Piscicultura na prática: vendas, canais de comercialização e negociação

Capítulo 16

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

Vender com previsibilidade: o que muda na prática

Na piscicultura, “vender bem” não é apenas conseguir um bom preço em uma venda pontual. Vender com previsibilidade significa organizar canais e rotinas para ter saída constante do peixe, reduzir sobras, evitar despesca sem comprador e transformar produção em fluxo de caixa planejado. Na prática, previsibilidade vem de três pilares: (1) canais de venda combinados (não depender de um só), (2) proposta comercial clara (padrão de produto e condições), (3) logística e relacionamento que garantem regularidade e confiança.

Mapa rápido de canais de comercialização (quando usar cada um)

CanalVantagensCuidadosMelhor para
Venda direta (na propriedade/entrega)Margem maior, contato com cliente, fidelizaçãoDemanda atendimento, agendamento e controle de pedidosVolume pequeno a médio, produto fresco
Feiras e mercados locaisGiro rápido, visibilidade, novos clientesExige padrão, gelo, embalagem, tempo de bancadaConstruir base de clientes e testar produtos
Restaurantes e baresRecorrência, volumes previsíveisExigem regularidade, padrão de tamanho e entregaProdução com calendário e capacidade de entrega
Encomendas (WhatsApp/lista)Vende antes de produzir/abater, reduz sobraPrecisa política de reserva e retiradaOperação enxuta e previsível
Pesque-pagueReceita por experiência + venda do peixeEstrutura, atendimento, regras e controle de estoque vivoRegiões com público de lazer
Contratos (fornecimento)Previsibilidade alta, planejamento de produçãoPenalidades por falha, exige padrão e logísticaQuem já tem consistência de entrega

Estratégia prática: combinar canais para reduzir risco

Uma estratégia simples é trabalhar com “camadas” de venda:

  • Base (recorrente): 1 a 3 clientes fixos (restaurantes, mercados, peixarias) para absorver parte do volume toda semana.
  • Complemento (flexível): encomendas e venda direta para ajustar sobras e aproveitar picos.
  • Oportunidade (sazonal): feiras, eventos e datas específicas para aumentar ticket médio e captar novos clientes.

Passo a passo para montar seu mix de canais em 7 dias

  1. Liste seu produto principal e variações: inteiro eviscerado, filé, postas, porções, peixe vivo (se aplicável).
  2. Defina 2 padrões de tamanho: por exemplo, “Padrão A” e “Padrão B” (ver seção de proposta comercial).
  3. Escolha 2 canais prioritários: um recorrente (restaurante/mercado) e um flexível (encomendas/venda direta).
  4. Monte uma lista de 20 contatos: 10 restaurantes/barracas/peixarias + 10 contatos de comunidade (grupos locais, clientes antigos, vizinhos).
  5. Crie uma mensagem de oferta objetiva: produto, padrão, disponibilidade semanal, forma de entrega/retirada.
  6. Agende 5 visitas rápidas: leve amostra de apresentação (fotos reais, tabela simples de padrões e condições).
  7. Feche 1 teste de fornecimento: uma entrega pequena com data e horário definidos para validar logística e aceitação.

Proposta comercial simples (modelo pronto para copiar)

Uma proposta comercial evita ruído e acelera a negociação. Ela deve caber em uma página (ou mensagem) e responder: o que você entrega, em qual padrão, com que frequência, por qual condição.

Itens mínimos da proposta

  • Produto: espécie e forma (inteiro eviscerado, filé, postas, porção, vivo).
  • Padrão de tamanho: faixas de peso por unidade e tolerância.
  • Qualidade e manuseio: entrega refrigerada, com gelo, embalagem, identificação de lote/data (quando aplicável).
  • Frequência e janela de entrega: dias fixos e horários.
  • Pedido mínimo: por exemplo, “mínimo 10 kg por entrega” (ajuste ao seu custo logístico).
  • Condições de pagamento: à vista, 7 dias, 14 dias; PIX/transferência; política de inadimplência.
  • Política de troca/devolução: critérios objetivos (ex.: temperatura fora do padrão na entrega, embalagem violada, produto fora do padrão de tamanho).
  • Contato e canal de pedidos: WhatsApp, telefone, e-mail; prazo para fechar pedido (ex.: até 24h antes).

Modelo de proposta (texto curto)

PROPOSTA DE FORNECIMENTO – PEIXE FRESCO (refrigerado)  Produto: Tilápia – inteiro eviscerado  Padrões:  Padrão A: 800 g a 1,1 kg/un (tolerância ±10%)  Padrão B: 1,2 kg a 1,6 kg/un (tolerância ±10%)  Frequência: entregas 2x/semana (terça e sexta), 8h–11h  Pedido mínimo: 15 kg por entrega  Embalagem e frio: caixa térmica + gelo; produto entregue a 0–4°C  Pagamento: PIX na entrega ou faturado 7 dias (após 3 entregas de teste)  Pedidos: confirmar até 16h do dia anterior via WhatsApp  Troca: em caso de não conformidade verificada na entrega (temperatura acima de 4°C ou fora do padrão de tamanho)  Contato: Nome, telefone, endereço de retirada/entrega

Dica prática: tenha dois formatos do mesmo texto: um “curto” para WhatsApp e um “completo” em PDF para enviar a compradores mais formais.

