Posicionamento terapêutico e manuseio seguro na Fisioterapia Neurológica

Capítulo 14

Tempo estimado de leitura: 13 minutos

+ Exercício

Conceito e objetivos do posicionamento terapêutico

Posicionamento terapêutico é o uso intencional de posturas e apoios (no leito, na cadeira e em pé) para favorecer alinhamento biomecânico, conforto e função, reduzindo sobrecarga articular e risco de dor. Na Fisioterapia Neurológica, o posicionamento também é uma ferramenta para organizar o corpo para a tarefa (respirar melhor, alimentar-se com segurança, usar o membro superior, tolerar ortostatismo), além de prevenir complicações como subluxação de ombro, encurtamentos, edema e lesões por pressão.

Princípios gerais que guiam qualquer posicionamento:

  • Alinhamento: cabeça, tronco e pelve organizados; membros apoiados sem “pendurar” segmentos.
  • Distribuição de pressão: aumentar área de contato e alternar pontos de apoio; atenção a proeminências ósseas.
  • Conforto e tolerância: postura deve ser sustentável; desconforto é sinal de ajuste necessário.
  • Proteção articular: evitar tração, torção e extremos de amplitude, especialmente em ombro, punho e tornozelo.
  • Funcionalidade: sempre que possível, posicionar para facilitar participação (alcance, alimentação, comunicação, higiene).
  • Reavaliação frequente: o “melhor” posicionamento muda com fadiga, dor, tônus e nível de alerta.

Posicionamento em decúbito (leito): alinhamento, conforto e prevenção de dor

Checklist rápido antes de ajustar o leito

  • Verifique dor atual, áreas de pressão, edema, espasmos e integridade da pele.
  • Observe se há assimetria de pelve (rotação), tronco (inclinação) e cabeça (rotação persistente).
  • Confirme se o membro superior afetado está apoiado (nunca tracionado pelo peso do braço).
  • Planeje a mudança de decúbito com o paciente: explique o que será feito e peça participação ativa possível (ex.: “empurre com o pé”, “abrace o travesseiro”).

Decúbito dorsal (supino): passo a passo prático

  1. Cabeça e pescoço: use travesseiro que mantenha o pescoço neutro (evite flexão excessiva). Se houver tendência a rotação, use apoio lateral suave (toalha enrolada) para reduzir a rotação sustentada.
  2. Escápulas e tronco: evite “afundar” um ombro. Ajuste o tronco para ficar centrado no leito; se necessário, use um lençol deslizante para reposicionar sem arrastar a pele.
  3. Pelve: alinhe as cristas ilíacas; se houver rotação pélvica, use um pequeno apoio sob a coxa do lado que “cai” para fora, buscando simetria confortável.
  4. Membro superior (proteção do ombro): posicione o braço sobre um travesseiro, com o ombro apoiado e o cotovelo sustentado. Evite deixar o braço pendente ao lado do corpo. Mantenha punho e mão em posição funcional (sem hiperflexão sustentada).
  5. Membros inferiores: apoie joelhos levemente flexionados com rolo sob os joelhos se houver desconforto lombar (evite flexão exagerada). Mantenha tornozelos em posição neutra; se necessário, use suporte para evitar queda do pé e pressão no calcâneo.
  6. Pressão e pele: alivie calcâneos (flutuação do calcanhar com apoio na panturrilha) quando indicado e verifique sacro e escápulas.

Decúbito lateral (lado afetado e lado não afetado): quando e como

O decúbito lateral é útil para redistribuir pressão, facilitar higiene e organizar tronco e escápula. A escolha do lado depende de tolerância, dor no ombro, integridade de pele e objetivo funcional.

Passo a passo: decúbito lateral sobre o lado afetado (quando tolerado)

  1. Leve o tronco em bloco, evitando puxar pelo braço.
  2. Posicione a escápula do lado afetado em leve protração (evita “prender” o ombro para trás).
  3. Coloque o membro superior afetado à frente do corpo, apoiado em travesseiro, com cotovelo e mão sustentados.
  4. Coloque um travesseiro entre os joelhos e tornozelos para alinhar quadris e reduzir pressão óssea.
  5. O membro superior não afetado pode repousar sobre o travesseiro anterior, evitando queda do ombro.

