Piscicultura na prática: água como fator crítico (parâmetros e metas)

Capítulo 5

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

+ Exercício

Por que a água é o “insumo” mais crítico

Na piscicultura, a água funciona ao mesmo tempo como “ar”, “casa” e “banheiro” dos peixes. Ela carrega oxigênio, regula temperatura, dilui e transforma resíduos (fezes e sobras de ração) e influencia diretamente o apetite, o crescimento e a sobrevivência. Por isso, o manejo de água não é apenas medir números: é manter parâmetros dentro de metas operacionais e reagir rápido quando algo sai do ideal.

Os principais parâmetros que você deve acompanhar são: oxigênio dissolvido (OD), temperatura, pH, amônia, nitrito, alcalinidade, dureza e transparência. Eles se conectam: por exemplo, temperatura e pH alteram a toxicidade da amônia; alcalinidade estabiliza pH; transparência indica excesso de fitoplâncton ou água “pobre” em produção natural.

Parâmetros essenciais: o que significam e metas práticas

Oxigênio dissolvido (OD)

O que é: quantidade de oxigênio disponível na água para respiração dos peixes e decomposição biológica. É o parâmetro mais crítico para evitar mortalidade súbita.

Metas operacionais (recomendação geral):

  • Seguro: ≥ 5 mg/L
  • Alerta: 3–5 mg/L (reduzir alimentação, aumentar renovação/aeração)
  • Crítico: < 3 mg/L (risco alto; ação imediata)

Variação diária: costuma ser menor no fim da tarde e pior ao amanhecer (principalmente em viveiros com fitoplâncton), então medições cedo são estratégicas.

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Temperatura

O que é: controla metabolismo, consumo de oxigênio, apetite e imunidade. Temperaturas altas reduzem a solubilidade de oxigênio e aumentam a toxicidade da amônia.

Faixas práticas por espécie (referência comum em sistemas tropicais):

EspécieFaixa boa (°C)Alerta (°C)
Tilápia26–30< 22 ou > 32
Tambaqui26–30< 24 ou > 32
Pacu24–28< 20 ou > 30
Carpas (comuns)20–26< 15 ou > 30

Meta operacional: manter variações diárias pequenas (idealmente ≤ 2–3 °C). Mudanças bruscas estressam e reduzem alimentação.

pH

O que é: indica acidez/alcalinidade. Afeta respiração, toxicidade de compostos nitrogenados e eficiência de processos biológicos.

Metas operacionais:

  • Bom: 6,5–8,5
  • Alerta: 6,0–6,5 ou 8,5–9,0
  • Crítico: < 6,0 ou > 9,0

Dica de interpretação: em viveiros com fitoplâncton, o pH tende a subir à tarde (fotossíntese) e cair de madrugada. Se o pH “dispara” (ex.: 9,5 à tarde), geralmente há excesso de algas e risco de OD baixo ao amanhecer.

Amônia (TAN) e amônia não ionizada (NH3)

O que é: a amônia total (TAN) inclui NH3 (tóxica) + NH4+ (menos tóxica). A fração NH3 aumenta quando pH e temperatura sobem.

Metas operacionais (orientação prática):

  • TAN (amônia total): ideal < 0,5 mg/L; alerta 0,5–1,0 mg/L; crítico > 1,0 mg/L
  • NH3 (amônia tóxica): manter < 0,02 mg/L (meta conservadora para reduzir estresse)

Como usar na prática: se seu kit mede apenas TAN, trate qualquer TAN “moderada” como mais perigosa em dias quentes e com pH alto. Nesses casos, reduza ração e aumente renovação/aeração antes de “esperar para ver”.

Nitrito (NO2-)

O que é: intermediário da nitrificação. Entra pelas brânquias e pode causar “sangue marrom” (metemoglobinemia), reduzindo transporte de oxigênio.

Metas operacionais:

  • Ideal: < 0,2 mg/L
  • Alerta: 0,2–0,5 mg/L
  • Crítico: > 0,5 mg/L

Observação prática: picos de nitrito são comuns quando há aumento rápido de biomassa/ração, após chuvas fortes (mudança de qualidade da água) ou quando a “maturação” biológica do sistema está instável.