Negociação de preço baseada em qualidade e regularidade

Na negociação, o erro comum é discutir apenas “preço por kg”. Compradores profissionais valorizam previsibilidade, padrão e redução de risco. Seu objetivo é transformar qualidade e regularidade em argumentos concretos, com métricas e compromissos.

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O que sustenta preço melhor (argumentos objetivos)

  • Padrão de tamanho consistente: reduz perda na cozinha e facilita porcionamento.
  • Regularidade de entrega: evita ruptura no cardápio/estoque do cliente.
  • Cadeia do frio controlada: aumenta vida útil e reduz descarte.
  • Apresentação e embalagem: reduz retrabalho e melhora percepção.
  • Comunicação e pós-venda: resolve problemas rápido e mantém confiança.

Passo a passo de uma negociação simples (roteiro)

  1. Comece pelo padrão: “Trabalho com dois padrões de peso, com tolerância definida. Qual padrão atende melhor seu uso?”
  2. Alinhe frequência e volume: “Você prefere 1 ou 2 entregas por semana? Qual consumo médio semanal?”
  3. Defina o teste: “Vamos fazer 2 a 3 entregas de teste com volume menor para ajustar.”
  4. Apresente o preço com base no pacote: “Esse preço inclui entrega refrigerada na janela combinada e padrão de tamanho.”
  5. Negocie variáveis antes de cortar preço: ajuste pedido mínimo, frequência, forma de pagamento, retirada no local, ou mix de produtos.
  6. Feche por escrito: mensagem confirmando padrão, volume, data, valor e pagamento.

Técnicas práticas para evitar “guerra de preço”

  • Crie degraus de preço por condição: “Preço X para retirada; preço Y com entrega; preço Z com pagamento faturado.”
  • Use pedido mínimo para proteger margem: entregas pequenas custam caro; defina um mínimo ou taxa de entrega.
  • Ofereça constância em troca de compromisso: “Consigo manter esse valor se fecharmos volume semanal fixo.”
  • Troque desconto por previsibilidade: desconto pequeno para contrato de 8–12 semanas com calendário.

Encomendas: como vender antes de abater (e reduzir sobra)

Encomendas funcionam bem para venda direta e para complementar canais recorrentes. O ponto-chave é transformar intenção em compromisso.

Passo a passo para um sistema de encomendas semanal

  1. Defina o “dia do pedido” e o “dia da entrega/retirada”: ex.: pedidos até quarta 16h; retirada sexta 9h–12h.
  2. Crie uma lista de transmissão: envie 1 mensagem por semana com disponibilidade e padrões.
  3. Padronize a resposta: peça nome, quantidade (kg ou unidades), padrão e forma de pagamento.
  4. Use sinal para reservar (quando necessário): ex.: 20% via PIX para pedidos acima de X kg.
  5. Confirme no dia anterior: mensagem curta com horário e local.
  6. Tenha política de no-show: após 1 falta sem aviso, só reserva com sinal.

Mensagem pronta para WhatsApp (encomendas)

Pedido da semana – peixe fresco (refrigerado)  Entrega/retirada: sexta, 9h–12h  Padrão A: 800g–1,1kg | Padrão B: 1,2–1,6kg  Faça seu pedido até quarta 16h: 1) Nome 2) Quantidade (kg/un) 3) Padrão 4) Retirada ou entrega (bairro)  Pagamento: PIX na retirada/entrega (sinal para pedidos acima de __ kg)

Restaurantes e mercados: como virar fornecedor recorrente

O que o comprador quer ouvir (e o que evita)

  • Quer ouvir: padrão, regularidade, janela de entrega, temperatura na entrega, solução rápida se houver problema.
  • Evita: “só tenho quando dá”, variação grande de tamanho, atrasos, falta de resposta, mudanças de preço sem aviso.

Passo a passo para abordagem e fechamento

  1. Prospecção: selecione estabelecimentos que já vendem peixe ou têm pratos com peixe.
  2. Contato curto: “Forneço peixe fresco refrigerado com padrão de tamanho e entrega 2x/semana. Posso passar 5 minutos para entender seu consumo?”
  3. Diagnóstico: pergunte consumo semanal, padrão preferido, formato (inteiro/filé/postas), dia de maior movimento.
  4. Teste: proponha 1 entrega pequena com horário definido.
  5. Rotina: após o teste, feche dia fixo de pedido e dia fixo de entrega.
  6. Revisão mensal: ajuste volume e padrões conforme sazonalidade do cliente.

Pesque-pague: regras simples para aumentar receita e evitar perdas

O pesque-pague combina serviço, lazer e venda do peixe. Para ser previsível, precisa de regras claras e controle de estoque vivo.