Passo a passo: decúbito lateral sobre o lado não afetado

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  1. Garanta que o membro superior afetado fique à frente do tronco e bem apoiado (nunca comprimido sob o corpo).
  2. Use travesseiro anterior para sustentar o braço afetado e manter o ombro protegido.
  3. Use travesseiro entre os joelhos e apoio para o pé, evitando rotação pélvica e torção lombar.

Decúbito ventral (prono): indicações e cuidados

Quando clinicamente apropriado, o prono pode ajudar na extensão de quadril, distribuição de pressão e organização do tronco. Cuidados: proteger face, evitar compressão abdominal excessiva, monitorar desconforto cervical e garantir que ombros não fiquem em abdução/rotação externa extremas. Use travesseiro sob tórax/abdome se necessário para conforto e respiração.

Sedestação terapêutica: base para função e proteção articular

Princípios de sedestação alinhada

  • Pelve como base: sedestação começa pela pelve neutra (evitar retroversão com “escorregar” na cadeira).
  • Apoio dos pés: pés apoiados no chão ou suporte; sem apoio, aumenta instabilidade e esforço.
  • Tronco empilhado: costelas sobre a pelve; evitar inclinação lateral sustentada.
  • Escápula e ombro protegidos: braço apoiado em mesa/apoio; evitar tração do membro superior afetado.
  • Simetria funcional: buscar simetria suficiente para conforto e tarefa, sem forçar além da tolerância.

Passo a passo: ajuste de sedestação na cadeira (com ou sem braços)

  1. Altura e profundidade: quadris e joelhos próximos de 90° (ajuste com almofada se necessário). Profundidade deve permitir apoio das coxas sem pressionar a fossa poplítea.
  2. Pelve: posicione o paciente bem ao fundo do assento, evitando escorregar. Se houver retroversão pélvica, use cunha/almofada firme para facilitar anteriorização (quando indicado).
  3. Pés: garanta contato plantar completo. Se o paciente for baixo, use apoio para os pés.
  4. Tronco: se houver tendência a cair para um lado, use apoio lateral (toalha/almofada) e organize a pelve antes de “segurar o tronco”.
  5. Membro superior afetado: apoie o antebraço em mesa ou suporte, com o ombro alinhado e sem queda. Evite puxar pelo braço durante ajustes.
  6. Cabeça: alinhe com o tronco; se houver fadiga cervical, ajuste encosto/apoio occipital conforme necessidade.

Exemplos práticos de sedestação orientada à tarefa

  • Para alimentação: tronco mais ereto, apoio de antebraços, pés firmes; mesa na altura do cotovelo para reduzir elevação de ombro.
  • Para uso do membro superior afetado: apoio proximal (antebraço sobre a mesa), objetos próximos à linha média, evitando alcance com tronco colapsado.
  • Para reduzir dor no ombro: braço apoiado, escápula organizada, evitar deixar o braço “puxar” a cápsula; preferir apoio em mesa/almofada.

Ortostatismo terapêutico: alinhamento, tolerância e proteção

O ortostatismo deve ser introduzido com progressão e monitorização. O objetivo é sustentar o corpo com alinhamento, distribuir carga e permitir transições seguras (sentar-levantar, transferências), respeitando sinais de fadiga e instabilidade.

Passo a passo: preparação para ficar em pé

  1. Pré-checagem: pergunte sobre tontura, náusea, visão turva, dor torácica, falta de ar, fadiga intensa. Verifique pressão arterial quando indicado (especialmente em suspeita de hipotensão ortostática).
  2. Organize a sedestação: pés bem apoiados e recuados (pés um pouco atrás dos joelhos), tronco levemente inclinado à frente com coluna longa.
  3. Posição do terapeuta: fique próximo ao lado mais fraco, com base ampla e joelhos flexionados; use cinto de marcha quando apropriado.
  4. Uso de alavancas: incentive o paciente a empurrar com os pés e inclinar o tronco à frente; evite puxar pelos braços. As mãos do terapeuta devem guiar pelve/tronco, não tracionar ombros.
  5. Subida em bloco: conte em voz alta (“1-2-3”) e execute a transição com controle, estabilizando tronco e joelhos conforme necessidade.

