O Analista do IBGE atua em um ponto sensível do Estado: transformar informação estatística confiável em insumos para decisões públicas. Estatísticas oficiais não “decidem” políticas, mas estruturam o diagnóstico, ajudam a priorizar problemas, orientam o desenho de intervenções, permitem monitorar a execução e sustentam avaliações com transparência e comparabilidade territorial. Neste capítulo, o foco é operacional: como conectar o ciclo de políticas públicas a evidências, como escolher desenhos avaliativos e como ler resultados considerando incerteza e limitações.
1. Como estatísticas oficiais subsidiam políticas públicas
Estatísticas oficiais contribuem em três frentes complementares:
- Diagnóstico e priorização: dimensionar magnitude, distribuição territorial e grupos afetados (quem, onde, quanto).
- Gestão e monitoramento: acompanhar insumos, atividades e entregas (o que foi feito, para quem, com que cobertura).
- Avaliação: estimar efeitos e eficiência, identificar desigualdades e orientar correções (o que mudou por causa da política).
Para o trabalho do IBGE, é crucial explicitar: (a) a unidade territorial (município, setor censitário, região imediata, etc.), (b) o período de referência, (c) a população-alvo e (d) a comparabilidade entre fontes e ao longo do tempo. Em políticas territoriais, a coerência espacial (limites, mudanças administrativas, geocodificação) é parte do “método”.
2. Ciclo de políticas públicas orientado por evidências
2.1 Agenda: definição do problema e priorização
Na agenda, evidências ajudam a transformar percepções em problemas públicos mensuráveis. O papel do analista é construir um “enunciado estatístico” do problema: indicador, população, território, período e desigualdades.
- Exemplo: “A taxa de evasão no ensino médio é maior em municípios com menor acessibilidade a escolas e maior vulnerabilidade social”.
- Entrega típica: mapa temático + série temporal + recortes por grupos e territórios.
2.2 Formulação: desenho da intervenção e escolhas de instrumentos
Na formulação, estatísticas oficiais ajudam a definir público-alvo, critérios de elegibilidade, intensidade do benefício e mecanismos de focalização territorial. Aqui, o analista deve antecipar como a política será medida: quais indicadores mudariam se a política funcionar e em quanto tempo.
Continue em nosso aplicativo
Você poderá ouvir o audiobook com a tela desligada, ganhar gratuitamente o certificado deste curso e ainda ter acesso a outros 5.000 cursos online gratuitos.
ou continue lendo abaixo...Baixar o aplicativo
- Exemplo: programa de transporte escolar rural: definir cobertura mínima, rotas, critérios de priorização e metas por município.
- Entrega típica: teoria da mudança + matriz de indicadores + plano de avaliação (mínimo viável).
2.3 Implementação: execução, governança e qualidade do registro
Na implementação, o risco central é a política “existir no papel” e não se materializar de forma homogênea. Evidências entram como controle de consistência e rastreabilidade: cadastros, registros administrativos, auditorias amostrais e validações territoriais.
- Exemplo: verificar se municípios reportam entregas com padrões comparáveis (definições, periodicidade, cobertura).
- Entrega típica: painel de execução com alertas de qualidade (atrasos, outliers, quebras de série).
2.4 Monitoramento: acompanhamento contínuo e correção de rota
Monitoramento é medir “se está acontecendo” e “para quem”. Diferente de avaliação de impacto, monitoramento não identifica causalidade, mas detecta desvios e desigualdades de implementação.
- Exemplo: cobertura do programa por território e por grupos; tempo médio de atendimento; taxa de não comparecimento.
- Entrega típica: indicadores de processo com metas e semáforos (verde/amarelo/vermelho) com critérios explícitos.
2.5 Avaliação: julgamento de valor com base em evidências
A avaliação responde “funcionou?”, “para quem?”, “a que custo?” e “com que efeitos colaterais?”. O analista deve alinhar a pergunta avaliativa ao tipo de avaliação e ao desenho possível, dadas restrições éticas, operacionais e de dados.
3. Tipos de avaliação e perguntas típicas
3.1 Avaliação de processo (implementação)
Verifica se a política foi executada conforme o desenho e com qualidade. Útil quando resultados finais demoram ou quando há suspeita de falhas operacionais.
