Piscicultura na prática: despesca, abate higiênico e qualidade do produto

Capítulo 13

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

+ Exercício

O que é despesca e por que ela define a qualidade do peixe

Despesca é o conjunto de operações para retirar o peixe do viveiro/tanque e encaminhá-lo para venda (vivo) ou para processamento (abate, resfriamento, congelamento). É uma etapa de alto risco para perdas por estresse, mortalidade, contaminação e queda de qualidade (odor, textura mole, escurecimento, menor vida de prateleira). O objetivo prático é simples: retirar o peixe com o mínimo de estresse e dano físico, manter higiene rigorosa e controlar temperatura/tempo para preservar frescor.

Principais causas de perdas na despesca

  • Estresse e hipóxia (muito peixe por volume, manuseio brusco, tempo longo fora d’água).
  • Jejum insuficiente (conteúdo intestinal aumenta contaminação e piora aparência/odor).
  • Equipamento inadequado (redes ásperas, caixas sujas, falta de oxigênio).
  • Quebra da cadeia de frio (resfriamento lento, gelo insuficiente, exposição ao sol).
  • Fluxo “sujo” cruzando com “limpo” (contaminação do pescado por água, mãos, superfícies e vísceras).

Programação da despesca: jejum, equipe, equipamentos e cronograma

1) Jejum (depuração curta) para reduzir contaminação e melhorar manuseio

O jejum antes da despesca reduz fezes e conteúdo intestinal, diminui risco de ruptura de vísceras e melhora a higiene do lote. Ajuste o tempo conforme temperatura da água, tamanho do peixe e logística de retirada.

  • Referência prática: 12 a 24 horas de jejum para a maioria das situações de despesca em água morna; em água mais fria pode ser necessário mais tempo. Evite jejuns excessivos que aumentem perda de peso e estresse.
  • Regra de ouro: jejum suficiente para reduzir fezes durante o manejo e transporte, sem prolongar a operação.

2) Dimensionamento de equipe e papéis (para reduzir tempo e manuseio)

Defina funções antes de começar, para evitar improviso e atrasos.

  • Líder de despesca: coordena ritmo, segurança e decisões.
  • Operadores de rede/arrasto: conduzem o peixe com calma e sem “apertar” o cardume.
  • Triagem e pesagem: confere padrão, separa refugos, registra peso.
  • Higiene e gelo: repõe gelo, sanitiza caixas/mesas, controla termômetro.
  • Transporte: responsável por oxigênio, densidade nas caixas e tempo de viagem.

3) Checklist de equipamentos (antes de iniciar)

  • Redes e puçás (malha adequada, sem nós cortantes, limpos e sem odor).
  • Caixas plásticas grau alimentício (lisas, sem rachaduras, com tampa quando aplicável).
  • Balança (calibrada) e recipientes para amostragem.
  • Oxigênio (cilindro, regulador, mangueira, difusor) para venda/transporte de vivo.
  • Gelo (escamas ou triturado) e água potável para fazer “gelo + água” quando necessário.
  • Termômetros (espeto e infravermelho) e planilha de registro.
  • EPIs: avental impermeável, luvas, botas, touca, máscara quando aplicável.
  • Materiais de higiene: detergente neutro, sanitizante aprovado para uso em alimentos, escovas, papel toalha, lixeira com tampa.
  • Facas e chaira (para abate/processo), com local de higienização e armazenamento.

4) Cronograma operacional (modelo simples)

MomentoAçãoMeta
VésperaConfirmar pedido, gelo, caixas, combustível, rotaZero improviso no dia
12–24 h antesIniciar jejumReduzir fezes/contaminação
Antes de entrar no viveiroSanitizar caixas/mesas, preparar gelo, separar área “suja/limpa”Fluxo organizado
DuranteCaptura em lotes pequenos, triagem rápida, resfriamento imediatoTempo curto e frio constante
ApósLimpeza final, descarte correto de resíduos, registrosHigiene e rastreabilidade

Passo a passo da despesca com foco em reduzir estresse e danos

Passo 1: Preparar o local e o fluxo (antes de capturar)

Organize o ambiente para que o peixe percorra o menor caminho possível e não cruze com áreas sujas.

  • Defina três zonas: (1) zona molhada/suja (viveiro e chegada do peixe), (2) zona de triagem/pesagem, (3) zona limpa/fria (gelo, resfriamento, embalagem).
  • Sombras e proteção do sol: monte cobertura simples (lona) para reduzir aquecimento e estresse.
  • Água potável disponível: para lavagem de mãos, utensílios e superfícies.

Passo 2: Captura em lotes pequenos

Evite concentrar muito peixe na rede por muito tempo. Trabalhe em “bateladas” para manter oxigênio e reduzir esmagamento.

