Conceito: por que pontear e soldar em sequência evita empeno e travamentos
Em portões e grades, o principal “inimigo” durante a soldagem é a contração do metal ao resfriar. Cada cordão puxa o material para o lado onde foi depositado. Se a solda for feita longa, contínua e sempre no mesmo sentido, a peça tende a empenar (entortar), fechar folgas e até travar movimentações (principalmente em folhas com travessas e quadros finos).
O ponteamento estratégico (pontos curtos, alternados e distribuídos) serve para segurar a geometria antes da solda definitiva. Já a sequência alternada e simétrica distribui o calor e a contração, reduzindo tensões internas. O objetivo é soldar “equilibrando forças”: o que puxa de um lado, é compensado por outro cordão do lado oposto, com pausas para o conjunto perder temperatura.
Ponteamento estratégico: como travar a geometria sem criar tensão
Regras práticas de ponteamento
- Pontos curtos: ponteamentos pequenos (ex.: 8–15 mm) seguram sem concentrar calor excessivo.
- Distribuídos: em vez de “encher” um canto, espalhe pontos ao longo das uniões.
- Alternados: faça um ponto de um lado, depois no lado oposto, evitando aquecer uma região só.
- Fechar juntas antes: encostar e alinhar a junta (sem frestas exageradas) reduz respingos, poros e falta de fusão.
- Revisar antes de soldar de vez: após pontear, confira se nada “andou” e só então avance.
Onde e quantos pontos aplicar (exemplos)
Quadro retangular (portão/grade): comece pelos quatro cantos com 1 ponto por canto. Em seguida, aplique pontos no meio de cada lado (4 pontos). Se houver travessas internas, ponteie primeiro as extremidades e depois o centro da travessa.
Travessas e montantes: ponteie em “X” mental: um ponto numa extremidade, depois na extremidade oposta, depois repita do outro lado. Isso evita que a travessa “puxe” o quadro para um lado.
Chapas de reforço: ponteie os quatro cantos da chapa e depois um ponto intermediário em cada lado, mantendo a chapa assentada sem criar barriga.
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Passo a passo do ponteamento (rotina de bancada)
- Limpe a região da junta (sem tinta, óleo, carepa solta) para reduzir porosidade e instabilidade do arco.
- Posicione e prenda com grampos/ímãs apenas o suficiente para não vibrar. Excesso de travamento pode “guardar tensão”.
- Ponteie os cantos primeiro, alternando cantos opostos (ex.: canto A, depois canto C; canto B, depois canto D).
- Ponteie meios e travessas alternando lados do quadro.
- Reconfira medidas críticas (diagonais, paralelismo, alinhamento de travessas). Se houver desvio, corrija agora (corte do ponto e reposicionamento) — é mais rápido do que corrigir depois de soldado.
- Reforce ponteamentos apenas onde a peça tende a abrir/fechar durante a solda (juntas longas e perfis finos). Evite “costurar” com pontos muito próximos, pois isso já começa a deformar.
Sequência de solda alternada e simétrica: como distribuir calor e contração
Princípios da sequência
- Soldar do centro para as extremidades em juntas longas ajuda a distribuir a contração.
- Alternar lados opostos (direita/esquerda, cima/baixo) para equilibrar o “puxão”.
- Intercalar juntas diferentes: não finalize um lado inteiro do quadro antes de iniciar o lado oposto.
- Evitar cordões longos contínuos em perfis finos: prefira cordões curtos (técnica de “skip welding”).
- Controlar temperatura: pausas e resfriamento controlado reduzem empeno e trincas por choque térmico.
Sequência sugerida para um quadro retangular (exemplo prático)
Considere um quadro com quatro lados (superior, inferior, esquerdo, direito) e cantos já ponteados.
- Faça um cordão curto (ex.: 30–60 mm) no lado superior, próximo ao centro da junta.
- Vá para o lado inferior e faça cordão curto equivalente, também próximo ao centro.
- Vá para o lado esquerdo e repita (cordão curto no centro).
- Vá para o lado direito e repita.
- Retorne ao lado superior e faça outro cordão curto, agora deslocado para um lado do primeiro (ex.: metade esquerda).
- Espelhe no lado inferior (mesma posição relativa).
- Repita nos lados esquerdo/direito mantendo simetria.
- Complete as juntas sempre alternando lados opostos e evitando aquecer a mesma região em sequência.
Essa lógica pode ser aplicada também em travessas internas: solda um trecho na travessa, depois um trecho no lado oposto do quadro, depois volta na travessa do outro lado, e assim por diante.
Técnica de cordões curtos alternados (skip welding)
Em vez de um cordão contínuo de 300 mm, faça 5 cordões de 60 mm com espaçamento entre eles, alternando posições. Depois, volte preenchendo os espaços, novamente alternando. Isso reduz o acúmulo de calor e a tendência de “fechar” o quadro.
Exemplo em uma junta longa (vista superior): |---1---| |---3---| |---5---| (primeira passada) depois preencher 2, 4Pausas e resfriamento controlado
- Pausa programada: após completar um “ciclo” (ex.: 4 cordões em lados opostos), pare 1–3 minutos para a peça perder calor.
- Toque rápido: se a peça estiver quente demais para manter a mão próxima por alguns segundos (sem encostar), é sinal de que está acumulando calor; aumente as pausas e reduza o comprimento dos cordões.
