Por que registros são o “painel de controle” da piscicultura
Manejo de rotina sem registro vira “achismo”: você até percebe problemas (crescimento lento, mortalidade, gasto alto com ração), mas não consegue provar a causa nem corrigir com precisão. Um sistema simples de registros transforma o viveiro em um processo controlado: você mede, compara e decide.
O objetivo aqui é montar um conjunto mínimo de anotações que caiba na rotina, gere indicadores-chave e permita decisões práticas como: ajustar densidade, corrigir arraçoamento, prever data de abate e identificar viveiros com pior desempenho.
O sistema simples de registros (o que anotar e por quê)
1) Entrada de alevinos (lote)
- Data de entrada
- Viveiro/tanque
- Fornecedor e lote (rastreabilidade)
- Quantidade
- Peso médio inicial (se disponível)
- Observações (diferença de tamanho, comportamento, etc.)
Esses dados criam a base para calcular sobrevivência, biomassa e previsão de abate por lote.
2) Mortalidade
- Data
- Viveiro
- Número de mortos
- Possível causa (predação, manejo, doença, desconhecida)
- Ação tomada (ex.: reforço de telas, ajuste de ração, tratamento)
Registre mortalidade diariamente (mesmo que seja “zero”). Picos são sinais precoces de falha operacional.
3) Consumo de ração
- Data
- Viveiro
- Tipo de ração (marca/linha, % proteína, granulometria)
- Quantidade fornecida (kg)
- Sobras/ajuste (se houve redução por baixa aceitação)
Ração é o maior custo variável. Sem registro, não há controle de conversão alimentar nem de desperdício.
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4) Biometria (amostragem)
- Data
- Viveiro
- Número de peixes amostrados
- Peso médio (g) e, se usar, comprimento médio
- Observações (uniformidade, lesões, ectoparasitas visíveis)
A biometria é o “termômetro” do crescimento. Ela alimenta o cálculo de biomassa e o ajuste do arraçoamento.
5) Tratamentos e intervenções
- Data
- Viveiro
- Motivo (sintoma/diagnóstico)
- Produto/procedimento
- Dose e duração
- Responsável
- Carência (quando aplicável)
Isso evita repetição de erros, ajuda a avaliar eficácia e mantém rastreabilidade sanitária.
6) Parâmetros de água (registro operacional)
Os parâmetros e metas já foram definidos em capítulos anteriores; aqui o foco é como registrar para detectar tendência e agir rápido.
- Data e horário (manhã e tarde quando necessário)
- Viveiro
- Oxigênio dissolvido
- Temperatura
- pH
- Transparência (disco de Secchi) ou turbidez
- Amônia/nitrito (conforme rotina definida)
- Observações (chuva forte, água “virou”, odor, espuma)
7) Datas de manejo
- Classificação/repicagem
- Transferências (entrada/saída de peixes)
- Despesca parcial
- Manutenções (aerador, comporta, telas)
- Ocorrências (fuga, predação, rompimento)
Esse histórico explica mudanças de desempenho e facilita auditoria interna.
Modelos de planilha (copie e use)
Você pode usar uma planilha única com abas. Abaixo estão modelos em formato de tabela para replicar.
