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Investimentos com Renda Fixa no Brasil: Estratégias por Objetivo e Prazo

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Precificação e marcação a mercado: impacto no valor antes do vencimento

Capítulo 4

Tempo estimado de leitura: 15 minutos

+ Exercício

O que é marcação a mercado (e por que ela existe)

Marcação a mercado é o processo de atualizar diariamente o valor de um título de renda fixa para refletir o preço pelo qual ele poderia ser negociado naquele momento. Mesmo que o título tenha um valor de face (por exemplo, R$ 1.000 no vencimento) e prometa uma taxa contratada, o preço “de hoje” muda conforme as condições do mercado mudam.

Na prática, isso significa que o seu investimento pode oscilar para cima ou para baixo antes do vencimento, mesmo em produtos que, no vencimento, tendem a entregar o retorno contratado (desde que o emissor pague e você não venda antes). Essa oscilação não é “erro” nem “pegadinha”: é a forma de mostrar o valor econômico atual do fluxo de pagamentos futuro do título.

Uma forma intuitiva de entender: um título é como um contrato que paga dinheiro no futuro. Se, hoje, o mercado passa a exigir uma taxa maior para emprestar dinheiro, um contrato antigo que paga uma taxa menor fica menos atraente e precisa ser vendido com desconto (preço cai). Se o mercado passa a exigir uma taxa menor, o contrato antigo que paga uma taxa maior fica mais atraente e pode ser vendido com ágio (preço sobe).

Precificação: como o preço de um título é formado

Precificação é o cálculo do “preço justo” de um título a partir dos seus fluxos de caixa futuros (pagamentos) trazidos a valor presente por uma taxa de desconto. Em renda fixa, a taxa de desconto é, em geral, a taxa que o mercado exige para títulos semelhantes (prazo, risco, indexação, liquidez).

O raciocínio básico é: preço hoje = soma dos pagamentos futuros descontados. Quanto maior a taxa de desconto, menor o valor presente e, portanto, menor o preço do título.

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Exemplo conceitual simples (um pagamento único)

Imagine um título que pagará R$ 1.000 daqui a 1 ano. Se o mercado exige 10% ao ano para esse risco e prazo, o preço aproximado hoje seria R$ 1.000 / (1 + 0,10) = R$ 909,09. Se a taxa exigida cair para 8%, o preço sobe para R$ 1.000 / 1,08 = R$ 925,93. Se a taxa exigida subir para 12%, o preço cai para R$ 1.000 / 1,12 = R$ 892,86.

Esse exemplo é propositalmente simples, mas captura a essência: taxa de mercado e preço andam em direções opostas.

Fluxos com cupons (pagamentos periódicos)

Quando o título paga cupons (juros periódicos), a precificação considera vários pagamentos: cupons ao longo do tempo e o principal no vencimento. Cada pagamento é descontado pela taxa de mercado para aquele prazo. Em termos práticos, títulos com cupons tendem a ter comportamento de preço diferente de títulos “zero cupom” (sem cupons), porque parte do retorno é recebida antes, reduzindo a sensibilidade do preço a mudanças de taxa.

Marcação na curva x marcação a mercado

Dois conceitos aparecem com frequência e geram confusão:

  • Marcação a mercado: atualiza o valor do título pelo preço negociável hoje, refletindo a taxa exigida pelo mercado no momento.
  • Marcação na curva: é uma forma de acompanhar o investimento assumindo que ele será carregado até o vencimento, reconhecendo a rentabilidade de forma “suavizada” ao longo do tempo, sem refletir oscilações de preço do mercado.

Para o investidor pessoa física, o que importa é entender que a oscilação existe e aparece no valor do investimento em muitos extratos e relatórios. Se você pretende vender antes do vencimento, a marcação a mercado deixa de ser apenas “contábil” e vira resultado realizado (ganho ou perda ao vender).

