Planejamento de Aula do Zero: planos de aula completos para Educação Infantil

Capítulo 13

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

+ Exercício

O que é um plano de aula completo na Educação Infantil (na prática)

Um plano de aula completo na Educação Infantil é um documento de uso do professor que organiza, em campos preenchidos, o que será proposto às crianças, como a experiência acontecerá, quais materiais serão usados, quais evidências serão observadas e como a proposta será ajustada para diferentes ritmos e necessidades. Ele precisa ser simples o suficiente para ser consultado durante a aula e detalhado o bastante para orientar decisões rápidas: quando ampliar um desafio, quando retomar, quando encurtar uma etapa e como manter a segurança e a ludicidade.

A seguir, você encontrará dois exemplos de planos completos, com campos preenchidos, e um guia de como observar evidências e ajustar a proposta em tempo real, sem perder o foco do objetivo.

Modelo enxuto de plano de aula (campos essenciais)

Use este modelo como “checklist” de preenchimento. Ele ajuda a garantir que nada importante fique implícito.

  • Turma/idade
  • Duração
  • Campo(s) de experiência (BNCC) e foco
  • Objetivos de aprendizagem (observáveis)
  • Conteúdos/experiências (o que as crianças farão e vivenciarão)
  • Metodologia (como a proposta será conduzida)
  • Recursos (materiais e organização do espaço)
  • Etapas (com tempo aproximado e falas-chave do professor)
  • Avaliação (evidências + instrumento de registro)
  • Adaptações e ajustes por ritmo (antecipadas e durante a aula)
  • Cuidados de segurança (materiais, espaço, combinados)

Plano de aula completo 1: Linguagem oral e contação de histórias

Identificação

  • Turma/idade: Educação Infantil – 4 a 5 anos
  • Duração: 45 a 60 minutos
  • Campo(s) de experiência (BNCC): Escuta, fala, pensamento e imaginação; O eu, o outro e o nós
  • Tema da experiência: Contação de história com reconto e dramatização leve

Objetivos de aprendizagem (observáveis)

  • Participar de situações de escuta atenta, respeitando combinados (olhar, silêncio combinado, turnos de fala).
  • Recontar partes da história com apoio de imagens/objetos, usando marcadores temporais simples (por exemplo: “depois”, “aí”, “no final”).
  • Ampliar vocabulário ao nomear personagens, cenários e ações, explicando escolhas (“eu acho que ele fez isso porque…”).
  • Expressar sentimentos/opiniões sobre a história, justificando com elementos do enredo (“eu gostei quando…”).

Conteúdos/experiências

  • Escuta e fruição de narrativa.
  • Sequenciação oral de acontecimentos (início–meio–fim).
  • Vocabulário e construção de frases em interação.
  • Dramatização breve com objetos/gestos.

Metodologia

Roda de história com mediação ativa: o professor conta a história com pausas planejadas para previsões, perguntas abertas e retomadas. Em seguida, as crianças reconstroem a narrativa com apoio de cartões de sequência e fazem um reconto coletivo, com possibilidade de dramatização em pequenos grupos.

Recursos e organização do espaço

  • Livro escolhido (preferir texto curto e repetitivo ou com estrutura clara).
  • 3 a 6 cartões com imagens (sequência de cenas) ou objetos simbólicos (ex.: chapéu, colher, tecido).
  • Tapete/almofadas para roda.
  • Cartaz simples de combinados (pode ser só com desenhos).
  • Prancheta do professor + folha de registro (checklist + anotações).

Etapas (com tempos e falas-chave)

  • 1) Acolhida e combinados (5 min)

    Professor: “Hoje vamos ouvir uma história e depois contar de novo do nosso jeito. Como fazemos para todo mundo conseguir ouvir?” (registrar combinados ditos pelas crianças).

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  • 2) Ativação de repertório (5 min)

    Mostrar capa/objeto e perguntar: “O que vocês acham que vai acontecer? Por quê?” (aceitar hipóteses diferentes).