Aba 1: Cadastro de viveiros
| Viveiro | Área (m²) | Volume estimado (m³) | Aerador (sim/não) | Observações |
|---|---|---|---|---|
| V1 | 1.000 | 1.200 | Sim | Entrada de água pelo lado norte |
Aba 2: Lotes (entrada de alevinos)
| ID do lote | Data | Viveiro | Espécie | Fornecedor | Qtd. (un) | Peso inicial (g) | Observações |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| L2026-01 | 10/01/2026 | V1 | Tilápia | Fornecedor A | 8.000 | 2 | Lote uniforme |
Aba 3: Ração diária
| Data | Viveiro | ID lote | Ração | Granulometria | Kg fornecidos | Sobras? (sim/não) | Observações |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 15/01/2026 | V1 | L2026-01 | 32% PB | 2 mm | 18 | Não | Boa aceitação |
Aba 4: Mortalidade
| Data | Viveiro | ID lote | Mortos (un) | Suspeita | Ação |
|---|---|---|---|---|---|
| 16/01/2026 | V1 | L2026-01 | 12 | Predação | Reforço de tela |
Aba 5: Biometria
| Data | Viveiro | ID lote | Amostra (un) | Peso médio (g) | Comprimento médio (cm) | Uniformidade | Observações |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 24/01/2026 | V1 | L2026-01 | 60 | 35 | 12 | Boa | Sem lesões |
Aba 6: Água (rotina)
| Data | Hora | Viveiro | Temp (°C) | OD (mg/L) | pH | Secchi (cm) | NH3/NH4 | NO2 | Observações |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 24/01/2026 | 06:30 | V1 | 26,5 | 5,2 | 7,4 | 35 | 0,2 | 0,1 | Noite quente |
Aba 7: Tratamentos e manejos
| Data | Viveiro | ID lote | Tipo | Motivo | Procedimento | Dose | Duração | Carência | Responsável |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 25/01/2026 | V1 | L2026-01 | Manejo | Classificação | Separação por tamanho | - | 1 dia | - | Equipe |
Como transformar dados em decisões (sem complicar)
1) Estimar população atual (peixes vivos)
Use a conta simples por viveiro/lote:
Peixes vivos = Peixes estocados - Mortalidade acumulada - Despesca/transferênciasSe houver fuga ou predação relevante, registre como “saída” estimada para não distorcer biomassa e ração.
2) Calcular biomassa (kg) e ajustar ração
Com biometria:
Biomassa (kg) = (Peixes vivos × Peso médio (g)) ÷ 1000O arraçoamento diário (kg/dia) vem da taxa de arraçoamento definida para a fase (já tratada em capítulo anterior). Aqui o ponto é operacional: toda biometria deve gerar um novo plano de ração para a semana seguinte.
Exemplo prático:
- Peixes vivos estimados: 7.800
- Peso médio: 200 g
- Biomassa: (7.800 × 200)/1000 = 1.560 kg
- Se a taxa da fase for 2,0% ao dia: ração/dia = 1.560 × 0,02 = 31,2 kg/dia
3) Conversão alimentar aparente (CAA/FCR) para enxergar desperdício
Calcule por período (ex.: semanal ou entre biometrias):
FCR = Ração fornecida (kg) ÷ Ganho de biomassa (kg)Como obter ganho de biomassa:
- Biomassa no início do período (pela biometria anterior)
- Biomassa no fim do período (biometria atual)
- Ganho = Biomassa fim - Biomassa início
Uso prático: se o FCR piora em um viveiro específico, investigue primeiro: aceitação de ração, horário de trato, sobras, competição por tamanho (falta de uniformidade), e registros de água (especialmente OD e temperatura).
4) Identificar viveiros com pior desempenho (ranking simples)
Crie uma tabela-resumo semanal por viveiro com:
- Ganho de peso (g/semana)
- FCR (semanal ou entre biometrias)
- Mortalidade semanal (%)
- Ocorrências de água fora do padrão (contagem)
Depois, faça um ranking (do melhor para o pior) e foque energia nos 1–2 piores viveiros. Isso evita “apagar incêndio” no lugar errado.
5) Ajuste de densidade (decisão baseada em biomassa e sinais)
Sem repetir critérios de densidade por fase, use os registros para reconhecer o momento de intervir:
- Sinais de superlotação operacional: queda de crescimento, FCR piorando, mais variação de tamanho, mais episódios de água crítica, aumento de mortalidade após tratos.
- Ação típica: classificação e redistribuição, despesca parcial, transferência para outro viveiro, ou redução de oferta de ração enquanto corrige o fator limitante (ex.: oxigenação).
Regra prática: se você mexe em densidade, registre a data e trate como “marco” para comparar desempenho antes/depois.
6) Previsão de abate (data e volume)
Com duas biometrias, estime o ganho diário:
Ganho diário (g/dia) = (Peso atual - Peso anterior) ÷ Dias entre biometriasDepois:
Dias para abate = (Peso alvo - Peso atual) ÷ Ganho diárioExemplo:
- Peso anterior: 350 g
- Peso atual: 430 g
- Intervalo: 14 dias → ganho diário = (430-350)/14 = 5,7 g/dia
- Peso alvo: 800 g → dias para abate = (800-430)/5,7 ≈ 65 dias
Uso prático: isso organiza compra de ração, programação de despesca e negociação de venda.
