pela profissional (ver política de compras), reparos e serviços de marcenaria.Políticas essenciais: sinal, reagendamento, horas extras e compras
1) Sinal (reserva de agenda)
O sinal reduz faltas e protege sua agenda. Defina:
- Percentual/valor: ex.: 30% a 50% do projeto (ou 100% da primeira diária).
- Quando é pago: para confirmar data.
- Reembolso: em quais condições devolve ou não devolve.
Boa prática: sinal é “taxa de reserva” e pode ser abatido do total, mas com regras claras em caso de cancelamento.
2) Reagendamento e cancelamento
Defina janelas e consequências. Exemplo de política (ajuste à sua realidade):
- Reagendamento sem custo: com aviso mínimo de 72h, sujeito à disponibilidade.
- Reagendamento com taxa: com aviso entre 48h e 72h (taxa administrativa ou perda parcial do sinal).
- Cancelamento em cima da hora: perda do sinal (ou cobrança de percentual), pois você bloqueou agenda e recusou outros trabalhos.
Inclua também o que acontece se você precisar reagendar (ex.: oferecer nova data prioritária e manter condições).
3) Horas extras (quando o projeto estoura)
Mesmo em projeto fechado, pode haver aumento de escopo ou condições não previstas (volume muito maior, itens extras, mudança de ambiente). Para evitar conflito:
- Defina um valor de hora extra (normalmente maior que a hora “embutida” no projeto, pois é demanda não planejada).
- Defina gatilhos para hora extra: inclusão de novo ambiente, aumento de volume, ausência do cliente para decisões, interrupções, etc.
- Combine como aprovar: “hora extra só com autorização por mensagem antes de continuar”.
Hora extra: R$ X por hora, cobrada em blocos de 30 minutos, mediante aprovação do cliente durante o atendimento.4) Política de compra de organizadores e materiais (reembolso, taxa de curadoria e nota)
Compras são um ponto sensível porque envolvem dinheiro, escolha de produtos e tempo de pesquisa. Estruture assim:
Opção A — Cliente compra diretamente (mais simples)
- Você envia lista com especificações (medidas, quantidades, links sugeridos).
- O cliente compra e deixa disponível no dia do atendimento.
Vantagem: você não antecipa dinheiro. Risco: cliente compra errado; defina que trocas/ajustes podem gerar hora extra.
Opção B — Você faz a curadoria e o cliente paga antecipado
- Você envia orçamento de itens + taxa de curadoria (se aplicável).
- Cliente paga antes da compra.
- Você compra e apresenta comprovantes/notas.
Taxa de curadoria remunera: medir, pesquisar, compatibilizar, selecionar e consolidar itens. Pode ser fixa por ambiente ou percentual sobre o valor dos produtos (deixe claro que não é “comissão escondida”, é serviço).
Opção C — Você compra e reembolsa depois (use com regras rígidas)
- Defina limite de gasto sem aprovação (ex.: até R$ 200).
- Reembolso em até X dias após envio de comprovantes.
- Se o cliente atrasar reembolso, você pode suspender etapas futuras.
Nota fiscal e comprovantes
- Defina se a nota sai no nome do cliente (recomendável quando possível) e como será o envio (PDF/foto).
- Se houver taxa de curadoria, ela deve constar separadamente no seu recibo/nota do serviço.
Trocas e devoluções
Deixe claro quem executa e quem paga o tempo:
- Se o cliente comprou e errou medidas: tempo de ajuste pode virar hora extra.
- Se você comprou com base em medidas fornecidas pelo cliente e houve divergência: alinhe responsabilidade.
- Se a loja entregou errado/defeituoso: defina se você pode intermediar mediante taxa/hora.
Checklist prático para não perder dinheiro em projeto fechado
- Você estimou tempo total incluindo planejamento, deslocamento e pós?
- Você aplicou buffer compatível com a incerteza?
- Complexidade está refletida (multiplicador, adicional ou faixa)?
- Custos diretos (assistente, estacionamento, consumíveis) estão incluídos?
- Impostos e taxas de pagamento estão considerados?
- Escopo e “não inclui” estão escritos?
- Políticas de sinal, reagendamento, hora extra e compras estão anexadas ao orçamento?