Alcalinidade (como CaCO3)

O que é: “reserva” que ajuda a estabilizar o pH. Alcalinidade baixa favorece oscilações grandes de pH e dificulta processos biológicos.

Metas operacionais:

  • Bom: 50–150 mg/L
  • Alerta: 30–50 mg/L
  • Crítico: < 30 mg/L

Interpretação: se você vê pH oscilando muito entre manhã e tarde, verifique alcalinidade. Muitas vezes o problema não é “pH em si”, mas falta de tampão.

Dureza (como CaCO3)

O que é: concentração de cálcio e magnésio. Importante para osmorregulação, saúde das brânquias e estabilidade iônica.

Metas operacionais:

  • Bom: 50–200 mg/L
  • Alerta: 20–50 mg/L
  • Crítico: < 20 mg/L

Nota prática: dureza e alcalinidade não são a mesma coisa, mas frequentemente caminham juntas. Em água muito “mole”, peixes ficam mais sensíveis a variações e a alguns tratamentos.

Transparência (Disco de Secchi)

O que é: medida indireta de turbidez/fitoplâncton. Ajuda a prever risco de OD baixo ao amanhecer e a “força” da produção natural.

Metas operacionais (viveiros com fitoplâncton):

  • Bom: 30–45 cm
  • Alerta: 20–30 cm (muita alga; risco de variação de OD/pH)
  • Crítico: < 20 cm (blooms densos; risco alto) ou > 60 cm (água “pobre”, baixa produtividade natural)

Metas por sistema: ajuste rápido conforme o tipo de criação

Viveiros escavados (semi-intensivo)

  • Foco: OD ao amanhecer, transparência e pH (variação diária).
  • Metas típicas: OD ≥ 5 mg/L; Secchi 30–45 cm; pH 6,5–8,5; TAN < 0,5 mg/L.
  • Risco comum: “água verde” muito densa → OD baixo de madrugada e pH alto à tarde.

Tanques-rede (em reservatórios/rios)

  • Foco: OD e temperatura (estratificação), além de amônia/nitrito próximos às gaiolas em alta densidade.
  • Metas típicas: OD ≥ 5 mg/L; monitorar temperatura em diferentes profundidades quando possível.
  • Risco comum: queda de OD por inversão térmica/estratificação e excesso de ração acumulando sob as gaiolas.

Sistemas com recirculação/aeração intensa (mais intensivos)

  • Foco: TAN, nitrito, alcalinidade e OD constante.
  • Metas típicas: OD ≥ 6 mg/L (mais conservador); TAN baixo e nitrito próximo de zero; alcalinidade 80–150 mg/L para estabilidade.
  • Risco comum: falha elétrica/aeração → queda rápida de OD; “pico” de nitrito após aumento de carga alimentar.

Como interpretar sinais: peixe e água “falam” antes do problema virar mortalidade

Sinais no comportamento dos peixes

  • Boquejamento na superfície (principalmente ao amanhecer): suspeita forte de OD baixo. Ação: medir OD imediatamente; suspender ração; acionar aeração/renovação.
  • Peixes “parados”, pouca resposta à ração: pode ser OD baixo, temperatura fora da faixa, pH extremo ou amônia/nitrito elevados. Ação: medir OD e temperatura primeiro (mais urgentes), depois pH e nitrogenados.
  • Agitação, nado errático, raspagem: pode ser irritação por amônia, pH alto, nitrito ou outros fatores. Ação: medir pH, TAN e nitrito; observar cor/odor da água.
  • Concentração em entradas de água/correnteza: busca por mais oxigênio.

Sinais na água

  • Água muito verde e “grossa”, Secchi < 20 cm: bloom denso; risco de OD baixo ao amanhecer e pH alto à tarde.
  • Espuma persistente e odor forte: excesso de matéria orgânica; risco de consumo de OD e aumento de amônia.
  • Água muito clara (Secchi > 60 cm) em viveiro produtivo: baixa produção natural; pode indicar necessidade de ajuste de fertilidade/manejo (sem entrar em adubação aqui, use como sinal de diagnóstico).
  • Mudança súbita de cor após chuva/vento: possível mistura de camadas, entrada de água com qualidade diferente, variação de OD/pH.