  • 3) Contação com pausas intencionais (15–20 min)

    Durante a leitura, fazer 3 tipos de pausa: (a) previsão (“o que vem agora?”), (b) compreensão (“quem apareceu?”), (c) inferência simples (“como ele se sentiu?”). Manter ritmo e não transformar em interrogatório: poucas perguntas, bem escolhidas.

  • 4) Reconto com apoio visual (10–15 min)

    Espalhar cartões de cenas. Convidar a turma a organizar a sequência. Professor: “Qual vem primeiro? O que te faz pensar isso?” Incentivar marcadores: “primeiro/depois/por fim”.

  • 5) Dramatização leve (10 min)

    Em duplas ou trios, escolher uma cena para “mostrar” com gestos e uma fala curta. Professor: “Vocês podem usar o tecido como capa, como rio, como parede… do jeito que imaginarem.”

  • 6) Socialização rápida (5 min)

    2 ou 3 grupos apresentam. A turma comenta com foco em linguagem: “Eu entendi que era a parte em que…”

Avaliação: evidências e instrumentos de registro

O que observar (evidências):

  • Escuta: mantém atenção por blocos curtos? precisa de lembretes? respeita turnos?
  • Compreensão: identifica personagens e ações principais?
  • Sequenciação: usa “depois/no final”? organiza cenas com apoio?
  • Expressão oral: amplia frases (mais de 3–4 palavras)? explica ideias?
  • Interação: responde ao colega, complementa, negocia na dramatização?

Como registrar (durante a aula): usar um checklist com 4 níveis simples (A: com autonomia; B: com apoio leve; C: com apoio frequente; D: ainda não observado) e anotações rápidas com exemplos de fala da criança (registro anedótico).

Checklist (exemplo de marcação rápida) - Turma 4-5 anos | História: ________ | Data: __/__/__  Criança | Escuta | Sequencia | Vocabulário | Turno de fala | Observação (fala/ação)  Ana     |  B    |    B      |     A      |      B       | “Depois ele correu porque...”  João    |  C    |    C      |     B      |      C       | Precisa de cartão para lembrar a cena  ...

Como usar o registro para ajustar: se muitas crianças ficaram em C na sequenciação, na próxima aula incluir reconto com mais apoio (menos cenas, mais repetição de refrões, reconto em pares antes do coletivo). Se a dificuldade foi turnos de fala, planejar uma dinâmica com “objeto da fala” (quem segura fala) e tempos curtos.

Adaptações e ajustes por diferentes ritmos (sem perder ludicidade)

  • Para crianças que falam pouco ou estão em fase de adaptação: permitir apontar cartões em vez de falar; oferecer frases iniciadoras (“Eu vi…”, “Depois…”); aceitar respostas por gesto e ir nomeando (“Você apontou o lobo; então ele apareceu aqui.”).
  • Para crianças com maior fluência oral: propor desafio de “mudar o final” ou “contar do ponto de vista do personagem”, mantendo tempo curto.
  • Para crianças com necessidade de previsibilidade: mostrar a sequência de etapas com 3 desenhos (ou objetos) e avisar transições (“faltam duas páginas”).
  • Para crianças com sensibilidade sensorial: oferecer lugar mais afastado na roda; reduzir estímulos (menos objetos); combinar participação por observação na dramatização.

Cuidados de segurança

  • Objetos sem pontas, sem peças pequenas para crianças que ainda levam à boca.
  • Na dramatização, delimitar espaço e combinar “sem correr” e “sem empurrar”; o professor posiciona-se para ver todo o grupo.

Plano de aula completo 2: Exploração de grandezas e medidas com materiais do cotidiano

Identificação

  • Turma/idade: Educação Infantil – 5 anos (adaptável para 4 anos)
  • Duração: 50 a 70 minutos
  • Campo(s) de experiência (BNCC): Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações
  • Tema da experiência: Medir e comparar comprimentos e capacidades com unidades não padronizadas

Objetivos de aprendizagem (observáveis)

  • Comparar comprimentos e alturas usando linguagem matemática informal (maior/menor, mais comprido/mais curto, mais alto/mais baixo).
  • Medir comprimentos com unidades não padronizadas (palmos, blocos, tampinhas, barbante) e comunicar o resultado (“deu 8 tampinhas”).
  • Explorar capacidade (enche/esvazia, cabe mais/cabe menos) com recipientes do cotidiano, registrando comparações.
  • Trabalhar em pequenos grupos, combinando papéis (quem mede, quem conta, quem registra) e respeitando turnos.

