Piscicultura na prática: manejo de rotina, registros e controle de produção

Capítulo 11

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

+ Exercício

Por que registros são o “painel de controle” da piscicultura

Manejo de rotina sem registro vira “achismo”: você até percebe problemas (crescimento lento, mortalidade, gasto alto com ração), mas não consegue provar a causa nem corrigir com precisão. Um sistema simples de registros transforma o viveiro em um processo controlado: você mede, compara e decide.

O objetivo aqui é montar um conjunto mínimo de anotações que caiba na rotina, gere indicadores-chave e permita decisões práticas como: ajustar densidade, corrigir arraçoamento, prever data de abate e identificar viveiros com pior desempenho.

O sistema simples de registros (o que anotar e por quê)

1) Entrada de alevinos (lote)

  • Data de entrada
  • Viveiro/tanque
  • Fornecedor e lote (rastreabilidade)
  • Quantidade
  • Peso médio inicial (se disponível)
  • Observações (diferença de tamanho, comportamento, etc.)

Esses dados criam a base para calcular sobrevivência, biomassa e previsão de abate por lote.

2) Mortalidade

  • Data
  • Viveiro
  • Número de mortos
  • Possível causa (predação, manejo, doença, desconhecida)
  • Ação tomada (ex.: reforço de telas, ajuste de ração, tratamento)

Registre mortalidade diariamente (mesmo que seja “zero”). Picos são sinais precoces de falha operacional.

3) Consumo de ração

  • Data
  • Viveiro
  • Tipo de ração (marca/linha, % proteína, granulometria)
  • Quantidade fornecida (kg)
  • Sobras/ajuste (se houve redução por baixa aceitação)

Ração é o maior custo variável. Sem registro, não há controle de conversão alimentar nem de desperdício.

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4) Biometria (amostragem)

  • Data
  • Viveiro
  • Número de peixes amostrados
  • Peso médio (g) e, se usar, comprimento médio
  • Observações (uniformidade, lesões, ectoparasitas visíveis)

A biometria é o “termômetro” do crescimento. Ela alimenta o cálculo de biomassa e o ajuste do arraçoamento.

5) Tratamentos e intervenções

  • Data
  • Viveiro
  • Motivo (sintoma/diagnóstico)
  • Produto/procedimento
  • Dose e duração
  • Responsável
  • Carência (quando aplicável)

Isso evita repetição de erros, ajuda a avaliar eficácia e mantém rastreabilidade sanitária.

6) Parâmetros de água (registro operacional)

Os parâmetros e metas já foram definidos em capítulos anteriores; aqui o foco é como registrar para detectar tendência e agir rápido.

  • Data e horário (manhã e tarde quando necessário)
  • Viveiro
  • Oxigênio dissolvido
  • Temperatura
  • pH
  • Transparência (disco de Secchi) ou turbidez
  • Amônia/nitrito (conforme rotina definida)
  • Observações (chuva forte, água “virou”, odor, espuma)

7) Datas de manejo

  • Classificação/repicagem
  • Transferências (entrada/saída de peixes)
  • Despesca parcial
  • Manutenções (aerador, comporta, telas)
  • Ocorrências (fuga, predação, rompimento)

Esse histórico explica mudanças de desempenho e facilita auditoria interna.

Modelos de planilha (copie e use)

Você pode usar uma planilha única com abas. Abaixo estão modelos em formato de tabela para replicar.

Aba 1: Cadastro de viveiros

ViveiroÁrea (m²)Volume estimado (m³)Aerador (sim/não)Observações
V11.0001.200SimEntrada de água pelo lado norte

Aba 2: Lotes (entrada de alevinos)

ID do loteDataViveiroEspécieFornecedorQtd. (un)Peso inicial (g)Observações
L2026-0110/01/2026V1TilápiaFornecedor A8.0002Lote uniforme

Aba 3: Ração diária

DataViveiroID loteRaçãoGranulometriaKg fornecidosSobras? (sim/não)Observações
15/01/2026V1L2026-0132% PB2 mm18NãoBoa aceitação

Aba 4: Mortalidade

DataViveiroID loteMortos (un)SuspeitaAção
16/01/2026V1L2026-0112PredaçãoReforço de tela

Aba 5: Biometria

DataViveiroID loteAmostra (un)Peso médio (g)Comprimento médio (cm)UniformidadeObservações
24/01/2026V1L2026-01603512BoaSem lesões