Fluxo operacional semanal (rotina que cabe no dia a dia)
Rotina diária (15–30 min por viveiro, adaptável)
- Manhã: observação do comportamento (nado, boquejamento), checagem rápida de mortalidade, registro de parâmetros de água conforme seu plano, anotação de ocorrências.
- Tratos do dia: registrar kg fornecidos por viveiro e qualquer ajuste (sobras, baixa aceitação).
- Fim do dia: consolidar mortalidade e ocorrências (mesmo que seja “zero”).
Rotina semanal (1–2 horas para a fazenda inteira)
- Dia fixo 1 (ex.: segunda): fechar a semana anterior (ração total por viveiro, mortalidade semanal, eventos de água).
- Dia fixo 2 (ex.: terça ou quarta): biometria dos viveiros programados (não precisa ser todos; priorize os que estão em engorda e os com pior desempenho).
- Após biometria: atualizar população estimada, biomassa e plano de ração da semana.
- Dia fixo 3 (ex.: sexta): revisão de indicadores e plano de ação (quais viveiros exigem manejo, manutenção, classificação, reforço de telas, ajuste de horários de trato).
Indicadores-chave para acompanhar (painel simples)
Monte um “painel” em uma aba chamada Resumo Semanal, com uma linha por viveiro.
| Indicador | Como calcular | Para que serve |
|---|---|---|
| Sobrevivência (%) | (Peixes vivos ÷ Peixes estocados) × 100 | Detectar perdas e comparar viveiros/lotes |
| Mortalidade semanal (%) | (Mortos na semana ÷ Peixes vivos no início da semana) × 100 | Alerta precoce de problema operacional |
| Biomassa (kg) | (Peixes vivos × Peso médio) ÷ 1000 | Base para ração e planejamento de colheita |
| Ganho de peso (g/dia) | (Peso atual - Peso anterior) ÷ dias | Prever abate e comparar desempenho |
| FCR (aparente) | Ração (kg) ÷ ganho de biomassa (kg) | Controlar custo e desperdício |
| Ração por kg de peixe (kg/kg/semana) | Ração semanal ÷ Biomassa média semanal | Checar coerência do arraçoamento |
| Ocorrências de água fora do padrão | Contagem de registros fora da meta | Priorizar correções e manejo |
Implementação em 7 dias (passo a passo)
Dia 1: Padronize nomes e códigos
- Defina códigos de viveiro (V1, V2, V3…)
- Defina ID de lote (ex.: LAAAAMM-01)
- Crie a planilha com as abas: Viveiros, Lotes, Ração, Mortalidade, Biometria, Água, Tratamentos, Resumo Semanal
Dia 2: Comece pelo mínimo diário
- Registre ração fornecida por viveiro
- Registre mortalidade (mesmo zero)
- Registre pelo menos OD e temperatura no horário crítico definido na sua rotina
Dia 3: Feche o primeiro “mini-ciclo”
- Some ração por viveiro
- Some mortalidade por viveiro
- Anote ocorrências (chuva, manutenção, falha de energia, etc.)
Dia 4: Faça a primeira biometria útil
- Escolha 1–2 viveiros prioritários
- Amostre um número fixo (ex.: 50–100 peixes, conforme viabilidade)
- Registre peso médio e observações
Dia 5: Atualize biomassa e plano de ração
- Estime peixes vivos
- Calcule biomassa
- Defina ração/dia para a semana e registre como “Plano” (coluna extra na aba Ração)
Dia 6: Crie o Resumo Semanal
- Monte a tabela por viveiro com: biomassa, ração semanal, mortalidade semanal, ganho de peso (se houver 2 biometrias), FCR (quando possível)
Dia 7: Tome 1 decisão baseada em dados
- Escolha o pior viveiro no ranking
- Defina uma ação objetiva (ex.: ajustar ração, programar classificação, reforçar tela, revisar horários de trato, checar equipamento)
- Registre a ação e marque a data para comparar o “antes e depois”
Dicas para manter o sistema funcionando (sem virar burocracia)
- Registre no momento: anotar depois aumenta erro e esquecimento.
- Use padrões: mesmas unidades (kg, g, mg/L), mesmos horários, mesmos códigos.
- Uma planilha por fazenda: evita versões diferentes e perda de rastreabilidade.
- Menos é mais: se estiver pesado, reduza campos, mas não pare de registrar ração, mortalidade e biometria.
- Marcos de manejo: toda intervenção relevante deve ter data para explicar mudanças nos indicadores.