- Perguntas: a cobertura atingiu o público-alvo? houve atrasos? a oferta foi homogênea entre territórios?
- Métricas: cobertura, completude, tempo de espera, taxa de desistência, conformidade com protocolos.
3.2 Avaliação de impacto (efeito causal)
Busca estimar o efeito atribuível à política, isolando outras mudanças simultâneas. Exige um contrafactual: o que teria acontecido sem a política.
- Perguntas: a política reduziu a evasão? aumentou renda? diminuiu mortalidade evitável?
- Saída: estimativa de efeito (média, percentual, elasticidade) com incerteza.
3.3 Avaliação de eficiência (custo e produtividade)
Relaciona resultados a custos. Pode ser custo-efetividade (custo por unidade de resultado) ou custo-benefício (monetização de benefícios).
- Perguntas: qual o custo por aluno mantido na escola? qual alternativa entrega mais resultado com o mesmo orçamento?
- Cuidados: custos completos (incluindo administrativos), horizonte temporal e comparabilidade entre territórios.
3.4 Avaliação de equidade (distribuição e justiça)
Examina como benefícios e resultados se distribuem entre grupos e territórios. Uma política pode melhorar a média e piorar desigualdades.
- Perguntas: o efeito foi maior onde a vulnerabilidade é maior? houve exclusão de grupos? a focalização territorial reduziu disparidades?
- Saídas: efeitos heterogêneos por grupo/território; indicadores de desigualdade; mapas de gaps.
4. Teoria da mudança: do problema ao indicador
Teoria da mudança (TdM) explicita o mecanismo pelo qual a política gera resultados e quais condições precisam ocorrer. Ela organiza o raciocínio e orienta indicadores e avaliação.
4.1 Componentes essenciais
- Insumos: recursos financeiros, equipe, infraestrutura.
- Atividades: ações executadas (capacitar, transferir renda, construir, fiscalizar).
- Produtos (outputs): entregas imediatas (vagas criadas, visitas realizadas).
- Resultados (outcomes): mudanças no comportamento/condição (frequência escolar, acesso a serviços).
- Impactos: efeitos finais (aprendizagem, renda, mortalidade).
- Pressupostos: condições externas necessárias (adesão, coordenação, estabilidade institucional).
4.2 Passo a passo prático para construir uma TdM
Defina o problema com indicador, território e população-alvo (ex.: “baixa cobertura de pré-natal adequado em áreas rurais”).
Descreva a intervenção em linguagem operacional (o que será feito, por quem, com que intensidade).
Liste outputs mensuráveis (ex.: “número de equipes móveis”, “consultas realizadas”).
Formule outcomes esperados em prazos (curto/médio) e com direção (aumentar, reduzir).
Identifique riscos e pressupostos (ex.: “estradas transitáveis”, “estoque de insumos”).
Conecte indicadores a cada etapa e defina periodicidade e fonte (pesquisa, registro, painel).
Escolha perguntas avaliativas alinhadas à TdM (processo, impacto, eficiência, equidade).
5. Indicadores e metas: seleção, operacionalização e armadilhas
Indicadores são traduções mensuráveis de conceitos. Para políticas públicas, a seleção deve equilibrar relevância, mensurabilidade, sensibilidade a mudanças e comparabilidade territorial.
5.1 Critérios práticos de seleção de indicadores
- Validade: mede o que se pretende medir?
- Confiabilidade: é consistente ao longo do tempo e entre territórios?
- Sensibilidade: responde à intervenção em horizonte plausível?
- Desagregabilidade: permite recortes por território e grupos?
- Viabilidade: existe fonte com periodicidade adequada?
5.2 Metas: como definir sem “otimismo estatístico”
Metas devem considerar linha de base, tendência histórica, capacidade de implementação e incerteza. Uma meta não é apenas um número; é um compromisso com método de medição.
5.3 Armadilhas comuns
- Indicador de vaidade: melhora sem refletir bem-estar (ex.: “número de reuniões”).
- Substituição de objetivo: otimiza o indicador e piora o resultado real (gaming).