Aba 6: Água (rotina)

DataHoraViveiroTemp (°C)OD (mg/L)pHSecchi (cm)NH3/NH4NO2Observações
24/01/202606:30V126,55,27,4350,20,1Noite quente

Aba 7: Tratamentos e manejos

DataViveiroID loteTipoMotivoProcedimentoDoseDuraçãoCarênciaResponsável
25/01/2026V1L2026-01ManejoClassificaçãoSeparação por tamanho-1 dia-Equipe

Como transformar dados em decisões (sem complicar)

1) Estimar população atual (peixes vivos)

Use a conta simples por viveiro/lote:

Peixes vivos = Peixes estocados - Mortalidade acumulada - Despesca/transferências

Se houver fuga ou predação relevante, registre como “saída” estimada para não distorcer biomassa e ração.

2) Calcular biomassa (kg) e ajustar ração

Com biometria:

Biomassa (kg) = (Peixes vivos × Peso médio (g)) ÷ 1000

O arraçoamento diário (kg/dia) vem da taxa de arraçoamento definida para a fase (já tratada em capítulo anterior). Aqui o ponto é operacional: toda biometria deve gerar um novo plano de ração para a semana seguinte.

Exemplo prático:

  • Peixes vivos estimados: 7.800
  • Peso médio: 200 g
  • Biomassa: (7.800 × 200)/1000 = 1.560 kg
  • Se a taxa da fase for 2,0% ao dia: ração/dia = 1.560 × 0,02 = 31,2 kg/dia

3) Conversão alimentar aparente (CAA/FCR) para enxergar desperdício

Calcule por período (ex.: semanal ou entre biometrias):

FCR = Ração fornecida (kg) ÷ Ganho de biomassa (kg)

Como obter ganho de biomassa:

  • Biomassa no início do período (pela biometria anterior)
  • Biomassa no fim do período (biometria atual)
  • Ganho = Biomassa fim - Biomassa início

Uso prático: se o FCR piora em um viveiro específico, investigue primeiro: aceitação de ração, horário de trato, sobras, competição por tamanho (falta de uniformidade), e registros de água (especialmente OD e temperatura).

4) Identificar viveiros com pior desempenho (ranking simples)

Crie uma tabela-resumo semanal por viveiro com:

  • Ganho de peso (g/semana)
  • FCR (semanal ou entre biometrias)
  • Mortalidade semanal (%)
  • Ocorrências de água fora do padrão (contagem)

Depois, faça um ranking (do melhor para o pior) e foque energia nos 1–2 piores viveiros. Isso evita “apagar incêndio” no lugar errado.

5) Ajuste de densidade (decisão baseada em biomassa e sinais)

Sem repetir critérios de densidade por fase, use os registros para reconhecer o momento de intervir:

  • Sinais de superlotação operacional: queda de crescimento, FCR piorando, mais variação de tamanho, mais episódios de água crítica, aumento de mortalidade após tratos.
  • Ação típica: classificação e redistribuição, despesca parcial, transferência para outro viveiro, ou redução de oferta de ração enquanto corrige o fator limitante (ex.: oxigenação).

Regra prática: se você mexe em densidade, registre a data e trate como “marco” para comparar desempenho antes/depois.

6) Previsão de abate (data e volume)

Com duas biometrias, estime o ganho diário:

Ganho diário (g/dia) = (Peso atual - Peso anterior) ÷ Dias entre biometrias

Depois:

Dias para abate = (Peso alvo - Peso atual) ÷ Ganho diário

Exemplo:

  • Peso anterior: 350 g
  • Peso atual: 430 g
  • Intervalo: 14 dias → ganho diário = (430-350)/14 = 5,7 g/dia
  • Peso alvo: 800 g → dias para abate = (800-430)/5,7 ≈ 65 dias

Uso prático: isso organiza compra de ração, programação de despesca e negociação de venda.

Fluxo operacional semanal (rotina que cabe no dia a dia)

Rotina diária (15–30 min por viveiro, adaptável)

  • Manhã: observação do comportamento (nado, boquejamento), checagem rápida de mortalidade, registro de parâmetros de água conforme seu plano, anotação de ocorrências.
  • Tratos do dia: registrar kg fornecidos por viveiro e qualquer ajuste (sobras, baixa aceitação).
  • Fim do dia: consolidar mortalidade e ocorrências (mesmo que seja “zero”).

