Ponteamento e soldagem em portões e grades: sequência para evitar empeno e travamentos

Capítulo 11

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Conceito: por que pontear e soldar em sequência evita empeno e travamentos

Em portões e grades, o principal “inimigo” durante a soldagem é a contração do metal ao resfriar. Cada cordão puxa o material para o lado onde foi depositado. Se a solda for feita longa, contínua e sempre no mesmo sentido, a peça tende a empenar (entortar), fechar folgas e até travar movimentações (principalmente em folhas com travessas e quadros finos).

O ponteamento estratégico (pontos curtos, alternados e distribuídos) serve para segurar a geometria antes da solda definitiva. Já a sequência alternada e simétrica distribui o calor e a contração, reduzindo tensões internas. O objetivo é soldar “equilibrando forças”: o que puxa de um lado, é compensado por outro cordão do lado oposto, com pausas para o conjunto perder temperatura.

Ponteamento estratégico: como travar a geometria sem criar tensão

Regras práticas de ponteamento

  • Pontos curtos: ponteamentos pequenos (ex.: 8–15 mm) seguram sem concentrar calor excessivo.
  • Distribuídos: em vez de “encher” um canto, espalhe pontos ao longo das uniões.
  • Alternados: faça um ponto de um lado, depois no lado oposto, evitando aquecer uma região só.
  • Fechar juntas antes: encostar e alinhar a junta (sem frestas exageradas) reduz respingos, poros e falta de fusão.
  • Revisar antes de soldar de vez: após pontear, confira se nada “andou” e só então avance.

Onde e quantos pontos aplicar (exemplos)

Quadro retangular (portão/grade): comece pelos quatro cantos com 1 ponto por canto. Em seguida, aplique pontos no meio de cada lado (4 pontos). Se houver travessas internas, ponteie primeiro as extremidades e depois o centro da travessa.

Travessas e montantes: ponteie em “X” mental: um ponto numa extremidade, depois na extremidade oposta, depois repita do outro lado. Isso evita que a travessa “puxe” o quadro para um lado.

Chapas de reforço: ponteie os quatro cantos da chapa e depois um ponto intermediário em cada lado, mantendo a chapa assentada sem criar barriga.

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Passo a passo do ponteamento (rotina de bancada)

  1. Limpe a região da junta (sem tinta, óleo, carepa solta) para reduzir porosidade e instabilidade do arco.
  2. Posicione e prenda com grampos/ímãs apenas o suficiente para não vibrar. Excesso de travamento pode “guardar tensão”.
  3. Ponteie os cantos primeiro, alternando cantos opostos (ex.: canto A, depois canto C; canto B, depois canto D).
  4. Ponteie meios e travessas alternando lados do quadro.
  5. Reconfira medidas críticas (diagonais, paralelismo, alinhamento de travessas). Se houver desvio, corrija agora (corte do ponto e reposicionamento) — é mais rápido do que corrigir depois de soldado.
  6. Reforce ponteamentos apenas onde a peça tende a abrir/fechar durante a solda (juntas longas e perfis finos). Evite “costurar” com pontos muito próximos, pois isso já começa a deformar.

Sequência de solda alternada e simétrica: como distribuir calor e contração

Princípios da sequência

  • Soldar do centro para as extremidades em juntas longas ajuda a distribuir a contração.
  • Alternar lados opostos (direita/esquerda, cima/baixo) para equilibrar o “puxão”.
  • Intercalar juntas diferentes: não finalize um lado inteiro do quadro antes de iniciar o lado oposto.
  • Evitar cordões longos contínuos em perfis finos: prefira cordões curtos (técnica de “skip welding”).
  • Controlar temperatura: pausas e resfriamento controlado reduzem empeno e trincas por choque térmico.

Sequência sugerida para um quadro retangular (exemplo prático)

Considere um quadro com quatro lados (superior, inferior, esquerdo, direito) e cantos já ponteados.

  1. Faça um cordão curto (ex.: 30–60 mm) no lado superior, próximo ao centro da junta.
  2. Vá para o lado inferior e faça cordão curto equivalente, também próximo ao centro.
  3. Vá para o lado esquerdo e repita (cordão curto no centro).
  4. Vá para o lado direito e repita.
  5. Retorne ao lado superior e faça outro cordão curto, agora deslocado para um lado do primeiro (ex.: metade esquerda).
  6. Espelhe no lado inferior (mesma posição relativa).
  7. Repita nos lados esquerdo/direito mantendo simetria.
  8. Complete as juntas sempre alternando lados opostos e evitando aquecer a mesma região em sequência.

Essa lógica pode ser aplicada também em travessas internas: solda um trecho na travessa, depois um trecho no lado oposto do quadro, depois volta na travessa do outro lado, e assim por diante.

Técnica de cordões curtos alternados (skip welding)

Em vez de um cordão contínuo de 300 mm, faça 5 cordões de 60 mm com espaçamento entre eles, alternando posições. Depois, volte preenchendo os espaços, novamente alternando. Isso reduz o acúmulo de calor e a tendência de “fechar” o quadro.

Exemplo em uma junta longa (vista superior):  |---1---|   |---3---|   |---5---|  (primeira passada)  depois preencher 2, 4

Pausas e resfriamento controlado

  • Pausa programada: após completar um “ciclo” (ex.: 4 cordões em lados opostos), pare 1–3 minutos para a peça perder calor.
  • Toque rápido: se a peça estiver quente demais para manter a mão próxima por alguns segundos (sem encostar), é sinal de que está acumulando calor; aumente as pausas e reduza o comprimento dos cordões.
  • Resfriamento controlado: evite jogar água. O choque térmico pode endurecer regiões, aumentar tensões e favorecer trincas. Prefira ar ambiente e tempo.
  • Ventilação moderada: um ventilador distante pode ajudar a baixar temperatura de forma uniforme, sem “gelar” um ponto específico.