Conteúdos/experiências

  • Comparação direta e indireta de comprimentos.
  • Medida com unidades não convencionais e contagem.
  • Capacidade: transvasar, estimar e comparar.
  • Registro pictórico e/ou com marcas (traços, bolinhas, números quando possível).

Metodologia

Estações de exploração (rodízio) com desafios curtos e concretos. O professor circula mediando com perguntas, garantindo segurança no manuseio de água e organizando o tempo. Ao final, roda de socialização para comparar estratégias e resultados.

Recursos e organização do espaço

  • Estação 1 (comprimento): barbantes, fita crepe, tampinhas iguais, blocos iguais, cartões com “missões” (ex.: medir mesa, tapete, porta).
  • Estação 2 (altura): parede livre, fita crepe para marcar alturas, folhas para registrar, lápis.
  • Estação 3 (capacidade): bacias, jarra, copos plásticos resistentes, funil, panos para secar, água em quantidade controlada (ou areia/feijão como alternativa).
  • Registro do professor: prancheta + checklist + campo para falas.

Etapas (com tempos e falas-chave)

  • 1) Lançamento do desafio (5–10 min)

    Professor: “Hoje vamos descobrir jeitos de medir usando coisas da sala. Medir é comparar e contar usando uma unidade. Qual unidade a gente pode inventar?” (aceitar sugestões e escolher 1 ou 2 para começar).

  • 2) Demonstração rápida (5 min)

    Modelar uma medida curta (ex.: medir um livro com tampinhas). Destacar regra: usar tampinhas iguais, encostar sem deixar espaços, contar com calma.

  • 3) Rodízio nas estações (30–40 min)

    Estação 1 – Comprimento: medir 2 objetos e comparar: “Qual deu mais tampinhas? Então é mais comprido.”

    Estação 2 – Altura: marcar na parede com fita crepe a altura de cada criança (ou de 3 voluntários) e comparar: “Quem ficou mais alto? Por quanto (em blocos/palmos)?”

    Estação 3 – Capacidade: transvasar: “Quantos copos enchem esta jarra?” ou “Qual pote cabe mais?” (controlar derramamentos com bandejas/panos).

  • 4) Socialização e comparação de estratégias (10–15 min)

    Professor: “Dois grupos mediram a mesa e deu números diferentes. O que pode ter acontecido?” (levar à ideia de unidade e procedimento: tampinhas diferentes, espaços, contagem).

Avaliação: evidências e instrumentos de registro

O que observar (evidências):

  • Compara usando linguagem adequada (mais/menos, maior/menor) e aponta o referente (“mais tampinhas”).
  • Entende a necessidade de unidades iguais e alinhadas (sem espaços/sobreposição).
  • Conta as unidades com correspondência um a um (aponta e conta sem pular).
  • Explica procedimento (“eu coloquei tampinhas até o fim”).
  • Na capacidade, percebe que recipientes diferentes podem “enganar” (alto e fino vs baixo e largo) e testa com transvaso.

Como registrar (durante a aula): combinar checklist + foto de 1 produção por estação (se possível) + anotação de falas. Se não houver foto, fazer um desenho rápido do arranjo (ex.: tampinhas alinhadas) e anotar o número encontrado.

CriançaComparou (sim/com apoio/não)Mediu com unidade igualContou com 1 a 1Explicou o procedimentoObservação
___com apoiosimsimnãoDisse “deu mais” sem dizer do quê; após pergunta, completou “mais tampinhas”.
___simnãocom apoiosimUsou tampinhas diferentes; refez após combinar “todas iguais”.