Regras operacionais básicas (exemplos)

  • Horário e capacidade: limite de pessoas por período para manter atendimento e qualidade.
  • Preço transparente: taxa de entrada (se houver) + preço por kg pescado.
  • Manuseio e bem-estar: regras de uso de equipamentos e devolução de peixe (quando permitido) para reduzir mortalidade.
  • Opções de preparo: limpeza/evisceração e embalagem com gelo como serviço adicional.

Como transformar visita em recorrência

  • Cadastro simples: nome e WhatsApp para avisar de dias de movimento, promoções e eventos.
  • Programa de fidelidade simples: a cada X kg, desconto em limpeza ou isca/racao permitida.
  • Venda cruzada: ofereça porções, temperos, gelo, carvão (se fizer sentido ao local).

Contratos e fornecimento: como formalizar sem burocratizar

Contratos não precisam ser longos. Um “acordo de fornecimento” por escrito (mesmo em e-mail/WhatsApp + PDF) já cria previsibilidade e reduz conflitos. O foco é definir padrão, calendário e o que acontece quando algo foge do combinado.

Cláusulas essenciais (linguagem simples)

  • Objeto: produto e forma (refrigerado/congelado; inteiro/filé).
  • Padrão: faixa de peso, tolerância e apresentação.
  • Calendário: dias de pedido e entrega, janela de horário.
  • Volume: mínimo semanal/mensal e flexibilidade (ex.: ±10%).
  • Preço e reajuste: valor e regra de reajuste (mensal/trimestral) com aviso prévio.
  • Pagamento: prazo e forma; multa/juros em atraso (se aplicável).
  • Não conformidade: critérios objetivos para recusa/troca.
  • Rescisão: aviso prévio (ex.: 15 dias) para encerrar sem surpresa.

Logística e cadeia do frio: como entregar com qualidade (e evitar devolução)

Boa venda depende de entrega consistente. Se o produto chega com temperatura inadequada, embalagem ruim ou atraso, o cliente associa isso ao seu nome e pressiona preço. A cadeia do frio é o “seguro” da sua reputação.

Metas práticas de temperatura e tempo

  • Produto refrigerado: manter entre 0 e 4°C durante transporte e entrega.
  • Tempo de rota: planeje rotas para reduzir paradas e exposição; evite “entrega pingada” sem gelo suficiente.
  • Conferência na entrega: combine que a checagem de temperatura e quantidade ocorre no ato.

Checklist de entrega (padrão de rotina)

  • Antes de sair: produto embalado, gelo suficiente, caixas térmicas limpas, etiquetas (data/padrão), nota/recibo, lista de clientes e horários.
  • Durante a rota: caixas fechadas, evitar abrir repetidamente, manter sombra e ventilação no veículo.
  • Na entrega: conferir peso/quantidade, registrar horário, receber pagamento/assinatura, anotar feedback.
  • Após: higienizar caixas, repor gelo, atualizar planilha de entregas e ocorrências.

Embalagem e apresentação que ajudam a vender

  • Padronização visual: mesma caixa/embalagem, mesma etiqueta, mesma forma de organizar.
  • Separação por padrão: não misturar tamanhos na mesma caixa quando o cliente compra por padrão.
  • Proteção contra água de degelo: usar saco interno e drenagem adequada para evitar produto “encharcado”.

Relacionamento com clientes: rotina simples de pós-venda

Relacionamento não é “conversar muito”; é ser previsível, responder rápido e resolver problemas sem discussão. Isso aumenta recompra e reduz pressão por desconto.

Rotina semanal de relacionamento (15 minutos)

  1. Mensagem pós-entrega: “Chegou tudo certo? Padrão e qualidade ok?”
  2. Registrar preferências: padrão de tamanho, dia preferido, formato do produto.
  3. Antecipar disponibilidade: enviar agenda da próxima semana para clientes recorrentes.
  4. Tratar reclamação com procedimento: pedir foto/temperatura no ato, oferecer troca/abatimento conforme regra definida.

Planilha mínima de clientes (campos)

  • Cliente, contato, endereço, canal (restaurante/feira/direto), padrão preferido, volume médio semanal, dia de pedido, dia de entrega, condição de pagamento, observações (ex.: “prefere peixe menor”, “não recebe após 11h”).

Organizando previsibilidade: calendário de vendas e produção (visão comercial)

Para vender com regularidade, crie um calendário comercial fixo, independente do canal. Exemplo de rotina:

  • Segunda: confirmar disponibilidade da semana e enviar oferta para lista de encomendas.
  • Terça: entregas para clientes A (restaurantes/mercados) + coleta de feedback.
  • Quarta: fechar pedidos de encomenda e ajustar volumes.
  • Sexta: entregas/encomendas + atualização de registros de venda e inadimplência.

Essa cadência reduz improviso, melhora negociação (porque você oferece datas e padrões claros) e facilita manter a cadeia do frio e o atendimento.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Qual prática mais contribui para vender peixe com previsibilidade na piscicultura?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Previsibilidade depende de saída constante e redução de sobras, o que é sustentado por canais combinados, proposta comercial com padrões e condições, e logística/relacionamento que garantem regularidade e confiança.

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Piscicultura na prática: expansão com baixo investimento e gestão de riscos

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