Por que o valor oscila antes do vencimento

O preço de um título muda principalmente por quatro grupos de fatores:

  • Variação das taxas de juros de mercado: é o fator mais comum. Quando as taxas sobem, preços caem; quando as taxas caem, preços sobem.
  • Passagem do tempo: conforme o vencimento se aproxima, o preço tende a convergir para o valor que será pago no vencimento (ajustado pelos cupons, quando houver). Isso reduz a “incerteza de taxa” ao longo do caminho.
  • Risco de crédito e percepção de risco: se o mercado passa a enxergar mais risco no emissor, exige taxa maior, derrubando o preço. Se percebe menos risco, exige taxa menor, elevando o preço.
  • Liquidez e condições de negociação: em alguns papéis, a diferença entre preço de compra e venda (spread) pode ser relevante. Em momentos de estresse, o preço de venda pode ficar bem pior do que o valor “teórico”.

Relação inversa entre taxa e preço: como isso aparece no dia a dia

Considere um título prefixado comprado a uma taxa contratada. Se, depois da compra, as taxas prefixadas para prazos semelhantes sobem, seu título “antigo” fica relativamente menos atrativo. Para alguém comprá-lo de você, ele precisa ser vendido mais barato para que o novo comprador consiga uma taxa equivalente à do mercado. O inverso também vale: se as taxas caem, seu título fica mais valioso e pode ser vendido mais caro.

Esse mecanismo é o coração da marcação a mercado e explica por que investimentos de renda fixa podem mostrar “prejuízo” temporário no extrato, mesmo sem inadimplência e mesmo com a taxa contratada intacta.

Sensibilidade do preço: duração (duration) e volatilidade

Nem todo título reage com a mesma intensidade a mudanças de taxa. A sensibilidade depende principalmente do prazo e do formato dos fluxos de pagamento.

  • Prazo maior tende a significar maior sensibilidade. Um título com vencimento longo tem pagamentos mais distantes; ao descontar esses pagamentos, uma mudança na taxa afeta mais o valor presente.
  • Sem cupons (zero cupom) tende a ser mais sensível do que com cupons, porque todo o dinheiro está concentrado no final.
  • Com cupons tende a ser menos sensível, pois parte do retorno é recebida antes.

Em termos técnicos, usa-se o conceito de duração para aproximar o quanto o preço varia quando a taxa varia. Você não precisa calcular duration para tomar boas decisões, mas precisa entender o efeito prático: títulos longos podem oscilar bastante no curto prazo.

Exemplo prático de sensibilidade (intuição)

Dois títulos prefixados: um vence em 1 ano e outro em 10 anos. Se a taxa de mercado sobe 1 ponto percentual, o de 10 anos tende a cair muito mais em preço do que o de 1 ano, porque o desconto maior se aplica por muito mais tempo.

Impacto no valor antes do vencimento: quando vira lucro ou prejuízo de verdade

A oscilação de marcação a mercado só se transforma em resultado efetivo se você vender o título antes do vencimento (ou se houver evento de crédito). Se você carrega até o vencimento, o que tende a importar é a taxa contratada e a capacidade de pagamento do emissor, não o preço intermediário.

Isso cria duas situações típicas:

  • Você precisa de liquidez antes do vencimento: a marcação a mercado é crucial, porque o preço no dia da venda determina o resultado.
  • Você não precisa vender: a oscilação pode ser ignorada do ponto de vista de realização, mas ainda é útil para entender risco e para comparar oportunidades (por exemplo, se o título valorizou muito, pode fazer sentido rebalancear).

Passo a passo prático: como interpretar a marcação a mercado no seu investimento

1) Identifique o tipo de título e o vencimento

Veja se o título é prefixado, indexado a algum indicador ou híbrido, e qual é o vencimento. O vencimento é determinante para a sensibilidade do preço. Quanto mais longo, maior a chance de oscilações relevantes no meio do caminho.

2) Verifique a taxa contratada (na compra) e a taxa de mercado atual

Procure a taxa que você contratou e compare com a taxa que o mercado está oferecendo hoje para títulos semelhantes (mesmo indexador, prazo parecido, risco semelhante). Se a taxa de mercado atual estiver maior do que a sua, seu título tende a estar marcado com deságio (valor abaixo do esperado na curva). Se estiver menor, tende a estar com ágio.