Passo a passo: alinhamento em pé

  1. Pés: base de suporte adequada (nem muito estreita nem muito ampla). Ajuste rotação do pé e contato do calcanhar conforme tolerância.
  2. Joelhos: evite hiperextensão sustentada; se houver tendência, use feedback tátil no joelho e ajuste a posição do pé (muitas vezes um pequeno recuo do pé ajuda a reduzir hiperextensão).
  3. Pelve e tronco: pelve nivelada; tronco “empilhado” sem colapsar para o lado. Se necessário, use apoio anterior (barra, mesa alta) para reduzir demanda inicial.
  4. Membro superior afetado: mantenha protegido e apoiado quando possível (ex.: mão sobre apoio), evitando tração do ombro.
  5. Progressão: comece com permanência curta (ex.: 30–60 s), aumente conforme tolerância, introduzindo deslocamentos de peso e tarefas simples.

Manuseio e transferências seguras: princípios e técnicas

Princípios de manuseio (para terapeuta e cuidador)

  • Comunicação: explique o que vai acontecer, combine um comando curto (“agora”), confirme entendimento e peça participação ativa.
  • Controle proximal: priorize controle de pelve e tronco para organizar o movimento; mãos no tronco/pelve geralmente são mais seguras do que no membro distal.
  • Proteção do ombro: nunca levantar, puxar ou girar o paciente pelo braço, especialmente no lado afetado. Evite abdução e rotação externa forçadas durante transferências.
  • Uso de alavancas e peso corporal: aproxime-se do paciente, mantenha coluna neutra, use pernas e transferência de peso; evite torção do tronco do cuidador.
  • Redução de atrito: use lençol deslizante/prancha quando necessário; arrastar aumenta risco de lesão de pele e esforço do cuidador.
  • Ambiente preparado: travas da cadeira, altura adequada da cama, retirar obstáculos, calçados fechados e antiderrapantes.

Transferência leito → cadeira (passo a passo)

  1. Preparar: posicione a cadeira próxima (geralmente a 30–45° do leito), trave rodas, retire apoios de pé/descanso de braço se necessário.
  2. Sentar na borda: role em bloco para o lado, traga as pernas para fora do leito enquanto eleva o tronco com apoio no cotovelo/antebraço (evite puxar pelo braço afetado).
  3. Organizar sedestação: pés no chão, tronco alinhado, tempo para adaptação (observe tontura).
  4. Posicionar pés: o pé do lado mais fraco pode ficar ligeiramente mais atrás para facilitar controle; ajuste conforme estratégia do paciente.
  5. Levantar: conte “1-2-3”; paciente inclina tronco à frente e empurra com os pés. Terapeuta controla pelve/tronco com contato firme e seguro.
  6. Pivô: gire com passos curtos, evitando torção do tronco do paciente. Mantenha o centro de massa próximo ao seu.
  7. Sentar: toque a cadeira com a parte posterior das pernas, alcance do braço não afetado para apoio se possível; desça controlando pelve e tronco.
  8. Ajustar: alinhe pelve no assento, apoie o membro superior afetado e posicione pés.

Reposicionamento no leito (passo a passo com lençol deslizante)

  1. Explique e combine o comando.
  2. Flexione joelhos se possível e peça para o paciente ajudar empurrando com os pés.
  3. Coloque o lençol deslizante sob tronco e pelve (evite dobras).
  4. Com dois cuidadores quando necessário, mova em bloco usando transferência de peso, sem puxar membros.
  5. Reajuste apoios: cabeça, escápulas, pelve, membros e calcanhares.

Adaptações do posicionamento conforme apresentação clínica

Hipotonia (baixa sustentação postural)

  • Objetivo: aumentar estabilidade e sensação de segurança, reduzindo esforço para manter alinhamento.
  • Estratégias: mais pontos de apoio (encosto, apoio lateral, apoio de antebraços), pés sempre apoiados, almofadas firmes para evitar “afundar”.
  • Cuidados: evitar posturas muito relaxadas que favoreçam colapso de tronco e queda de cabeça; monitorar fadiga precoce.

Hipertonia/rigidez (tendência a posturas fixas)

  • Objetivo: reduzir gatilhos de aumento de tônus e evitar posições que reforcem padrões desconfortáveis.
  • Estratégias: movimentos lentos e previsíveis; evitar estímulos bruscos; usar apoios para manter alinhamento sem “forçar”. Posicionar para conforto e respiração (tronco organizado) e proteger articulações.
  • Cuidados: não insistir em alongamentos agressivos durante transferências; evitar alavancas distais que aumentem resistência (ex.: puxar mão/pé).

