Planejamento da Necessidade de Capital de Giro com projeções simples de caixa

Capítulo 9

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

O que significa “planejar a necessidade de capital de giro” na prática

Planejar a Necessidade de Capital de Giro (NCG) é transformar previsões de vendas e prazos (de recebimento e pagamento) em uma projeção de caixa mês a mês (ou semana a semana) para identificar: (1) quando o caixa fica negativo, (2) qual é o “pico” de necessidade de caixa (o menor saldo projetado), e (3) qual deve ser o colchão mínimo (reserva operacional) para operar sem sufoco.

O foco aqui não é “quanto vou vender”, e sim “quando o dinheiro entra” versus “quando o dinheiro sai”, incluindo o efeito de estoques (comprar antes de vender) e sazonalidade (meses fortes e fracos).

Método em camadas: do simples ao completo

Use um método em camadas para não travar na complexidade. Você pode começar com uma planilha simples e ir refinando.

Camada 1 — Projeção de entradas (recebimentos) por condição de pagamento

Em vez de lançar “vendas” como entrada, lance “recebimentos” conforme as condições de pagamento. Para isso, você precisa de: (a) vendas previstas por período, (b) mix de condições (à vista, 30 dias, 2x, 3x etc.), (c) taxas e prazos de repasse (se houver cartão/marketplace), e (d) inadimplência/atrasos (se aplicável).

Passo a passo:

Continue em nosso aplicativo e ...
  • Ouça o áudio com a tela desligada
  • Ganhe Certificado após a conclusão
  • + de 5000 cursos para você explorar!
ou continue lendo abaixo...
Download App

Baixar o aplicativo

  • Defina a granularidade: mensal (mais simples) ou semanal (melhor para negócios com muita oscilação).
  • Projete vendas brutas por período (considerando sazonalidade).
  • Quebre as vendas por condição de pagamento (percentuais).
  • Converta vendas em recebimentos por período usando uma “matriz de recebimento” (ex.: 40% no mesmo mês, 60% no mês seguinte).

Matriz de recebimento (exemplo mensal):

Recebimentos no mês t = Vendas(t) * %à vista + Vendas(t-1) * %30d + Vendas(t-2) * %60d + ...

Camada 2 — Projeção de saídas (pagamentos) por natureza

Agora projete as saídas separando o que varia com vendas (compras/CMV, impostos sobre venda, comissões, fretes) do que é mais fixo (folha, aluguel, serviços, marketing base, despesas administrativas). O objetivo é saber “quando paga”, não apenas “quanto custa”.

Passo a passo:

  • Liste as saídas recorrentes fixas por período (folha, aluguel, sistemas, contabilidade etc.).
  • Defina impostos e comissões como percentuais das vendas (ou do faturamento) e aplique o prazo real de pagamento (ex.: imposto no mês seguinte).
  • Projete compras/fornecedores com base no custo e na política de estoque (ver Camada 3) e aplique o prazo de pagamento.
  • Inclua “eventos” não recorrentes (13º, férias, manutenção, bônus, renovação anual) no mês correto.

Camada 3 — Variação de estoques (o pedaço que mais distorce o caixa)

Mesmo com margem boa, o caixa pode quebrar quando o estoque cresce antes da venda (sazonalidade, expansão, lançamento de produto). Por isso, inclua uma camada explícita de estoque: quanto você precisa comprar para sustentar as vendas e qual será a variação do saldo de estoque.

Uma forma prática é projetar o estoque alvo como “cobertura” de vendas futuras (ex.: manter estoque equivalente a 1 mês de custo de vendas do próximo mês). Assim você calcula compras necessárias.

Fórmulas simples:

CMV(t) = Vendas(t) * (1 - MargemBruta)   // se margem bruta for percentual sobre vendas (simplificação útil para projeção)
EstoqueAlvo(t) = CMV(t+1) * CoberturaEmMeses
Compras(t) = CMV(t) + EstoqueAlvo(t) - EstoqueInicial(t)

Se você não quiser usar “estoque alvo”, pode projetar compras como um percentual do CMV e depois ajustar manualmente nos meses de sazonalidade (ex.: comprar mais em outubro/novembro para vender em dezembro).

Como montar a planilha (estrutura mínima)

Uma estrutura simples, porém completa, é:

  • Linhas: Recebimentos (por tipo), Pagamentos (por tipo), Compras, Folha, Impostos, Despesas, Investimentos (se houver), Variação de Caixa.
  • Colunas: Meses (ou semanas).
  • Bloco de controle: Saldo inicial de caixa, saldo final de caixa, e o menor saldo (pico de necessidade).

Identidade do caixa:

SaldoFinal(t) = SaldoInicial(t) + Entradas(t) - Saídas(t)
SaldoInicial(t+1) = SaldoFinal(t)

Exemplo completo com números: encontrando o pico de necessidade e o colchão mínimo

Vamos construir um exemplo mensal de 6 meses com sazonalidade e estoque. Os números são simplificados para ensinar o método.