Plano de monitoramento: frequência, pontos de coleta e rotina

Onde medir (pontos e horário)

  • Viveiros: pelo menos 2 pontos (próximo à entrada e no lado oposto/mais profundo). Em viveiros grandes, 3–4 pontos.
  • Tanques-rede: medir dentro/ao lado das gaiolas e a alguns metros a favor da corrente; se possível, medir em 2 profundidades (superfície e meia-água).
  • Horários-chave: amanhecer (pior OD) e meio/final da tarde (pico de pH e, muitas vezes, OD alto).

Frequência recomendada (prática)

FrequênciaO que medirMeta/ação rápida
DiárioTemperatura (manhã e tarde), observação de comportamento, cor/odor da águaSe apetite cair ou peixe boquear, medir OD imediatamente e suspender ração até estabilizar
Diário (em fases críticas: alta biomassa, calor, água muito verde)OD ao amanhecer (e, se possível, à tarde)OD ≥ 5 mg/L; se 3–5 mg/L reduzir ração; se < 3 mg/L ação emergencial
SemanalpH (manhã e tarde), transparência (Secchi)pH 6,5–8,5 e variação moderada; Secchi 30–45 cm
Semanal (ou 2x/semana em intensivo)Amônia total (TAN) e nitritoTAN < 0,5 mg/L; nitrito < 0,2 mg/L; se subir, reduzir ração e reforçar renovação/aeração
MensalAlcalinidade e durezaAlcalinidade 50–150 mg/L; dureza 50–200 mg/L; se baixo, planejar correção com orientação técnica
Após eventosOD, pH, TAN, nitrito (após chuva forte, mortalidade, troca de água, aumento de ração)Comparar com histórico e agir antes de alimentar novamente

Passo a passo: rotina diária de 10–15 minutos

  1. Chegada ao viveiro/tanques: observe por 2–3 minutos (peixes na superfície? agrupados? resposta ao movimento?).
  2. Meça temperatura: registre manhã e tarde.
  3. Se houver qualquer sinal de estresse: meça OD imediatamente (prioridade).
  4. Antes da primeira alimentação: confirme que OD está seguro e que os peixes estão ativos.
  5. Registre: anote valores e observações (cor da água, odor, chuva, vento, manejo do dia).

Tabela de registro (modelo pronto para copiar)

Use uma planilha ou caderno. O importante é padronizar horário e ponto de coleta para comparar ao longo do tempo.

DataViveiro/LoteHoraTemp (°C)OD (mg/L)pHSecchi (cm)TAN (mg/L)Nitrito (mg/L)Alcalinidade (mg/L CaCO3)Dureza (mg/L CaCO3)Observações (chuva, cor, apetite, mortalidade)
__/__/____V1 / Lote A06:00________________Ex.: boquejo leve; água verde escura

Equipamentos básicos: como escolher e usar corretamente

Termômetro (digital ou álcool protegido)

Como escolher: prefira digital à prova d’água, com leitura rápida e faixa 0–50 °C. Se usar termômetro de vidro, proteja contra quebra.

Como usar (passo a passo):

  1. Coloque o sensor a ~20–30 cm de profundidade (evite medir só a lâmina superficial aquecida).
  2. Aguarde estabilizar (30–60 s em digitais comuns).
  3. Registre horário e local.

Disco de Secchi (transparência)

Como escolher: disco padrão (20 cm) com quadrantes preto/branco, corda marcada em centímetros.

Como usar (passo a passo):

  1. Meça sempre do lado sombreado do corpo (evita reflexo).
  2. Desça o disco até “sumir” e marque a profundidade.
  3. Suba lentamente até “reaparecer” e marque a profundidade.
  4. Transparência = média entre as duas leituras.