Hemiparesia (assimetria e risco de tração no ombro)

  • Objetivo: prevenir dor e subluxação, promover simetria funcional e segurança nas transições.
  • Estratégias: apoio constante do membro superior afetado (mesa/almofada/suporte), organização da escápula antes de mover o braço, controle de tronco para reduzir “queda” para o lado afetado ou não afetado.
  • Cuidados: nunca realizar transferências segurando pelo braço afetado; atenção ao posicionamento da mão (evitar ficar presa sob o corpo ou comprimida).

Orientações para cuidadores: instruções claras e aplicáveis

Regras simples (para lembrar no dia a dia)

  • Não puxar pelo braço, especialmente o lado afetado; sempre apoiar o braço em travesseiro/mesa.
  • Trocar posição regularmente conforme orientação da equipe e tolerância (ex.: alternar decúbitos e ajustar sedestação).
  • Pés apoiados sempre que sentado; se não alcança o chão, usar apoio.
  • Evitar escorregar na cadeira: quadril bem ao fundo, pelve alinhada; usar almofada firme se necessário.
  • Comunicar antes de mover: “vou virar para o lado”, “no 3 vamos levantar”.
  • Ambiente seguro: travar rodas, retirar tapetes soltos, usar calçado fechado.

Roteiro curto para ensinar a transferência sentar-levantar ao cuidador

1) Trave a cadeira e aproxime-a do leito (sem obstáculos). 2) Posicione os pés do paciente no chão, um pouco para trás. 3) Peça: “incline o tronco para frente e empurre com os pés”. 4) Conte “1-2-3” e ajude pelo tronco/pelve (não pelo braço). 5) Em pé, faça passos curtos até a cadeira. 6) Para sentar: encoste as pernas na cadeira e desça devagar controlando o tronco.

Critérios de segurança e monitorização durante a sessão

Sinais de alerta: quando pausar, ajustar ou interromper

  • Tontura, visão turva, náusea, sudorese fria: pode indicar intolerância ortostática.
  • Hipotensão ortostática: queda de pressão ao sentar/ficar em pé, com sintomas associados.
  • Fadiga desproporcional: tremor, perda de alinhamento, aumento de arrasto do pé, queda de cabeça, dificuldade de manter atenção.
  • Dispneia, dor torácica, palidez acentuada: interromper e seguir protocolo de segurança do serviço.
  • Dor articular aguda (ombro, quadril, joelho) durante manuseio: parar e reposicionar; revisar técnica.

Como monitorar na prática (checklist durante mudanças posturais)

  • Antes: pergunte sintomas, observe cor da pele e padrão respiratório; verifique pressão arterial se indicado.
  • Durante: use comandos curtos, mantenha contato de controle no tronco/pelve, observe se o paciente “desliga” (queda de cabeça, olhar fixo, resposta lenta).
  • Após: aguarde 30–60 segundos em sedestação antes de ficar em pé quando houver risco; reavalie sintomas e estabilidade.
  • Escala simples de esforço: peça para o paciente classificar esforço/fadiga (0–10) e ajuste tempo em pé, número de repetições e apoios.
  • Registro: anote posição tolerada, tempo, sintomas e ajustes que funcionaram (ex.: necessidade de apoio anterior, pausa em sedestação, hidratação).

Condutas imediatas em suspeita de hipotensão ortostática

  1. Retorne para sedestação ou decúbito com segurança.
  2. Eleve membros inferiores se apropriado e afrouxe roupas apertadas.
  3. Monitore pressão arterial e sintomas; ofereça tempo para recuperação.
  4. Na próxima tentativa, progrida em etapas: decúbito → sedestação com pausa → ortostatismo com apoio, aumentando gradualmente.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao realizar uma transferência de sentado para em pé em um paciente com hemiparesia, qual conduta está mais alinhada aos princípios de manuseio seguro e proteção do ombro afetado?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A transferência deve priorizar controle proximal (pelve e tronco), uso de alavancas seguras (empurrar com os pés e inclinar o tronco) e proteção do ombro, evitando puxar ou girar o paciente pelo braço afetado.

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Prevenção de complicações em reabilitação neurofuncional: pele, dor, contraturas e trombose

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