Soldagem de pontos críticos: dobradiças, chapas de reforço e batentes

Dobradiças: penetração, alinhamento e controle de empeno local

Dobradiças concentram esforço e costumam estar próximas a bordas do quadro, onde a deformação aparece rápido. A meta é obter boa fusão sem “puxar” o montante.

  1. Ponteie a dobradiça com 2 a 4 pontos, alternando lados da peça (um ponto em cima, outro embaixo, depois do lado oposto).
  2. Faça cordões curtos em lados alternados da dobradiça (ex.: um filete pequeno na parte superior, depois na inferior, depois no lado oposto).
  3. Evite aquecer só um lado: soldar toda a volta de uma vez tende a puxar e desalinha eixo.
  4. Priorize penetração: ajuste a técnica para fundir bem a base e a dobradiça; falta de fusão aqui vira folga e quebra.
  5. Acabamento funcional: remova respingos e rebarbas que possam interferir no movimento, mas sem “comer” a solda estrutural.

Chapas de reforço: como evitar “barriga” e falta de assentamento

Chapas tendem a empenar e levantar bordas quando recebem calor concentrado.

  1. Ponteie os quatro cantos e confirme assentamento total.
  2. Solde em sequência cruzada: um cordão curto em um lado, depois no lado oposto, depois nos outros dois lados.
  3. Divida cordões longos em trechos e intercale lados para não “encanoar” a chapa.
  4. Controle do reforço: se a chapa estiver servindo para reforçar dobradiça/fechadura, garanta cordões contínuos onde há esforço e cordões intermitentes onde só há posicionamento (quando o projeto permitir).

Batentes e pontos de impacto: resistência e acabamento

Batentes recebem impacto e vibração. A solda deve ser resistente e com bom acabamento para não criar interferência no fechamento.

  • Faça raiz bem fundida na união principal (onde o batente “segura” carga).
  • Evite excesso de material no lado de contato: cordão alto pode virar ponto de atrito e ruído.
  • Planeje o desbaste: se precisar ficar “liso”, prefira dois cordões menores bem posicionados a um cordão grande que exigirá muito desbaste.

Inspeção visual da solda: critérios rápidos e o que corrigir

Checklist de inspeção visual (aplicável em portões e grades)

ItemO que observarRisco prático
ContinuidadeCordão sem falhas, sem “buracos”Trinca, ruptura por fadiga
Fusão nas bordasTransição suave entre cordão e metal baseFalta de fusão, descolamento
PorosidadeFuros/pontos pretos no cordãoPerda de resistência, infiltração
Respingo excessivoMuitos pingos aderidosRetrabalho no acabamento/pintura
TrincaLinhas finas no cordão ou na ZTAFalha imediata ou progressiva
SubcorteCanal ao lado do cordão (morde a borda)Concentração de tensão
Reforço (altura)Cordão muito alto ou muito “magro”Interferência / baixa resistência

Como corrigir porosidade (sem aumentar retrabalho)

  1. Identifique a causa provável: sujeira/óleo, umidade, proteção gasosa insuficiente (quando aplicável), arco instável, ou técnica muito rápida.
  2. Remova a região defeituosa: esmerilhe até eliminar poros visíveis e alcançar metal são. Evite apenas “tampar por cima”.
  3. Reprepare a junta: limpe novamente e garanta bom contato/abertura adequada.
  4. Refaça com cordão curto e observe se a porosidade reaparece; se reaparecer, pare e corrija a causa (limpeza, proteção, parâmetros).

Correções comuns sem deformar a peça

  • Subcorte: reponha com um passe leve, curto e bem controlado, evitando aquecer demais a região.
  • Falta de fusão aparente: remova e refaça; não confie em “maquiar” com desbaste.
  • Excesso de cordão: desbaste apenas o necessário para acabamento/encaixe; não reduza a garganta estrutural em pontos de carga (dobradiças, batentes).

Planejamento dos cordões para minimizar retrabalho no desbaste

Antes de soldar: decida onde precisa ficar “liso”

Em portões e grades, nem toda solda precisa ser nivelada. Planeje:

  • Áreas aparentes: cordões mais uniformes e com menor respingo para reduzir lixamento.
  • Áreas de encaixe/movimento (próximo a batentes e regiões de passagem): controle altura do cordão para não criar interferência.
  • Áreas estruturais (dobradiças e reforços): priorize resistência e fusão; acabamento vem depois, com cuidado para não enfraquecer.

Técnicas para reduzir desbaste

  • Cordão do tamanho certo: excesso de material é o que mais gera retrabalho. Prefira cordões consistentes e dimensionados à junta.
  • Posicionamento inteligente: quando possível, deixe o cordão no lado menos aparente e faça apenas pontos/cordões de acabamento no lado visível (sem comprometer resistência).
  • Sequência que evita “degraus”: ao alternar e dividir cordões, você reduz deformação e também evita desalinhamentos que exigiriam desbaste para “disfarçar”.
  • Limpeza entre passes: remover respingos e irregularidades leves antes do próximo passe evita que você tenha que “escavar” depois.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao soldar um quadro retangular de portão/grade, qual prática ajuda a evitar empeno e travamento causados pela contração do metal durante o resfriamento?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A contração ao resfriar puxa o material e pode fechar folgas. Ponteamentos distribuídos seguram a geometria e a solda alternada/simétrica com cordões curtos e pausas distribui calor e tensões, reduzindo empeno e travamentos.

Próximo capitúlo

Acabamento mecânico e ajuste final de estrutura: desbaste, alinhamento e testes a seco

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