Planejamento de Aula do Zero: construção de instrumentos (rubricas, checklists e registro do professor)

Capítulo 11

Tempo estimado de leitura: 14 minutos

+ Exercício

O que são instrumentos de avaliação (e por que eles facilitam a vida do professor)

Instrumentos de avaliação são ferramentas práticas para observar evidências de aprendizagem e registrar o desempenho dos estudantes de forma consistente. Neste capítulo, vamos construir três tipos muito usados no dia a dia: rubricas (analíticas e holísticas), checklists (listas de verificação) e registros do professor (planilha/caderno com códigos e notas descritivas). A ideia é transformar “impressões” em descrições observáveis, com níveis de desempenho claros, e depois converter esses registros em devolutivas objetivas.

Rubricas: analítica x holística

Rubrica analítica

É uma tabela com critérios separados (por exemplo: organização, argumentação, linguagem) e níveis de desempenho para cada critério. Vantagens: detalha onde o estudante foi bem e onde precisa melhorar; facilita devolutiva específica; ajuda a padronizar correção.

Rubrica holística

É uma escala que descreve o desempenho como um todo (um texto global por nível). Vantagens: correção mais rápida; útil quando o foco é o produto final integrado (ex.: apresentação oral). Limite: dá menos detalhe sobre “qual parte” precisa de ajuste.

Como definir níveis e descritores observáveis (sem termos subjetivos)

O problema dos termos subjetivos

Palavras como “bom”, “fraco”, “criativo”, “caprichado”, “claro” e “confuso” variam de pessoa para pessoa. Para reduzir ambiguidade, substitua por comportamentos observáveis e marcadores verificáveis.

Estratégia prática: transformar adjetivos em evidências

  • “Texto claro” → “Apresenta tese no 1º parágrafo e retoma a tese na conclusão; usa conectivos de causa/consequência em pelo menos 3 trechos.”
  • “Bem organizado” → “Divide em introdução, desenvolvimento e conclusão; cada parágrafo tem uma ideia central; não há parágrafos com mais de 10 linhas.”
  • “Resolve bem” → “Registra dados do problema; escolhe operação/estratégia adequada; apresenta cálculo; confere resultado com estimativa.”
  • “Boa apresentação” → “Mantém contato visual em pelo menos 50% do tempo; fala audível; usa tempo entre 3 e 5 minutos; responde a 1 pergunta com justificativa.”

Como escolher os níveis de desempenho

Um modelo simples e funcional é usar 4 níveis. Exemplo de rótulos (opcionais): 4-Avançado, 3-Adequado, 2-Em desenvolvimento, 1-Inicial. O mais importante não é o nome do nível, e sim a descrição do que o estudante faz.

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Regras de ouro para descritores

  • Um descritor = uma ação observável (evite “e” em excesso no mesmo nível).
  • Use verbos: identifica, seleciona, justifica, compara, organiza, calcula, revisa, sustenta, responde.
  • Inclua condições mensuráveis quando fizer sentido: “em 2 de 3 tentativas”, “com até 2 erros”, “com 3 evidências”, “em até 5 minutos”.
  • Evite punir forma quando o critério é conteúdo (separe “cálculo” de “registro do raciocínio”, por exemplo).
  • Descreva progressão real: do básico (cumpre parcialmente) ao avançado (autonomia, precisão, justificativa).

Passo a passo: construindo uma rubrica analítica do zero

  1. Defina o produto/atividade: o que será entregue? (texto, resolução, apresentação, experimento etc.).

  2. Liste 4 a 6 critérios: escolha os aspectos essenciais que você realmente vai observar. Ex.: “argumentação”, “procedimento”, “uso de evidências”.

  3. Escreva o nível “Adequado” primeiro: descreva o que é esperado para atingir o objetivo (o padrão de sucesso).

  4. Escreva o nível “Inicial”: descreva o mínimo observável (o que aparece quando o estudante ainda não domina).

  5. Escreva “Em desenvolvimento”: ponte entre inicial e adequado (acertos parciais, inconsistências).

  6. Escreva “Avançado”: vai além do adequado (autonomia, precisão, justificativa robusta, refinamento).

  7. Teste a rubrica com 2 exemplos reais: pegue duas produções (uma forte e uma frágil) e veja se os descritores “encaixam” sem dúvida.

  8. Revise para eliminar subjetividade: troque adjetivos por evidências; reduza descritores longos; garanta que cada nível seja distinguível.

Modelos prontos para adaptação

Modelo 1: Rubrica analítica (estrutura base)

Atividade: ____________________________   Turma: ______   Data: ___/___/____  Peso: ___ (se usar)  Pontos: 1-4 (ou 0-3)  Critérios: 4 a 6
Critério4 - Avançado3 - Adequado2 - Em desenvolvimento1 - Inicial
Critério 1Descritor observávelDescritor observávelDescritor observávelDescritor observável
Critério 2............
Critério 3............
Critério 4............