- Resfriamento controlado: evite jogar água. O choque térmico pode endurecer regiões, aumentar tensões e favorecer trincas. Prefira ar ambiente e tempo.
- Ventilação moderada: um ventilador distante pode ajudar a baixar temperatura de forma uniforme, sem “gelar” um ponto específico.
Soldagem de pontos críticos: dobradiças, chapas de reforço e batentes
Dobradiças: penetração, alinhamento e controle de empeno local
Dobradiças concentram esforço e costumam estar próximas a bordas do quadro, onde a deformação aparece rápido. A meta é obter boa fusão sem “puxar” o montante.
- Ponteie a dobradiça com 2 a 4 pontos, alternando lados da peça (um ponto em cima, outro embaixo, depois do lado oposto).
- Faça cordões curtos em lados alternados da dobradiça (ex.: um filete pequeno na parte superior, depois na inferior, depois no lado oposto).
- Evite aquecer só um lado: soldar toda a volta de uma vez tende a puxar e desalinha eixo.
- Priorize penetração: ajuste a técnica para fundir bem a base e a dobradiça; falta de fusão aqui vira folga e quebra.
- Acabamento funcional: remova respingos e rebarbas que possam interferir no movimento, mas sem “comer” a solda estrutural.
Chapas de reforço: como evitar “barriga” e falta de assentamento
Chapas tendem a empenar e levantar bordas quando recebem calor concentrado.
- Ponteie os quatro cantos e confirme assentamento total.
- Solde em sequência cruzada: um cordão curto em um lado, depois no lado oposto, depois nos outros dois lados.
- Divida cordões longos em trechos e intercale lados para não “encanoar” a chapa.
- Controle do reforço: se a chapa estiver servindo para reforçar dobradiça/fechadura, garanta cordões contínuos onde há esforço e cordões intermitentes onde só há posicionamento (quando o projeto permitir).
Batentes e pontos de impacto: resistência e acabamento
Batentes recebem impacto e vibração. A solda deve ser resistente e com bom acabamento para não criar interferência no fechamento.
- Faça raiz bem fundida na união principal (onde o batente “segura” carga).
- Evite excesso de material no lado de contato: cordão alto pode virar ponto de atrito e ruído.
- Planeje o desbaste: se precisar ficar “liso”, prefira dois cordões menores bem posicionados a um cordão grande que exigirá muito desbaste.
Inspeção visual da solda: critérios rápidos e o que corrigir
Checklist de inspeção visual (aplicável em portões e grades)
| Item | O que observar | Risco prático |
|---|---|---|
| Continuidade | Cordão sem falhas, sem “buracos” | Trinca, ruptura por fadiga |
| Fusão nas bordas | Transição suave entre cordão e metal base | Falta de fusão, descolamento |
| Porosidade | Furos/pontos pretos no cordão | Perda de resistência, infiltração |
| Respingo excessivo | Muitos pingos aderidos | Retrabalho no acabamento/pintura |
| Trinca | Linhas finas no cordão ou na ZTA | Falha imediata ou progressiva |
| Subcorte | Canal ao lado do cordão (morde a borda) | Concentração de tensão |
| Reforço (altura) | Cordão muito alto ou muito “magro” | Interferência / baixa resistência |
Como corrigir porosidade (sem aumentar retrabalho)
- Identifique a causa provável: sujeira/óleo, umidade, proteção gasosa insuficiente (quando aplicável), arco instável, ou técnica muito rápida.
- Remova a região defeituosa: esmerilhe até eliminar poros visíveis e alcançar metal são. Evite apenas “tampar por cima”.
- Reprepare a junta: limpe novamente e garanta bom contato/abertura adequada.
- Refaça com cordão curto e observe se a porosidade reaparece; se reaparecer, pare e corrija a causa (limpeza, proteção, parâmetros).
Correções comuns sem deformar a peça
- Subcorte: reponha com um passe leve, curto e bem controlado, evitando aquecer demais a região.
- Falta de fusão aparente: remova e refaça; não confie em “maquiar” com desbaste.
- Excesso de cordão: desbaste apenas o necessário para acabamento/encaixe; não reduza a garganta estrutural em pontos de carga (dobradiças, batentes).
Planejamento dos cordões para minimizar retrabalho no desbaste
Antes de soldar: decida onde precisa ficar “liso”
Em portões e grades, nem toda solda precisa ser nivelada. Planeje:
- Áreas aparentes: cordões mais uniformes e com menor respingo para reduzir lixamento.
- Áreas de encaixe/movimento (próximo a batentes e regiões de passagem): controle altura do cordão para não criar interferência.
- Áreas estruturais (dobradiças e reforços): priorize resistência e fusão; acabamento vem depois, com cuidado para não enfraquecer.
Técnicas para reduzir desbaste
- Cordão do tamanho certo: excesso de material é o que mais gera retrabalho. Prefira cordões consistentes e dimensionados à junta.
- Posicionamento inteligente: quando possível, deixe o cordão no lado menos aparente e faça apenas pontos/cordões de acabamento no lado visível (sem comprometer resistência).
- Sequência que evita “degraus”: ao alternar e dividir cordões, você reduz deformação e também evita desalinhamentos que exigiriam desbaste para “disfarçar”.
- Limpeza entre passes: remover respingos e irregularidades leves antes do próximo passe evita que você tenha que “escavar” depois.