Adaptações e ajustes por diferentes ritmos (mantendo segurança e brincadeira)

  • Para quem precisa de mais apoio: reduzir a tarefa (medir só um objeto); oferecer trilha visual (marcas no barbante; linha no chão); usar unidades maiores (blocos) para diminuir a contagem; trabalhar em dupla com papéis claros (um alinha, outro conta).
  • Para quem avança mais rápido: propor comparação indireta (medir dois objetos com a mesma unidade e registrar); introduzir estimativa antes de medir (“quantas tampinhas você acha?”) e depois conferir; comparar resultados entre grupos e discutir por que variou.
  • Para crianças com dificuldade de coordenação fina: preferir barbante e blocos em vez de tampinhas pequenas; usar bandejas para conter peças.
  • Para crianças com sensibilidade a água: oferecer alternativa com areia/feijão; permitir observar e registrar sem manipular diretamente.

Cuidados de segurança

  • Água em quantidade pequena e em bandejas; panos disponíveis; piso seco para evitar escorregões.
  • Peças pequenas (tampinhas) somente com supervisão e avaliação do grupo; se houver risco de levar à boca, substituir por blocos grandes.
  • Organizar fluxo nas estações para evitar aglomeração; delimitar áreas com fita no chão.

Como o professor observa evidências e ajusta a proposta em tempo real

Passo a passo de observação durante a aula (sem “parar” a experiência)

  • 1) Defina 3 focos de observação por aula: escolha poucos itens do checklist para não se perder (ex.: na história: sequenciação, turnos, vocabulário; nas medidas: unidade igual, contagem 1 a 1, explicação).
  • 2) Observe por amostragem: em cada etapa, foque em 6 a 8 crianças (não precisa observar todas com a mesma profundidade no mesmo dia). Na próxima aula, troque o grupo observado.
  • 3) Registre evidências curtas e concretas: anote falas literais e ações (“organizou 3 cartões sem ajuda”; “contou 1-2-4, pulou o 3”). Evite registros genéricos (“participou bem”).
  • 4) Faça microintervenções: uma pergunta ou modelagem rápida e volte a observar. Ex.: “Mostra onde começa?”; “Vamos encostar as tampinhas sem espaço?”; “O que aconteceu depois?”
  • 5) Decida ajustes imediatos: se muitos erram o mesmo ponto, pare 1 minuto para reexplicar com demonstração; se é dificuldade de poucos, apoie individualmente sem interromper o grupo.

Como ajustar para diferentes ritmos sem mudar o objetivo

  • Ajuste por apoio (scaffolding): oferecer pistas, modelos, frases iniciadoras, cartões de sequência, unidades maiores, tarefas com menos passos.
  • Ajuste por desafio: ampliar complexidade para quem já domina (mudar ponto de vista no reconto; estimar e justificar na medida; comparar resultados entre grupos).
  • Ajuste por tempo: permitir que alguns terminem antes e tenham uma “missão extra” relacionada (ex.: escolher uma palavra nova da história e explicar; medir mais um objeto).
  • Ajuste por participação: aceitar diferentes formas de demonstrar aprendizagem (apontar, organizar cartões, registrar com desenho, explicar para um colega) e planejar uma próxima oportunidade de fala para quem ainda não falou.

Exemplos de decisões rápidas baseadas em evidências

  • Na contação: se as crianças se perdem na ordem dos fatos, reduzir o número de cartões (de 6 para 3) e recontar com estrutura fixa: “No começo… Depois… No final…”.
  • Na medida: se aparecem resultados muito diferentes para o mesmo objeto, transformar isso em investigação guiada: “O que aconteceu com as tampinhas? Estavam iguais? Tinha espaço?” e refazer com um procedimento combinado.
  • Na capacidade: se a turma se dispersa com a água, trocar para material seco (areia/feijão) mantendo o objetivo de comparar e contar unidades de enchimento.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao observar que muitas crianças estão se perdendo na ordem dos acontecimentos durante o reconto de uma história, qual ajuste imediato mantém o objetivo de sequenciação sem interromper a ludicidade?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Reduzir os cartões e usar a estrutura “No começo… Depois… No final…” oferece mais apoio para organizar a sequência, mantendo o mesmo objetivo de aprendizagem (sequenciação) com uma intervenção rápida.

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