Modelo 2: Rubrica holística (estrutura base)

NívelDescrição global do desempenho
4Descreva o desempenho integrado com evidências observáveis.
3Descreva o padrão esperado (o que caracteriza sucesso).
2Descreva desempenho parcial: acertos com lacunas/erros recorrentes.
1Descreva desempenho inicial: atende pouco ao que foi solicitado.

Modelo 3: Checklist (lista de verificação)

Use quando o objetivo é confirmar presença/ausência de itens (entregou? incluiu? citou? registrou?). Pode ser binário (sim/não) ou com “parcial”.

ItemSimParcialNãoObservações rápidas
Incluiu título( )( )( )__________
Apresentou dados do problema( )( )( )__________
Justificou a resposta( )( )( )__________

Modelo 4: Escala simples (rating scale)

Use quando há um continuum (frequência, autonomia, clareza da fala), mas você não precisa de descritores longos. Ainda assim, defina âncoras observáveis para reduzir subjetividade.

Aspecto1234Âncora observável (o que observar)
Autonomia( )( )( )( )1=precisa de ajuda a cada etapa; 4=conclui com poucas intervenções
Participação( )( )( )( )1=raramente contribui; 4=contribui em pelo menos 3 momentos

Exemplo completo 1: Rubrica para produção textual (rubrica analítica)

Atividade: Produzir um texto de opinião (15 a 25 linhas) sobre um tema trabalhado em aula, com tese, argumentos e conclusão.

Critério4 - Avançado3 - Adequado2 - Em desenvolvimento1 - Inicial
Atendimento ao tema e teseApresenta tese explícita no início e mantém foco no tema ao longo do texto; não há desvios relevantes.Apresenta tese e mantém foco no tema na maior parte do texto; há no máximo 1 desvio leve.Tese aparece de forma vaga ou tardia; há desvios que prejudicam a compreensão do posicionamento.Não apresenta tese identificável ou o texto foge do tema proposto.
Argumentação e evidênciasApresenta pelo menos 2 argumentos distintos, cada um com justificativa e exemplo/dado/explicação; antecipa ou responde a um contra-argumento.Apresenta pelo menos 2 argumentos com justificativa; usa ao menos 1 exemplo/explicação para sustentar ideias.Apresenta 1 argumento principal ou argumentos repetidos; justificativas são genéricas (“porque sim”, “todo mundo sabe”).Afirma opiniões sem justificativa; lista ideias sem relação de causa/explicação.
Organização e coesãoEstrutura clara (introdução, desenvolvimento, conclusão); usa conectivos variados (causa, contraste, conclusão) de forma adequada; parágrafos com ideia central definida.Estrutura presente; usa conectivos básicos (porque, mas, então) com pouca repetição; parágrafos em geral organizados.Estrutura incompleta (ex.: sem conclusão) ou parágrafos desorganizados; conectivos ausentes ou repetitivos, causando “saltos” de sentido.Texto sem organização em partes; sequência de frases sem ligação; difícil identificar progressão de ideias.
Linguagem e convençõesVocabulário adequado ao gênero; concordância e pontuação com até 2 desvios que não comprometem o sentido; ortografia com poucos erros.Linguagem adequada; erros de ortografia/pontuação aparecem, mas não impedem compreensão global.Erros frequentes de ortografia/pontuação/concordância dificultam a leitura em vários trechos.Erros muito frequentes impedem compreensão de partes importantes do texto.
Revisão (melhorias após feedback)Incorpora feedback: corrige problemas apontados e melhora ao menos 2 aspectos (ex.: tese mais explícita e conectivos mais precisos).Incorpora parte do feedback: corrige pelo menos 1 aspecto central apontado.Faz alterações superficiais (ex.: troca palavras) sem resolver os pontos principais indicados.Não revisa ou mantém os mesmos problemas centrais após orientação.

Dica de aplicação rápida: se o tempo for curto, use os 4 primeiros critérios e deixe “Revisão” para uma segunda versão do texto.

Exemplo completo 2: Rubrica para resolução de problemas matemáticos (rubrica analítica)

Atividade: Resolver um problema contextualizado (1 a 2 itens), registrando raciocínio, cálculos e resposta final.