Erros comuns: medir em água muito rasa, perto de borda com sedimento suspenso, ou em horários com sol refletindo direto.

Kits de teste (pH, amônia, nitrito, alcalinidade, dureza)

Como escolher: kits colorimétricos de boa procedência, com reagentes dentro da validade. Para pH, prefira faixa adequada ao seu sistema (ex.: 6,0–9,0) e boa resolução (0,2–0,5).

Como usar corretamente:

  1. Coleta: enxágue o frasco com a própria água do viveiro 2–3 vezes antes de coletar a amostra.
  2. Amostra representativa: colete a ~20–30 cm de profundidade, longe de entrada de água e longe de ração recém-lançada.
  3. Dosagem: siga exatamente gotas/medidas e tempo de reação do fabricante (use cronômetro).
  4. Leitura: compare a cor sob luz natural (sem sol direto) e registre o valor.
  5. Higiene: não encoste conta-gotas na água; feche reagentes imediatamente.

Dica de consistência: faça sempre o teste no mesmo horário do dia quando estiver construindo histórico (pH varia muito ao longo do dia).

Oxímetro (medidor de OD)

Como escolher:

  • Tipo de sensor: óptico (geralmente mais estável e menos manutenção) ou polarográfico/galvânico (pode ser mais barato, mas exige cuidados com membrana/eletrólito).
  • Recursos úteis: compensação automática de temperatura, leitura rápida, capa de proteção do sensor, possibilidade de calibração fácil.

Como calibrar (passo a passo geral):

  1. Leia o manual do modelo (cada marca tem procedimento específico).
  2. Calibração em ar saturado: normalmente é feita com o sensor úmido (sem gotas cobrindo a membrana/sensor) em ambiente ventilado, usando a função “calibrate”.
  3. Compensação: confirme se o equipamento está com temperatura correta e, quando aplicável, ajuste altitude/salinidade (mesmo em água doce, alguns modelos pedem configuração).
  4. Frequência: calibre conforme recomendação do fabricante e sempre que houver leituras “estranhas” ou após troca/manutenção do sensor.

Como medir OD corretamente:

  1. Mergulhe o sensor a ~20–30 cm (ou na profundidade de interesse em tanques-rede).
  2. Evite bolhas presas no sensor.
  3. Em sensores que exigem fluxo, movimente suavemente o sensor (sem agitar sedimento).
  4. Aguarde estabilizar e registre valor, horário e local.

Erros comuns: medir logo após jogar ração (pode alterar leitura local), encostar no fundo e levantar lodo, não calibrar por longos períodos.

Regras práticas de decisão (para agir sem travar)

Prioridade de checagem quando algo parece errado

  1. OD (especialmente ao amanhecer)
  2. Temperatura
  3. pH (manhã e tarde, se possível)
  4. Amônia (TAN) e nitrito
  5. Transparência (para entender tendência de bloom)
  6. Alcalinidade/dureza (para explicar instabilidade e planejar correções)

Metas operacionais resumidas (checklist)

  • OD: manter ≥ 5 mg/L (nunca deixar cair < 3 mg/L)
  • Temperatura: dentro da faixa da espécie e com pouca variação diária
  • pH: 6,5–8,5 e sem picos extremos
  • TAN: < 0,5 mg/L (atenção redobrada com pH alto e calor)
  • Nitrito: < 0,2 mg/L
  • Alcalinidade: 50–150 mg/L CaCO3
  • Dureza: 50–200 mg/L CaCO3
  • Secchi: 30–45 cm (viveiros com fitoplâncton)

Agora responda o exercício sobre o conteúdo:

Em um viveiro, você mede OD de 3,8 mg/L ao amanhecer. Qual é a conduta mais adequada segundo as metas operacionais apresentadas?

Você acertou! Parabéns, agora siga para a próxima página

Você errou! Tente novamente.

OD entre 3 e 5 mg/L indica alerta. A orientação é reduzir alimentação e aumentar renovação/aeração para evitar queda adicional, especialmente ao amanhecer, quando o OD tende a estar pior.

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Piscicultura na prática: manejo da água e correções rápidas e seguras

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