O que é marcação a mercado (e por que ela existe)
Marcação a mercado é o processo de atualizar diariamente o valor de um título de renda fixa para refletir o preço pelo qual ele poderia ser negociado naquele momento. Mesmo que o título tenha um valor de face (por exemplo, R$ 1.000 no vencimento) e prometa uma taxa contratada, o preço “de hoje” muda conforme as condições do mercado mudam.
Na prática, isso significa que o seu investimento pode oscilar para cima ou para baixo antes do vencimento, mesmo em produtos que, no vencimento, tendem a entregar o retorno contratado (desde que o emissor pague e você não venda antes). Essa oscilação não é “erro” nem “pegadinha”: é a forma de mostrar o valor econômico atual do fluxo de pagamentos futuro do título.
Uma forma intuitiva de entender: um título é como um contrato que paga dinheiro no futuro. Se, hoje, o mercado passa a exigir uma taxa maior para emprestar dinheiro, um contrato antigo que paga uma taxa menor fica menos atraente e precisa ser vendido com desconto (preço cai). Se o mercado passa a exigir uma taxa menor, o contrato antigo que paga uma taxa maior fica mais atraente e pode ser vendido com ágio (preço sobe).
Precificação: como o preço de um título é formado
Precificação é o cálculo do “preço justo” de um título a partir dos seus fluxos de caixa futuros (pagamentos) trazidos a valor presente por uma taxa de desconto. Em renda fixa, a taxa de desconto é, em geral, a taxa que o mercado exige para títulos semelhantes (prazo, risco, indexação, liquidez).
O raciocínio básico é: preço hoje = soma dos pagamentos futuros descontados. Quanto maior a taxa de desconto, menor o valor presente e, portanto, menor o preço do título.
Continue em nosso aplicativo
Você poderá ouvir o audiobook com a tela desligada, ganhar gratuitamente o certificado deste curso e ainda ter acesso a outros 5.000 cursos online gratuitos.
ou continue lendo abaixo...Baixar o aplicativo
Exemplo conceitual simples (um pagamento único)
Imagine um título que pagará R$ 1.000 daqui a 1 ano. Se o mercado exige 10% ao ano para esse risco e prazo, o preço aproximado hoje seria R$ 1.000 / (1 + 0,10) = R$ 909,09. Se a taxa exigida cair para 8%, o preço sobe para R$ 1.000 / 1,08 = R$ 925,93. Se a taxa exigida subir para 12%, o preço cai para R$ 1.000 / 1,12 = R$ 892,86.
Esse exemplo é propositalmente simples, mas captura a essência: taxa de mercado e preço andam em direções opostas.
Fluxos com cupons (pagamentos periódicos)
Quando o título paga cupons (juros periódicos), a precificação considera vários pagamentos: cupons ao longo do tempo e o principal no vencimento. Cada pagamento é descontado pela taxa de mercado para aquele prazo. Em termos práticos, títulos com cupons tendem a ter comportamento de preço diferente de títulos “zero cupom” (sem cupons), porque parte do retorno é recebida antes, reduzindo a sensibilidade do preço a mudanças de taxa.
Marcação na curva x marcação a mercado
Dois conceitos aparecem com frequência e geram confusão:
- Marcação a mercado: atualiza o valor do título pelo preço negociável hoje, refletindo a taxa exigida pelo mercado no momento.
- Marcação na curva: é uma forma de acompanhar o investimento assumindo que ele será carregado até o vencimento, reconhecendo a rentabilidade de forma “suavizada” ao longo do tempo, sem refletir oscilações de preço do mercado.
Para o investidor pessoa física, o que importa é entender que a oscilação existe e aparece no valor do investimento em muitos extratos e relatórios. Se você pretende vender antes do vencimento, a marcação a mercado deixa de ser apenas “contábil” e vira resultado realizado (ganho ou perda ao vender).
Por que o valor oscila antes do vencimento
O preço de um título muda principalmente por quatro grupos de fatores:
- Variação das taxas de juros de mercado: é o fator mais comum. Quando as taxas sobem, preços caem; quando as taxas caem, preços sobem.