- Quebra de comparabilidade: mudança de definição, cobertura ou território sem ajuste.
- Defasagem temporal: indicador final demora; precisa de indicadores intermediários coerentes com a TdM.
6. Desenhos avaliativos: conceitos, pressupostos e ameaças à validade
Desenhos avaliativos organizam como inferir efeitos. Aqui, o foco é conceitual: quando usar, quais pressupostos e quais ameaças à validade interna (atribuição causal) e externa (generalização).
6.1 Antes-depois (pré-pós) sem grupo de comparação
Ideia: comparar o indicador antes e depois da política no mesmo grupo/território.
- Pressuposto implícito: nada além da política mudou de forma relevante no período.
- Ameaças: tendências pré-existentes, choques simultâneos (economia, clima), sazonalidade, regressão à média.
- Uso típico: avaliação rápida, piloto, monitoramento reforçado; não é ideal para impacto.
6.2 Grupo de controle (comparação entre tratados e não tratados)
Ideia: comparar resultados entre quem recebeu a política (tratamento) e quem não recebeu (controle).
- Pressuposto: grupos seriam comparáveis na ausência da política (ou foram tornados comparáveis por desenho).
- Ameaças: seleção (tratados diferem sistematicamente), contaminação (controle recebe algo semelhante), spillovers (efeitos indiretos), atrito (perdas de acompanhamento).
- Uso típico: quando há elegibilidade clara e possibilidade de construir comparação plausível.
6.3 Diferença-em-diferenças (DiD)
Ideia: comparar a mudança no tempo do grupo tratado com a mudança no tempo do grupo controle.
- Pressuposto-chave: tendências paralelas (na ausência da política, ambos evoluiriam de forma semelhante).
- Ameaças: tendências divergentes prévias, antecipação (mudança antes da implementação), mudanças de composição, choques que afetam grupos de forma diferente.
- Boas práticas: verificar pré-tendências, usar múltiplos períodos, controles e efeitos fixos quando apropriado.
6.4 Pareamento (matching)
Ideia: construir um grupo controle “parecido” com o tratado com base em características observáveis (ex.: perfil socioeconômico, infraestrutura, ruralidade).
- Pressuposto: seleção em observáveis (não há fatores não observados que afetem simultaneamente participação e resultado, após controlar observáveis).
- Ameaças: viés por variáveis não observadas, falta de sobreposição (common support), pareamento ruim por dados incompletos.
- Uso típico: quando não há randomização e há bons dados de covariáveis pré-intervenção.
6.5 Regressão descontínua (RD)
Ideia: explorar uma regra de elegibilidade com corte (ex.: municípios com população acima de X recebem o programa). Compara unidades logo acima e logo abaixo do corte.
- Pressuposto: unidades próximas ao corte são comparáveis; não há manipulação precisa do running variable; relação entre running variable e resultado é suave na ausência do programa.
- Ameaças: manipulação do critério, mudanças concomitantes no corte, especificação inadequada da forma funcional, escolha de janela (bandwidth).
- Uso típico: políticas com critérios administrativos claros e dados precisos do critério.
6.6 Validade interna e externa: checklist rápido
- Interna: seleção, confusão, tendências, mensuração, atrito, spillovers.
- Externa: o efeito vale para outros territórios? depende de capacidade local? depende de contexto econômico/urbano/rural?
7. Passo a passo para planejar uma avaliação com dados oficiais
Um plano mínimo viável de avaliação deve caber na realidade institucional: dados disponíveis, prazos, governança e ética.
Defina a pergunta avaliativa: impacto, processo, eficiência ou equidade (ou combinação).
Delimite a unidade de análise: indivíduo, domicílio, escola, estabelecimento, município, região; e o recorte territorial.
Descreva a intervenção e o momento de início: data, faseamento, intensidade, critérios de elegibilidade.
Construa a teoria da mudança e identifique indicadores por etapa (processo e resultado).
Escolha o desenho avaliativo compatível com a política (pré-pós, controle, DiD, matching, RD), justificando pressupostos.
Mapeie fontes e periodicidade: estatísticas oficiais e registros administrativos; defina janelas temporais (pré e pós).