Critério4 - Avançado3 - Adequado2 - Em desenvolvimento1 - Inicial
Compreensão e organização dos dadosIdentifica corretamente dados e pergunta; reescreve/organiza informações (tabela, esquema, destaque de unidades) sem omissões.Identifica dados e pergunta; organiza parcialmente (anota dados principais), com no máximo 1 omissão pequena.Registra alguns dados, mas omite informação importante ou confunde unidades/valores.Não identifica o que é pedido ou registra dados incorretos que inviabilizam a resolução.
Estratégia e escolha de procedimentosSeleciona estratégia adequada (equação, desenho, decomposição, proporcionalidade etc.) e justifica a escolha (mesmo que brevemente).Seleciona estratégia adequada e executa; justificativa pode não aparecer, mas o procedimento é coerente.Estratégia parcialmente adequada; tenta procedimentos, mas há escolhas que não levam ao que é pedido.Escolhe procedimentos aleatórios ou não inicia uma estratégia reconhecível.
Cálculos e precisãoCálculos corretos; quando há erro, identifica e corrige; mantém unidades e arredondamentos coerentes.Cálculos em geral corretos; pode haver 1 erro operacional que não compromete totalmente o raciocínio (ou é corrigido).Erros operacionais frequentes; parte do procedimento está correta, mas a precisão é baixa.Erros impedem chegar a resultados utilizáveis; não há controle de unidades/valores.
Registro do raciocínioMostra etapas com clareza (o que fez e por quê); usa símbolos/linguagem matemática adequados; permite que outra pessoa acompanhe.Registra etapas principais; pode faltar explicação do “por quê”, mas dá para acompanhar o caminho.Registro incompleto; salta etapas; difícil entender como chegou aos resultados.Não registra raciocínio; apresenta apenas um número ou tentativas desconexas.
Resposta final e validaçãoApresenta resposta completa (valor + unidade + frase); confere com estimativa/checagem (substitui na equação, compara ordem de grandeza).Apresenta resposta com unidade; checagem pode não aparecer, mas a resposta é coerente com o problema.Resposta sem unidade ou sem frase; pode não corresponder exatamente ao que foi perguntado.Não apresenta resposta final ou a resposta não se relaciona ao problema.

Observação: se o foco da aula for “estratégia”, você pode dar peso maior ao critério “Estratégia e escolha de procedimentos” e menor a “Cálculos e precisão”.

Exemplo completo 3: Rubrica para apresentação oral (holística + checklist de apoio)

Rubrica holística (4 níveis)

Atividade: Apresentação oral de 3 a 5 minutos, individual ou em dupla, explicando um tema estudado e respondendo a perguntas.

NívelDescrição global do desempenho
4Apresenta ideias em sequência lógica (abertura, desenvolvimento, fechamento), explica conceitos com exemplos, usa linguagem adequada ao público, mantém voz audível e ritmo estável, e responde a perguntas justificando com base no conteúdo trabalhado.
3Apresenta o tema com organização geral, explica os pontos principais com pelo menos 1 exemplo, mantém voz audível na maior parte do tempo e responde a perguntas simples sobre o conteúdo.
2Apresenta informações, mas com organização frágil (saltos, repetição) ou explicações genéricas; voz baixa ou leitura excessiva; responde parcialmente às perguntas ou precisa de ajuda para retomar o tema.
1Não consegue apresentar o tema de forma compreensível (muito curto, desconexo ou fora do tema); não explica conceitos; não responde às perguntas mesmo com apoio.

Checklist de apoio (para observação rápida durante a fala)

Item observávelSimParcialNãoNota rápida
Respeitou o tempo (3 a 5 min)( )( )( )_____
Explicou pelo menos 2 ideias principais( )( )( )_____
Deu pelo menos 1 exemplo( )( )( )_____
Voz audível na maior parte do tempo( )( )( )_____
Respondeu a 1 pergunta com justificativa( )( )( )_____

Como usar: aplique a rubrica holística para o nível final (1 a 4) e use o checklist para registrar evidências que sustentem a nota e facilitem a devolutiva.

Quando usar rubrica, checklist ou escala simples

  • Rubrica analítica: quando você precisa detalhar pontos fortes e próximos passos por critério (texto, resolução, projeto).
  • Rubrica holística: quando o desempenho é integrado e o tempo de correção é curto (apresentação, performance, produto final).
  • Checklist: quando o foco é presença/ausência de itens (entrega, etapas cumpridas, componentes obrigatórios).
  • Escala simples: quando você quer medir intensidade/frequência com âncoras (autonomia, participação, colaboração).

Registro do professor: como organizar em planilha ou caderno de classe

O que registrar (mínimo eficiente)

  • Data e atividade (para contextualizar).
  • Instrumento usado (rubrica/checklist/escala).
  • Resultado por critério (ex.: 1 a 4) ou itens (sim/parcial/não).
  • Evidência curta (1 linha): o que foi observado (ex.: “usou 2 argumentos, sem exemplo”).
  • Próximo passo (1 ação): “incluir exemplo em cada argumento”, “conferir unidade”, “ensaiar abertura”.