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  • Faça o arrasto com velocidade constante e sem puxões.
  • Use puçá para retirar o peixe com cuidado, evitando levantar pelo opérculo ou apertar o abdômen.
  • Minimize tempo fora d’água: organize caixas e destino antes de retirar o peixe.

Passo 3: Triagem rápida e padronização

Separe por tamanho/padrão de venda rapidamente. Triagens longas aumentam estresse e mortalidade.

  • Tenha caixas identificadas por categoria (ex.: “padrão”, “menor”, “refugo”).
  • Registre peso total por caixa/lote para rastreabilidade.

Passo 4: Destino imediato (vivo ou resfriado)

Defina antes: peixe vivo segue para caixas com oxigenação; peixe para abate segue para procedimento higiênico e resfriamento rápido.

Abate higiênico, sangria e manipulação segura

Conceito: abate bem feito = menos sofrimento, melhor aparência e maior vida útil

O abate higiênico busca reduzir estresse final, evitar contaminação por conteúdo intestinal e diminuir carga microbiana. Quando aplicável, a sangria melhora cor e aparência do filé/carcaça e reduz escurecimento.

Fluxo recomendado (do “sujo” para o “limpo”)

  • Recepção do peixe (zona suja) →
  • Insensibilização/abate (controle e higiene) →
  • Sangria (quando aplicável) →
  • Lavagem controlada (água potável, sem “banho” prolongado) →
  • Resfriamento rápido
  • Evisceração/limpeza (se for vender eviscerado) →
  • Embalagem e armazenamento (zona limpa/fria).

Passo a passo prático do abate (visão operacional)

  1. Insensibilização e abate: utilize método compatível com a espécie e com as exigências do seu mercado, priorizando rapidez e controle. O ponto crítico é evitar agitação prolongada e manter utensílios limpos.

  2. Sangria (quando aplicável): realizar logo após o abate, com corte adequado e drenagem em tempo suficiente para reduzir sangue residual. Use recipiente limpo e descarte correto do efluente. Evite contato do pescado com superfícies sujas.

  3. Lavagem: enxágue rápido com água potável para remover muco e resíduos visíveis. Evite deixar o peixe “de molho”, pois isso pode aumentar absorção de água e espalhar contaminação.

  4. Resfriamento imediato: leve o peixe ao gelo o quanto antes. O tempo entre abate e resfriamento é um dos maiores determinantes de qualidade.

  5. Evisceração (se aplicável): faça em bancada limpa, com faca higienizada, evitando perfurar intestino/vesícula. Remova vísceras e lave rapidamente. Separe resíduos em recipiente com tampa.

Pontos críticos de higiene no abate e manipulação

  • Facas e tábuas: higienizar com frequência e sempre que caírem no chão.
  • Mãos e luvas: trocar/limpar ao alternar entre tarefas sujas e limpas.
  • Água: usar água potável; mangueiras e bicos não devem encostar no chão.
  • Superfícies: evitar madeira porosa; preferir inox ou plástico grau alimentício.
  • Resíduos: vísceras e sangue devem sair rapidamente da área limpa.

Resfriamento, conservação e cadeia de frio (o que fazer na prática)

Metas de temperatura e tempo

O objetivo é reduzir a temperatura do peixe o mais rápido possível e mantê-la baixa até a entrega. Quanto mais quente e mais tempo, maior a multiplicação microbiana e menor a vida útil.

EtapaMeta práticaComo controlar
Após abateResfriar imediatamenteGelo disponível antes de começar
Armazenamento resfriadoManter próximo de 0–4 °CTermômetro + reposição de gelo
CongelamentoCongelar rápido e manter ≤ -18 °CFreezer adequado + embalagem correta
TransporteEvitar variações e exposição ao solCaixa térmica, gelo, tempo curto

Como usar gelo corretamente (proporção e arrumação)

  • Gelo em escamas/triturado resfria mais rápido por aumentar contato.
  • Arrumação em camadas: gelo no fundo, peixe, gelo entre camadas e por cima.
  • Drenagem: água do derretimento deve escoar; peixe “boiando” em água suja perde qualidade e aumenta contaminação.
  • Reposição: planeje gelo extra para atrasos e dias quentes.

Conservação: resfriado x congelado

  • Resfriado: indicado para vendas rápidas e mercados que valorizam frescor. Exige controle rigoroso de temperatura e giro rápido.
  • Congelado: aumenta prazo de venda, mas exige congelamento eficiente, embalagem que evite queimadura de freezer e manutenção de -18 °C.