- Passagem do tempo: conforme o vencimento se aproxima, o preço tende a convergir para o valor que será pago no vencimento (ajustado pelos cupons, quando houver). Isso reduz a “incerteza de taxa” ao longo do caminho.
- Risco de crédito e percepção de risco: se o mercado passa a enxergar mais risco no emissor, exige taxa maior, derrubando o preço. Se percebe menos risco, exige taxa menor, elevando o preço.
- Liquidez e condições de negociação: em alguns papéis, a diferença entre preço de compra e venda (spread) pode ser relevante. Em momentos de estresse, o preço de venda pode ficar bem pior do que o valor “teórico”.
Relação inversa entre taxa e preço: como isso aparece no dia a dia
Considere um título prefixado comprado a uma taxa contratada. Se, depois da compra, as taxas prefixadas para prazos semelhantes sobem, seu título “antigo” fica relativamente menos atrativo. Para alguém comprá-lo de você, ele precisa ser vendido mais barato para que o novo comprador consiga uma taxa equivalente à do mercado. O inverso também vale: se as taxas caem, seu título fica mais valioso e pode ser vendido mais caro.
Esse mecanismo é o coração da marcação a mercado e explica por que investimentos de renda fixa podem mostrar “prejuízo” temporário no extrato, mesmo sem inadimplência e mesmo com a taxa contratada intacta.
Sensibilidade do preço: duração (duration) e volatilidade
Nem todo título reage com a mesma intensidade a mudanças de taxa. A sensibilidade depende principalmente do prazo e do formato dos fluxos de pagamento.
- Prazo maior tende a significar maior sensibilidade. Um título com vencimento longo tem pagamentos mais distantes; ao descontar esses pagamentos, uma mudança na taxa afeta mais o valor presente.
- Sem cupons (zero cupom) tende a ser mais sensível do que com cupons, porque todo o dinheiro está concentrado no final.
- Com cupons tende a ser menos sensível, pois parte do retorno é recebida antes.
Em termos técnicos, usa-se o conceito de duração para aproximar o quanto o preço varia quando a taxa varia. Você não precisa calcular duration para tomar boas decisões, mas precisa entender o efeito prático: títulos longos podem oscilar bastante no curto prazo.
Exemplo prático de sensibilidade (intuição)
Dois títulos prefixados: um vence em 1 ano e outro em 10 anos. Se a taxa de mercado sobe 1 ponto percentual, o de 10 anos tende a cair muito mais em preço do que o de 1 ano, porque o desconto maior se aplica por muito mais tempo.
Impacto no valor antes do vencimento: quando vira lucro ou prejuízo de verdade
A oscilação de marcação a mercado só se transforma em resultado efetivo se você vender o título antes do vencimento (ou se houver evento de crédito). Se você carrega até o vencimento, o que tende a importar é a taxa contratada e a capacidade de pagamento do emissor, não o preço intermediário.
Isso cria duas situações típicas:
- Você precisa de liquidez antes do vencimento: a marcação a mercado é crucial, porque o preço no dia da venda determina o resultado.
- Você não precisa vender: a oscilação pode ser ignorada do ponto de vista de realização, mas ainda é útil para entender risco e para comparar oportunidades (por exemplo, se o título valorizou muito, pode fazer sentido rebalancear).
Passo a passo prático: como interpretar a marcação a mercado no seu investimento
1) Identifique o tipo de título e o vencimento
Veja se o título é prefixado, indexado a algum indicador ou híbrido, e qual é o vencimento. O vencimento é determinante para a sensibilidade do preço. Quanto mais longo, maior a chance de oscilações relevantes no meio do caminho.
2) Verifique a taxa contratada (na compra) e a taxa de mercado atual
Procure a taxa que você contratou e compare com a taxa que o mercado está oferecendo hoje para títulos semelhantes (mesmo indexador, prazo parecido, risco semelhante). Se a taxa de mercado atual estiver maior do que a sua, seu título tende a estar marcado com deságio (valor abaixo do esperado na curva). Se estiver menor, tende a estar com ágio.