3) Entenda se o seu extrato mostra “preço” ou “rentabilidade na curva”

Alguns relatórios mostram o valor do título pelo preço de mercado (marcação a mercado). Outros mostram uma rentabilidade acumulada como se fosse carregado até o vencimento (marcação na curva). Se você está avaliando a possibilidade de venda antecipada, precisa olhar o valor marcado a mercado (ou o preço de venda disponível).

4) Simule o cenário de venda: preço de venda, spread e impostos

Mesmo que o “preço teórico” esteja bom, a venda antecipada pode envolver spread (diferença entre preço de compra e venda) e custos. Além disso, o imposto de renda incide sobre o ganho. Para decidir, compare:

  • Quanto você receberia líquido se vender hoje.
  • Quanto você espera receber se carregar até o vencimento.
  • Qual é o custo de oportunidade: existe alternativa melhor hoje para reinvestir, considerando risco e prazo?

5) Classifique a oscilação: é ruído de taxa ou mudança de risco?

Se o preço caiu, pergunte: foi porque as taxas de mercado subiram de forma geral (movimento macro) ou porque o risco do emissor piorou (movimento específico)? A resposta muda a decisão. Se for apenas movimento de taxa e você não precisa vender, pode ser apenas volatilidade temporária. Se for deterioração de crédito, a análise deve ser mais cuidadosa, porque o risco de não receber no vencimento pode ter aumentado.

Exemplo numérico guiado: por que um prefixado pode “dar negativo” no extrato

Suponha que você comprou um título prefixado com vencimento em 5 anos, taxa contratada de 10% ao ano, valor investido de R$ 10.000. Um mês depois, por mudanças no mercado, títulos semelhantes passam a ser negociados a 12% ao ano.

O seu título, que paga 10%, ficou menos atrativo. Para que alguém compre de você e obtenha uma taxa equivalente a 12% ao ano, o preço precisa cair. Seu extrato pode mostrar algo como R$ 9.600 (valor ilustrativo), mesmo que nada tenha “quebrado”. Se você vender nesse momento, você realiza a perda. Se você não vender e carregar até o vencimento, o título tende a convergir para o valor que refletirá a taxa contratada, desde que o emissor pague.

Agora imagine o inverso: as taxas caem para 8% ao ano. Seu título de 10% fica mais valioso, e o preço sobe. Seu extrato pode mostrar R$ 10.500 (valor ilustrativo). Se você vender, realiza o ganho; se não vender, o ganho “de tela” pode diminuir com o tempo conforme o título converge para o valor de vencimento.

Marcação a mercado em títulos indexados: o que muda

Em títulos indexados, há dois componentes: a atualização pelo indexador e a taxa real (ou spread) exigida pelo mercado. Mesmo com correção do indexador, o preço pode oscilar se a taxa real exigida mudar.

Exemplo conceitual: um título que paga “indexador + taxa”. Se o mercado passa a exigir uma taxa maior acima do indexador para aquele prazo, o preço cai. Se passa a exigir uma taxa menor, o preço sobe. Ou seja, a indexação não elimina marcação a mercado; ela apenas muda quais taxas são relevantes na precificação.

Como a marcação a mercado afeta sua estratégia de compra e venda

Comprar e carregar: foco no vencimento, mas com consciência de volatilidade

Se a intenção é carregar até o vencimento, a marcação a mercado não deveria ditar decisões impulsivas. Ainda assim, ela é útil para:

  • Evitar escolher prazos longos para dinheiro que pode ser necessário antes.
  • Entender que “renda fixa” pode oscilar e, portanto, não é sinônimo de “não varia”.
  • Comparar oportunidades: se as taxas subiram muito, novos aportes podem ser feitos em condições melhores, sem precisar vender o que já existe.

Operar antes do vencimento: marcação a mercado vira ferramenta

Se você pretende vender antes do vencimento, a marcação a mercado é parte do jogo. Nesse caso, você está exposto ao risco de taxa: pode precisar vender em um momento em que as taxas subiram e o preço caiu.

Ao mesmo tempo, você pode usar a marcação a mercado a seu favor: se as taxas caírem e o preço subir, pode antecipar ganho vendendo antes do vencimento, desde que faça sentido após impostos e custos e que exista um destino melhor para o dinheiro.