Planeje qualidade e comparabilidade: definições, cobertura, mudanças territoriais, consistência temporal.
Defina estratégia de heterogeneidade: efeitos por território, rural/urbano, grupos sociais, faixas etárias.
Especifique como reportar incerteza: intervalos, erros-padrão, sensibilidade a escolhas (janela, covariáveis, pareamento).
Prepare produtos de comunicação: nota técnica, tabelas, mapas e mensagens-chave sem extrapolar causalidade quando não cabível.
8. Leitura de resultados com incerteza estatística (sem perder o sentido de política)
Resultados avaliativos devem ser lidos como estimativas com margem de erro, não como verdades absolutas. Para decisão pública, três perguntas ajudam:
- Magnitude: o efeito é relevante do ponto de vista substantivo (não apenas “significativo”)?
- Precisão: a incerteza é pequena o suficiente para orientar decisão? intervalos amplos sugerem cautela.
- Robustez: o resultado se mantém sob especificações razoáveis (ou muda muito com pequenas escolhas)?
Também é essencial distinguir:
- Ausência de evidência (intervalo amplo, baixa potência, dados fracos) de evidência de ausência (estimativa próxima de zero e precisa).
- Efeito médio de efeitos heterogêneos: uma política pode funcionar em áreas urbanas e não em áreas remotas, ou vice-versa.
9. Exercícios discursivos (políticas territoriais e sociais)
Exercício 1 — Política territorial de conectividade
Um programa federal amplia infraestrutura de internet em municípios remotos, priorizando aqueles com menor densidade de antenas e maior distância a centros regionais. A implementação ocorreu em ondas ao longo de 3 anos.
- Tarefa A: proponha uma teoria da mudança (insumos → atividades → outputs → outcomes → impactos) com pelo menos 2 pressupostos críticos.
- Tarefa B: proponha 6 indicadores (2 de processo, 2 de resultado intermediário, 2 de impacto), indicando unidade territorial e periodicidade.
- Tarefa C: escolha um desenho avaliativo (DiD, matching, RD, ou combinação) e justifique: qual é o contrafactual, quais pressupostos são necessários e quais ameaças à validade são mais prováveis.
- Tarefa D: descreva como você reportaria incerteza e como avaliaria heterogeneidade por ruralidade e região.
Exercício 2 — Política social com elegibilidade por corte
Um benefício é concedido a famílias com renda per capita declarada abaixo de um valor de corte. Há suspeita de manipulação na declaração para se enquadrar.
- Tarefa A: proponha um desenho de regressão descontínua conceitual: qual variável de ordenamento, qual janela ao redor do corte e quais testes/diagnósticos você exigiria para sustentar o desenho.
- Tarefa B: liste 4 ameaças à validade e como mitigá-las (ex.: auditoria, uso de renda verificada, placebo em cortes falsos).
- Tarefa C: proponha indicadores de equidade para verificar se o benefício alcança grupos mais vulneráveis e se reduz desigualdades territoriais.
Exercício 3 — Avaliação de eficiência em política de saúde territorializada
Um estado expande equipes de atenção primária em municípios pequenos. O objetivo é reduzir internações por condições sensíveis à atenção primária.
- Tarefa A: proponha uma estratégia de avaliação de processo (o que monitorar mensalmente/trimestralmente) e uma estratégia de impacto (qual desenho e por quê).
- Tarefa B: defina uma métrica de custo-efetividade e descreva quais custos devem entrar (diretos e administrativos) e qual horizonte temporal.
- Tarefa C: explique como você trataria a comparabilidade entre municípios (porte populacional, acesso geográfico, rede hospitalar) ao interpretar resultados.
Exercício 4 — Política educacional com seleção não aleatória
Um programa de reforço escolar é ofertado primeiro em escolas com pior desempenho e maior vulnerabilidade. Não houve sorteio.
- Tarefa A: explique por que uma comparação simples tratado vs. não tratado pode ser enviesada.
- Tarefa B: proponha um desenho com pareamento + diferença-em-diferenças (conceitual), indicando quais variáveis pré-intervenção seriam essenciais para parear.
- Tarefa C: proponha como verificar tendências paralelas e como comunicar limitações caso elas não se sustentem.