Rotina semanal (1–2 horas para a fazenda inteira)

  • Dia fixo 1 (ex.: segunda): fechar a semana anterior (ração total por viveiro, mortalidade semanal, eventos de água).
  • Dia fixo 2 (ex.: terça ou quarta): biometria dos viveiros programados (não precisa ser todos; priorize os que estão em engorda e os com pior desempenho).
  • Após biometria: atualizar população estimada, biomassa e plano de ração da semana.
  • Dia fixo 3 (ex.: sexta): revisão de indicadores e plano de ação (quais viveiros exigem manejo, manutenção, classificação, reforço de telas, ajuste de horários de trato).

Indicadores-chave para acompanhar (painel simples)

Monte um “painel” em uma aba chamada Resumo Semanal, com uma linha por viveiro.

IndicadorComo calcularPara que serve
Sobrevivência (%)(Peixes vivos ÷ Peixes estocados) × 100Detectar perdas e comparar viveiros/lotes
Mortalidade semanal (%)(Mortos na semana ÷ Peixes vivos no início da semana) × 100Alerta precoce de problema operacional
Biomassa (kg)(Peixes vivos × Peso médio) ÷ 1000Base para ração e planejamento de colheita
Ganho de peso (g/dia)(Peso atual - Peso anterior) ÷ diasPrever abate e comparar desempenho
FCR (aparente)Ração (kg) ÷ ganho de biomassa (kg)Controlar custo e desperdício
Ração por kg de peixe (kg/kg/semana)Ração semanal ÷ Biomassa média semanalChecar coerência do arraçoamento
Ocorrências de água fora do padrãoContagem de registros fora da metaPriorizar correções e manejo

Implementação em 7 dias (passo a passo)

Dia 1: Padronize nomes e códigos

  • Defina códigos de viveiro (V1, V2, V3…)
  • Defina ID de lote (ex.: LAAAAMM-01)
  • Crie a planilha com as abas: Viveiros, Lotes, Ração, Mortalidade, Biometria, Água, Tratamentos, Resumo Semanal

Dia 2: Comece pelo mínimo diário

  • Registre ração fornecida por viveiro
  • Registre mortalidade (mesmo zero)
  • Registre pelo menos OD e temperatura no horário crítico definido na sua rotina

Dia 3: Feche o primeiro “mini-ciclo”

  • Some ração por viveiro
  • Some mortalidade por viveiro
  • Anote ocorrências (chuva, manutenção, falha de energia, etc.)

Dia 4: Faça a primeira biometria útil

  • Escolha 1–2 viveiros prioritários
  • Amostre um número fixo (ex.: 50–100 peixes, conforme viabilidade)
  • Registre peso médio e observações

Dia 5: Atualize biomassa e plano de ração

  • Estime peixes vivos
  • Calcule biomassa
  • Defina ração/dia para a semana e registre como “Plano” (coluna extra na aba Ração)

Dia 6: Crie o Resumo Semanal

  • Monte a tabela por viveiro com: biomassa, ração semanal, mortalidade semanal, ganho de peso (se houver 2 biometrias), FCR (quando possível)

Dia 7: Tome 1 decisão baseada em dados

  • Escolha o pior viveiro no ranking
  • Defina uma ação objetiva (ex.: ajustar ração, programar classificação, reforçar tela, revisar horários de trato, checar equipamento)
  • Registre a ação e marque a data para comparar o “antes e depois”

Dicas para manter o sistema funcionando (sem virar burocracia)

  • Registre no momento: anotar depois aumenta erro e esquecimento.
  • Use padrões: mesmas unidades (kg, g, mg/L), mesmos horários, mesmos códigos.
  • Uma planilha por fazenda: evita versões diferentes e perda de rastreabilidade.
  • Menos é mais: se estiver pesado, reduza campos, mas não pare de registrar ração, mortalidade e biometria.
  • Marcos de manejo: toda intervenção relevante deve ter data para explicar mudanças nos indicadores.

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Ao observar que o FCR (conversão alimentar aparente) piorou em um viveiro específico, qual deve ser a primeira linha de investigação usando os registros do sistema?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Quando o FCR piora, os registros ajudam a identificar desperdício e limitações: sobras/aceitação, manejo de trato, competição por tamanho e condições de água (OD e temperatura) costumam explicar a queda de eficiência.

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