Modelo de planilha (estrutura sugerida)

AlunoAtividadeDataC1C2C3C4Evidência (curta)Próximo passo
AnaTexto opinião10/0332322 argumentos, sem exemplo; conectivos repetidosAdicionar 1 exemplo por argumento; variar conectivos
BrunoProblema 112/032322Escolheu estratégia ok; erro em multiplicação; sem checagemRefazer cálculo e checar por estimativa

Legenda: C1..C4 = critérios da rubrica (nomeie na primeira linha da planilha ou em uma aba “critérios”).

Modelo de caderno de classe (página por atividade)

  • Cabeçalho: atividade + data + critérios (C1..C4 com nomes).
  • Lista de alunos em coluna.
  • Colunas: C1, C2, C3, C4, evidência, próximo passo.
  • Códigos rápidos para evidências recorrentes (ex.: T=sem tese; EX=sem exemplo; UN=sem unidade; CH=sem checagem; VO=voz baixa). Registre o código e, se necessário, 1 palavra de contexto.

Transformando registros em devolutivas objetivas

Estrutura simples de devolutiva (2 forças + 1 próximo passo)

Uma devolutiva objetiva descreve evidências e indica ação. Um formato prático é:

  • Força 1 (evidência): “Você apresentou tese no início e manteve o tema.”
  • Força 2 (evidência): “Usou dois argumentos diferentes.”
  • Próximo passo (ação): “Inclua um exemplo em cada argumento para sustentar melhor sua opinião.”

Como escrever sem julgamento

  • Evite: “Seu texto está fraco.”
  • Prefira: “Há 1 argumento principal e ele não tem exemplo; isso dificulta convencer o leitor.”
  • Evite: “Você é desorganizado.”
  • Prefira: “O texto não tem conclusão; inclua um parágrafo final retomando a tese e sintetizando os argumentos.”

Devolutiva baseada em rubrica (modelo pronto)

Critério em destaque: ______________________ (nível ___)  Evidência: ________________________. Próximo passo: ________________________.

Exemplos prontos:

  • Produção textual: “Argumentação (nível 2): você apresenta opinião, mas sem exemplo/dado. Próximo passo: em cada argumento, inclua um exemplo concreto (situação, fato, comparação) em 1 a 2 frases.”
  • Matemática: “Validação (nível 2): você encontrou um resultado, mas não conferiu se faz sentido. Próximo passo: faça uma estimativa antes do cálculo e compare com o resultado final.”
  • Apresentação oral: “Nível 3: você explicou os pontos principais e respeitou o tempo. Próximo passo: preparar 1 exemplo para cada ideia principal e usar na fala para deixar a explicação mais concreta.”

Transformando dados da planilha em ações de ensino

Quando você registra por critério, fica fácil enxergar padrões. Exemplo: se muitos estudantes ficaram em nível 1 ou 2 no mesmo critério, isso vira um alvo de intervenção (mini-aula, exercício guiado, modelo de resposta, reescrita). Para isso, na planilha, você pode criar uma contagem simples por critério:

CritérioNível 1Nível 2Nível 3Nível 4Ação imediata
Argumentação (texto)61082Oficina: exemplo por argumento + banco de conectivos
Validação (matemática)91151Rotina: estimativa + checagem obrigatória no final

Checklist e escala: passo a passo rápido de construção

Checklist (passo a passo)

  1. Liste os itens obrigatórios do produto (de 5 a 10 itens).

  2. Escreva itens verificáveis: “Incluiu 2 exemplos” (melhor) do que “Caprichou nos exemplos”.

  3. Defina a marcação: sim/não ou sim/parcial/não.

  4. Reserve uma coluna de observação para 3 a 7 palavras (o suficiente para lembrar a evidência).

Escala simples (passo a passo)

  1. Escolha 1 a 3 aspectos (ex.: autonomia, colaboração, clareza).

  2. Defina 4 pontos (1 a 4) e escreva âncoras observáveis para 1 e 4 (mínimo).

  3. Decida o momento de observação (ex.: durante atividade em grupo, durante apresentação, durante resolução individual).

  4. Registre evidência curta para justificar a marcação (ex.: “pediu ajuda 4x”, “explicou para colega”).

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em qual situação é mais indicado usar uma rubrica holística em vez de uma rubrica analítica?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

A rubrica holística descreve o desempenho de forma global por nível, sendo útil quando o foco é o produto integrado e a correção precisa ser mais rápida.

Próximo capitúlo

Planejamento de Aula do Zero: feedback e devolutivas que orientam o próximo passo

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