Passo a passo prático: decisão de venda antecipada com base em marcação a mercado

1) Defina o motivo da venda

Venda por necessidade de caixa é diferente de venda por oportunidade. Se é necessidade, o foco é minimizar perdas e escolher o melhor momento possível dentro do seu prazo. Se é oportunidade, o foco é comparar o retorno esperado de manter versus trocar.

2) Calcule o retorno efetivo se vender hoje

Use o preço de venda disponível e estime o ganho ou perda em relação ao que você pagou (considerando também cupons recebidos, se houver). Em seguida, estime o impacto de imposto de renda sobre o ganho.

3) Compare com o retorno esperado de manter até o vencimento

Projete quanto você receberia no vencimento se mantiver o título. Em títulos com indexação, isso envolve hipóteses para o indexador, mas você pode comparar principalmente a taxa adicional contratada versus a taxa adicional oferecida hoje em alternativas semelhantes.

4) Avalie o reinvestimento

Se você vender, para onde vai o dinheiro? Compare a nova taxa disponível no mercado para o prazo que faz sentido para você. Se as taxas subiram, pode ser que vender com perda e reinvestir a uma taxa maior ainda assim seja vantajoso em alguns casos, mas isso depende do tamanho da perda, do prazo restante e do diferencial de taxa.

5) Cheque o risco de crédito e a liquidez

Se a queda de preço estiver ligada a piora de risco do emissor, a decisão não é apenas “esperar voltar”. Você precisa reavaliar a probabilidade de receber no vencimento e a qualidade do emissor, além de considerar que a liquidez pode piorar.

Erros comuns ao lidar com marcação a mercado

  • Confundir oscilação com perda definitiva: ver o valor cair no extrato e concluir que “renda fixa deu prejuízo” sem considerar que a perda só se realiza na venda antecipada.
  • Comprar prazo longo com dinheiro de curto prazo: isso aumenta a chance de ter que vender em momento ruim, transformando volatilidade em perda.
  • Ignorar o spread de negociação: em alguns títulos, o preço de venda pode ser significativamente pior do que o preço “de referência”.
  • Tomar decisão olhando apenas rentabilidade passada: o que importa para decidir manter ou trocar é a taxa implícita hoje (o que o mercado está precificando) e o seu objetivo de prazo e liquidez.
  • Não considerar impostos ao antecipar ganhos: um ganho de marcação a mercado pode parecer grande, mas o líquido pode mudar a atratividade da troca.

Checklist rápido para acompanhar títulos com marcação a mercado

  • Qual é o vencimento e quanto falta para ele?
  • Qual é a taxa contratada e qual é a taxa de mercado atual para prazo semelhante?
  • O título tem cupons? Isso muda o fluxo de caixa e a sensibilidade.
  • Você pode precisar do dinheiro antes do vencimento?
  • Se vender hoje, qual é o preço de venda e o valor líquido após impostos?
  • A mudança de preço parece vir de taxa geral ou de risco do emissor?

Mini-guia: como “ler” uma tela de preço de título (conceitos que aparecem)

  • PU (preço unitário): preço por unidade do título. Se o PU sobe, o título valorizou; se cai, desvalorizou.
  • Taxa (yield): taxa que o título oferece ao preço atual. Quando o preço cai, a yield sobe; quando o preço sobe, a yield cai.
  • Ágio/deságio: preço acima (ágio) ou abaixo (deságio) do valor de referência (por exemplo, valor de face ajustado).
  • Duration/duração: medida aproximada de sensibilidade do preço a variações de taxa.
Regra prática para memorizar: taxa de mercado ↑ → preço do título ↓ → yield do título ↑ (ao preço novo)

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao observar que um título de renda fixa aparece com valor menor no extrato antes do vencimento, qual interpretação está mais alinhada ao conceito de marcação a mercado?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A marcação a mercado ajusta o valor do título ao preço negociável hoje, que varia com as taxas e outros fatores. A variação no extrato é oscilação de preço; o resultado só se realiza se o investidor vender antes do vencimento (ou houver evento de crédito).

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Liquidez e resgate: regras, carências e custos invisíveis de oportunidade

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