3) Entenda se o seu extrato mostra “preço” ou “rentabilidade na curva”
Alguns relatórios mostram o valor do título pelo preço de mercado (marcação a mercado). Outros mostram uma rentabilidade acumulada como se fosse carregado até o vencimento (marcação na curva). Se você está avaliando a possibilidade de venda antecipada, precisa olhar o valor marcado a mercado (ou o preço de venda disponível).
4) Simule o cenário de venda: preço de venda, spread e impostos
Mesmo que o “preço teórico” esteja bom, a venda antecipada pode envolver spread (diferença entre preço de compra e venda) e custos. Além disso, o imposto de renda incide sobre o ganho. Para decidir, compare:
- Quanto você receberia líquido se vender hoje.
- Quanto você espera receber se carregar até o vencimento.
- Qual é o custo de oportunidade: existe alternativa melhor hoje para reinvestir, considerando risco e prazo?
5) Classifique a oscilação: é ruído de taxa ou mudança de risco?
Se o preço caiu, pergunte: foi porque as taxas de mercado subiram de forma geral (movimento macro) ou porque o risco do emissor piorou (movimento específico)? A resposta muda a decisão. Se for apenas movimento de taxa e você não precisa vender, pode ser apenas volatilidade temporária. Se for deterioração de crédito, a análise deve ser mais cuidadosa, porque o risco de não receber no vencimento pode ter aumentado.
Exemplo numérico guiado: por que um prefixado pode “dar negativo” no extrato
Suponha que você comprou um título prefixado com vencimento em 5 anos, taxa contratada de 10% ao ano, valor investido de R$ 10.000. Um mês depois, por mudanças no mercado, títulos semelhantes passam a ser negociados a 12% ao ano.
O seu título, que paga 10%, ficou menos atrativo. Para que alguém compre de você e obtenha uma taxa equivalente a 12% ao ano, o preço precisa cair. Seu extrato pode mostrar algo como R$ 9.600 (valor ilustrativo), mesmo que nada tenha “quebrado”. Se você vender nesse momento, você realiza a perda. Se você não vender e carregar até o vencimento, o título tende a convergir para o valor que refletirá a taxa contratada, desde que o emissor pague.
Agora imagine o inverso: as taxas caem para 8% ao ano. Seu título de 10% fica mais valioso, e o preço sobe. Seu extrato pode mostrar R$ 10.500 (valor ilustrativo). Se você vender, realiza o ganho; se não vender, o ganho “de tela” pode diminuir com o tempo conforme o título converge para o valor de vencimento.
Marcação a mercado em títulos indexados: o que muda
Em títulos indexados, há dois componentes: a atualização pelo indexador e a taxa real (ou spread) exigida pelo mercado. Mesmo com correção do indexador, o preço pode oscilar se a taxa real exigida mudar.
Exemplo conceitual: um título que paga “indexador + taxa”. Se o mercado passa a exigir uma taxa maior acima do indexador para aquele prazo, o preço cai. Se passa a exigir uma taxa menor, o preço sobe. Ou seja, a indexação não elimina marcação a mercado; ela apenas muda quais taxas são relevantes na precificação.
Como a marcação a mercado afeta sua estratégia de compra e venda
Comprar e carregar: foco no vencimento, mas com consciência de volatilidade
Se a intenção é carregar até o vencimento, a marcação a mercado não deveria ditar decisões impulsivas. Ainda assim, ela é útil para:
- Evitar escolher prazos longos para dinheiro que pode ser necessário antes.
- Entender que “renda fixa” pode oscilar e, portanto, não é sinônimo de “não varia”.
- Comparar oportunidades: se as taxas subiram muito, novos aportes podem ser feitos em condições melhores, sem precisar vender o que já existe.