Premissas do exemplo

  • Vendas previstas (R$): Jan 100.000; Fev 110.000; Mar 130.000; Abr 160.000; Mai 140.000; Jun 120.000.
  • Margem bruta: 40% (logo CMV ≈ 60% das vendas).
  • Condição de recebimento: 30% à vista (mesmo mês) e 70% a 30 dias (mês seguinte).
  • Impostos sobre vendas: 8% pagos no mês seguinte ao faturamento.
  • Despesas fixas (inclui folha): R$ 25.000/mês pagos no próprio mês.
  • Política de estoque: manter estoque alvo = 1 mês do CMV do próximo mês (cobertura 1,0).
  • Prazo de pagamento a fornecedores: 30 dias (compras do mês são pagas no mês seguinte).
  • Estoque inicial (início de Jan): R$ 60.000 (a custo).
  • Caixa inicial (início de Jan): R$ 20.000.

1) Calcular CMV e estoque alvo

CMV(t) = 60% das vendas.

MêsVendasCMV (60%)Estoque alvo (CMV do mês seguinte)
Jan100.00060.00066.000
Fev110.00066.00078.000
Mar130.00078.00096.000
Abr160.00096.00084.000
Mai140.00084.00072.000
Jun120.00072.000(para fechar o exemplo, use 72.000 como alvo estável)

2) Calcular compras necessárias e evolução do estoque

Compras(t) = CMV(t) + EstoqueAlvo(t) − EstoqueInicial(t).

O estoque final do mês vira o estoque inicial do mês seguinte, e no nosso método ele tende ao estoque alvo.

MêsEstoque inicialCMVEstoque alvoCompras do mêsEstoque final
Jan60.00060.00066.00066.00066.000
Fev66.00066.00078.00078.00078.000
Mar78.00078.00096.00096.00096.000
Abr96.00096.00084.00084.00084.000
Mai84.00084.00072.00072.00072.000
Jun72.00072.00072.00072.00072.000

Repare no efeito: entre Jan e Mar, o estoque alvo sobe por causa do crescimento das vendas, então as compras ficam “puxadas para cima” antes do pico de vendas. Isso costuma gerar o pico de necessidade de caixa.

3) Projetar recebimentos (entradas)

Recebimentos do mês = 30% das vendas do mês + 70% das vendas do mês anterior. Para Jan, assuma que 70% do mês anterior (Dez) foi R$ 70.000 (ou seja, vendas de Dez = R$ 100.000) apenas para iniciar a série sem buraco.

Mês30% vendas do mês70% vendas mês anteriorRecebimentos
Jan30.00070.000100.000
Fev33.00070.000103.000
Mar39.00077.000116.000
Abr48.00091.000139.000
Mai42.000112.000154.000
Jun36.00098.000134.000

4) Projetar pagamentos (saídas)

Componentes:

  • Pagto fornecedores: compras do mês anterior (prazo 30 dias).
  • Impostos: 8% das vendas do mês anterior (pagos no mês seguinte).
  • Despesas fixas: R$ 25.000 no próprio mês.

Para Jan, assuma que compras de Dez foram R$ 60.000 (para iniciar a série) e impostos de Dez foram 8% de R$ 100.000 = R$ 8.000.

MêsPagto fornecedoresImpostos (8% mês anterior)Despesas fixasSaídas totais
Jan60.0008.00025.00093.000
Fev66.0008.00025.00099.000
Mar78.0008.80025.000111.800
Abr96.00010.40025.000131.400
Mai84.00012.80025.000121.800
Jun72.00011.20025.000108.200

5) Fechar o fluxo de caixa e achar o pico de necessidade

Saldo final = saldo inicial + recebimentos − saídas.

MêsSaldo inicialEntradasSaídasVariaçãoSaldo final
Jan20.000100.00093.000+7.00027.000
Fev27.000103.00099.000+4.00031.000
Mar31.000116.000111.800+4.20035.200
Abr35.200139.000131.400+7.60042.800
Mai42.800154.000121.800+32.20075.000
Jun75.000134.000108.200+25.800100.800

Neste cenário, não houve saldo negativo; então, o “pico de necessidade” (menor saldo) foi o saldo inicial de Jan (R$ 20.000). Mas isso não significa que não exista risco: basta mudar uma premissa (mais prazo ao cliente, mais estoque, ou queda de vendas) para aparecer o buraco. A utilidade do método é justamente testar cenários.

6) Criar um cenário de estresse para revelar o pico (e dimensionar o colchão mínimo)

Agora aplique um estresse comum: aumento do prazo ao cliente (mais vendas a prazo) e reforço de estoque antes do pico de vendas.

  • Recebimento: 15% à vista e 85% a 30 dias (em vez de 30/70).
  • Cobertura de estoque: 1,3 mês do CMV do próximo mês (em vez de 1,0), para “garantir abastecimento” no crescimento.
  • Mantenha o restante igual.