Boas práticas para venda de peixe vivo

Objetivo: manter sobrevivência e aparência sem “queimar” o lote

  • Jejum antes do transporte: reduz amônia e sujeira na água de transporte.
  • Densidade na caixa: ajustar para espécie, tamanho, temperatura e tempo de viagem; lotação excessiva é a principal causa de mortalidade.
  • Oxigenação: usar oxigênio com difusor e vedação adequada; conferir vazamentos.
  • Temperatura: evitar aquecimento; use caixas térmicas e mantenha fora do sol.
  • Manuseio: evitar quedas e choques; não misturar lotes muito diferentes em tamanho.
  • Paradas e checagens: em viagens longas, planejar pontos para verificar comportamento do peixe e nível de oxigênio.

Checklist rápido: peixe vivo pronto para sair

  • Caixas limpas e sem cheiro
  • Oxigênio conferido (cilindro cheio, regulador funcionando, mangueiras íntegras)
  • Tampa/vedação ok
  • Rota e tempo de viagem confirmados
  • Registro do lote (data, viveiro, peso estimado, destino)

Boas práticas para venda de pescado resfriado

Organização do produto e apresentação

  • Padronização: separar por faixa de peso e aparência (uniformidade aumenta valor).
  • Embalagem: usar embalagem limpa, resistente e adequada ao contato com alimento; evitar contato direto com superfícies contaminadas.
  • Identificação interna: mesmo sem rotulagem complexa, mantenha controle interno por lote (data, viveiro, quantidade) para rastreabilidade.

Checklist de controle de temperatura (resfriado)

  • Termômetro disponível e funcionando
  • Registro de temperatura na saída e na entrega
  • Gelo suficiente para todo o trajeto + reserva
  • Produto sempre protegido do sol e do vento quente
  • Caixas com drenagem (sem acúmulo de água suja)

Boas práticas para venda de pescado congelado

Congelamento e embalagem para manter qualidade

  • Congelar rápido: quanto mais rápido, menores cristais de gelo e melhor textura após descongelar.
  • Embalagem: retirar o máximo de ar possível (reduz oxidação e queimadura de freezer).
  • Porcionamento: porções menores congelam mais rápido e facilitam venda.
  • Armazenamento: manter freezer organizado, sem sobrecarga e com circulação de ar.

Checklist de controle de temperatura (congelado)

  • Freezer mantendo ≤ -18 °C
  • Produto embalado sem excesso de ar
  • Data e lote registrados
  • Evitar abre-fecha frequente do freezer
  • Transporte em caixa térmica com gelo adequado ou equipamento refrigerado

Checklists operacionais: higiene, fluxo e prevenção de contaminação

Checklist de higiene pessoal (antes e durante)

  • Mãos lavadas ao iniciar e ao trocar de tarefa
  • Unhas curtas, sem adornos (anéis/relógio)
  • EPIs limpos (avental, botas, touca)
  • Ferimentos cobertos e protegidos
  • Proibido comer/fumar na área de manipulação

Checklist de higiene de equipamentos e área

  • Caixas, mesas e utensílios lavados com detergente e sanitizados antes do uso
  • Facas higienizadas com frequência e armazenadas em local limpo
  • Lixeira com tampa e retirada frequente de resíduos
  • Água potável disponível e ponto de lavagem funcional
  • Separação clara entre área suja (recepção) e área limpa (resfriamento/embalagem)

Checklist de fluxo para evitar contaminação cruzada

  • Entrada do peixe e saída do produto final em caminhos diferentes (quando possível)
  • Resíduos (vísceras/sangue) não circulam na área limpa
  • Utensílios “sujo” e “limpo” identificados e não misturados
  • Equipe sabe quem pode entrar na área limpa
  • Produto resfriado/congelado não retorna para a zona suja

Modelo simples de registro (para controle e rastreabilidade)

Data: ____/____/____  Viveiro/Tanque: ____  Espécie: ____  Destino: ( ) Vivo ( ) Resfriado ( ) Congelado  Início da despesca: ____:____  Fim: ____:____  Jejum iniciado: ____:____  Peso total: ______ kg  Nº de caixas: ____  Temperatura na saída (°C): ____  Temperatura na entrega (°C): ____  Ocorrências (mortalidade, atrasos, falhas): ______________________  Responsável: ______________________

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Durante a despesca, qual prática ajuda mais a preservar a qualidade do peixe e reduzir perdas por estresse e contaminação?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

Lotes pequenos reduzem hipóxia e dano físico. Encaminhar rápido para oxigenação ou gelo diminui estresse e mantém a cadeia de frio, enquanto higiene e pouco tempo fora d’água reduzem contaminação e melhoram frescor.

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Piscicultura na prática: processamento básico, agregação de valor e apresentação

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