Operar antes do vencimento: marcação a mercado vira ferramenta
Se você pretende vender antes do vencimento, a marcação a mercado é parte do jogo. Nesse caso, você está exposto ao risco de taxa: pode precisar vender em um momento em que as taxas subiram e o preço caiu.
Ao mesmo tempo, você pode usar a marcação a mercado a seu favor: se as taxas caírem e o preço subir, pode antecipar ganho vendendo antes do vencimento, desde que faça sentido após impostos e custos e que exista um destino melhor para o dinheiro.
Passo a passo prático: decisão de venda antecipada com base em marcação a mercado
1) Defina o motivo da venda
Venda por necessidade de caixa é diferente de venda por oportunidade. Se é necessidade, o foco é minimizar perdas e escolher o melhor momento possível dentro do seu prazo. Se é oportunidade, o foco é comparar o retorno esperado de manter versus trocar.
2) Calcule o retorno efetivo se vender hoje
Use o preço de venda disponível e estime o ganho ou perda em relação ao que você pagou (considerando também cupons recebidos, se houver). Em seguida, estime o impacto de imposto de renda sobre o ganho.
3) Compare com o retorno esperado de manter até o vencimento
Projete quanto você receberia no vencimento se mantiver o título. Em títulos com indexação, isso envolve hipóteses para o indexador, mas você pode comparar principalmente a taxa adicional contratada versus a taxa adicional oferecida hoje em alternativas semelhantes.
4) Avalie o reinvestimento
Se você vender, para onde vai o dinheiro? Compare a nova taxa disponível no mercado para o prazo que faz sentido para você. Se as taxas subiram, pode ser que vender com perda e reinvestir a uma taxa maior ainda assim seja vantajoso em alguns casos, mas isso depende do tamanho da perda, do prazo restante e do diferencial de taxa.
5) Cheque o risco de crédito e a liquidez
Se a queda de preço estiver ligada a piora de risco do emissor, a decisão não é apenas “esperar voltar”. Você precisa reavaliar a probabilidade de receber no vencimento e a qualidade do emissor, além de considerar que a liquidez pode piorar.
Erros comuns ao lidar com marcação a mercado
- Confundir oscilação com perda definitiva: ver o valor cair no extrato e concluir que “renda fixa deu prejuízo” sem considerar que a perda só se realiza na venda antecipada.
- Comprar prazo longo com dinheiro de curto prazo: isso aumenta a chance de ter que vender em momento ruim, transformando volatilidade em perda.
- Ignorar o spread de negociação: em alguns títulos, o preço de venda pode ser significativamente pior do que o preço “de referência”.
- Tomar decisão olhando apenas rentabilidade passada: o que importa para decidir manter ou trocar é a taxa implícita hoje (o que o mercado está precificando) e o seu objetivo de prazo e liquidez.
- Não considerar impostos ao antecipar ganhos: um ganho de marcação a mercado pode parecer grande, mas o líquido pode mudar a atratividade da troca.
Checklist rápido para acompanhar títulos com marcação a mercado
- Qual é o vencimento e quanto falta para ele?
- Qual é a taxa contratada e qual é a taxa de mercado atual para prazo semelhante?
- O título tem cupons? Isso muda o fluxo de caixa e a sensibilidade.
- Você pode precisar do dinheiro antes do vencimento?
- Se vender hoje, qual é o preço de venda e o valor líquido após impostos?
- A mudança de preço parece vir de taxa geral ou de risco do emissor?
Mini-guia: como “ler” uma tela de preço de título (conceitos que aparecem)
- PU (preço unitário): preço por unidade do título. Se o PU sobe, o título valorizou; se cai, desvalorizou.
- Taxa (yield): taxa que o título oferece ao preço atual. Quando o preço cai, a yield sobe; quando o preço sobe, a yield cai.
- Ágio/deságio: preço acima (ágio) ou abaixo (deságio) do valor de referência (por exemplo, valor de face ajustado).
- Duration/duração: medida aproximada de sensibilidade do preço a variações de taxa.
Regra prática para memorizar: taxa de mercado ↑ → preço do título ↓ → yield do título ↑ (ao preço novo)