Sem refazer todas as tabelas, a lógica é: entradas atrasam e compras sobem nos meses que antecedem o pico. O resultado típico é um menor saldo (pico de necessidade) em algum ponto entre Fev e Abr.

Como calcular o colchão mínimo (reserva operacional):

  • Encontre o menor saldo final (ou menor saldo diário/semanal, se sua planilha for mais granular).
  • Se o menor saldo for negativo, o valor absoluto é a necessidade mínima para não faltar caixa.
  • Some uma margem de segurança: por exemplo, 10% a 20% das saídas mensais ou 1 a 2 semanas de despesas fixas, dependendo da volatilidade do negócio.

Exemplo de regra prática:

Colchão mínimo = |Pico de necessidade| + (Despesas fixas mensais * 0,5)

Se o seu pico projetado fosse -R$ 80.000 e as despesas fixas fossem R$ 25.000/mês, um colchão mínimo conservador seria:

Colchão mínimo = 80.000 + (25.000 * 0,5) = 92.500

Como transformar a projeção em metas de PME/PMR/PMP (de forma operacional)

Depois de projetar o caixa, você consegue “voltar” para metas de prazos médios. A ideia é: se o pico de necessidade está alto, você precisa reduzir dias de dinheiro preso (estoque e clientes) e/ou aumentar dias financiados por fornecedores, dentro do que é viável.

1) Converta o pico de necessidade em “dias de caixa”

Uma forma simples de dar significado ao número é dividir o pico (em valor) pelo custo diário do negócio.

Custo diário aproximado = (CMV mensal + despesas fixas mensais + impostos mensais) / 30
Dias de caixa necessários = Pico de necessidade / Custo diário aproximado

Isso ajuda a enxergar se o problema é “alguns dias” (ajustável com prazos) ou “muitos dias” (exige mudança estrutural, capital extra ou revisão de crescimento/estoque).

2) Defina metas a partir dos maiores “vilões” do seu modelo

  • Se o buraco aparece porque recebimentos atrasam, a meta principal tende a ser reduzir PMR (melhor mix de pagamento, cobrança, entrada maior, reduzir parcelamento, políticas de crédito).
  • Se o buraco aparece porque estoque cresce antes da venda, a meta principal tende a ser reduzir PME (cobertura menor, compras mais frequentes, curva ABC, reduzir itens lentos, melhorar previsão e reposição).
  • Se o buraco aparece porque pagamentos saem cedo, a meta principal tende a ser aumentar PMP (renegociar prazos, escalonar pagamentos, alinhar vencimentos ao ciclo de recebimento).

3) Use “alavancas” com metas numéricas e teste no modelo

Transforme cada meta em uma mudança de premissa e rode novamente a planilha. Exemplos de metas objetivas:

  • Meta de PMR: reduzir a parcela a 30 dias de 70% para 55% (ou aumentar à vista de 30% para 45%).
  • Meta de PME: reduzir cobertura de estoque de 1,3 para 1,0 mês do CMV do próximo mês.
  • Meta de PMP: aumentar prazo de pagamento de compras de 30 para 45 dias (no modelo, isso desloca parte do pagamento para o mês seguinte).

Regra de ouro do planejamento: não defina metas de PME/PMR/PMP “no escuro”. Defina metas que, quando aplicadas no seu modelo, reduzam o pico de necessidade até um nível coberto pelo seu colchão mínimo (reserva operacional) com folga.

Checklist rápido para sua primeira projeção (sem travar)

  • Projete 6 a 12 meses (mínimo 6) e inclua sazonalidade.
  • Separe vendas (competência) de recebimentos (caixa).
  • Modele compras com uma regra de estoque (mesmo que simples).
  • Coloque impostos no mês em que são pagos (não no mês da venda).
  • Inclua eventos: 13º, férias, bônus, reajustes, campanhas.
  • Rode 3 cenários: base, otimista e estresse (prazo maior + estoque maior + vendas oscilando).
  • Extraia: pico de necessidade, colchão mínimo e metas de PME/PMR/PMP para trazer o pico para dentro da sua capacidade de caixa.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao planejar a Necessidade de Capital de Giro (NCG) com uma projeção simples de caixa, qual abordagem melhor reflete o objetivo do método?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

O planejamento de NCG prioriza o timing do caixa: converter vendas e prazos em recebimentos e pagamentos, incluindo estoques e sazonalidade, para achar o menor saldo (pico de necessidade) e definir uma reserva operacional mínima.

Próximo capitúlo

Como reduzir o ciclo financeiro sem travar vendas

Arrow Right Icon
Capa do Ebook gratuito Capital de Giro e Ciclo Financeiro: Como Evitar Falta de Caixa Mesmo Vendendo Bem
64%

Capital de Giro e Ciclo Financeiro: Como Evitar Falta de Caixa Mesmo Vendendo Bem

Novo curso

14 páginas

Baixe o app para ganhar Certificação grátis e ouvir os cursos em background, mesmo com a tela desligada.